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DiversãoTranscrição
00:00Me fale das pessoas, além do Ascânio, além desse coronel, além do Modesto Pires, do Marcolino Pitombo,
00:15quem mais tem alguma influência lá?
00:20Existe uma pessoa que tem um outro tipo de influência, bem diferente da deles.
00:25Eu diria que tem mais poder que eles.
00:28Não, não, não. Eu não estou falando... Eu não estou falando da igreja. Seja mais objetiva.
00:35Eu também não estou falando da igreja. Eu estou falando de uma mulher.
00:40Uma mulher?
00:44Quem? Perpétua?
00:46Não. A irmã dela, que mora em São Paulo e agora está visitando a família.
00:52Você já ouviu falar em Tieta?
00:57Tieta?
01:09Tieta?
01:15Tieta não foi feita, estela de Adão.
01:18É mulher, diabo, com a própria tentação
01:22Tieta é a serpente que cantava o paraíso
01:25Ela veio ao mundo pra virar nosso juízo
01:29Tieta, Tieta, pelos olhos de Tieta me deixei guiar
01:34Tieta, Tieta, no ventre de Tieta encontrei o meu lugar
01:39Tieta, Tieta, dos seios de Tieta construí meu ninho
01:45Na boca de Tieta morri como um passarinho
01:48Vem meu amor, vem com calor
01:53O meu corpo se enroscar
01:56Vem minha flor, vem sem pudor
02:00Quem se as taça me mata?
02:03Tieta do agresso, lua cheia de tensão
02:06É lua, estrela, nuvem carregada, paixão
02:10Tieta é fogo ardente, queimando o coração
02:13Se eu abro, mata gente, mas que solta o sertão
02:20Tem alguma coisa a opor na minha decisão, Ascânio?
02:24Não, coronel, como eu já lhe disse antes
02:26O cargo de prefeito é seu por direito
02:29Eu o ocupava por merecimento e interinamente
02:34Mas como o senhor nunca se interessou pelos problemas de Santana do Agreste
02:37Eu te ajudava
02:39E se o senhor quer reassumir, eu só posso lhe desejar boa sorte
02:44Sei lá, né?
02:47O cargo de secretário da prefeitura
02:50Tão pouco pra você, né?
02:54Por uma casa, se quiser pedir a sua...
02:57Não, não, não, não, eu tô satisfeito com o simples cargo de secretário da prefeitura
03:02E se o senhor não tem nada contra com a maneira com quem eu venho lidando assim os problemas da
03:07cidade
03:07Eu pretendo continuar me ocupando deles
03:12Acho também que esses problemas são tão poucos
03:15Quer dizer, uma briga de comagem, bebedeira, uma cabra que roubaram, uma galinha que afanaram
03:22São esses abacaxi que eu vou deixar pra você descascar
03:25Mas já que nem agrada, pode descascar todos, né?
03:28Tudo bem, coronel
03:29Então eu vou descascar um desses abacaxis lá em Buraco Fundo
03:33E volto pra inauguração do banco
03:37Ah, e se o senhor precisar de mim de agora em diante
03:40Eu tô sentado ali fora naquela mesinha
03:42Como simples secretário da prefeitura
03:44Com licença
03:48Olha, coronel
03:50O povo da cidade gosta muito do seu Ascânio, sabe?
03:53É, e quem foi que me pediu a sua opinião, seu enxerido?
03:56Já vi tudo, né?
03:58No tempo que a Ascânio tava aqui na prefeitura
03:59Todo mundo botou as manguinhas de fora
04:01Mas agora comigo vai ser diferente
04:03Vão ser tratado a rédea curta
04:06E se raspe daqui
04:07Sim, senhor
04:08Se o senhor precisar de alguma coisa
04:10Eu berro
04:10E se tu não vier
04:11Na hora que eu chamar, tu vai ver o que vai acontecer
04:14Sai daqui
04:17Quem lhe deu permissão pra sair?
04:20Você não mandou todo um sair, coronel?
04:21Mandei um
04:22Contra o cabeça de inimão
04:24Tu tem que ficar aqui pra conversar comigo
04:26Com quem que eu vou falar?
04:28Tá pensando que eu tô já avaliando
04:30Pra ficar falando com as paredes?
04:32Desculpe, senhor coronel
04:33Me cala a boca
04:34Tu já falou demais
04:35Tô até com dor de cabeça
04:38Eu não sabia que essa tal de...
04:41Como é mesmo o nome dela?
04:44Dieta
04:45Isso
04:47Eu não sabia que essa tal de dieta
04:49Tinha assim tanto prestígio na cidade
04:54Engraçado
04:54Engraçado
04:55Quando eu falei o nome de dieta
04:57Eu tive a impressão que você já tinha ouvido falar nela
05:01Como é que eu poderia?
05:04Realmente não poderia
05:07Mas é que você fala assim com tanto conhecimento sobre certos moradores de Santana do Agreste
05:16Como o padre Mariano, dona perpétua, o coronel Arthur da Tapetanga
05:19Eu encomendei uma pesquisa sobre as pessoas mais influentes de Santana do Agreste
05:26E esta dieta não constava do relatório?
05:31Ela mora em São Paulo
05:32Só está visitando a família em Santana
05:35Mas Tieta vai embora logo
05:36Tieta não é o problema
05:38O problema é enteada
05:43Uma enteada da Tieta?
05:46Leonora Cantarelli
05:47Eu já falei dela para você
05:50É justamente ela que está dando em cima do Ascânio
05:55Mas eu já expliquei esse caso a bebê
05:58Eu me propus a colaborar com o projeto de vocês
06:02Em troca da ajuda de vocês em afastá-la do Ascânio
06:06A dona Elisabeth não relacionou esse seu problema particular com a Tieta
06:15Portanto, continue me falando dessa Leonora Cantarelli, não é isso?
06:21Dizem que é muito rica
06:22Herdeira de um industrial paulista
06:25Muita coisa eu também não sei
06:27Mas desde que eu botei os olhos em cima dela
06:29Eu vi que ela era meio sonça
06:31Ela está escondendo alguma coisa
06:34Qual?
06:35Eu não sei
06:37Mas eu confio no meu instinto, Mirko
06:40Tem alguma coisa errada com ela?
06:42Eu tenho certeza disso
06:47Quer dizer que quem comanda as negociações agora é o senhor, coronel?
06:51Isso mesmo, doutor Rosal
06:52Todos os assuntos relacionados com Santana do Agreste
06:57Vão ter que passar pelas minhas mãos
07:01É, só que eu vou ter que consultar o doutor Mirko quanto a isso
07:04É, né?
07:05É
07:06Consulte, né?
07:08Consulte logo aí essa criatura misteriosa
07:12Diga que de hoje em diante
07:14Todas as nossas negociações têm que ser feitas pessoalmente
07:18É, eu só faço amor
07:19Mal de ver ele vir aqui na cidade, viu?
07:21Que o interesse é dos senhores
07:22E não o nosso
07:26Vamos ver a resposta do doutor Mirko quanto a isso
07:28Vamos
07:29Com licença
07:36Marcolim, tu fez muito mal em dizer que o interesse é deles
07:39Ô, coronel
07:40Coronel, nós vamos entregar assim e baixar a guarda agora
07:43Entregar o ouro de graça, coronel
07:44Nós temos que nos fazer difícil pra nos valorizarmos, entendeu?
07:48Não se preocupe não
07:49Data vênia, coronel
07:51Desse tipo de negociação, eu entendo
07:55Importante a gente não se ferrar
07:56Não ficar com as mãos abanando
07:58Se isso acontecer, a culpa vai ser tua
08:02Eu já tinha ele avisado
08:03Já tinha ele avisado
08:04Mas é legal isso, Ascânio
08:06Ele reassumir a prefeitura assim de uma hora pra outra?
08:09É, perfeitamente legal
08:10O coronel era presidente da Câmara
08:13Quando o prefeito morreu, ele tinha que assumir por direito
08:16Mas como ele nunca se interessou pelos problemas da cidade
08:18Ele delegou tudo a mim
08:20Agora a papelada, ele sempre assinou
08:23É, o problema agora é com o doutor Mirko
08:25Mas você já não falou com ele?
08:28É, Ascânio, eu falei, né?
08:29Não sabe como é que é
08:30E aí, qual foi a reação dele?
08:32O que você acha?
08:33Ele me mandou fazer o impossível pra contornar a situação
08:35E você tomou alguma atitude?
08:38Ô, bebê, peraí, eu sou um engenheiro
08:39Eu vim aqui pra fazer o levantamento das condições da cidade
08:42Eu não sou treinado nesse tipo de negociação
08:44Ah, tá certo, viu?
08:46Quem devia assumir esse jogo é o próprio doutor Mirko, né?
08:49Claro
08:52Dá licença, doutor Ascânio, o jeito tá pronto
08:54Ah, tá, obrigado, Duval
08:56Bom, eu vou até Buraco Fundo resolver um problema lá
08:59E aí, quando vocês conseguirem resolver o problema com o doutor Mirko e o Stéfano
09:02É só me avisar
09:03Tchau
09:04Tchau
09:04Tchau
09:06O que você vai fazer agora?
09:09Eu vou pegar o carro e vou falar pessoalmente com o doutor Mirko
09:12Eu não tenho a menor ideia do que eu devo fazer, bebê
09:15Você vem comigo?
09:16É, as minhas livres
09:17Não mandou me chamar?
09:19Vai você e leva os bregues sozinho
09:21Ah, e além disso, daqui a pouco tem a festa de inauguração do banco
09:24Tá
09:24Então, adeus
09:28Laura, eu nunca pensei que um dia, em toda a minha vida, fosse me sentir tão culpada
09:34Ai, culpa é uma palavra tão horrível
09:37Olha, lembra a minha infância
09:39O sermão dos padres lá no colégio
09:41Era sem culpa
09:42É, pecado
09:45Castigo e penitência
09:48Fazer o quê?
09:49Eu não consigo afastar a ideia
09:51De que eu e o Cato estamos sendo punidos por um pecado que a gente cometeu
09:56Mãezinha, você não pode pensar desse jeito
09:58Mas eu não penso assim, eu não penso assim
10:00Deus se existe
10:01Ele tem muito mais do que fazer
10:03O problema é essa culpa que tá me consumindo
10:06Tu sabe lá o que é deixar a tua irmã?
10:08Por pior que ela seja
10:10Deixa a tua irmã cega pra sempre
10:15É a tia que tá aí, Cupertinho, meu filho?
10:18É a minha tia, sim, mainha
10:19Deus lhe recompense
10:22Como é que a senhora tá, dona Perpeta?
10:24Eu não, é meio anjo
10:27Meu anjo, vem me ver
10:28Mas é claro, eu fiquei muito preocupada
10:31Nunca é, Cic
10:32Eu já tô acostumada com os designios divinos
10:35E tia, tia, cadê?
10:37Tô aqui, Perpeta
10:39Tô, se achegue
10:40Que o que eu tenho não é contagioso, não
10:42Tô só cega
10:44Eu preciso ter uma conversa contigo sobre o médico
10:47Mas antes queria lhe falar uma coisa
10:49Vale
10:49Sabe que eu ando muito desorientada
10:52Fico com medo de bater assim nos móveis
10:54Quebrar esses enfeitas e causar um prejuízo maior ainda
10:57Mãe, eu tô aqui pra lhe guiar pra onde a senhora quiser ir
11:00Deus há de lhe recompensar por toda a eternidade
11:03Mas o que eu queria mesmo
11:04Era alguma coisa que me servisse de guia
11:07De apoio
11:08Aí eu pensei
11:09Que eu queria mesmo
11:10Era o cajado do Zé Esteves
11:12Do velho Zé Esteves
11:13Pra me servir de amparo
11:23Tia, tia, ainda tá aí?
11:27Tô
11:29Tô aqui
11:29Acho que eu pedi demais, né?
11:32Não tem esse direito
11:33O cajado do nosso pai é seu
11:36E eu sou só uma viúva cega
11:38Esqueça
11:39Espere amanhã
11:41Minha tia não ia negar esse pedido
11:44Ela é tão boa com todo mundo
11:45Ia faltar logo com a senhora
11:46Não, não tem esse direito
11:48Esqueça
11:53Eu vou lhe mandar o cajado
11:59Eu volto
12:01Depois pra fazer uma outra visitinha
12:02Viu, dona Pepeta
12:10Pepeta
12:12Patícia
12:12Ai, eu tava morrendo de saudade
12:14Deixa eu chegar e queria lhe ver
12:15Que mania
12:17Letícia
12:18Você vem me ver, minha filha
12:20Se a chegue
12:21O que foi que lhe aconteceu, dona Perpétua?
12:23Você não soube da desgraça que me sucedeu
12:25Perdi a visão
12:27Tô cega
12:30Cega
12:32Cega
12:33Cega
12:35Cega
12:37Cega
12:38Cega
12:40Cega
12:58Eu abro os olhos de tudo que vejo na minha frente à escuridão eterna
13:02As trevas
13:02As trevas cobriu
13:30Pare com isso
13:33Deixe de heresia
13:35Levante as duas, vamos
13:36Eu tô mandando
13:40Deus não tem nada a ver com isso, Perpétua
13:43Nada a ver com a sua cegueira
13:45Me conte como foi
13:48Porque alguma você aprontou
13:50Pra lhe acontecer isso
13:52Eu?
13:54Eu fui só fazer uma visitinha à minha irmã Tieta
13:58Tava boazinha
13:59Quando entrei, aí de repente
14:02De repente?
14:03O que foi que aconteceu?
14:04Entrei no quarto
14:05E aí?
14:07E aí?
14:08O que foi que aconteceu?
14:09Parei no meio do quarto
14:10E então?
14:11E então?
14:11O que foi que aconteceu?
14:13Senti uma estontura
14:15E depois?
14:16E depois?
14:16O que foi que aconteceu?
14:18Me deu uma zoeira
14:19E em seguida?
14:20E em seguida?
14:21O que foi que aconteceu?
14:22Aconteceu que eu não tava enxergando mais nada
14:25Ai, vale a menor senhor Jesus Cristo
14:28Amém
14:28Salve minha Virgem Maria
14:30Amém
14:31Parei, cheia
14:35Beijo de histeria
14:38E vamos conversar
14:40Como se vocês fossem gente normal
14:45Primeiro você, Perpétuo
14:47Mas diga uma coisa
14:49O que é que você foi fazer na casa de Tieta?