00:00E o governo Trump proibiu todas as agências federais de usar produtos da Anthropic, criadora do Cloud, a inteligência artificial
00:07mais avançada do mundo.
00:09E essa decisão veio horas antes do ataque ao Irã, que usou o próprio Cloud como parte da infraestrutura de
00:16inteligência militar.
00:17Você já está vendo aqui ao meu lado, Álvaro Machado Dias, um dos notáveis do nosso canal.
00:22Então, seja muito bem-vindo. Que bom ter você presencialmente aqui. Estou muito curiosa para que você ajude a gente
00:29a entender, Álvaro.
00:31O que significam esses movimentos todos? Vamos começar explicando como é que uma IA e como é que essa IA
00:38atua, age, funciona dentro de uma operação militar.
00:42O que é essa ferramenta que muita gente pensa, mas não é uma ferramenta de texto? O que isso tem
00:47a ver com uma guerra?
00:48Pois é, né? No passado, a gente falaria que IA generativas são ferramentas de texto.
00:55Mas, na verdade, o processo de geração de texto coerente, imagem coerente, vídeo coerente, áudio coerente, é um processo de
01:04integração de muita informação que está nos bancos de dados dessas empresas,
01:09seja OpenAI, Antropik, Google, etc. Formando um todo coerente e usando esse todo coerente para prever a próxima palavra ou
01:19construir a próxima cena, ou seja, de forma preditiva.
01:23Esse princípio, criação de coerência e previsão, pode ser usado numa substituição do que antes era chamado de Big Data.
01:32Então, por exemplo, eu tenho, no caso do Irã, muitos registros de satélite, comunicações em persa.
01:42A gente tem, por exemplo, o que é muito importante, simulações que vão sendo feitas reiteradamente.
01:49Tudo isso alimenta um grande modelo generativo, ou em outras palavras, uma dessas IAs de mercado,
01:56que, por sua vez, vai gerar indicações do tipo, olha, eu acho que é mais estratégico este caminho para, por
02:04exemplo, um ataque cirúrgico às lideranças iranianas.
02:07Ou, no caso da Venezuela, onde e como buscar o maduro de forma a maximizar a eficácia da ação.
02:16Então, esses processos que antes eram baseados em matemática pura e simulação humana,
02:22cada vez mais estão sendo transferidos para as IAs generativas, que, ironicamente, são aquelas que qualquer um pode usar.
02:29Olha que coisa mais curiosa.
02:30Se antes as IAs de ponta, elas eram, assim, exclusividade de grandes empresas, governos e tal,
02:38agora, ao contrário, as IAs de ponta são aquelas que nós, usuários comuns, acessamos.
02:42E está aí toda a tensão que foi criada, porque, no final das contas, uma rusga do governo americano com
02:50um grande fornecedor pode impactar o consumidor final.
02:53Então, e aí eu queria saber dessa rusga aí, porque está todo mundo falando da Antropic,
02:58que é justamente a empresa de A que se apresenta, assim, como a mais preocupada com ética, né?
03:05E o cloud é usado, como você trouxe aqui, em operações militares.
03:10Então, qual que é a questão e o que gerou essa oposição com o Pentágono e essa treta com o
03:15presidente Trump?
03:16Perfeito.
03:17Olha só, a IA, ela tem duas maneiras de funcionar.
03:22Uma é a partir de customizações que alguém, um fornecedor, permite ou realiza para o seu cliente.
03:30A outra é seguindo o seu modelo tradicional.
03:33Quando você usa uma IA open source, a tese é que você vai, se você é um grande cliente, uma
03:39empresa, governo, customizá-la.
03:41Com as IAs privadas não é tão simples.
03:44No caso da Antropic, que é quem fornece o cloud, é menos simples ainda, porque o cloud tem uma constituição,
03:52tem princípios ali.
03:53E essa constituição diz que, um, a IA deles não pode ser usada como o veículo derradeiro de tomadas de
04:01decisão envolvendo armas autônomas,
04:02ou seja, onde atirar, em quem atirar e assim por diante, nem para vigilância em massa de, olha só, cidadãos
04:09americanos.
04:10Esses dois pontos, eles trazem a seguinte premissa.
04:15Se você é um cliente, mesmo sendo o Pentágono, você deve obedecer as normas estabelecidas pela gente,
04:23por nós que somos os donos da ferramenta.
04:26Essa é a essência da rosga.
04:28Não é necessariamente o conteúdo, mas é quem pode, de fato, determinar essas regras.
04:35Tanto que o Pentágono rechaçou o uso do cloud, da Antropic, declarou a empresa risco à cadeia de suprimentos,
04:46o que significa que qualquer empresa que tenha relações com o Ministério de Defesa não pode transacionar com a Antropic,
04:54como todos os fornecedores de servidores têm, isso significaria a morte da Antropic.
04:58Abrindo parênteses, eu acho que essa vai ser revertida, mas, enfim, essa é a situação atual.
05:01E contratou a OpenAI como parte dessa estrutura, usando termos muito parecidos,
05:08exceto a sutileza estar no fato de que aí não é a OpenAI que determina o uso, mas sim a
05:14lei americana.
05:15Então, está aí o negócio. A rosga tem um componente muito mais de autoridade.
05:19É quem manda nessas decisões sobre o que a IA faz ou não.
05:23É o governo ou é a empresa?
05:25E aí tem uma dimensão geopolítica nessa história ou é só uma questão interna de relação governo-empresa, Álvaro?
05:33Tem uma forte dimensão geopolítica. Eu diria que ela é primária.
05:37Eu diria que a relação empresa-governo é só aquela primeira manifestação do fenômeno,
05:43porque uma vez que o governo americano determina como a empresa deve agir e é capaz de excluir uma empresa
05:51do seu ecossistema
05:53e, em última análise, asfixiar uma empresa, governos de outros países que estiverem usando uma solução desse tipo
06:02começam a enfrentar riscos existenciais do ponto de vista das suas estratégias de inteligência artificial.
06:08Então, por exemplo, o governo brasileiro está usando o Claude, aí, de repente, o Claude começa a, enfim, ser asfixiado.
06:15Isso pode se tornar perigoso.
06:18Então, ou seja, no final das contas, uma estratégia dessas do governo americano
06:22acaba sinalizando para os outros países a necessidade da construção de as soberanas
06:28e as locais que sejam seguras, imunes a decisões tomadas no outro país,
06:34porque a era da capacidade intencional da imposição dos seus desígnios pelas empresas, pelas grandes empresas,
06:42meio que passou.
06:44Então, esse é um primeiro ponto.
06:45O segundo ponto é que tudo isso está no contexto do desenvolvimento de armas autônomas
06:49e sistemas de vigilância que, evidentemente, tem um forte aspecto estratégico no mundo cada vez mais cindido,
06:56que não volta à polarização típica da Guerra Fria, mas cria um novo arranjo que ainda é mais complicado
07:03dentro do qual a gente vai vendo que as guerras vão se multiplicando, como nos últimos anos vem sendo realidade.
07:10Para fechar, a gente sabe que nesse mundo de polarização tudo gera torcida de um lado e de outro.
07:15Então, tinha lá a torcida do Sam Altman versus do Amodei, e agora Amodei versus Pentágono e Trump.
07:23E aí, quem que está certo, quem que está errado? Você está torcendo para quem, Alburo?
07:26Bom, eu acho que a Antrópica está completamente certa.
07:31Eu acredito, vejo muito valor na capacidade das empresas inovarem e defenderem a propriedade intelectual
07:39dos seus produtos dentro das regras, do Rule of Law, para que isso gere incentivo para uso, fenômenos em escala
07:48e, sobretudo, para que isso gere uma ética de mercado.
07:52Eu acho que a Open Eye, por mais que esteja falando que está seguindo essas regras,
07:57está muito preocupada com os usos éticos do chat EPT,
08:02no final das contas, cruzou uma fronteira sensível,
08:05tanto que o público respondeu imediatamente.
08:09E olha que interessante, o Claude ultrapassou em downloads o chat EPT na Apple Store,
08:15ou seja, há todo um movimento, uma reação nesse sentido.
08:19Então, eu acho que não sou só eu que intui que há algo genuíno, algo ético na postura da Antrópica.
08:27E, finalmente, eu acho que a gente tem que pensar do ponto de vista do Brasil.
08:31Nós, que somos consumidores brasileiros, eventualmente, não estamos em nenhum dos lados na prática.
08:38É uma disputa que a gente assiste pela TV, mas as consequências, sim, elas estão ao nosso alcance
08:46e a gente pode efetivamente sofrer consequências disso e, talvez, até gerar consequências.
08:52Então, na minha visão, eu estou priorizando usar o Claude nesse momento,
08:56porque eu acho que a postura é legal e eu posso fazer o efeito mínimo no mundo, mas eu vou
08:59fazer.
09:00Tá certo, gostei do posicionamento.
09:02Obrigada, Álvaro, pela explicação sempre muito clara aqui para a nossa audiência.
09:07Até a próxima.
09:08Eu que agradeço, até lá.
09:09Tchau, tchau.
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