00:00conversar com o ex-embaixador do Brasil no Irã, Eduardo Gradiloni, que gentilmente atende a Jovem Pan
00:05nesta manhã de domingo para trazer a visão dele desse conflito. Embaixador, bom dia ao senhor,
00:10muito obrigado por nos atender. A minha pergunta é, como é que o senhor está vendo esse conflito e
00:16essa relação do Brasil com o Irã? Como é que é essa relação ou como era durante o período em
00:23que
00:23o senhor serviu lá inteira? Embaixador, bem-vindo. Prazer em falar com vocês da Jovem Pan. Bom, a minha
00:32experiência no Irã foi muito interessante porque eu também peguei a celebração dos 120 anos de
00:39relacionamento Brasil-Irã. É um relacionamento correto, sem maiores problemas e que trouxe ao
00:50Brasil e tem trazido ao Brasil todos os anos bilhões de divisas com os produtos agropecuários
00:58que nós vendemos para o Irã. Além disso, nós tínhamos planos de criação de curso de língua
01:07portuguesa para, juntamente com a Embaixada de Portugal, habilitar mais gente a intermediar
01:15relações entre os dois países, aumentando ainda mais esse intercâmbio também em outros
01:21setores da linha do agropecuário. Esse saldo comercial brasileiro é muito expressivo porque
01:27o volume das importações do Irã é muito pequeno. Nós temos só um item mais importante
01:34para o Brasil que é a ureia, os demais são pistache e outras coisas menores, de modo que o nosso
01:42adido agrícola, nós chegamos a ter um adido agrícola por algum tempo, até o início dessas
01:48hostilidades, cuidava até mesmo às vezes de ajudar os iranianos a encontrar produtos que
01:56pudessem entrar no mercado brasileiro e aí equilibrar um pouquinho a balança comercial.
02:02Bom, essa crise então é preocupante, lógico, porque cria incerteza e em regime de incerteza
02:10os negócios são mais complicados, então eu espero que isso se normalize o quanto antes
02:16e a gente possa continuar esse intercâmbio com o Irã em aspectos que não tem nenhum tipo
02:25de constrangimento político, são puramente comerciais ou culturais e de interesse dos povos dos dois países.
02:33Agora, ex-embaixador, como é que você avalia a ação americana e de Israel, numa análise mais ampla
02:41do que está acontecendo? O senhor acredita que vai realmente ser uma batalha dura para o Irã?
02:48Eu acho que é um pouco triste ver tantas oportunidades perdidas de trazer o Irã de volta ao convívio
02:59pacífico e correto com os demais países do Ocidente e inclusive com os Estados Unidos e até com Israel,
03:08com quem o Irã já teve, não apenas no período do Chárez Apaleve, relacionamento correto,
03:17inclusive Israel chegou até a dar apoio em certos aspectos ao Irã na guerra contra o Iraque.
03:25O presidente PSG foi eleito com uma plataforma liberal de acabar com as restrições de costumes
03:37para as mulheres, de criar laços mais estreitos de relacionamento com países ocidentais
03:45e o que se vê é que cada flexibilização iraniana no sentido de maior democracia, menos repressão,
03:55como todos queremos, alguma força radical cria algum incidente, alguma coisa que põe isso a perder.
04:04Durante a posse do presidente Presidência, com a participação do nosso vice-presidente Alckmin,
04:12também o líder do Hamas foi assassinar e, lógico, quando você tem um atentado contra a soberania,
04:20contra um representante oficial que está numa cerimônia de posse,
04:26todas as vozes acabam se dirigindo para o radicalismo,
04:33inclusive o presidente Esquilhão, com toda a agenda liberal,
04:36ficou muito mais inimigo de proclamá-la face às reações mais conservadoras contra essa invasão da soberania do Irã.
04:51De modo que eu espero que alguma coisa de bom senso prevaleça agora,
05:00porque ou o regime é totalmente desmantelado e é muito difícil fazer isso com um regime tão bem e por
05:12tão longo tempo estruturado,
05:14nós estamos vendo e vocês estão noticiando isso,
05:19a nomeação já de um comitê de transição para substituir o líder supremo que foi assassinado,
05:28vamos ver como é que vai ser a reação popular à morte do Khamenei,
05:35se isso se transformar numa demonstração popular de muito apoio ao governo,
05:42será um complicador para os planos dos Estados Unidos e de Israel,
05:47de desmantelar completamente o regime iraniano.
05:51O perigo é não havendo uma oposição coesa de nomes que possam representar uma associação da chefia do regime iraniano
06:06que represente a oposição,
06:09fica mais difícil você saber qual vai ser o desfecho desses ataques
06:15e o risco é que eles endureçam ainda mais o regime
06:19e a população,
06:23ao invés de ser favorecida por eles,
06:26como seria o objetivo,
06:29acabe por patriotismo ou por medo de repressão,
06:34tendentes até a reforçar as forças mais radicais do Irã,
06:39que é justamente o contrário do que se pretenderia.
06:42O problema também, né, embaixadora,
06:44tem espaço para a criação de uma oposição num regime como o regime dos ayatollahs, né?
06:49A Jess Peixoto tem uma pergunta também para o senhor.
06:51Muito obrigada pela presença, um ótimo dia.
06:54A minha pergunta é da vivência.
06:56O senhor esteve no Irã, viveu no Irã, conhece a sociedade iraniana muito bem.
07:02E nos últimos dias nós temos debatido e falado bastante
07:06da importância do ayatollah, da sua figura e do aspecto até mesmo sagrado religioso
07:12em relação ao evento, ao momento do ramadã,
07:16em relação à figura do martírio e tantas outras questões
07:20que estão sendo levantadas como a narrativa em relação à sua morte
07:25por parte das mídias estatais.
07:28Como que o senhor avalia a visão da população
07:32sobre esta morte em termos religiosos?
07:36A mobilização, ela pode cativar mesmo esse sentimento
07:40e conseguir talvez dar um sopro de popularidade para esse regime?
07:44Ou o senhor acredita que não, isso não tem chance de acontecer nesse momento,
07:49tendo em vista os fortes protestos que aconteceram recentemente?
07:54Como que o senhor vê essa vivência da fé e até mesmo do ódio aos Estados Unidos
07:59que é tão muitas vezes frequente no país?
08:01Muito obrigada.
08:03Bom, se você vive no Irã e você frequenta os restaurantes, os shopping centers,
08:15visita cidades, passeia pelo país que tem belezas turísticas e culturais incríveis,
08:23você percebe um sentimento generalizado de oposição ao governo dos ayatollahs.
08:36A população é muito culta, escolada, você vê 60 ou 70% da população iraniana
08:51tem menos de 30 anos de idade, então você sente que eles estão muito conectados na internet,
08:58eles estão vendo a liberdade em outros países e não há um lugar onde você encontre
09:06alguém disposto a falar que não faça críticas ao governo.
09:11Agora, é diferente isso de você ter uma oposição organizada, por exemplo, na Venezuela você tem a oposição organizada
09:21que concorreu às eleições supostamente fraudadas, mas pelo menos você tinha e tem nomes que podem ser uma alternativa a
09:32esse tipo de regime e de governo que nós temos no Irã.
09:36Mas não há nada estruturado no Irã, então essa população que é contrária ao governo, por não ter com quem
09:47se reunir e não ter como se estruturar,
09:51acaba ficando impossibilitada de fazer o que o presidente Trump está pedindo para que façam, para que tomem o governo.
09:59Como? Eles não têm os meios para fazer isso e é por isso que é uma incógnita saber como essa
10:09população vai reagir
10:11e o termômetro para ferir isso será talvez quando houver o funeral do líder supremo, como isso vai ser apresentado
10:24e como a população vai reagir se houver grandes manifestações que poderão sinalizar o apoio ou não desses que são
10:36contrários ao governo
10:38a nova situação e ao que aconteceu com o líder supremo que eles tinham até então.
10:47Agora a Mônica Rosenberg quer fazer uma pergunta.
10:51Embaixador, bom dia. O senhor falou em agenda liberal, falou em bom senso, coisas que nos enchem de esperança.
10:57A minha pergunta é sobre mulheres. Eu como mulher gostaria de saber se o senhor viveu lá.
11:02Falou em cursos de português, havia mulheres nesses cursos, mulheres professoras, mulheres alunas.
11:08O senhor acredita que este novo Irã, mesmo que se mantenha o regime, mesmo que haja uma linha sucessória
11:16que tenha continuidade? O senhor acredita que existe uma possibilidade para que as mulheres voltem a ter um mínimo de
11:22direitos?
11:23Aqui no Brasil as mulheres têm plenos direitos. O senhor esteve lá representando um país onde as mulheres têm força,
11:28têm voz.
11:29Como foi essa vivência e como o senhor acha que vai ser a partir de agora para as mulheres no
11:33Irã?
11:34Bom, acho que há uma espécie de consenso também de que o futuro do Irã, o futuro democrático do Irã
11:42está nas mulheres.
11:44As mulheres que têm liderado esses protestos, as mulheres que têm tido coragem de enfrentar o governo
11:53e elas têm uma participação muito grande na sociedade.
11:57Você tem um número enorme de mulheres em todas as esferas da sociedade.
12:06Você vai nos hospitais, as mulheres praticamente dominam o atendimento, as chefias mais importantes.
12:14No mundo acadêmico é enorme o número de mulheres.
12:17Você tem mulheres, inclusive, no exército, embora com funções muito limitadas.
12:23E você sai na rua, você vê também as mulheres fazendo aquilo que já se tornou uma parte da cultura
12:35iraniana,
12:35que é o jeitinho, o jeitinho de burlar todas as restrições,
12:40de você burlar, por exemplo, a proibição de consumo alcoólico criando alambiques dentro de casa.
12:50Ou então sistemas de alarme que os restaurantes têm para avisar quem está nos restaurantes
12:59de que a polícia moral vai vir para que todas as mulheres coloquem os seus hijabs
13:04e não sejam surpreendidas e penalizadas pelos agentes.
13:09Então o que eu vejo é um pouco a dificuldade das mulheres com esses ataques
13:18de se posicionarem a favor de forças externas.
13:24Eu acho que o sonho de todos os que querem mudanças no Irã é que as mudanças sejam de dentro.
13:30E para que as mudanças sejam de dentro, quem tem que ser prestigiado
13:35é o lado moderado, democrático, dos próprios governantes iranianos.
13:43E o presidente, por exemplo, era uma figura que poderia ser prestigiada
13:51e eventualmente ter um papel positivo em relação a essas mudanças desejadas
13:58sem intervenção externa e sem a volta do fantasma na monarquia Reza-Paleve
14:07que mergulhou o país numa ditadura que foi o motivo da Revolução Islâmica de 1979.
14:16Ex-embaixador do Brasil no Irã, Eduardo Gradiloni.
14:20Muito obrigado pela gentileza da entrevista.
14:22Um bom final de semana para o senhor.
14:25Eu que agradeço o interesse e um alô para todos da Jovem Pan.
14:31Obrigado.
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