00:00Eu converso agora com Danilo Porfírio, que é pós-doutor em Relações Internacionais pelo Instituto Santiago Dantas.
00:07Danilo, muito bom dia, bem-vindo, obrigada por estar com a gente nesse sábado.
00:13À disposição, Natália.
00:15Bom, vamos lá. Danilo, a gente sabe que vínhamos de negociações em Genebra nos últimos dias,
00:23com relatos, inclusive, de progressos significativos.
00:26E mesmo assim, temos agora essa situação de Estados Unidos e Israel partindo para uma operação,
00:32com dezenas de alvos militares simultâneos em território iraniano, promessa de durar vários dias.
00:39Na sua avaliação, professor, na sua leitura, qual é o objetivo estratégico imediato desse ataque conjunto
00:46e o que ele muda no equilíbrio de forças entre Washington, Tel Aviv e Teheran no curto prazo?
00:52Minha amiga Boa, primeiramente, nós estamos testemunhando, brincando, mas falando muito sério aqui,
01:01uma crônica de uma guerra anunciada.
01:04E Trump, estamos vendo o modus operandi do governo Trump sendo implementado.
01:12Ele busca sempre a ideia do diálogo assimétrico, demonstrando sempre força, poder militar que tem.
01:29Então, eu digo sempre que o Trump, antes de dialogar, ele mostra os dentes, mostra a sua força nessa perspectiva
01:38assimétrica.
01:39Tínhamos ali uma tentativa de negociação em Genebra com uma retórica de busca de composição,
01:54mas era claro que o impasse sobre o programa nuclear estava mantido, ou seja, não havia, vamos dizer,
02:03flexibilidade do Irã em rever o seu programa nuclear, rediscutir a questão da autonomia, do enriquecimento do Irã em solo
02:19iraniano.
02:20Então, não houve nenhum avanço nesse sentido.
02:24E aí vimos aquilo que o Trump e o seu governo costumam fazer.
02:30Agem com a força, no intuito de desmobilizar, dissuadir, de alguma maneira, e intimidar.
02:43Então, esses são o quê? São os objetivos do Trump.
02:46O Trump, em princípio, não busca uma ação interventiva de derrocada do governo.
02:54Ele busca o enfraquecimento.
02:56Não teremos ocupação, ocupação por terra, mas bombardeio massivo aéreo.
03:06E dando um recado à população iraniana.
03:10O ataque não é necessariamente contra a sociedade, mas contra o regime.
03:18Tivemos aí um ataque mal sucedido, creio eu, a uma escola,
03:26mas basicamente os pontos-alvos são centros de pesquisa nuclear,
03:32centros de desenvolvimento do programa nuclear, bases militares e sítios burocráticos,
03:41inclusive o quê?
03:42Residências governamentais, de agentes governamentais.
03:46Então, o intuito aqui é buscar uma desmobilização e, por meio dessa ação preventiva,
03:55fazer com que o governo iraniano sente na cadeira novamente uma situação assimétrica e ceda.
04:04A questão é a seguinte, e também contando que a população que já estava indo às ruas,
04:12sujeita à opressão, inclusive um setor importante, que é a classe média comercial,
04:18que outrora apoiou o regime, agora o quê?
04:21Vai às ruas, a expectativa do governo Trump é que essa mobilização se intensifique
04:29e que o governo ou enfraquece ou caia pela mão da própria sociedade.
04:36A questão é que o passado norte-americano no Irã não é saudoso.
04:44Os americanos são vistos como o grande Satã e outrora apoiaram o governo também autoritário
04:53do Reza Palev, que foi a causa da Revolução Islâmica de 79.
04:58Professor Danilo, tem vários pontos que você trouxe já nessa primeira resposta
05:02que eu vou querer esmiuçar aos pouquinhos.
05:05Primeiro, quando o senhor disse preventivamente e enfatizou essas aspas,
05:10eu queria entender um pouco melhor, porque de fato essa prevenção acaba sendo efetiva e violenta, né?
05:17Não há dúvida. E quando eu falo preventiva, minha amiga, é porque não há um intuito
05:24de uma presença militar americana e israelense dentro do território.
05:31A situação é que esses ataques serão intensivos, serão duros, serão violentos,
05:39mas no intuito de chamar o governo a o quê?
05:43A ceder.
05:45A dialogar, volto a insistir, assimetricamente,
05:51sob ameaça que o quê?
05:53O destino do regime poderá estar ameaçado.
05:58Então, essa é a lógica da prevenção.
06:02E, obviamente, é enfraquecer, desmobilizar as forças militares.
06:09Nós temos que acompanhar de forma muito clara, ao longo agora das próximas ações,
06:15a postura da Guarda Revolucionária.
06:18Nos parece que o grande projeto aqui de uma futura recomposição
06:25passa pela validação ou não do governo iraniano pela Guarda Revolucionária.
06:35Professor Danilo, aqui a gente deve estar atento nas próximas horas
06:41para entender se, de fato, essa operação tem data para começar e data para terminar
06:50ou pode se estender e pode escalar?
06:54Tudo depende agora do posicionamento do governo iraniano.
06:59Já vimos medidas retaliatórias,
07:02a ações militares, bombardeios com mísseis e drones em bases militares
07:11e em sítios próximos a consulado, diga-se, no Iraque.
07:17E com base também nas metas dessa tal ação preventiva,
07:28especificamente ao bombardeio desses sítios militares e de desenvolvimento nuclear,
07:39se haverá um sucesso relativo e também gostaria de levantar um ponto.
07:49Qual é a capacidade de continuidade de reação do Irã militarmente
07:54e se ele, como já na história, recorrerá a ações jihadistas, diga-se, terroristas
08:02em outras localidades, como já fez, por exemplo, no início da Revolução Iraniana
08:10no governo Ayatollah Khomeini, né?
08:13É, professor Danilo, qual que é o tamanho disso que a gente está testemunhando?
08:19Qual que é a dimensão que isso pode adquirir, a importância, então, dessa situação?
08:25Natália, o Irã é um país importantíssimo.
08:28Primeiro, até pouco tempo atrás, era uma potência regional que rivalizava
08:35com potências como Arábia Saudita, como Turquia, como Egito,
08:40tendo uma postura de islã político muito própria, que é o islã político xiita.
08:45É um país que é a porta de acesso, ou o meio de acesso entre a Ásia Central,
08:57o Extremo Oriente e o Ocidente.
09:00Não é à toa que o Irã fazia parte do projeto de construção da Rota da Seda Chinesa,
09:10ou seja, o projeto chinês de rota da seda passava, ou passa ainda, pelo Irã,
09:20e sem contar que também é um país fornecedor de hidrocarbonetos, de petróleo, muito importante.
09:31Então, uma instabilidade do Irã pode repercutir no comércio,
09:37no fornecimento estratégico de produtos energéticos e mais uma questão.
09:43E é por isso que eu ainda considero que o Trump não quer uma derrocada bruta do regime.
09:49É um país que detém tecnologia nuclear.
09:53E já tivemos na história ações interventivas que geraram caos.
09:59Veja a situação do Iraque durante anos, o ISIS, por exemplo.
10:04Veja a situação pós-primavera árabe, por exemplo, Síria, e o caos até hoje vigente na Líbia.
10:13Imagina uma situação caótica no Irã.
10:17Isso poderia gerar consequências severas, não só no Oriente Médio, mas de uma forma global também.
10:26E, Renan, eu conversava com o professor Danilo, que está aqui também acompanhando o seu relato.
10:32E, professor, quero saber o que te chamou a atenção no relato do Renan.
10:37E ele trouxe bem o ponto que a gente trouxe sobre essa reação agora do Irã,
10:42que pareceu preparado e rápido nessa resposta,
10:47e com possibilidade de retalhar.
10:49Não se sabe de que forma e não se sabe em que dimensão, né, professor?
10:53Olha, a primeira coisa que eu tenho que considerar.
10:56Na guerra de Gaza, Renan, o Irã queria evitar o conflito com Israel.
11:02Ainda estávamos numa lógica de guerra próxima.
11:07O Hamas, o Hezbollah, os Houthis agem.
11:12E o Irã apenas o quê?
11:14Aparecer como um fomentador, pelo menos a proposta era essa, discreto,
11:20até que Israel o quê?
11:21Desmascaram essa situação.
11:23O governo Netanyahu desmascaram e age contra o Irã.
11:30E o Irã evita, tanto que as ações, no primeiro momento, são mais simbólicas,
11:38ataques que têm uma dimensão muito mais simbólica do que efetiva.
11:43Agora não.
11:44Como eu estava dizendo no início da nossa conversa, né, Natália?
11:48É a crônica da guerra anunciada.
11:50O Trump já estava falando que ou o Irã cedia, ou os americanos agiriam.
11:57Então, o Irã realmente agora age numa perspectiva de preservação existencial do governo.
12:05E tenta mostrar a força em potencial que poderia ter para responder a um ataque.
12:14Então, esse é o grande ponto, né?
12:16E é interessante, só fazer um comentário, Natália, que não pode passar despercebido.
12:22Quem dos países da região do Grande Oriente Médio, que inclusive estende a Ásia Central,
12:31se propôs a ser solidário ao Irã?
12:34O Afeganistão, os talebãs, há 48 horas o Paquistão entrou em guerra com o Afeganistão.
12:44Coincidências, não?
12:45No sentido de desmobilização, né, de qualquer força de contração à ação americana e israelense na região.
12:55Bem observado.
12:56Eu quero saber se o Renan quer trazer algum ponto para a discussão, para a conversa aqui com o professor
13:00Renan.
13:03Nath, eu só queria fazer uma atualização, inclusive, de relatos de colegas brasileiros
13:09e também informações chegando que agora explosões foram ouvidas na região de Dubai.
13:14Mais cedo também havia esse relato de explosões na região de Dubai.
13:19Mas, voltando a dizer, essas explosões geralmente são os mísseis sendo interceptados,
13:24que fazem esse som bastante forte, né?
13:27A gente sente até que, às vezes, a janela vibrar quando esse barulho acontece.
13:32Agora, eu queria só fazer uma pergunta para o professor, no sentido de que, quais opções restam para o Irã?
13:39Essa resposta do Irã tem sido muito rápida.
13:42A gente não sabe a extensão dos ataques de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã.
13:48Quanto ambos estão conseguindo desestruturar o Irã?
13:52Porque, aparentemente, o que a gente tem a impressão é de que, pelas informações militares,
13:56é de que Israel estaria focado em desestruturar a defesa iraniana, os mísseis balísticos
14:02e os Estados Unidos mais focados nos ataques em relação à questão nuclear.
14:07E como o professor falava, e esse é o entendimento aqui na região,
14:12de que o Irã pode entrar nesse modo de sobrevivência e aí tentar diversas alternativas,
14:17quais são as alternativas que o senhor acredita, professor?
14:21E, se tratando do que a gente fala aqui de negócio, o fechamento do Estreito de Orbuos,
14:26a questão da produção de petróleo, o senhor acha que está em jogo?
14:29O Irã poderia ir para esse tudo ou nada em relação a essa região?
14:35Quando a questão, Renan, é existencial, o céu é o limite.
14:42Até vou brincar, o inferno é mais profundo, não tem fundo.
14:46Então, todas as medidas poderão ser o quê?
14:50Tomadas pelo Irã.
14:51É uma questão de sobrevivência do regime.
14:54Então, eu levanto questões econômicas que você levantou.
14:58A questão da chantagem do acesso aos hidrocarbonetos, ao petróleo,
15:04a dificuldade de acessibilidade desse recurso pelo Estreito de Orbuos.
15:09É um ponto que tem que ser considerado e, historicamente, sempre foi utilizado quando o Irã está envolvido.
15:16Outro ponto importante que eu tenho que levantar aqui com vocês,
15:20o uso do recurso dos soldados solitários e das ações de guerra irregular.
15:27Estou falando o quê?
15:28De terrorismo.
15:31Terrorismo.
15:32Ações contra embaixadas.
15:34Ações contra o quê?
15:37Soldados, contra autoridades que estão ligadas aos israelenses e aos americanos.
15:46Foi um recurso que, inclusive, foi utilizado no início do regime iraniano.
15:51O resbolar, inclusive, era um braço prótese disso.
15:55Era um braço prótese disso.
15:56E a questão regular é de esgotamento por resistência de todas as forças possíveis pelo Irã.
16:04O Irã não tem muita alternativa.
16:07Ou ele resiste, ou ele colapsa.
16:11E o que os americanos estão contando é com a desmoralização já iniciada no fracasso da guerra de Gaza
16:19e o colapso do regime.
16:22não de fora para dentro, mas de dentro para fora.
16:26Então, esses são os pontos que eu levanto aqui, meu caro.
16:31Professor Danilo Porfírio, pós-doutor em Relações Internacionais pelo Instituto Santiago Dantas,
16:36muitíssimo obrigada por estar com a gente nessa manhã aqui de sábado.
16:41Seguiremos na cobertura e voltaremos a conversar, então, ao longo dos próximos dias.
16:45Obrigada, bom fim de semana.
16:46Obrigada, não.
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