00:00Os Estados Unidos aumentaram a pressão militar sobre o Irã antes das negociações em Genebra.
00:06Sobre esse assunto a gente conversa ao vivo com o mestre em relações internacionais, Valdir Bezerra.
00:10Professor, seja bem-vindo, uma boa tarde para o senhor.
00:15Boa tarde, agradeço pelo convite.
00:17Professor, vou começar a nossa conversa sabendo realmente os principais fatores e também as chances
00:24de um ataque americano pontual justamente contra o programa nuclear iraniano.
00:30As chances de um ataque são bastante grandes, mas não se trata de uma situação inevitável.
00:35Me parece que o Irã concordaria com uma situação de parar o seu desenvolvimento nuclear.
00:43Essa inclusive era a posição iraniana durante a administração de Barack Obama.
00:46E a gente sabe muito bem que o presidente Donald Trump gosta de implementar uma estratégia de pressão máxima
00:53para conseguir concessões substanciais dos considerados adversários já políticos dos Estados Unidos.
01:00É óbvio que as forças que têm sido reunidas na região dão a entender que o ataque parece eminente,
01:06mas ao mesmo tempo a gente sabe que negociações foram entabuladas entre a administração iraniana e americana
01:12e parece que as duas delegações chegaram pelo menos a um acordo sobre os princípios básicos
01:17do que viria a ser esse acordo nuclear com o Irã.
01:23Professor, por mais que as negociações tenham avançado nesses últimos dias,
01:26podemos dizer que estamos diante do momento mais crítico desse confronto que já se arrasta há séculos?
01:35Ele é sim um momento crítico.
01:36A gente também tem a constatação de que essa é a maior reunião de forças americanas na região desde 2003,
01:44desde a invasão ao Iraque, então sim, é um momento crítico.
01:49É mais crítico ou até tão crítico quanto os ataques que foram implementados contra o Irã
01:53em junho do ano passado, a chamada Operação Martelo da Meia-Noite,
01:57que supostamente naquela ocasião tinha debilitado bastante as instalações nucleares do Irã.
02:03Parece que não foi esse o caso, até por isso que as negociações voltaram a ocorrer
02:08e o Trump tem implementado novamente, como eu disse, uma estratégia de pressão máxima,
02:12mas um ataque americano ao Irã, ele não é inevitável.
02:16Ele parece muito próximo, ele parece muito provável,
02:19mas ele pode vir a acontecer se o Irã não concordar com outras cláusulas
02:25que eu acredito provavelmente estarem fazendo parte da negociação,
02:29como a limitação da capacidade missilística do Irã,
02:32a proibição de apoio iraniano a grupos paramilitares da região,
02:36é o caso do Hamas, o caso do Hezbollah, dos roots do Iêmen.
02:40Então, se houverem mais propostas dentro desse acordo para além da questão nuclear,
02:45aí eu acredito que o Irã dificilmente vai concordar com a proposta americana.
02:50Professor, pegando um gancho na sua resposta, quais seriam esses principais obstáculos
02:54para que Estados Unidos e Irã cheguem a um acordo?
02:59Primeiro que essa pressão americana sobre o Irã, nesse momento,
03:03ele não passa uma boa sinalização para a liderança iraniana.
03:07Então, do ponto de vista de estratégia, o Irã poderia, por exemplo,
03:12concordar com a paralisação do seu programa nuclear nesse momento.
03:17A gente sabe que o Irã enriqueceu o urânio até uma casa de 60%,
03:20o que está ali próximo do limite inferior de uso nuclear.
03:25O uso nuclear do Irânio começa a partir de 90%,
03:28está bastante longe do civil, isso é fato.
03:32Mas, tendo o Donald Trump saindo da Casa Branca,
03:36nada impede o Irã de retomar esse processo de enriquecimento de urânio.
03:39Por quê?
03:40Porque o Irã já se sentiu ameaçado pelos Estados Unidos.
03:43Então, a sinalização de pressão máxima sobre o Irã,
03:46ela pode dar um resultado temporário nesse momento,
03:49fazer o Irã negociar,
03:51mas lá na frente o Irã vai ter memória do que aconteceu
03:53e eles podem voltar a enriquecer o urânio.
03:56Então, esse é o grande problema das relações entre Estados Unidos e Irã,
04:00que envolve também Israel.
04:01Israel é muito interessado em que o Irã não desenvolva armas nucleares
04:06e não somente Israel, que é um aliado americano no Oriente Médio,
04:09mas também a Arábia Saudita.
04:12Professor, inclusive, quais seriam, pelo menos assim,
04:15os ataques direcionados dos Estados Unidos?
04:18Tem alvo específico?
04:19É a derrubada do regime iraniano?
04:21É acabar com a infraestrutura de mísseis?
04:23Justamente com esse plano nuclear do Irã,
04:25são vários, podemos dizer assim, vários focos que os Estados Unidos têm
04:28com a intenção de aumentar essa pressão militar sobre o Irã?
04:34Dado os porta-aviões que estão localizados na região
04:37e o número de caças que eles podem comportar,
04:40eu acredito que os alvos sejam mais extensos
04:42do que apenas as instalações militares de enriquecimento de urânio.
04:46Você pode envolver também as baterias antiaéreas do Irã,
04:50algumas instalações do comando do exército iraniano,
04:53talvez ali alguma parte, algum componente da infraestrutura de eletricidade do país.
04:59Então, pelo que se apresenta, a possibilidade de ataque,
05:04ela não é restrita somente às instalações nucleares,
05:08elas podem ser mais abrangentes.
05:09O Irã não teria como responder simetricamente,
05:13o Irã poderia responder assimetricamente,
05:15atacando, por exemplo, até mesmo o próprio Israel,
05:18ou tentando atacar as bases militares americanas
05:21em países próximos, como o Qatar e o Bahrein.
05:24Aliás, foi isso que aconteceu exatamente no ano passado,
05:26durante o contexto da Operação Marteira da Meia-Noite.
05:29Então, temos uma situação, sim,
05:31que parece apontar, pelo menos,
05:34para um ataque de maior escala dentro do território iraniano.
05:37Professor, eu sei que é difícil a gente traçar um paralelo aqui
05:40em relação a essa possibilidade de ataque dos Estados Unidos do Irã
05:44com o que aconteceu na Venezuela.
05:46Mas, querendo ou não, o presidente dos Estados Unidos,
05:49Donald Trump, escolhe dois países
05:51em que tem regimes diferentes,
05:53que tem regimes enfraquecidos,
05:55que vem sendo contestado por boa parte da população,
05:58enfrentando crises sociais, crises econômicas,
06:02um certo descontentamento muito grande,
06:04e no momento de enfraquecimento.
06:06O senhor consegue ver, também, pelo menos,
06:09Donald Trump visando justamente esses regimes enfraquecidos
06:13que até então se mostraram muito fortes em anos anteriores?
06:18A questão da Venezuela foi uma operação de bastante precisão
06:22para a decapitação da liderança do país,
06:26pelo menos retirar da cena um político
06:30que era, do ponto de vista retórico, bastante anti-americano.
06:34A questão do Irã não me parece ser a intenção de uma mudança de regime,
06:39muito embora se uma mudança de regime acontecer
06:42como consequência do enfraquecimento do governo iraniano
06:47em função dos ataques,
06:48e em função, também, da situação que você bem colocou,
06:51dos protestos internos que têm se alastrado pelo país,
06:54isso, para os americanos, pode ser um efeito colateral bastante interessante.
06:58Porque a gente sabe que o Irã, desde 79, desde a Revolução Islâmica,
07:04se mostrou um regime que tem vociferado,
07:08que tem feito discursos anti-Estados Unidos,
07:11anti-presença de bases militares americanas na região.
07:14Então, não me parece que é o objetivo principal,
07:17mas se acontecer como efeito colateral,
07:20vai ser, sim, bastante bem-vindo para a Casa Branca esse desenvolvimento.
07:24Perfeito, professor.
07:26Muito obrigado pela sua participação.
07:27Bom te ouvir e também entender os seus esclarecimentos
07:30em relação a essa pressão militar dos Estados Unidos sobre o Irã.
07:36Eu que agradeço. Obrigado.
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