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O sócio da Valor Investimentos, Davi Lelis, analisa a movimentação antecipada de Christine Lagarde no Banco Central Europeu (BCE). A especulação, iniciada pelo Financial Times, sugere que Lagarde busca sair antes do fim do mandato de Emmanuel Macron para evitar que a extrema-direita francesa, liderada por Marine Le Pen, influencie a escolha do próximo banqueiro central da zona do euro.

Do outro lado do Atlântico, o cenário também é de transição: Kevin Warsh foi indicado por Donald Trump para substituir Jerome Powell no Fed a partir de maio. Lelis discute os riscos da politização da política monetária e a substituição do Quantitative Tightening por possíveis posturas mais nacionalistas em meio a um processo global de desglobalização.

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Transcrição
00:00Na semana, o jornal britânico Financial Times disse que a presidente do Banco Central Europeu,
00:04Christine Lagarde, poderia sair mais cedo do cargo.
00:07Hoje, a notícia é que essa saída não deve ser assim tão próxima.
00:11De qualquer maneira, a movimentação chama a atenção do mercado.
00:14E a gente vai falar sobre isso com o Davi Lelis, que é sócio da Valor Investimentos.
00:18Seja muito bem-vindo, Davi, a essa edição do Radar.
00:22Olá.
00:23Bom, como é que essa especulação chegou no mercado?
00:27Isso chegou a fazer preço na Europa?
00:31A reação do mercado foi até amena frente ao que poderia ter sido.
00:36E tanto no cenário de juros quanto no cenário de bolsas europeias como um todo,
00:41nós vimos uma reação bem tranquila dos mercados.
00:44Isso mostra o seguinte, que caso aconteça realmente a saída da Christine Lagarde
00:49e a substituição por uma outra pessoa, por um outro banqueiro central na zona do euro,
00:55essa pessoa que é um possível substituto daria continuidade na política que ela já vem fazendo ao longo dos últimos
01:02anos.
01:03Então, isso acabou não pegando o mercado com muita surpresa.
01:07Mas o que nós vemos hoje no cenário internacional é um grande jogo de xadrez.
01:12Christine Lagarde, estrategicamente, tenta construir a sua saída do Banco Central Europeu
01:17antes do fim do mandato de Macron.
01:20Se o Macron consegue estar no poder com a saída do Banqueiro Central Europeu,
01:25ele consegue influenciar na próxima candidatura do próximo banqueiro,
01:30junto com o chanceler alemão,
01:31e influenciar quem vai ser o próximo dono da cadeira do Banco Central Europeu,
01:36segundo maior banco central do mundo,
01:39do mais importante do cenário mundial.
01:41Isso que você trouxe é interessante,
01:43porque tem um medo aí, por parte talvez da própria Christine e do grupo político dela,
01:47de uma vitória da extrema direita na França.
01:50Isso fez com que ela pensasse em sair mais cedo aí,
01:53para que o próprio Macron, e não um novo presidente,
01:55influenciasse essa escolha, já que a França é a segunda maior economia da zona do euro.
02:00Na sua avaliação, como operador de mercado,
02:03existe mesmo esse temor da influência de políticos mais extremistas
02:06numa instituição tão importante quanto o Banco Central Europeu?
02:10O mercado não gosta do escuro, ele não gosta de incertezas.
02:15Seja o extremista para a direita ou para a esquerda,
02:18geralmente isso desagrada aos mercados,
02:20porque o mercado gosta e ele precifica previsibilidade.
02:25Quando o mercado tem previsibilidade,
02:27ele consegue operar com mais margem, com mais eficiência, com mais eficácia.
02:31Então sim, as sinalizações dessa troca antecipada
02:34é devido à preocupação de uma volta da extrema direita,
02:38principalmente na figura da Le Pen,
02:41Marine Le Pen, voltando com seus indicados,
02:43e que poderiam fazer um processo de quantitative easing.
02:47O que é o quantitative easing?
02:49É um afrouxamento econômico,
02:51afrouxamento da política monetária.
02:53A Cristina Lagarde tem feito um processo oposto a esse,
02:58que é o chamado quantitative tightening.
03:00Tem mantido os juros ali na casa de 2%,
03:02drenando vagarosamente,
03:04drenando gradualmente a liquidez dos mercados.
03:07O medo europeu, justificado não,
03:10é que com um governo mais de direita e com os nomes cotados,
03:13aconteça um afrouxamento monetário,
03:18buscando cair os juros,
03:20incentivar o crescimento e melhorar o endividamento francês,
03:23que já está nas alturas
03:24e já passa de 100% da dívida PIB do país.
03:28Esse afrouxamento aqui preocupa.
03:29Então eles estão tentando movimentar as suas peças
03:32desse grande jogo de xadrez,
03:34antes da possível vitória da direita na França,
03:38para já deixar os seus nomes ali no tabuleiro,
03:41antes que um rei caia e que o outro rei seja eleito.
03:44Mas isso traz uma discussão que não vinha sendo feita
03:47há algum tempo na Europa,
03:48que é a discussão de credibilidade.
03:51Será que se você move as peças antes de uma eleição,
03:53você não está tentando influenciar o poder de voto e de mando
03:57e de influência do próximo governo?
03:58Isso traz essa discussão que há muito tempo não havia,
04:01da credibilidade do Banco Central Europeu.
04:03Essa discussão sobre independência de bancos centrais da política,
04:08ela tem se acirrado no mundo inteiro
04:10por causa de episódios,
04:12como é que a gente viu recentemente agora nos Estados Unidos,
04:14essa perseguição do Donald Trump ao Jerome Powell,
04:18que está saindo agora da presidência do Fed.
04:20Eu queria saber, nesse contexto,
04:22o que você espera do mandato do Kevin Walsh,
04:24que vai ocupar o lugar de Powell?
04:27Esse mandato do Walsh está sendo muito esperado,
04:30muito controverso, tem trazido muito burburinho.
04:33A gente tem, Marcelo, um processo de desglobalização,
04:35ou eslobalization,
04:37onde os países estão se isolando cada vez mais
04:40em seus próprios feudos,
04:41e isso inclui também as suas políticas,
04:43que elas deixam de ser multilaterais,
04:45ou até bilaterais,
04:46e passam a ser mais nacionalistas.
04:48Você fala muito da hegemonia,
04:52da força de cada um dos países,
04:53dos seus bancos centrais,
04:55fechados em sua própria política.
04:57O Walsh, vindo do Trump,
04:59uma indicação vinda do Trump,
05:00já direcionou que deve fazer, sim,
05:02quedas de juros,
05:04mas que talvez não seja tão agressivo
05:06assim no afrouxamento político,
05:08no afrouxamento monetário
05:10da política monetária americana.
05:11Mas isso é um viés mundial.
05:14A gente está vendo cada vez mais
05:16os bancos centrais tentando ser influenciados
05:18por seus presidentes,
05:19o que é preocupante.
05:20O banco central tem que ser independente.
05:22O banco central tem o objetivo
05:24de estabilidade da moeda
05:25e alguns bancos centrais de controle do desemprego,
05:28controle da quantidade de emprego
05:30e da máxima produção do país.
05:33Caso você tenha influência política
05:34nos bancos centrais,
05:35você tem bancos centrais
05:36sendo direcionados
05:37para políticas fiscais, por exemplo.
05:39Política monetária tem que ser feita
05:41por banco central,
05:42política fiscal vai ser feita pelo governo
05:43e cada uma tem seus mandatos.
05:45E é muito prejudicial para a economia
05:47e para o país como um todo
05:49que tem essa influência do governo
05:51em cima do seu banco central,
05:52seja nos Estados Unidos,
05:53o primeiro maior banco central do mundo,
05:55ou seja na Europa,
05:56por meio do Banco Central Europeu.
05:58Davi Lely, sócio da Valor Investimentos,
06:00muito obrigado pela sua participação
06:02nessa edição do Radar.
06:03Até a próxima.
06:04Até.
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