00:00A enxurrada de capital estrangeiro que tem inundado o mercado de ações do Brasil fez
00:05despertar a expectativa da retomada da abertura de capitais das empresas na Bolsa de Valores.
00:11Os sinais têm sido positivos e, aparentemente, os investidores estão demonstrando apetite
00:17pelas operações.
00:18A gente vai conversar sobre essa perspectiva de negócios com Alexandre Matias, que é
00:23estrategista-chefe da Monte Bravo.
00:25Bom dia para você, Alexandre.
00:27Seja muito bem-vindo ao Real Time.
00:30Bom dia, tudo bom?
00:31Tudo bem.
00:32Bom, esse grande volume de dólares aí na Bolsa, na sua opinião, ele tem o poder de ser
00:37um gatilho para mais IPOs na B3, depois desse jejum aí que já está durando aproximadamente
00:43quatro anos?
00:46Eu diria que ajuda, mas não garante um cenário construtivo, no seguinte sentido.
00:52Primeiro, ajuda no sentido de que trouxe um renovado interesse para a Bolsa, mudou o
00:57patamar de avaliação das empresas, a gente teve uma valorização muito expressiva nos
01:00últimos 12 meses, o Ibovespa sobe mais de 50%, então tudo isso cria um clima muito
01:05positivo em relação ao mercado de capitais.
01:08Por outro lado, o estrangeiro não é um grande comprador de IPOs e o doméstico ainda está
01:14muito retraído.
01:14A gente pega, por exemplo, a estatística de janeiro, quando entraram 26 bilhões e
01:19meio de reais de estrangeiros na Bolsa, quem vendeu foram os domésticos, as instituições
01:24financeiras, as pessoas físicas, os bancos.
01:27Então, o investidor doméstico ainda está numa situação de ceticismo com relação à
01:33continuidade desse movimento, especialmente olhando para os nossos problemas fiscais em
01:382027, que vão ter que ser endereçados e hoje a gente não tem clareza de como isso vai
01:42acontecendo.
01:43Alexandre, você que tem um grande network aí no mercado aqui em São Paulo, você sente
01:49que tem muitas empresas, digamos assim, na sala de espera para fazer um IPO aqui,
01:53só esperando as condições melhorarem para tomar esse passo?
01:56Você acha que se chegar a um momento ideal, vai ter empresa brasileira disposta nesse ano
02:02já a tomar esse passo, a fazer um IPO?
02:06Sim, a gente tem uma série de elementos.
02:07Você começa pelo nível de juros no Brasil, a taxa de ser de 15%, uma emissão dificilmente
02:13sai com um custo menor do que 20%, 22%, é um custo de capital extremamente elevado.
02:18Nesse sentido, uma operação de abertura de capital, de follow-on, tem capacidade de
02:23levantar um capital a um custo muito menor.
02:25Então, as empresas têm interesse.
02:27E também a gente tem muitas empresas com um potencial muito grande, um potencial relevante
02:31para o IPO.
02:32Então, você tem, do lado da oferta de IPOs, as condições são ideais.
02:37O problema é do lado da demanda.
02:38O investidor doméstico não está confiante na Bolsa, não está confiante na continuidade
02:43dos bons fundamentos da economia, porque a questão fiscal se impõe.
02:46Num certo sentido, o próprio nível de juros já é um reflexo dessa questão fiscal mal resolvida
02:52que o Brasil tem.
02:53Agora, se fosse para você apostar em alguns setores que seriam os mais propensos a fazer
02:57IPO nesse ano, em que setores você apostaria?
03:01A gente tem uma série de empresas que estão na fila.
03:05Se você tem empresas do setor de frigorífico com follow-on encaminhados, você tem empresas
03:15de...
03:16A fila de empresas nos bancos de investimento é bastante significativa.
03:21Não tem um setor muito favorável.
03:23Em geral, a questão do IPO é muito mais uma questão deossincrática de empresa em
03:27empresa do que uma questão setorial.
03:30Mas a gente sabe que tem várias empresas ali encaminhadas esperando o momento ideal
03:35para você fazer essa emissão.
03:37Até porque são quatro anos sem emissões.
03:39Então, a seca é prolongada.
03:42Agora, de novo, a questão central é da demanda e da confiança do investidor doméstico.
03:46A dimensão que está faltando é a gente ter uma percepção de macroeconomia estabilizada
03:50e sustentável.
03:51Hoje, o macro do Brasil é estabilizado, mas é evidente que com o juro real nas NTNBs
03:57mais longas da ordem de 7,30, isso não é sustentável.
03:59E aí, a questão da justiça fiscal relacionada à incerteza eleitoral acaba pondo um ponto
04:04de interrogação muito grande na demanda do investidor doméstico.
04:07A gente viu recentemente algumas empresas indo para os Estados Unidos para fazer IPO.
04:14Como é que essas empresas tomam essa decisão?
04:16Como que elas escolhem entre o IPO no Brasil e o IPO lá fora?
04:21O IPO lá fora, se a gente fosse ser frio e calculista, é muito melhor.
04:26O mercado americano é muito mais amplo, as regras de abertura de capital são um pouco
04:29mais simples.
04:32Só que o universo das empresas que podem ter uma abertura de capital nos Estados Unidos
04:36é muito restrito, porque você tem que ter uma escala muito grande, você tem que
04:39ter um papel que tem um interesse muito forte do investidor global.
04:45Então, você tem que ter empresas no padrão de uma Stone, de uma JBS, de uma XP.
04:50A listagem lá fora exige uma escala de capital, que são poucas empresas que tem aqui no Brasil.
04:55Então, é uma opção, em geral, mais interessante, mas ela só é acessível para uma elite de
05:01empresas.
05:01Eu diria que a empresa mediana que está na Ibovespa não tem escala, nem tem interesse
05:06de gringo suficiente para você conseguir fazer uma emissão lá fora.
05:10Agora, do ponto de vista da B3 enquanto empresa, qual o estratégico é para a B3 que haja
05:15mais IPOs aqui no Brasil?
05:17E esse hiato aí de quatro anos sem IPOs, é algo que também não é bom para os negócios
05:23da B3?
05:25Não, do ponto de vista estratégico da B3 é fundamental, a gente tem a ampliação do
05:29mercado de capitais.
05:30Eu diria que para a própria economia brasileira, a ampliação do mercado de capitais é uma coisa
05:34fundamental.
05:35e esse ato muito prolongado sem IPOs é uma demonstração de como a gente está patinando.
05:43A gente tem, de novo, é o que eu digo, a gente tem uma economia que está funcionando
05:46bem, então se você olha hoje, a economia funciona relativamente bem, mas a gente tem
05:52um calcanhar de Aquiles terrível que é a questão fiscal e ela se manifesta num juro real que
05:57é muito alto e na percepção de insustentabilidade.
06:01E é justamente essa incerteza sobre a trajetória fiscal do Brasil que põe uma nuvem de certeza
06:06que retrai a demanda, seja por investimentos de longo prazo, seja pelo custo de financiamento
06:12da dívida que está terrivelmente alto, seja no interesse de IPOs, porque você não vai
06:17investir numa empresa que está abrindo capital numa economia que tem uma trajetória fiscal
06:22indefinida.
06:22Então, eu diria que a gente tem um problema muito sério, o presidente Lula assumiu o mandato
06:27com 71,7% de dívida em proporção do PIB e vai entregar isso com 83, 84%.
06:33Quer dizer, é um salto inadmissível num país que está crescendo, não está em guerra,
06:38tem a arrecadação subindo.
06:39Então, é evidente que o nosso trajetório do gasto está num roteiro de filme de terror.
06:44Isso não vai dar certo.
06:45Então, o mercado sabe que vai ser necessário fazer um ajuste em 2027, 2028, só que a
06:52campanha eleitoral impede a discussão de como vai ser feito esse ajuste.
06:56Então, é uma nuvem de certeza muito alta, por isso que eu mantenho um relativo ceticismo
07:01com relação à possibilidade de novas emissões esse ano, ainda que os preços sejam muito
07:05favoráveis.
07:07Alexandre Matias, estrategista-chefe da Monte Bravo, muito obrigado pela sua participação
07:11e bom dia.
07:13Bom dia, Marcelo.
07:14Bom ficar na vó para vocês.
07:15Obrigado para você também.
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