00:00Uma das grandes incógnitas desse primeiro semestre é o que fará Kevin Walsh ao assumir as rédeas do comando do
00:05Federal Reserve Bank, o Banco Central dos Estados Unidos.
00:08O mandato de Jordan Powell, alvo de duras críticas do presidente Donald Trump, se encerra em maio e a grande
00:13questão é,
00:14Walsh vai ou não atender aos apelos de Donald Trump para baixar os juros americanos à força?
00:20Nós vamos esclarecer essa e outras dúvidas com o Jesner Oliveira, ele é professor de economia da FGV e sócio
00:25da Gol Associados.
00:26Bom dia, Jesner, bem-vindo aqui ao pré-market nesse café da manhã, nessa segunda-feira.
00:31Bom dia para você, estou aqui com a Maria Almeida.
00:34Jesner, vamos começar falando isso, acho que a sua primeira impressão em relação ao Kevin Walsh é um nome que
00:39já é conhecido da economia mundial,
00:41enfim, ele já ocupou outros cargos no Banco Central americano.
00:45Como é que você vê o Kevin Walsh? Ele vai atender logo de cara as exigências do presidente Donald Trump
00:49ou ele pode ser um nome mais confiável que vai seguir as recomendações do mercado?
00:56Bom dia, Felipe, bom dia, Maria.
00:59Eu acho que ele vai seguir mais a sua experiência, a sua passagem pelo mercado.
01:08Eu acho que é um nome tranquilizador, Felipe e Maria.
01:12Eu acho que havia um receio de, em função das pressões que o Donald Trump tem feito sobre o Fed,
01:21havia um receio de uma figura que fosse simplesmente obedecer a ordem de Donald Trump de baixar os juros.
01:33Eu acho que a escolha foi a escolha de alguém experiente que conhece o lado do sistema financeiro,
01:39também já passou pela Casa Branca, já foi assessor na Casa Branca,
01:44é uma pessoa que não tem uma crença em algum tipo de política de juros que seja heterodoxo.
01:55Eu acho que o mercado recebeu bem, recebeu uma pessoa que vai dar confiança à política monetária dos Estados Unidos.
02:07Algo essencial nesse momento, porque realmente surgiram muitas dúvidas em função da forte pressão da Casa Branca sobre o Fed,
02:15das críticas duras a Jeremy Powell, que o presidente dos Estados Unidos fez.
02:22Então, eu tenho a impressão que a reação, e a reação foi de um certo fortalecimento do dólar,
02:30uma expectativa de uma política monetária segura, talvez com algumas mudanças na forma da curva de juros,
02:41mas certamente sem nenhuma mudança radical na política monetária, Felipe.
02:48É interessante essa abordagem, porque de alguma maneira o Donald Trump, se a gente for pegar aí o seu histórico
02:57com o Jerome Powell,
02:58ele foi bastante enfático dizendo que queria que mudasse, mudasse bastante o perfil.
03:04Só que concordando com você aí que o Washington tem esse histórico, e por outro lado, ler,
03:10saber o que é a política monetária adequada para os Estados Unidos não está propriamente trivial.
03:14Semana passada teve varejo baixo de dezembro, mas empregos bem acima do esperado, inflação também mais contida.
03:24O que você acha que vai, pegando aqui, se ele vai ouvir o mercado, o que o mercado diria para
03:28ele neste momento?
03:30Olha, você tocou num ponto essencial, que é essa, digamos, as informações com muitas ambiguidades.
03:38Você tem evidências de desaceleração de um lado, de fraqueza do mercado de um lado,
03:45mas, por outro lado, você ainda tem sinais de vigor na atividade econômica,
03:53e, ao mesmo tempo, você está acima da meta de inflação.
03:58Então, realmente, é uma situação na qual é muito importante alguém que queira realmente ler os atos,
04:08que queira realmente se debruçar sobre os atos, fazer um balanço de risco,
04:13para realmente verificar qual deve ser a trajetória da política monetária.
04:19Eu acho que, na essência, pelo histórico do Kevin Walsh, pelas suas características pessoais,
04:29ele deve manter a atual política, que é uma política de redução dos juros, mas muito gradual.
04:39Então, deve permanecer assim.
04:42Acho que é uma aposta de, talvez, uma maior inclinação da curva de juros,
04:49com um pouco uma redução no curto e um pouco uma certa subida no longo,
04:56mas, na essência, e acho que é bom para o mundo, na essência,
05:01não deve haver uma mudança radical na política monetária dos Estados Unidos.
05:05Seria muito ruim se houvesse uma, se houvesse a confirmação de alguns temores
05:12de que a política monetária dos Estados Unidos pudesse ter uma guinada
05:17ou pudesse ter uma mudança tão radical quanto, por exemplo, foi a mudança na política de comércio.
05:25Isso seria muito ruim para a volatilidade, para os mercados mundiais.
05:32Professor, bom, a gente viu, a gente acompanhou essas críticas do presidente Donald Trump ao Jerome Powell,
05:36e o Jerome Powell vai sair em maio, mas ele continua, provavelmente, não sabemos exatamente,
05:41mas ele deve continuar ainda no corpo ali com os integrantes do Federal Reserve Bank.
05:46Mesmo o Kevin Walsh entrando, quer dizer, ele vai ser o presidente do Fed, vai ser o chairman,
05:50mas ele não necessariamente, nem todos os membros podem seguir exatamente o que ele orienta.
05:56A gente vê isso, o Jerome Powell, a figura dele ainda vai ser muito influente.
06:00Como é que o senhor vê essa possível contradição entre os membros do Fed?
06:04Quer dizer, ter um presidente alinhado com o presidente Donald Trump,
06:06mas os outros membros seguindo ainda aquela cartilha mais tradicional da economia americana.
06:12Eu tenho a impressão que, na verdade, o Kevin Walsh entra com pouca mudança em relação ao Jerome Powell.
06:21Então, eu não acredito que ali haverá uma contradição, uma tensão, uma mudança radical
06:32em termos de visões sobre a economia americana.
06:35A gente precisa lembrar que, na verdade, o Jerome Powell não tem sido um presidente
06:43que levou uma política muito diferente daquela que seria preconizada pela maioria dos membros do Fed.
06:52A gente observa em dois dos membros, quando a gente observa as projeções,
07:00a gente observa uma variância maior no conjunto dos membros do Fed do que já foi no passado.
07:09Mas eu realmente não acredito que haja entre Kevin Walsh e Jerome Powell uma diferença muito grande.
07:17E, nesse sentido, o Donald Trump, como em alguns outros eventos,
07:23ele tem, do ponto de vista público, da opinião pública, opiniões muito fortes e midiáticas, etc.
07:33Mas, na hora de escolher alguém para liderar uma instituição tão importante quanto o Federal Reserve,
07:43eu tenho a impressão que ele foi mais criterioso nessa escolha do que, em algum momento, o mercado temia.
07:54Passa mais uma, Filipe?
07:56Vamos lá, Marifá.
07:57Não, só uma, por isso, você falou da questão comercial e aí tem um assunto aqui de política monetária nos
08:01Estados Unidos
08:02que ainda acho que levanta questões, que é a inflação está contida,
08:07esse último CPI trouxe essa certa, acima da meta, mas ainda mais baixa.
08:12Como explicar que o efeito da bagunça comercial não tenha sido mais intenso na inflação nos Estados Unidos?
08:18Essa é uma questão interessantíssima e, de fato, a primeira reação foi uma reação de que, olha,
08:27isso terá um impacto inflacionário imediato.
08:30As primeiras projeções eram extremamente pessimistas.
08:34Eu tenho a impressão que a razão básica, Maria diz, está associada à percepção da estratégia em relação à política
08:44comercial.
08:45Foi uma estratégia não de novos patamares por períodos longos, mas uma postura de negociação permanente.
08:58Então, se a gente analisar o que aconteceu com a alíquota média no comércio nos Estados Unidos,
09:05ela subiu rapidamente, mas considerando os vários acordos que foram firmados depois do tarifácio,
09:13na verdade, houve um declínio e, olhando para frente, a perspectiva é de um declínio.
09:21Houve, sim, aumentos pontuais, inclusive, de produtos nossos, lá do Brasil,
09:26que têm impacto na cesta de consumo dos americanos,
09:32mas, realmente, para a formação de preços, na verdade, houve a percepção de que, se você teve oscilação na alíquota,
09:45mas isso não é algo permanente e, consequentemente, não tem efeitos mais fortes sobre a formação de preço
09:53e, nesse sentido, as expectativas inflacionárias arrefeceram um pouco em relação àquele imediato pós-tarifácio.
10:04Há, sim, um problema de credibilidade na política comercial, mas isso é uma outra questão.
10:11O impacto sobre a inflação foi bem menor do que aquele que foi inicialmente projetado.
10:17Muito bem, Gésner Oliveira, professor de Economia da FGV e sócio da Gol Associados.
10:23Muito obrigado por você, por essa participação aqui com a gente, essa manhã.
10:27Bom dia e bom resto de carnaval para você, Gésner.
10:30Um ótimo dia, um ótimo carnaval para vocês e para todos os espectadores aqui da Times Brasil.
10:35Um ótimo dia, um ótimo dia, um ótimo dia.
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