00:00...no repercutir também com as entidades da indústria em relação ao fim da jornada 6x1.
00:04A gente conversa agora ao vivo com José Veloso, presidente da Abimac.
00:08Presidente, seja muito bem-vindo aqui ao Jornal Jovem Pan e uma boa noite para o senhor.
00:13Boa noite, é um prazer estar com vocês aqui. É uma grande alegria, estou aqui à disposição.
00:19Presidente, gostaria de começar essa discussão porque a gente vem conversando ao longo de todo o dia
00:23com muitos parlamentares, né, que têm diferentes visões sobre esse mesmo assunto
00:28em relação também ao fim da jornada 6x1. A Denise trouxe aqui, inclusive, uma explanação
00:33sobre os prejuízos que isso poderia causar também em caso da aprovação, pelo menos,
00:38da proposta que está sendo estudada e discutida. Mas eu gostaria de abordar um outro assunto.
00:42É possível, ou pelo menos é essencial, discutir a redução da jornada de trabalho
00:47com o aumento da produtividade? São dois assuntos que precisam caminhar juntos?
00:51Sem dúvida. O Brasil só poderia estar discutindo esse assunto da redução de jornada
00:57e também da proibição da escala 6x1 se tivéssemos tendo ganhos de produtividade no trabalho.
01:05Esse é um grande nó. A produtividade no Brasil, ela vem caindo fortemente nos últimos anos.
01:13Se a gente voltasse a mais ou menos 15 anos atrás, a produtividade do trabalho no Brasil
01:19estava mais ou menos em torno de 50% a 60% da produtividade do trabalho lá nos Estados Unidos.
01:26Hoje nós somos um terço da produtividade lá. Eu falo Estados Unidos porque os Estados Unidos
01:30é uma referência na Peno World Table, que é a convenção, quando a gente fala em produtividade do trabalho.
01:38Outra coisa, a produtividade do trabalhador brasileiro, hoje, ela ocupa a centésima posição no mundo.
01:46E quando a gente olha a produtividade da hora trabalhada no Brasil, o Brasil está na posição 91.
01:52Então o Brasil tem uma baixíssima produtividade e não deveria estar discutindo essa discussão agora
01:59da redução de jornada. Só para explicar para o seu ouvinte o que é essa produtividade, eu explico.
02:06Não é que o trabalhador brasileiro trabalha menos.
02:09Imagina que eu tenho uma indústria que fabrica o garrafa PET, garrafa de água PET.
02:15E eu tenho uma máquina na minha indústria que ela produz mil garrafas por dia.
02:22E uma outra empresa, ela tem uma outra máquina, uma máquina mais antiga, antiquada,
02:30que ela produz 300 garrafas por dia.
02:33Ora, a produtividade dessa empresa é um terço da produtividade da anterior.
02:39Por quê? Por falta de investimento na produção.
02:43E o Brasil tem baixa taxa de investimento, faz muito tempo.
02:47Hoje nós temos uma taxa de investimentos apenas 17% do PIB no Brasil,
02:52em função dos outros problemas da economia, entre eles o custo de capital, carga tributária e etc.
02:58Então o Brasil tinha que estar discutindo uma agenda de competitividade,
03:03para com isso melhorar nossa produtividade e aí discutir redução de jornada.
03:08Mas não na atual situação que nós estamos.
03:11José Veloso, boa noite.
03:13Eu há pouco estava mostrando os dados que o senhor me passou em relação a setores
03:17que já trabalham abaixo dessas 44 horas semanais.
03:21Nesses setores, de que forma que se deu ajuste?
03:23Foi ganho de produtividade, porque esse é um problema de todo o país,
03:27inclusive pela formação da mão de obra que nós temos no país,
03:30a questão educacional que também foi deixada de lado,
03:33além desses problemas que o senhor citou, carga tributária,
03:36ter o próprio custo de contratação.
03:38Mas como é que houve ajuste nesses setores que já trabalham
03:42abaixo dessas 44 horas, abaixo inclusive das 40 horas semanais?
03:47Olha, é isso que nós defendemos.
03:49é a livre negociação, o grande ganho que nós tivemos na reforma trabalhista de 2017,
03:57prevalecer o negociado sobre o legislado.
04:04Então, se a gente tem um teto flexível, ou seja,
04:08hoje a Constituição, a CLT, fala em 44 horas semanais,
04:12mas ela permite a negociação.
04:14Então, setores da economia, aqueles setores que têm mais produtividade,
04:18que tiveram mais investimento, a economia brasileira é muito grande.
04:22E na economia nós temos indústria, temos agricultura, temos serviços,
04:26temos também o comércio, que é o que vai sofrer mais.
04:29Então, nós temos uma diversidade muito grande,
04:31até mesmo dentro da indústria.
04:33Por exemplo, quando a gente pega a indústria do agro,
04:36a agroindústria, ela tem uma produtividade maior.
04:39Então, se você tem a liberdade da negociação,
04:42aqueles que podem negociar, eles reduzem a carga tributária.
04:47Mas dentro de uma negociação, uma negociação coletiva ou individual,
04:52empresa a empresa.
04:53Agora, uma empresa que ela tem uma condição melhor,
04:56e que o custo da mão de obra influi menos no preço do produto final,
05:02ela pode negociar.
05:03Vou dar um exemplo aqui, Denise.
05:05Por exemplo, vamos pegar uma fábrica de automóveis.
05:07Uma fábrica de automóveis tem uma grande automação.
05:10Então, o valor da mão de obra, dentro do preço de um automóvel, é menor.
05:15Vamos pegar, por exemplo, um processo que a gente tem uma grande escala de produção,
05:21por exemplo, um semi-manufaturado, onde a mão de obra influi menos.
05:26Então, vamos pegar um produto que a mão de obra, por exemplo,
05:28influa 6% no custo total do produto.
05:32Essa empresa, ela pode negociar com seus trabalhadores condições mais vantajosas
05:38e diminuir a carga tributária, a carga de trabalho, desculpa.
05:42Vamos pegar o caso da indústria de máquinas.
05:44Na indústria de máquinas, o custo da mão de obra é de 25% a 30% do valor da máquina.
05:50Se eu vou reduzir a jornada de 40% para 44% e ter um aumento de 10%
05:56na necessidade de contratação de nova mão de obra,
06:00e isso influi 30% no valor do meu produto,
06:04ele vai ser 3% a mais no custo de uma máquina nova.
06:08Então, existe...
06:09Aí, Denise, o que responde a sua pergunta é
06:11produtos que tenham mais, seja mais intensivos na mão de obra
06:15e produtos que sejam menos intensivos na mão de obra.
06:18Agora, o que nós não podemos fazer é colocar na lei
06:21que todo mundo vai ter que diminuir a carga tributária,
06:24principalmente o setor de hotelaria, turismo, bares, restaurantes.
06:28Isso vai ter um aumento de custo e vai ser passado para a inflação.
06:32Então, nós defendemos a livre negociação
06:34e a possibilidade de acordos coletivos ou individuais
06:38reduzindo a carga, que é o que acontece hoje no Brasil.
06:42Perfeito, presidente. Muito obrigado pela sua participação.
06:45Bom te receber, te ouvir e também, é claro, ouvir e também entender
06:49as demandas dos diferentes setores.
06:51Muito obrigado. Uma excelente terça-feira para o senhor.
06:54Eu que agradeço. Estou sempre à disposição de vocês.
06:57Bom, Denise, inclusive eu quero chamar uma arte que a gente preparou da Fiesp,
07:02que tem vários setores da economia começaram a se manifestar,
07:05mostrando preocupação com essa proposta que tramita no Congresso.
07:09e aqui a entidade traz mais informações, dizendo que manifesta a preocupação
07:13com a forma como o debate acerca da escala 6x1 vem sendo conduzido.
07:18E abre aspas.
07:19O engençamento da jornada por via constitucional,
07:22sem considerar as especificidades de cada setor,
07:25compromete a autonomia de empresas e também de trabalhadores.
07:29Fecha aspas, então, né?
07:30A manifestação da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo,
07:34muito importante também, para a gente entender o cenário em relação à indústria,
07:37que eram os setores que estavam aí com uma maior preocupação em relação ao fim da jornada.
07:41E para fecharmos, essa mesma nota da indústria ainda acrescentava
07:45que há riscos de pressões inflacionárias,
07:48de sustentabilidade das pequenas e médias empresas,
07:51que têm menos margem para trabalhar com esse aumento de custo de mão de obra,
07:56retração da economia e cortes do emprego com informalidade.
07:59Seria a redução daquele trabalhador registrado, CLT, pela informalidade,
08:04inclusive com alguns dribles permitidos pela própria legislação,
08:07como contratação de mês.
08:09Então, são os riscos colocados aí da redução da jornada.
08:12Perfeito, Denise.
08:13Obrigado.
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