00:00E Kevin Walsh, indicado pelo presidente Donald Trump para ser o próximo líder do Banco Central dos Estados Unidos,
00:06ainda precisa de aprovação do Senado americano.
00:09Jerome Powell, o atual mandatário, deixa o cargo em maio.
00:13E Trump, não vê a hora, né?
00:15Simples anúncio do nome pela Casa Branca, já provocou impactos no mercado.
00:20Ouro, prata, petróleo e metais industriais desabaram no início dos negócios desta segunda-feira
00:26e arrastaram profundo as bolsas asiáticas.
00:29Eu vou ter uma conversa sobre todas essas implicações da chegada de Kevin Walsh ao Federal Reserve
00:34com o economista e sócio da Dom Investimentos, Thiago Calestini.
00:38Tudo bem, Thiago? Bom dia. Seja bem-vindo ao Real Time.
00:42Muito bom dia, Natália. Super obrigado por me ter aqui.
00:45Obrigada a você pela disponibilidade.
00:48Agora, me diz uma coisa, tudo isso que eu mencionei de alterações aí na rota,
00:53de quedas de valores aí, de vários ativos,
00:57tudo isso a gente pode colocar na conta de Kevin Walsh mesmo, dessa nomeação?
01:02Olha, eu acredito que é mais um gatilho, né?
01:05A gente sabe muito bem como esses ativos que você mencionou, prata, ouro, petróleo,
01:10eles iniciaram um rali, principalmente ali no meio para o final de janeiro,
01:14todos eles baseados no tal do dólar debasement, nesse trade do dólar debasement.
01:21O que era isso?
01:22O principal receio que o mercado tinha era do Trump colocar um possível banqueiro central
01:28que se sucumbisse aos caprichos dele para ele poder baixar juros
01:32ou deixar a moeda ainda mais fraca do que ela já está.
01:36E o mercado ficou bastante preocupado, os investidores pensaram assim,
01:40olha, eu sei que nós sabemos que as empresas que estão listadas na Bolsa Americana
01:44são as empresas mais produtivas do mundo, são as empresas mais valiosas do mundo.
01:48Eu quero ter essas empresas no meu portfólio de investimento.
01:51Mas eu não quero ter o dólar, porque eu não sei se o dólar representa mais a segurança que ele representa,
01:57porque, ao que tudo indicava, uma indicação do Kevin Hassett,
02:02que era o favorito do Trump para o Banco Central, poderia minar tanto a independência do Banco Central
02:09perante o governo, quanto o dólar como reserva de valor global, Natália.
02:13É interessante você ter mencionado isso.
02:17E vamos lá, não é para todo mundo que essas coisas são óbvias,
02:21então eu vou te pedir para a gente traduzir, explicar, para deixar toda a audiência na mesma página.
02:26Como é que pode o presidente Trump querer um dólar menos forte ou mais fraco?
02:31Por que isso faz sentido como estratégia?
02:34Bacana. Logo no começo do mandato do Trump, acredito que ali em meados de janeiro de 2025,
02:41ele fez um acordo não verbal que ficou conhecido como Acordo de Mar-a-Lago.
02:46Lembrando que Mar-a-Lago é o resort que ele tem lá na Flórida.
02:49O que ele queria com esse acordo?
02:51Esse acordo foi todo um esforço do Estado norte-americano de enfraquecimento do dólar,
02:55porque o Trump queria atrair novamente as indústrias para os Estados Unidos.
03:00Por que ele quer enfraquecer o dólar, então, para fazer o tal do reshoring,
03:04colocar as indústrias de novo em território americano?
03:07Porque quando a gente tem um país que é exportador e a moeda desse país,
03:11no relativo às outras moedas, ela fica mais desvalorizada,
03:16então a gente tem um ganho nos termos de troca perante as exportações que esse país quer fazer.
03:22Se eu quero comprar uma máquina dos Estados Unidos,
03:24se o dólar está mais fraco, obviamente,
03:27essa máquina chega mais barata para mim no mercado internacional.
03:30Então, o que o Trump queria fazer desde o começo do mandato,
03:32isso não era novidade para ninguém,
03:34era esse esforço de desvalorizar o dólar com o intuito dos americanos se reindustrializarem.
03:39Então, em vez de manter uma fábrica na China
03:42e essa fábrica na China devolve os produtos para os americanos depois que eles revendem,
03:46o que o Trump queria,
03:47e isso foi inclusive uma das bandeiras do mandato dele,
03:51trazer de volta toda essa produção fabril para os Estados Unidos
03:54e um jeito de você estimular isso é desvalorizando a sua moeda
03:57para que você ganhe competitividade no mercado internacional.
04:01E o Kevin Walsh, é o cara, Thiago, para fazer isso?
04:06Olha, ao que tudo indica, o mercado deu uma torcida de nariz,
04:10porque, de novo, por que o ouro e a prata, principalmente,
04:14eu nem vou falar muito aqui do petróleo,
04:15porque o petróleo é uma comodidade que tem outras forças envolvidas,
04:19como, por exemplo, os poderes da OPEP.
04:23Então, eu não vou muito focar nele,
04:25mas vamos falar mais da prata e do ouro.
04:28A prata e o ouro são commodities metálicas
04:31que geralmente vão bem em, basicamente, dois cenários.
04:35Ou quando a gente tem um cenário de desequilíbrio geopolítico,
04:38de instabilidade,
04:39ou quando os investidores não estão tão confiantes assim
04:42na fortaleza do dólar,
04:43que é exatamente a dúvida que foi levantada
04:45depois dos acordos de Mara Lago em janeiro de 2025.
04:49Com a indicação do Kevin Walsh,
04:52o que o mercado pensou foi o seguinte,
04:54o mercado estava no visor,
04:56estava na visão que quem seria indicado seria o Kevin Hassett,
04:59que já falou todas as menções que ele fazia perante
05:02a mesa do Banco Central a cada decisão de juros.
05:07Esse cara que o Trump indicaria, o Kevin Hassett,
05:09falou que cortaria os juros.
05:11Então, o mercado falou,
05:11bom, ele está bem inclinado a fazer o que o Trump quer que ele faça.
05:15Já o Walsh, não.
05:17Além de ser um nome que não era ventilado pelo próprio presidente americano,
05:22ele pareceu ser uma pessoa com uma postura muito mais hawkish,
05:26ou seja, muito mais não tolerante perante a inflação e desvalorização da moeda
05:31do que a primeira indicação que o Trump faria.
05:33Foi por isso que o mercado deu essa torcida de nariz
05:35e os metais derreteram como derreteram.
05:37E aí, Tiago, o Powell fica no cargo até maio,
05:42mas essa indicação de Kevin Walsh ainda tem que passar pelo Senado,
05:46depende dessa aprovação.
05:49Como é que deve ficar a comunicação do FED,
05:51a expectativa de cortes de juros daqui para frente?
05:55Olha, Natália, quando a gente olha para o mercado,
05:57então, a gente teve desão de política monetária na semana passada,
06:02foi feita a manutenção lá, inclusive a manutenção no Brasil também,
06:05e quando a gente olha para o monitor aqui do FED,
06:09então, tem uma tela aqui que nós aqui da Dom olhamos sempre,
06:12que são as probabilidades implícitas do que o FED vai fazer
06:15nas próximas reuniões, e a gente consegue ter uma noção
06:19até o final do ano, inclusive,
06:21a gente vê que o primeiro corte de juros,
06:24segundo os participantes do mercado lá nos Estados Unidos,
06:27é mais provável que ele aconteça em junho,
06:30então, no final do primeiro semestre,
06:32é o que está precificado hoje nos ativos,
06:34um corte de 0,25 pontos percentuais na taxa por lá.
06:39Eu não acredito que essa nomeação
06:42deva mudar muito isso,
06:45mantidas as demais variáveis constantes.
06:47Lembrando que, depois de toda a reunião do FONC,
06:51tem a conferência de imprensa,
06:53onde o pau é sabatinado,
06:54esse decoro já é bastante conhecido,
06:57e o que ele deixa sempre frisado,
07:00depois de toda a reunião,
07:01é que a decisão de juros e a decisão do FED é extremamente técnica,
07:06e ele frisa que é data-driven,
07:08então, assim, a decisão é 100% pautada em dados técnicos macroeconômicos
07:14da economia americana.
07:16Uma mudança de banqueiro central,
07:19teoricamente, não deveria alterar esse caminho,
07:22esses dados macro da economia americana,
07:23dado que a economia sempre trabalha com um atraso,
07:27então, você faz uma política monetária hoje,
07:29ela demora um tempo até a gente entender os efeitos dela nos dados.
07:34Eu não acredito que a nomeação do Kevin Walsh,
07:37caso a sabatina seja feita e aconteça tudo conforme programado,
07:40deva mudar muito essa probabilidade de corte no meio do ano.
07:45Tiago, eu quero te ouvir sobre como que isso impacta na economia aqui do Brasil,
07:49mas antes, estava aqui pensando e queria te ouvir,
07:52você faria algum paralelo entre, assim,
07:55claro que Donald Trump quer que os juros caiam,
07:58o presidente Lula aqui também,
08:00e aqui a gente já teve a sinalização por parte do Banco Central,
08:03mas o Gabriel Galípolo daqui,
08:06em relação a Kevin Walsh lá, perante Trump,
08:09qual é o paralelo possível que você traria entre essas figuras,
08:13as relações e as expectativas em torno de cada uma?
08:16Aparentemente, são dois banqueiros centrais bem pouco lenientes com relação à inflação.
08:23É claro que o banqueiro americano tem um conforto a mais do que o banqueiro brasileiro,
08:29por quê?
08:30Como a economia americana é muito produtiva,
08:33então a gente consegue manter um nível de desemprego baixo,
08:38porque como os americanos ofertam muito bem bens e serviços,
08:42quando a população tem muita renda disponível para o consumo,
08:46esse consumo não causa tanta pressão nessa cesta como aqui no Brasil.
08:51Nós aqui no Brasil temos um nível de produtividade muito menor,
08:54então caso a gente tiver um banqueiro central que é bem pouco leniente,
08:59ele quer deixar a inflação na meta, não importa como,
09:03a gente diz que ele pode se colocar numa situação de vitória de pirro,
09:08porque ele até consegue colocar a inflação na meta,
09:11mas a que custo?
09:12Às vezes deixando até o desemprego em níveis extremamente nefastos para a economia do país.
09:17Então a principal diferença de dinâmica ao fazer política monetária entre os países
09:23é que a gente está lidando no final da conta com o mesmo parâmetro que a inflação,
09:30mas a ponderação dessa conta é bem diferente.
09:33De um lado a gente tem a maior economia do mundo,
09:36a dona da impressora do dinheiro e o país mais produtivo no mundo também,
09:41e do outro lado a gente tem o Brasil com uma economia muito mais enrijecida
09:45e que se a gente tiver um banqueiro central aqui muito pouco leniente à inflação,
09:50obrigatoriamente ele precisa aceitar um nível um pouco maior de desemprego
09:54para manter esses preços bem comportados.
09:56E, bom, a gente sabe o peso do FED para a economia global aqui no Brasil,
10:02tudo que se refere ao FED mexe com dólar, bolsa, fluxos de capital.
10:05Então essa indicação, como é que ela pode influenciar o nosso mercado aqui
10:10e o BC a ajustar o Copom?
10:15O que você antevê de peso da indicação do Kevin Washington nas decisões aqui do Brasil?
10:21Bom, é sabido que a gente está vendo um dólar bem desvalorizado,
10:28um real bem apreciado,
10:29e isso desde a gente observou esse movimento de apreciação do real
10:34e das outras moedas emergentes ao longo de 2025,
10:37e ficou claro para a gente que esse movimento foi de 60% a 70% explicado
10:42por ventos internacionais.
10:44O Brasil não fez o dever de casa com relação às questões fiscais
10:48para a gente ter essa percepção de melhora com relação aos investidores estrangeiros
10:53e, por isso, a nossa moeda subiu.
10:55Na verdade, não foi o real que se valorizou,
10:57foi o dólar que se depreciou frente a todo mundo.
11:00Então, quando a gente vê um banqueiro central americano
11:03menos leniente com a inflação, menos tolerante com a inflação,
11:09com certeza esse banqueiro central vai fazer uma política monetária um pouco mais agressiva
11:14ou cortando menos os juros do que o mercado eventualmente precificava
11:18ou, eventualmente, até mantendo ou subindo, caso isso for necessário.
11:23Independente de qual for o caso,
11:24um banqueiro central menos leniente com a inflação nos Estados Unidos
11:27significa, no final da conta, um dólar mais forte.
11:31E como nós, aqui do Brasil, podemos navegar
11:35o que o Banco Central tem, quais as armas que o Banco Central tem
11:37para poder controlar esse dólar.
11:39O dólar está, de novo, nesse patamar super desvalorizado perante o nosso real.
11:45Um dos motivos, eu brinco aqui no escritório,
11:48que eu digo que o Brasil exporta três coisas.
11:51O Brasil exporta commodities, jogador de futebol e juros.
11:54E o que o estrangeiro mais gosta do Brasil dessas três exportações
11:59são os juros.
12:00Então, o juro brasileiro é tão alto e tão bom
12:03que até os gringos vêm aqui e gostam de aproveitar.
12:05Então, o americano, ele vai lá, ele faz uma dívida em dólar a 3,5,
12:09chega com o dinheiro aqui e investe a 15% no ano.
12:13Então, uma boa parte da explicação do porquê que o nosso real também está valorizado
12:17é que o diferencial dos nossos juros perante os juros dos Estados Unidos
12:21ele está muito gordo, ele está muito grande.
12:23Isso faz com que a nossa moeda fique bem comportada.
12:26De novo, se a gente tiver um banqueiro central americano mais agressivo,
12:29esse diferencial tende a diminuir e aí se o dólar aqui se descontrolar
12:34ou não se comportar tão bem quanto o nosso banco central acha que ele deveria,
12:39o banco central tem reservas em dólar, a gente pode fazer leilões de linha,
12:42temos contratos de swaps que a gente também pode fazer para manter a moeda comportada.
12:47Mas o fato é que enquanto a gente tiver esse diferencial entre Selic aqui no Brasil
12:51e Fed Funds, que é a Selic americana lá nos Estados Unidos,
12:54enquanto esse diferencial estiver gordo, nós ainda vamos atrair bastante dólares
12:59dos Estados Unidos e do restante do mundo para cá.
13:01Tiago Calestino, economista, sócio da Dom Investimentos,
13:05muito obrigada pela participação nessa segunda-feira ao vivo.
13:07Eu que agradeço.
13:08Tchau, tchau. Até mais.
13:09Tchau, tchau.
13:09Tchau, tchau.
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