00:00O Fórum Econômico Mundial acabou na última sexta-feira e um dos temas que ganhou destaque este ano foi a segurança energética
00:08e uma possível reorganização geopolítica pelo mundo, cujo tema principal de orientação será a energia.
00:16E no meio de tudo isso o Brasil aparece como um player estratégico, por ter abundância de recursos naturais,
00:23mas também passa a enfrentar riscos geopolíticos.
00:27O pesquisador do Instituto de Pesquisa e Engenharia da UFRJ e vice-presidente de Sustentabilidade da MIT Tech Review Brasil, Hudson Mendonça,
00:41está aqui ao vivo para conversar conosco no Fast Money e comentar mais sobre esse assunto.
00:49Hudson, seja muito bem-vindo à nossa programação, em especial aqui no Fast Money.
00:54Vamos voltar um pouco, nós acompanhamos aqui com riqueza de detalhes as discussões em Davos,
01:02o Fórum Econômico Mundial durou uma semana inteira na semana passada, a gente já sabia que a questão da energia seria fundamental
01:09e nós temos um elemento maior agora, nessa terceira década do século XXI, a inteligência artificial, os mega data centers que consomem muita energia.
01:21Sim, a energia passa a ser um ativo importante na geopolítica, a gente está vendo essa disputa entre China, Estados Unidos, Rússia,
01:30Groenlândia que entra no meio por causa de minerais que são muito importantes para a produção de energia.
01:35Vamos começar pelo Brasil, Hudson. Nós temos uma matriz energética limpa, renovável, mas a gente ainda tem muitos gargalos de infraestrutura,
01:46algo que a gente arrasta na nossa história recente. Como é que o Brasil se reposiciona a partir agora de 2026 nessa questão?
01:53Temos muito a fazer de infraestrutura, porém temos um recurso importante.
01:58Que posição o Brasil passa a ter geopolíticamente com essa, vou chamar assim, carta na manga?
02:04Obrigado por participar aqui da nossa programação, ótima segunda-feira.
02:09Obrigado, Marcelo.
02:11Acho que o Brasil tem uma oportunidade única na história, que é esse momento da junção dos dois mundos.
02:19Essa disputa geopolítica geralmente ou é puxada pelos ativos estratégicos, espaço, não é de hoje,
02:29está falando de disputa energética aqui, puxada pela alta demanda dos data centers da IA,
02:34mas isso já acontece no Oriente Médio há muito tempo, a disputa do petróleo, de outros ativos energéticos,
02:39do carvão na época da Revolução Industrial.
02:41Então você realmente tem essa disputa do contexto de energia há muito tempo.
02:46E o Brasil apostou em diversos momentos da sua história, quando fez a Itaipu, as grandes hidrelétricas,
02:53quando fez o Proalco, em ter uma matriz renovável antes disso ser uma grande realidade,
02:57um grande ponto para a discussão como a gente viveu hoje.
03:01Então a gente tem uma posição muito privilegiada.
03:03A nossa matriz elétrica é 90% limpa, é o triplo da média mundial, que é 30%.
03:09O investimento da matriz energética total, e aí entra transportes, gasolina,
03:13por causa do etanol, é 50% limpo, mais do que o triplo da média mundial.
03:18Então a gente já é muito limpo e a gente pode escolher qualquer caminho possível que quiser crescer.
03:22A gente tem muito sol, a gente tem muito vento, a gente tem muita biomassa para fazer,
03:26biodiesel, etanol, biogás.
03:28Então a gente tem uma possibilidade de escolher, inclusive petróleo,
03:31a gente tem bastante agora com a margem equatorial, abre uma possibilidade grande.
03:35Então a gente tem, é um país de dimensões continentais, já muito limpo,
03:39com energia abundante para crescer para onde quiser.
03:41Então isso faz com que o Brasil tenha uma posição literalmente única no mundo.
03:46A gente trouxe para cá, para o Brasil, o Energy Summit, que é o maior evento do MIT no mundo,
03:50por causa disso.
03:51O MIT olhou para a gente e falou assim, ali vai ser o lugar que a gente vai discutir o futuro da energia.
03:56E no meio de uma guerra geopolítica como essa, a gente pode negociar com os dois lados
04:00e tomar vantagens estratégicas nesse momento.
04:03Claro que sim, só espero que o Brasil não perca esta oportunidade.
04:08Hudson, deixa eu só fazer a título de comparação, sair mais da teoria, entrar na prática,
04:15porque a gente tem visto grandes nações, Estados Unidos, China, Índia,
04:21parte da Europa Ocidental, da União Europeia, buscando aí essa criação dos grandes data centers.
04:28Isso vai ser uma tônica agora desse século e uma disputa por locais favoráveis para a instalação desses data centers,
04:39com duas questões.
04:41Primeiro, você precisa de refrigeração, porque eles consomem, geram muito calor e consomem muita energia.
04:50O Brasil entra numa parte favorável de geração de energia limpa.
04:55Então, por exemplo, a gente tem visto aí um plano de data centers no Nordeste brasileiro, no Ceará,
05:02justamente pela facilidade de gerar a eletricidade pela energia eólica.
05:07Mas vamos ter um problema de resfriamento, porque o quão calor é o Nordeste brasileiro dispensa apresentações.
05:16A partir de uma suposta instalação de um mega data center no Ceará,
05:21a gente passa a exportar os dados gerados por esse data center.
05:25Legal.
05:26Já entendemos a função brasileira, as vantagens para um recorte.
05:31Data centers.
05:32Que outros serviços nós poderíamos executar com essa mesma possibilidade,
05:39com essa mesma vantagem, que não fosse, por exemplo, geração de informação data centers.
05:49Hoje, sobre os data centers, acho que é importante dizer que o gargalo do crescimento da IA
05:54não é o software, são as infraestruturas.
05:59E dentro da infraestrutura, o sistema de refrigeração já foi razoavelmente resolvido.
06:03Ainda demanda muito, porque hoje as tecnologias usam circuito fechado.
06:07Ou seja, você usa a mesma água para refrigerar, não se chama de ar-condicionado que a gente tem em nossa casa,
06:12o ar-condicionado captura e joga para fora, desperdiça aquela água.
06:16Já está sendo moderno, tem circuito fechado, você reaproveita aquela água.
06:19Então, a demanda por água é menor e, consequentemente, resolve.
06:23Então, a variável-chave é a energia.
06:24Como eu disse, a gente tem energia abundante para qualquer tipo de demanda.
06:29A gente está tendo no Nordeste, curteio, a gente tem sobra de 40% de energia.
06:32A gente não tem ainda a infraestrutura, acho que é um ponto que você mencionou,
06:35de baterias para estabilizar o fornecimento desse tipo de energia.
06:40E essa energia pode ser usada para qualquer coisa.
06:42A disputa que a gente tem de pano de fundo, que a gente viu aí da Geopolítica,
06:46Terras Raras, etc.
06:48Toda indústria demanda antes de energia em grande quantidade.
06:51A gente fala, brincando, que quando a gente toma a decisão de comprar um veículo flex
06:56ou um veículo 100% elétrico com híbrido, gasolina e elétrico,
07:01no fundo, o fundo está dando, tomando a decisão de aumentar a ação da empresa de petróleo
07:06ou da de energia elétrica ou da que planta etanol.
07:09Que é uma decisão energética que a gente toma quando tem um consumo de automóvel, por exemplo,
07:13e a mesma coisa acontece com os data centers.
07:15Então, qualquer tipo de demanda, eu acho que os data centers estão muito em voga,
07:20porque é um crescimento muito anormal de demanda.
07:23A gente espera, até 2030, triplicar o consumo elétrico global através dos data centers.
07:29Hoje, se você colocasse todos os chips comprados pelos Estados Unidos em operação,
07:33você não ia ter energia suficiente para colocar isso hoje em operação.
07:37Então, eu acho que, em termos de oportunidades,
07:39eu acho que todas as indústrias que demandam muita energia,
07:42e as tradicionais, química, siderurgia, as montadoras,
07:47essa montagem da eletrificação vai mudar a maneira que você consome a energia do mundo,
07:50o Brasil pode aproveitar todas.
07:52Acho que a gente tem a nossa grande vantagem e a nossa grande preocupação
07:57que a gente precisa ter é ter um ambiente jurídico apropriado
08:01para investimentos de longo prazo.
08:02Eu acho que esse é um ponto que, às vezes, não é mencionado,
08:05mas os investimentos em produtos energéticos são investimentos de longuíssimo prazo.
08:09Ter essa segurança é alguma coisa que tira um pouco da nossa competitividade
08:14de vez em quando, já que os investidores internacionais
08:17têm alguns receios de algumas mudanças inesperadas em regulação.
08:21Mas, por enquanto, a gente está indo num caminho muito bom.
08:24As regulações são totalmente favoráveis à transição energética,
08:27a investimento, pesquisa e desenvolvimento nessa área.
08:29O próprio Redata é uma regulação super importante.
08:32O P&D Anel e a ANP são investimentos em pesquisa.
08:35A gente está indo na direção correta
08:36e precisamos garantir que esses investimentos venham pra cá.
08:40Excelente ponto, até porque é uma informação fundamental
08:42para quem faz planejamentos de investimento no mercado especulativo,
08:47por exemplo, de médio a longo prazo.
08:50Quer dizer, algo que acontece agora,
08:52porque a gente manter uma visão de futuro um pouco mais distante.
08:56Hudson Mendonça, queria agradecer muito a conversa que nós tivemos aqui,
08:59pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro
09:01e VP de Sustentabilidade do MIT Tech Review Brasil.
09:07Hudson, obrigado mais uma vez.
09:09Espero que a nossa próxima conversa seja em breve.
09:13Obrigado, Marcelo.
09:15Até a próxima.
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