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Em nota divulgada na quinta-feira, 22, o presidente do STF, Luiz Edson Fachin, saiu em defesa do ministro Dias Toffoli, ao comentar a atuação do colega no caso Master.
Duda Teixeira, Madeleine Lacsko e Leonardo Corrêa comentam:
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NotíciasTranscrição
00:00O presidente do STF, Luiz Edson Fachin, saiu em defesa do ministro Dias Toffoli ao comentar a atuação do colega no caso Master.
00:11Eu vou ler agora alguns trechos da nota assinada por Fachin que foi divulgada na quinta-feira.
00:18Abre aspas.
00:20O Supremo Tribunal Federal não se curva a ameaças ou intimidações.
00:25Quem tenta desmoralizar o STF para corroer sua autoridade a fim de provocar o caos e a diluição institucional está atacando o próprio coração da democracia constitucional e do Estado de Direito.
00:46Acho que a gente tem isso.
00:47Mais um trechinho.
00:48O Supremo age por mandato constitucional e nenhuma pressão política, corporativa ou midiática pode revogar esse papel.
01:01Defender o STF é defender as regras do jogo democrático e evitar que a força bruta substitua o direito.
01:10A crítica é legítima e mesmo necessária.
01:18Não obstante, a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições para proteger interesses escusos ou projetos de poder.
01:30E o STF não permitirá que isso aconteça.
01:34A gente separou também um tweet do Gilmar Mendes que elogiou a decisão da PGR de arquivar o pedido de afastamento de Toffoli no caso Master.
01:47Abre aspas então para Gilmar Mendes.
01:51A decisão da PGR de arquivar o pedido de afastamento do ministro Dias Toffoli evidencia o funcionamento regular das instituições da República.
02:02Em um estado de direito, a preservação do devido processo legal e a observância das garantias institucionais
02:09constituem condições essenciais para a estabilidade democrática e para a confiança da sociedade nas instituições.
02:15Decisões fundadas em critérios jurídicos, objetivos, afastadas de pressões circunstanciais,
02:21fortalecem a segurança jurídica e reafirmam a maturidade institucional do sistema constitucional brasileiro.
02:29Fecha aspas.
02:31Bom, para comentar a nota do Fachin, o tweet do Gilmar e falar de outros assuntos também,
02:37a gente convidou aqui o Leonardo Corrêa, que é advogado, sócio da 3C Law e também presidente do Instituto Lexum.
02:47Leonardo, tudo bem? Boa noite. Obrigado por aceitar nosso convite.
02:51Boa noite. Obrigado.
02:53A Lexum é uma associação.
02:55A Lexum, tá bom.
02:58Ela é uma associação, não é um instituto.
03:02Ah, entendi.
03:03É menina.
03:05É menina.
03:06É menina.
03:09Leonardo, queria começar pela nota do Edson Fachin de ontem,
03:13porque ali dá a impressão de que ele diz ali,
03:17meio que todas as críticas ao STF são contra a democracia e contra as instituições.
03:24Parece que a gente já ouviu essa história antes, né?
03:27É, eu acho que a gente tem que dar um passo atrás.
03:29Qual o passo?
03:30O que é democracia?
03:32Democracia está lá no artigo primeiro, o parágrafo único da Constituição,
03:35fala que todo poder emana do povo.
03:37Quem é esse povo?
03:38Esse povo é cada um de nós individualmente.
03:40Então, a Constituição existe pra quê?
03:44Existe pra governar aqueles que nos governam.
03:48Aqueles que nos governam, leia-se, o Executivo, o Legislativo, o Judiciário,
03:54todos os que estão tocando o poder no país.
03:58Ela é um instrumento de contenção de poder.
04:01Então, a gente precisa ter isso em mente pra analisar a questão.
04:07O ministro Fachin diz que pra defender a democracia,
04:11ele estaria defendendo ali a corte, mistura a corte com a própria democracia e a própria Constituição.
04:17Eu acho que a gente tem que separar essas coisas.
04:19Não dá pra trabalhar tudo junto.
04:21Tem que entender que a corte e as pessoas que estão na corte nesse momento,
04:25elas exercem um poder para nós.
04:29Nós.
04:29Eles são nossos agentes no final da análise da situação como um todo.
04:35Eles são agentes do povo, agentes de nós, o povo.
04:38Então, a gente tem que respeitar o texto da Constituição.
04:41Todas as críticas que foram feitas na mídia recentemente
04:44não me parecem serem críticas de aloprados ou qualquer coisa do gênero.
04:50São notícias que foram veiculadas pelos maiores jornais do Brasil.
04:54Folha de São Paulo, Estado, O Globo, todos estão noticiando.
04:59E o incômodo na sociedade civil com a situação do ministro Dias Toffoli é evidente.
05:04Então, eu acho que o tom da resposta do ministro Fachin me parece a reação
05:11de uma corte que se acostumou equivocadamente a seguir o papel da força
05:18ao invés de seguir o papel do consentimento e do consenso.
05:22A corte tem que parecer correta para a população.
05:25A população precisa ver a corte como a defensora dos direitos,
05:28quem garante que a Constituição vai ser aplicada, tal qual redigida,
05:32respeitando o texto, é isso que a população quer.
05:36E a resposta que o ministro deu, eu lamento profundamente,
05:39porque acho que não foi adequada para o momento que a gente está vivendo.
05:43Ela deveria ter contemplado as angústias da população
05:47ao invés de, aparentemente, defender ela por si mesma.
05:52Os membros da corte sendo defendidos por quem estão na corte,
05:57basicamente não pelas suas efetivas condutas.
06:00Leonardo, a gente vê aqui essa confusão em que o STF tenta personificar
06:09o que seria a democracia.
06:13Eu trabalhei na comunicação de lá, eu vejo essa nota do ministro Fachin
06:17mais como um ato de desespero do que com qualquer coisa lógica
06:23ou de satisfação à população.
06:25Você aqui, você é da área do direito, você é presidente da Lexo.
06:32Você já conseguiu entender o que é que aconteceu no caso Banco Master?
06:38Porque eu vou te falar com toda franqueza, daqui a gente tenta explicar,
06:42mas eu não conheço ninguém que me diga, não, eu entendi, é isso.
06:47É uma coisa sem precedente isso.
06:49São várias coisas sem precedentes que acontecem no Brasil já há um bom tempo.
06:55A gente tem que olhar desde a época da Cruzoé mesmo, que foi censurada no país.
07:01Entre outros julgamentos e inquéritos que são criados
07:04com base no regimento interno do tribunal,
07:07quando a própria Constituição, no artigo 102 e 103,
07:11delimitam a função judicial para o STF,
07:13não investigação, não agir como delegado, nem nada do gênero.
07:18Então não faz o menor sentido.
07:19Mas o caso Master em si é uma sucessão de...
07:25Não há nada que eu possa te dizer textualmente
07:29que há um culpado ou coisa do gênero.
07:31Não vou seguir essa linha.
07:33Mas a aparência é muito ruim.
07:35Então a aparência sendo ruim,
07:36o correto seria o próprio relator reconhecer
07:41o seu impedimento ou suspeição.
07:44Na verdade, o que eu acho pior é que o caso sequer devia estar lá.
07:48Eu não entendo por que o caso do Master está no STF até hoje.
07:53Se a gente for olhar para o passado,
07:55a gente teve outros casos grandes de bancos.
07:57Teve o caso do Banco Nacional,
07:59teve aquela história do Banco Master com o Catiola.
08:03Esses casos não estavam no Supremo o tempo inteiro.
08:05estavam em primeira instância.
08:07E é importante os casos estarem em primeira instância.
08:10Aliás, o STF está constantemente atribuindo para si competências demais
08:16e esquecendo que a função essencial é deixar que o processo cresça,
08:22madureça na primeira instância, no tribunal,
08:26para depois eventualmente chegar lá.
08:28Não tem que ser o tribunal de todas as questões da nação.
08:31Leonardo, e essa frase aqui do texto do Fachin
08:37não é muito estranha,
08:40porque um juiz tem que ser imparcial, certo?
08:43Aí o sujeito escreve uma coisa que é o seguinte,
08:45a história é implacável com aqueles que tentam destruir instituições
08:50para proteger interesses exclusos ou projetos de poder.
08:55quer dizer, ele está meio que ameaçando as pessoas,
08:58sem dizer quem que ele está ameaçando, né?
09:01E desmerecendo as críticas ao Supremo, né?
09:04Como se todas as críticas do Supremo fossem motivadas,
09:08tivessem alguma motivação política.
09:11Não é estranho um juiz sair meio que ameaçando os outros aí,
09:15sem dar nomes?
09:16Não parece meio esdruxo isso tudo?
09:19Eu acho que juiz, para começo de conversa, não deveria adjetivar, né?
09:24Tem muito adjetivo por aí nas decisões e nas falas do nosso Supremo Acorte.
09:31O que é uma pena, porque a acorte mais importante do país,
09:34a guardiã da Constituição,
09:35deveria estar agindo com muito mais serenidade.
09:40Você toca num ponto que eu acho bem relevante,
09:44que é o seguinte, vocês viram aquele filme Gandhi?
09:49Gandhi conta uma história muito interessante, né?
09:52Quando o Império Britânico vai sendo extremo, né?
09:55Usando a força, sem consentimento, sem nada disso, só força.
10:00Ele tem que seguir o caminho da força até o final, não tem mais alternativa.
10:04Então, quem adota o caminho da força,
10:06não consegue mais voltar para o racional do consentimento democrático republicano.
10:13Então, o que eu vejo, até como a Amadá mencionou,
10:18parece que está tudo meio fora da ordem na nota,
10:22é porque é um caminho meio sem volta, aparentemente.
10:25Um caminho em que a corte vai se mantendo a partir do exercício do poder.
10:33E, na verdade, ela deveria estar buscando o consentimento.
10:36É interessante a gente pensar isso sobre a arquitetura constitucional americana,
10:40que tem o princípio da departamentalização.
10:44Então, você tem executivo, legislativo e o judiciário.
10:47Todos eles podem interpretar a Constituição.
10:50E vejam, a Suprema Corte americana,
10:53ela não tem poder de sair cumprindo absolutamente nada.
10:56Ela precisa que as decisões dela sejam aceitas pelos outros poderes
10:59para serem cumpridas.
11:01Então, ela constantemente tenta buscar decisões nesse sentido.
11:06Tem um caso famoso, que é Marbury vs. Madison,
11:09que mostra exatamente isso.
11:11Quando o John Adams estava no final da presidência e indicou vários juízes de paz,
11:16quando assume Thomas Jefferson,
11:19ele fica incomodado, porque ele falou,
11:21ele nomeou juízes na décima hora do governo,
11:25na meia-noite, e eu não posso nomear esses juízes.
11:29E ele não deu a comenda para um deles, que era Marbury.
11:32Marbury entra com a ação direto na Suprema Corte americana,
11:36pedindo para ter o cargo, porque Thomas Jefferson se negou a aceitar.
11:41E, na época, o Chief Justice Marshall recebeu um recado da presidência
11:48dizendo que se a corte mandasse ele cumprir,
11:52ele não cumpriria a decisão da corte.
11:55E o que aconteceu?
11:56Aconteceu que o presidente da corte, o Chief Justice John Marshall,
12:00teve que fazer uma decisão dizendo que o caminho que Marbury escolheu
12:04para discutir a questão era inconstitucional.
12:06Ele teria direito, sim, mas o caminho era inconstitucional.
12:09E dali vem o poder do Judicial Review.
12:12Mas veja, o poder do Judicial Review vem do reconhecimento
12:16de uma limitação do judiciário,
12:18e que o judiciário tem que trabalhar com os demais poderes.
12:21Você está falando da Suprema Corte dos Estados Unidos?
12:29Uma vez, o falecido Justice Anthony Scalia,
12:34quando visitou a Suprema Corte aqui do Brasil,
12:37eu o conduzi, e ele tinha uma análise, Leonardo, de que
12:41a exposição midiática dos nossos ministros,
12:45ministros, isso ele me falou mais de 15 anos atrás,
12:49era algo que teria um efeito muito pesado no que é o poder judiciário.
12:56Eu te admito que eu subestimava na época,
12:59porque a minha imagem pública está aí desde que eu tinha 17 anos.
13:04Então a gente lida diferente.
13:06Mas o que ele dizia é,
13:07quem está sempre no bastidor,
13:10quando ganha o holofote,
13:13a personalidade muda.
13:15Hoje a gente conhece mais nome de ministro do STF
13:19do que de jogador da seleção brasileira.
13:23Você acha que isso tem um peso no funcionamento do judiciário?
13:27Você que conhece os de outros países também?
13:30Eu acho que tem.
13:32Eu não acho que é o principal.
13:33Eu acho que a situação que a gente chegou no Brasil
13:35é muito mais por uma corrente ideológica, jurídica,
13:39em que os princípios são maiores do que os dispositivos legais.
13:42Mas, obviamente, eu concordo com o Nino Scalia.
13:45Nino Scalia foi um grande juiz da Suprema Corte americana,
13:49um grande justice.
13:50Ele tem razão.
13:52E é curioso você estar falando dele agora,
13:55porque me lembra do livro da Amy Coney Barrett,
13:59que eu acabei de ler,
13:59que também é justice da Suprema Corte.
14:02Ela foi clerk do Scalia,
14:04ela trabalhou para ele, quando recém-formada,
14:08e ela, no livro, fala o seguinte,
14:10que eles, como juízes,
14:12têm que estar fora do holofote totalmente.
14:15Ela, por exemplo, não sequer acessa as redes sociais.
14:18Ela tem um código interno entre os assistentes dela
14:21e o marido dela,
14:23para eles só trazem para ela alguma informação
14:25de redes sociais quando é muito relevante.
14:27Fora isso, ela não vê.
14:30E a grande preocupação dela não é nem com as críticas,
14:34é com os elogios,
14:36porque ela acha que o elogio é capaz de levar você
14:38a fazer coisas que você não faria.
14:41Então, ela se preocupa mais com o elogio.
14:44E a Corte americana não tem televisionamento das sessões.
14:48Como é que ela funciona?
14:50Os advogados vão,
14:52fazem a sustentação do seu caso,
14:55em pouco tempo,
14:56e logo em seguida eles são indagados,
14:59questionados pelos justice,
15:00que leram todo o material
15:02e fazem suas perguntas.
15:04E eles não julgam ali.
15:05Eles vão depois deliberar.
15:07Esse momento das perguntas,
15:09sequer é televisionado.
15:10Você tem o áudio disso,
15:12que normalmente é disponibilizado no dia seguinte.
15:15A Corte, para mim,
15:16ela tem que trabalhar meio que
15:18numa forma monástica.
15:20Ela tem que tomar os cuidados
15:22de manter a noção do seu poder
15:26e tomar cuidado com o poder que ela exerce.
15:30E eu acho que realmente no Brasil,
15:32em certa medida,
15:33a TV Justiça prejudicou bastante isso.
15:36Você falou isso do monástico.
15:40Existe também uma extensão
15:42não só para a questão da imagem da vaidade,
15:45como também para a associação com empresas.
15:50Eu me lembro que 10, 15 anos atrás,
15:52a discussão era se um ministro
15:54deveria participar de um evento
15:58que tivesse patrocínio de empresas
16:00que têm causas lá.
16:03Não era o evento da empresa.
16:05Ele estava participando, vamos dizer,
16:06o evento de uma universidade,
16:08que tinha lá grandes bancos,
16:10uma hidrelétrica, não sei o quê.
16:12Havia um debate se isso era apropriado.
16:15Nós já estamos falando do cara andar no jatinho
16:18junto com o advogado da causa que ele está.
16:23Então, assim, essa promiscuidade também
16:25ela deu muito depressa, né, Leonardo?
16:27É, e é bom trazer o exemplo americano
16:32porque o Justice Thomas foi acusado
16:34de ir para a casa de um amigo dele,
16:37usar o jatinho e ir para a casa de um amigo dele
16:39nos Estados Unidos.
16:40Foi um grande escândalo na época.
16:42Mas esse amigo dele não tinha causa
16:43na Suprema Corte americana.
16:46Essa relação dos advogados com os juízes,
16:51para mim, tem que se dar com muito cuidado também.
16:53E aí volta também mais um exemplo
16:56da Suprema Corte americana.
16:58Eu vou pegar de novo o livro da Amy Coney Barrett.
17:00O marido dela é advogado.
17:02Mas ele só pode advogar em trial,
17:06em primeira instância,
17:08quando você tem o júri.
17:09Ele nunca advoga quando é tribunal superior
17:12ou tribunais locais e tribunais superiores.
17:16Então você precisa ter um distanciamento
17:18que tenha essa relação.
17:19Eu escrevi um artigo que circulou bastante
17:21chamado Hacking de uma profissão.
17:23Porque eu comecei a ver a nossa profissão
17:26sendo destruída por esses relacionamentos.
17:29Então não basta mais você escrever bem,
17:32ser culto, estudar, fazer as melhores peças.
17:36Você teria que ter...
17:36Hoje, no cenário brasileiro,
17:38você tem que ter relações para poder advogado.
17:41Então isso fica muito difícil no país.
17:43Prejudica todos nós com isso.
17:46Eu acho que precisa fazer um controle
17:48com relação a isso.
17:50A rigor, o Código de Processo Civil,
17:53que teve um dispositivo
17:55que foi considerado inconstitucional pelo STF,
17:57já dizia que o juiz não poderia atuar
18:00quando o advogado da causa fosse parente.
18:04A gente deveria ter mantido essa disposição.
18:07E eu, sinceramente, acho pouco provável
18:09que um código de conduta,
18:11como o próprio ministro Fachin vem defendendo,
18:14vá resolver todas as situações
18:15que a gente está vendo.
18:20A gente ter esse código de conduta
18:23do Fachin aprovado,
18:25porque o Fachin é que trazia essa esperança
18:28de que alguém ia botar
18:29alguma ordem no STF.
18:32Mas o Fachin acabou de publicar
18:34essa nota tenebrosa ontem,
18:37com esse linguajar agressivo,
18:39dizendo que quem critica o STF
18:41está indo contra a democracia.
18:43Você ainda tem alguma esperança
18:44de que vai vir um código de ética
18:47feito por Edson Fachin
18:48e aprovado pelo resto da corte?
18:52Olha, eu não acho que o código de ética
18:54seja a solução.
18:55Acho que a gente tem a lei geral da magistratura,
18:58perdão, a lei orgânica da magistratura,
19:00temos os códigos de processo,
19:02temos a própria Constituição Federal.
19:04Se você for para a CGU,
19:06tem aquelas normas todas de compliance
19:08que foram criadas para o cidadão,
19:10para o privado.
19:11Então deveriam valer também para o Estado.
19:15A gente tem um arcabouço.
19:16Precisa de um código de conduta,
19:18não vai ser isso que vai resolver.
19:19O que acontece no Brasil é o seguinte,
19:22a Constituição precisa ser lida
19:26de acordo com o significado das palavras
19:28que estão lá,
19:29aliás, o significado das palavras,
19:30do meu modo de ver, de 1988,
19:33quando a Constituição foi criada.
19:35Por quê?
19:35Porque a Constituição é a lei
19:36que governa aqueles que nos governam.
19:38ela não é uma carta de intenções,
19:40apesar da nossa ter muitas ideias maravilhosas
19:43que vieram do pensamento mágico,
19:45mas ela é um instrumento de contenção do poder.
19:48Se é um instrumento de contenção,
19:50os intérpretes não podem ficar interpretando
19:51do jeito que eles acham,
19:53usando dispositivos abertos.
19:54E, para defender a minha tese,
19:57basta a gente olhar o artigo 60 da Constituição
20:00que estabeleceu o núcleo duro dela.
20:02E qual é esse núcleo duro da Constituição?
20:05Forma federativa.
20:06Voto, separação de poderes
20:09e o artigo 5º,
20:12direitos e garantias individuais.
20:13Isso é o núcleo duro da Constituição.
20:15Então, por exemplo,
20:16quando a gente pega um caso,
20:18que nem o do Marco Civil da internet,
20:20que buscou-se a dignidade da pessoa humana,
20:23se não me engano, do artigo 2º,
20:25para não aplicar a nossa liberdade de expressão
20:29que está prevista no artigo 5º,
20:31para mim, é isso que destrói todo o sistema jurídico
20:35e leva à situação que a gente está.
20:37É esse tipo de comportamento.
20:39Quando não há limites mais,
20:40quando não se encara a Constituição
20:42como uma carta de contenção do poder.
20:46Quando passa-se a olhar para a Constituição
20:48e falar assim,
20:49olha, a Constituição é para o que a gente gostaria
20:50que a sociedade fosse.
20:52Mas não dá para você fazer isso.
20:54Não é porque alguém escreveu
20:56que a sociedade brasileira será solidária na Constituição
20:59que as pessoas vão agir de forma solidária.
21:01não é assim que funciona a realidade humana.
21:04Então a gente precisa voltar para trás,
21:06lembrar que a Constituição é um instrumento de contenção,
21:09parar com essas interpretações elásticas
21:12que vêm do neoconstitucionalismo
21:15e outras doutrinas mais modernas,
21:17e voltar ao que era no passado.
21:20Voltar ao respeito ao que está escrito no texto,
21:22como é que significavam as palavras naquela época
21:26e cumprir o que está lá.
21:29Isso que você está falando,
21:31é algo que vem de antes,
21:34essa coisa meio...
21:36Eu vejo muito,
21:38quando você vai dar aula em escolas de formação,
21:42seja de juízes, seja aula para servidores,
21:45uma história assim,
21:46não estou aqui para cumprir a lei,
21:47é uma visão de idealismo,
21:48eu estou aqui para fazer o bem,
21:51estou aqui para proteger os oprimidos,
21:55estou aqui para defender as pessoas mais fracas,
21:58tudo muito nobre,
22:00mas como a função deles não é essa,
22:04a gente sabe de onde está cheio de boa intenção.
22:08Esse movimento, que na verdade ele é ideológico,
22:12e eu entendo que ele começa a se expressar
22:14numa coisa que a ministra Eliana Calmon falava muito,
22:17que é a história do casamento
22:20entre pessoas do mesmo sexo.
22:24Ela falava que esse julgado,
22:27ele abria um precedente,
22:30porque aí tudo que era bom mocismo ia passando,
22:34e uma hora deixaria de ser bom mocismo
22:36para sem interesse.
22:38É um processo que a gente vê no mundo, né?
22:40É, eu não acho que seja esse caso,
22:42e eu acho que esse caso traz uma...
22:47Eu comentei esse caso no meu livro que eu publiquei,
22:49A República e o Intérprete.
22:51E o que eu estava tentando explicar,
22:53que é o seguinte,
22:54democracia não é uma coisa maravilhosa,
22:56democracia significa um instrumento
22:58para que a maioria possa governar.
23:00É isso, basicamente.
23:01Não tem grandes fantasias sobre o que é democracia.
23:04Então você precisa de uma outra coisa,
23:06além da democracia,
23:07que é a república.
23:08A república é o que garante os direitos individuais.
23:12James Madison, no Federalista 10,
23:14falava sobre o risco de facção,
23:16que é qualquer grupo,
23:19alguma espécie de maioria que toma o poder,
23:23e com isso abusa e impede o indivíduo
23:25de exercer a sua...
23:27busca pela sua liberdade,
23:29direito de propriedade,
23:30busca pela felicidade,
23:32os princípios que estão lá
23:33na Declaração de Independência Americana, basicamente.
23:35Isso é um risco enorme
23:38que a república tem que preservar.
23:39Então, por exemplo,
23:40na questão da união homoafetiva,
23:42eu não vou falar de casamento,
23:43eu vou falar só disso,
23:45o que a corte deveria ter feito?
23:48Ela deveria ter enxergado aquilo
23:50como uma situação em que a república
23:52precisa agir,
23:53porque a maioria não pode impedir
23:55o indivíduo de buscar a felicidade,
23:57se essa busca da felicidade
23:59não causa dano a ninguém,
24:01isso é muito importante.
24:02Então, se não causa dano
24:05a absolutamente ninguém
24:06e as pessoas estão querendo
24:07viver a vida delas,
24:08seria o momento da república chegar
24:10e dizer,
24:10ô, maioria,
24:11você não pode fazer isso,
24:12você não pode simplesmente impedir
24:14a união homoafetiva
24:15porque você não gosta.
24:16Então, essa seria a função
24:18republicana da corte.
24:20Mas sempre, sempre,
24:22isso só pode acontecer
24:23quando não há dano.
24:25Então, por exemplo,
24:26digamos,
24:26alguém poderia falar para mim,
24:27então, pela mesma lógica,
24:29a gente pode descriminalizar o aborto.
24:31Não, porque tem uma vida ali em jogo,
24:35a gente vai ficar discutindo
24:36se é a vida ou se não a vida
24:37ou qualquer coisa do gênero,
24:38não pode.
24:39Não podem ser 11 pessoas
24:41usando o toga,
24:41no caso brasileiro,
24:42a decidir uma questão
24:44que tem alguém,
24:45algo ou uma pessoa ali
24:46que pode ser afetada,
24:48aí você vai ter que empurrar
24:51essa questão para a democracia.
24:52E que, aliás,
24:53foi o que a superma corte americana
24:54fez quando reverteu
24:55o Roe vs. Wade agora.
24:56Ela não proibiu o aborto
25:01nos Estados Unidos.
25:02O que ela fez?
25:03Ela devolveu o poder
25:04para a democracia.
25:05Cada um no seu estado
25:06decida se vai ter direito ao aborto
25:09ou se não vai ter direito ao aborto.
25:10Tem que ser uma questão resolvida
25:12no âmbito democrático.
25:26E aí
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