00:00Um dos grandes problemas do Brasil hoje é que mesmo se hoje nós elegermos um presidente com as ideias certas e bem intencionado em 2026,
00:08nós estamos falando que 90% do orçamento está engessado.
00:11Então é, como é que nós vamos desengessar o orçamento?
00:15Nós temos que aprovar uma medida para desconstitucionalizar o gasto público?
00:19O que nós temos que fazer para desatar esse nó?
00:22Porque senão até um bom presidente vai ter enorme dificuldade em fazer os cortes que nós precisamos.
00:27Vai, eu acho que vai ter dificuldade até porque o orçamento também está tão capturado pelo Congresso hoje
00:32que é difícil hoje o Executivo agir nessa direção.
00:36E por isso que a gente vai precisar de um pacto para rever esse orçamento e as bases desse orçamento.
00:42Acho que tem dois pontos aqui, Felipe.
00:44O primeiro é que sim, hoje o orçamento, quase todo ele está vinculado.
00:49Então tem muito pouco gasto discricionário e cada vez menos, como você colocou aqui.
00:54Chega uma hora que 100% do orçamento já está direcionado.
00:59A revisão de gastos ajuda nesse processo.
01:02Porque não necessariamente um gasto que é obrigatório, ele não pode ser otimizado.
01:07Ele é obrigatório, mas a gente pode otimizar e, portanto, garantir que, por exemplo,
01:10entre gasto corrente e investimento, na mesma linha, na mesma área,
01:17eu consigo fazer uma alocação mais eficiente.
01:19Então tem essa parte que ataca um pedaço do problema, um pedaço pequeno, mas ataca.
01:25Agora, tem as discussões difíceis que vão ter que ser feitas.
01:28O que a gente desconstitucionaliza, o que a gente desvincula,
01:33quais são as novas reformas que precisam ser feitas, mais uma da Previdência,
01:37uma reforma do Estado que não é fiscal, mas ela, de alguma maneira, vai garantir um Estado mais eficiente,
01:44que vai precisar, talvez, de menos, um número menor de servidores públicos
01:48e, eventualmente, até melhor remunerados, mas mais eficientes.
01:53Então, acho que essas são as discussões.
01:55É um pacote de medidas que a gente precisa para reconstruir essa peça,
02:01que é uma peça tão importante que é a peça orçamentária.
02:04O presidente da Argentina, o Javier Milley, ele falou uma coisa muito interessante,
02:08que acabou a época de reformas graduais na América Latina,
02:11que nós temos que ter coragem para fazer as grandes reformas.
02:15E o único jeito de aprovar as grandes reformas é desarticular os lobbies que capturaram o Estado.
02:22E por isso que ele enviou 600 medidas para o Congresso,
02:25e o Congresso não sabia quais daquelas 600 medidas eram as prioritárias.
02:28E isso possibilitou que ele aprovasse reformas drásticas que chegaram a cortar.
02:33Não era 4% do orçamento, era 4% do PIB, o tamanho gigantesco.
02:37Você acha que essa é a estratégia que o Brasil precisa seguir?
02:42Felipe, essa é uma excelente pergunta, porque às vezes eu fico me questionando.
02:47O Brasil, a gente está há tantos anos perdendo oportunidade de fazer reformas relevantes, estruturais.
02:55E eu às vezes me pergunto justamente isso.
02:57Será que a gente vai precisar chegar no ponto da Argentina,
03:00que chegou muito próximo do colapso,
03:04para que ações necessárias pudessem ser tomadas,
03:09a partir do apoio da população, da eleição do Milley?
03:16Eu espero que não.
03:18Eu espero que a gente seja capaz de,
03:21à medida que fique claro que a gente precisa avançar em reformas,
03:26mesmo que de forma gradual, mas pelo menos avançar nas reformas importantes,
03:31a gente consiga.
03:32A gente fez isso em algumas janelas.
03:34Quando a gente olha, a reforma da Previdência, a reforma trabalhista,
03:37elas aconteceram.
03:40O processo de privatização lá atrás,
03:42a própria criação de todo o arcabouço fiscal,
03:47todo o arcabouço institucional de metas para a inflação.
03:51Então, a gente teve janelas,
03:53e janelas em situações políticas muito adversas.
03:56O próprio governo Temer, que teve ali 18 meses
03:59em que reformas muito importantes foram aprovadas.
04:02Então, eu ainda guardo um otimismo
04:06de acreditar que, com um bom debate,
04:10com clareza em propostas,
04:14porque também já tem algumas eleições
04:15que a gente não debate propostas.
04:17E você, como candidato que foi à presidência,
04:21que trazia justamente esse discurso
04:23de vamos discutir propostas.
04:26O país precisa disso.
04:28Então, o meu otimismo é que eu acho
04:29que a gente é capaz de fazer isso,
04:32de resgatar esse debate
04:35de o que precisa ser feito,
04:38por que precisa ser feito,
04:40e, eventualmente, conseguir avançar
04:41sem uma grande ruptura.
04:43Ana Carla, você que está no setor privado,
04:46teve uma atuação pública importante,
04:48este ano de 2026, uma coisa fundamental
04:51é a mobilização da sociedade civil.
04:54Uma das coisas que mais me entristecem no Brasil hoje
04:57é a apatia cívica.
04:58Existe uma certa apatia cívica
05:00e um certo cinismo em relação à política
05:01que dificulta essa mobilização da sociedade civil
05:05em torno dos temas importantes.
05:07O que nós podemos fazer
05:08para mobilizar a sociedade civil
05:11em torno dessa agenda,
05:12principalmente as associações de classe,
05:14Fiesp, Fiesp, Associação do Comercial,
05:16tem tantas, o AB,
05:18tantas instituições importantes
05:19para colocar o dedo na ferida
05:21e despertar a discussão
05:24dessas grandes reformas
05:25que o Brasil precisa enfrentar
05:27neste ano eleitoral,
05:28que é o ano onde essa discussão precisa ocorrer.
05:31Felipe, eu, assim, sou como você,
05:35assim, eu olho e falo,
05:36nós temos um país que precisa de reformas,
05:39nós temos diagnósticos
05:40que são, inclusive, repetidos,
05:42a cada quatro anos
05:44a gente traz os mesmos diagnósticos,
05:46a cada quatro anos
05:47a gente faz livros de propostas de reformas,
05:50mas enquanto a sociedade civil
05:53não se mobilizar de fato
05:55em torno do que precisa ser feito,
05:58eu concordo com você
05:59que a gente tem muita dificuldade de avançar.
06:01porque a gente olha para o Congresso,
06:04quando a gente diz,
06:05não, esse Congresso é um Congresso
06:06que está desconectado
06:08das necessidades da população,
06:11mas quando as pessoas vão para a rua,
06:13viu, com a PEC da blindagem,
06:15a própria reforma da Previdência,
06:18quando as pessoas vão para a rua,
06:20os políticos se mobilizam,
06:21eles ouvem,
06:23eles entendem que existe um clamor ali
06:25da sociedade numa direção ou na outra.
06:28E eu acho que é isso que falta.
06:31E a gente está às vésperas de um ano eleitoral,
06:34eu acho que esse é o momento
06:35de fazer essa mobilização,
06:38de buscar essas entidades representativas
06:42para que elas convirjam em torno de uma agenda.
06:46tem alguns, de novo,
06:48como em cada quatro anos,
06:49tem livros que vão sair agora de propostas.
06:52E a ideia é justamente
06:53a gente chamar a atenção
06:55para a necessidade da população,
06:57das entidades representativas
07:01se mobilizarem,
07:03porque o país não pode chegar
07:04num ponto de ruptura.
07:06A gente não precisa.
07:07É um país que tem condições,
07:09tem diagnóstico,
07:10tem pessoas competentes
07:11para fazerem as reformas
07:14que a gente precisa.
07:15Mas, para isso,
07:17estou 100% com vocês.
07:18Se a sociedade civil não se mobiliza,
07:21a gente vai passar mais uma eleição,
07:25eventualmente, lá,
07:26debatendo costumes,
07:27debatendo direita, esquerda,
07:29polarizado,
07:30sem agenda,
07:33que é a agenda importante,
07:34de fato,
07:35sendo debatida,
07:37sendo analisada
07:38e sendo escolhida.
07:39Mas a gente precisa
07:40debater a agenda.
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