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No Visão Crítica, o Prof. Paulo Niccoli Ramirez, cientista político, explica que os ataques dos EUA à soberania de países na América Latina tendem a gerar o resultado contrário ao desejado.

Essa pressão internacional, segundo ele, reforça a imagem de líderes como Maduro, assim como aconteceu com a popularidade de Lula no caso do tarifaço.

Assista na íntegra: https://youtube.com/live/qsE2hdBBY9M

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Transcrição
00:00Eu coloco ao professor, como é que fica essa questão da soberania?
00:04Porque tem um número grande, cerca de um quarto de venezuelanos,
00:08dadas as razões de perseguição política, problemas econômicos,
00:12que acabaram saindo do país, em grande parte nos Estados Unidos,
00:15uma parte considerável está na Colômbia, tem um pouco dessa presença no Brasil,
00:19tem no Chile, tem na Argentina, em suma, espalharam uma espécie de diáspora venezuelana.
00:25Como é que fica então?
00:26Qual é, assim, alguém pode nos perguntar, mas se você está falando mal, entre aspas,
00:33dos Estados Unidos, fazer essa intervenção, como é que a Venezuela vai resolver seus problemas?
00:39Aí eu passo, claro, que eu sei que você não tem a solução mágica,
00:43mas aonde fica o espaço da oposição política democrática interna,
00:48do confronto com formas antidemocráticas que existem na Venezuela?
00:52Na última eleição houve uma fraude descarada,
00:55inclusive até hoje não apareceram as atos,
00:57e o governo brasileiro exigiu as atos, entre outros governos, elas não apareceram,
01:02e a presença norte-americana jogando nisso tudo.
01:06Bom, esses ataques que os Estados Unidos têm feito,
01:08as soberanias aqui na América Latina,
01:11têm dado um resultado contrário ao que os americanos desejam.
01:15Um exemplo do que aconteceu no Brasil com a questão do tarifácio,
01:17isso melhorou a popularidade do Lula, inclusive com uma folga até para vencer as eleições no próximo ano.
01:26E algo semelhante acontece na Venezuela.
01:29O tema da soberania acaba unindo situação e oposição,
01:35não totalmente e de forma absoluta,
01:38mas pelo menos com a ideia de que os problemas internos de um país
01:42devem ser resolvidos pelo próprio país e não externamente,
01:46isso reforça a imagem de qualquer presidente, qualquer líder de um país.
01:51E assim tem sido na Venezuela.
01:53O Maduro tem usado e abusado dessa situação para todos os dias da TV da Venezuela
01:59afirmar as ameaças dos Estados Unidos contra a soberania.
02:03Então, o efeito é contrário àquilo que os americanos pretendem,
02:08de deslegitimar um governo.
02:10Ao contrário, dá mais legitimidade,
02:12apesar da bagunça que foi a eleição no ano passado ali na Venezuela.
02:17Outro ponto que também é interessante e que nós destacamos um pouco
02:21é o problema interno nos Estados Unidos.
02:25Nós tivemos no domingo mais de 2.500 cidades, salvo engano,
02:28com manifestações contra o Trump, contra o seu autoritarismo.
02:33Então, a América Latina também serve como uma forma de desviar a atenção
02:37de parte da população norte-americana contra a crescente impopularidade do próprio Trump.
02:43Há um problema inflacionário também com a questão dos tarifácios,
02:46que não se aplica apenas ao Brasil, mas também em outros países.
02:50Então, os americanos começam a sentir no bolso as suas dificuldades
02:55e o que resta ao Trump é tentar desviar a atenção da população,
02:59com o caso da Venezuela, ataques à soberania dos outros países.
03:03E a gente tem uma situação curiosa, porque a Venezuela,
03:06os venezuelanos vivem um dilema.
03:08O que é mais atrativo?
03:10Um prêmio Nobel da Paz ou, então, a defesa da soberania?
03:15Certamente, o Maduro tem vencido, pelo menos internamente,
03:20a disputa dessas narrativas.
03:22A Corina, apesar de ter vencido o prêmio,
03:26não é uma voz que chega aos próprios venezuelanos
03:31com a mesma intensidade que chega em outros países
03:33devido aos controles que o próprio governo faz aos meios de comunicação.
03:38Então, o prêmio que ela recebeu foi muito mais da Venezuela para fora,
03:41não internamente.
03:43Então, o Maduro tem reforçado a sua imagem.
03:46E mais um último detalhe que a gente não pode esquecer.
03:49Há três anos atrás, eu tive a oportunidade de entrevistar na casa do Evo Morales.
03:54Ele dizia uma coisa muito interessante, que ele sofreu...
03:58Lá em Cochabamba?
04:00É, em Trópico de Cochabamba.
04:01Uma cidadezinha chamada Vigiatunari, toda escondida ali.
04:04Uma cidadezinha que fica, inclusive, no meio das plantações de coca.
04:07E uma coisa...
04:09E não tem nada a ver com a produção de cocaína.
04:11Não tem nada a ver.
04:12Não tem nada a ver.
04:13São indígenas com uma produção tradicional.
04:16Enfim, tem nada de gente armada com capanga, nada disso.
04:19E aí, o que acontecia é que o Evo tinha o temor de, antes de começar a guerra da Ucrânia,
04:24que os Estados Unidos direcionassem o parque industrial para a América Latina.
04:28E acabaram direcionando ao apoio, ainda no governo Biden, à Ucrânia.
04:34Mas ele temia que, apesar de ter sofrido o golpe, houve conspirações também,
04:39junto a autoridades americanas.
04:41Inclusive, Marco Rubio colaborou com o golpe em 2019.
04:45Tem vários documentos e tudo mais mostrando isso.
04:49Ele temia que os americanos chegassem a intervir por conta do lítio.
04:55Derrubaram ele antes de que fosse eleito.
04:57Aliás, durante o processo eleitoral.
04:59Agora venceu o Paz.
05:01Dificilmente alguma intervenção vai ser feita na Bolívia.
05:05Mas existe, sim, essa questão de que existe uma máquina industrial bélica norte-americana
05:10que precisa continuar funcionando.
05:11Então, esgotou-se, digamos assim, já o próximo disso da Ucrânia.
05:17A mesma coisa com o Israel.
05:18Agora é a vez da América Latina.
05:20Então, eu vejo razão naquilo que o Evo me disse.
05:23Posso só acrescentar um ponto aqui?
05:26Acho que a gente não está acompanhando,
05:29mas o número de tropas deslocadas para a base em Porto Rico
05:37é considerado, sim, um nível muito elevado para uma ação na América do Sul.
05:46Então, acho que esse é um ponto.
05:47E o outro ponto é deslocamento dos navios.
05:51A gente teve lá no começo, em agosto, já um deslocamento de três grandes navios de guerra
06:00que colocaram essa questão de que por que um deslocamento tão grande
06:07de forças militares numa base que estava praticamente desativada,
06:14que era a base de Porto Rico.
06:16Então, acho que esse é um ponto que, de fato, nos coloca um questionamento.
06:21É porque vai intensificar as ações e nos justificaria apenas as ações de combate ao tráfico de drogas
06:30que a gente já tem.
06:31Porque não são ações...
06:33O ataque às bases de plantação, do próprio narcotráfico,
06:43já vem sendo feito pelos Estados Unidos, desde o governo Biden, com drones.
06:48Então, esse questionamento é um questionamento bastante plausível
06:53de por que os americanos estão mobilizando tantos recursos militares
06:58nesse momento para uma região que é relativamente pacífica.
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