00:00Os Estados Unidos e a Venezuela se agrava e acende alertas sobre imigração, segurança nas fronteiras
00:06e possíveis efeitos econômicos para o Brasil.
00:08E para entender melhor esse cenário, a gente vai conversar agora com o coronel da Reserva do Exército Brasileiro
00:14e mestre em Ciência Política Internacional, coronel Marco Antônio de Freitas.
00:19Bom dia. Seja bem-vindo.
00:22Bom dia, Patrícia Costa. Bom dia, Marcelo Matos, que eu vi que está presente aí também.
00:27É um prazer estar aqui no Jornal da Manhã da Jovem Pan.
00:31A gente que agradece o senhor ter aceitado o nosso convite.
00:34Diante aí dessa tensão entre os Estados Unidos e a Venezuela, como é que o Brasil deve se preparar?
00:40A gente pode ter uma crise aí de imigração e insegurança aqui no nosso país também na fronteira?
00:46É, muito bem colocado da sua parte.
00:49O Brasil possui uma extensa fronteira com a Venezuela, uma fronteira remota, vamos dizer assim, pouco guardada,
00:57pelas características amazônicas da região.
01:01Nós temos aí já problemas nas nossas comunidades ianomanes, que transitam por um lado e para o outro da fronteira,
01:07a exploração de ouro legal.
01:08E nós tivemos aí as questões das migrações venezuelanas para o Brasil.
01:13Nós já tivemos uma primeira etapa aí já de algum tempo.
01:16Nós tivemos aqui a operação acolhida no Brasil, que recebemos aí quase 260 mil refugiados venezuelanos, né?
01:25Então essa crise agora que está se formando entre a Venezuela e os Estados Unidos é um fator complicador em tudo isso para o Brasil.
01:32Seja no campo da migração, seja no campo diplomático, pela posição que o Brasil tem ou deveria ter de liderança aí na América do Sul, né?
01:40Agora nós sabemos que o Brasil está tentando recuperar suas relações aí com os Estados Unidos,
01:45ou seja, o Brasil talvez tenha até dificuldade de intermediar qualquer relação entre os Estados Unidos e a Venezuela.
01:51E também lembrar o seguinte, essa crise agora não é, não começou, essa crise venezuelana não começou agora, né?
01:58Começou, como a gente já falou, com o fluxo de refugiados, milhões de refugiados venezuelanos para o exterior,
02:05hoje há alguns anos atrás, hoje a Venezuela só fica atrás em quesito de refugiados de países como Sudão, Ucrânia,
02:14que países que estão em guerra já há muitos anos, então esse é um aspecto.
02:17Nós tivemos a questão das eleições venezuelanas fraudadas, que até foi um fator que provocou um abalo nas relações do Brasil,
02:25e a gente sabe que o governo atual do Brasil tem boas relações com a, tinha boas relações com Maduro,
02:31e a partir dessa questão das eleições, essas questões se estremeceram,
02:36se o diplomate permanente do Brasil está um pouco afastado da Venezuela agora, eu não sei em que nível, né?
02:41E agora essa crise, e também a crise com a Goiânia, lembrando aqui, né? Da Goiânia Ezequiba.
02:46Então, assim, é uma sucessão de crises que o governo venezuelano vem provocando,
02:51e isso terá reflexo com certeza para o Brasil.
02:55Coronel, seja bem-vindo mais uma vez, bom dia, né?
02:59Ao longo dessa semana, inclusive, Maduro sinalizou que poderia até vender petróleo para os Estados Unidos,
03:05em condições melhores, ou seja, a Maria Corina Machado recebeu o prêmio Nobel, né?
03:10Os Estados Unidos estão lá patrulhando a região do Caribe, lá vizinho da Venezuela.
03:14O Maduro quis até oferecer petróleo porque está percebendo, né, Coronel,
03:18que essa ação, ela não vai parar mesmo, né?
03:21Tem toda a sinalização até agora de que pode se agravar e virar um conflito mesmo, né?
03:29É, exatamente. Bom, o conflito, de alguma forma, já aconteceu, né?
03:33Assim, pelo menos nessas operações que os Estados Unidos vêm realizando ali no Mar do Caribe, né?
03:40Você falou nessa questão do petróleo, a Venezuela é um grande produtor de petróleo,
03:44que essas crises todas que eu citei aqui anteriormente afetaram diretamente as exportações venezuelanas de petróleo.
03:50Hoje, a Venezuela não é mais o país da América do Sul o maior exportador de petróleo,
03:57porém, que parece, o Brasil é hoje, assumiu esse papel.
04:00Então, a tentativa da Venezuela de voltar a vender petróleo para os Estados Unidos é óbvia,
04:06porque é o maior comprador de petróleo da Venezuela.
04:09Agora, a gente nota o seguinte, que essa, vamos dizer,
04:12esses meios militares que os Estados Unidos concentraram ali no Mar do Caribe,
04:18eles são meios bastante poderosos, né?
04:20Mas eu não diria, assim, que isso vai evoluir para uma invasão terrestre,
04:24pelo menos com os meios que estão aí presentes, né?
04:26Só lembrando, a última grande intervenção dos Estados Unidos nas Américas
04:31ocorreu na década de 90, quando, justamente pelo motivo,
04:35mesmo motivo que está sendo utilizado agora para abraçar conflito com o Maduro,
04:40ou seja, envolvimento com o tráfico de drogas,
04:41o Panamá, como tinha um presidente na época chamado general Noriega,
04:45Manuel Noriega, também estava envolvido com o tráfico.
04:48Os Estados Unidos invadiram o Panamá naquela época, né?
04:51Mas só que naquela época os Estados Unidos estavam com uma força de quase 30 mil homens,
04:54coisa que não se está verificando aí em que pesa a quantidade de meios
04:59que os Estados Unidos estão colocando.
05:01Me parece que os Estados Unidos estão fazendo realmente mais um cerco
05:04a esse tráfego marítimo, né? De drogas, né?
05:10A gente convida agora os nossos comentaristas,
05:12o Felipe Monteiro e o Cristiano Vilela,
05:13para participarem também dessa entrevista.
05:16Felipe, sua pergunta.
05:19Bom dia, coronel. Prazer estar com você aqui no Jornal da Manhã,
05:22conversando sobre esse tema muito importante na geopolítica aqui da América Latina.
05:27O Trump, na campanha dele, falou todo momento que ia combater o narcotráfico, né?
05:31Então, quando ele fala que vai colocar todas as forças militares e tecnologia
05:35no mar, na costa da Venezuela, para combater o narcotráfico,
05:40pode ser um pano de fundo de algo muito mais profundo que a gente não está vendo, né?
05:46Mas, ao mesmo tempo, ele também falou que ia colocar o PCC como organização criminosa, né?
05:51Aliás, como grupo terrorista, né?
05:53O que poderia também fazer com que houvesse algum tipo de movimentação contra o PCC,
05:58que é um grupo terrorista no Brasil, né?
06:00Tipo, terrorista não, é um grupo criminoso no Brasil que tem um paro no mundo todo, né?
06:06O líder do PCC nem deve estar morando no Brasil, ele está morando agora em Miami,
06:09ou na Europa, nas coberturas, né?
06:12Comandando o tráfico de drogas no Brasil, com medo de telefones celulares e outros tipos de tecnologia.
06:17A minha pergunta vai no seguinte sentido.
06:18Você vê, por exemplo, que o Trump poderia declarar o PCC como organização terrorista
06:24e ter algum tipo de consequência para o Brasil?
06:26É, bom, a diplomacia brasileira, ela vem resistindo a isso, claramente.
06:33A gente tem observado aí nesse governo atual, né?
06:36Não classificar o PCC como uma organização terrorista.
06:40Que é o mesmo argumento que a própria diplomacia brasileira vai tentando defender com relação ao Maduro, né?
06:45Que também há acusações sérias contra o Maduro de estar envolvido diretamente,
06:50ou seja, o governo venezuelano é envolvido diretamente com o tráfico de drogas, né?
06:55A gente tem aí a questão do Hugo Carvajal, por exemplo,
06:59que é um ex-chefe da inteligência venezuelana, que está preso nos Estados Unidos.
07:04E só lembrando, né?
07:05Essa campanha dos Estados Unidos contra o tráfico, o envolvimento venezuelano com o tráfico de drogas
07:11não começou no governo Trump, só lembrando isso aí, né?
07:14O Hugo Carvajal foi preso em 2023 no governo Biden.
07:19Então, isso tem sido uma política bipartidária do governo norte-americano, só lembrando isso aí, né?
07:25Mas, certamente, como a gente sabe que o crime organizado é transnacional, né?
07:31Não duvido que possa existir ligações entre, por exemplo, o PCC e, por exemplo, o cartel de Los Soles,
07:41que é o que justamente é o principal cartel de drogas na Venezuela, né?
07:45Então, assim, a colocação de uma organização criminosa brasileira como terrorista,
07:50a classificação disso como terrorista pelos Estados Unidos, vai ter reflexos por Brasil, com certeza, sim.
07:56Coronel Marco Antônio, agora a pergunta do Cristiano Vilela.
08:00Coronel, bom dia.
08:02Coronel, o fato do Brasil, do governo brasileiro, não adotar uma postura de intermediar qualquer ligação,
08:10qualquer relação, qualquer saída nesse imbróglio envolvendo Estados Unidos e Venezuela,
08:16ou até mesmo do Estado brasileiro não ter se posicionado de uma forma mais firme,
08:20no contexto das eleições venezuelanas.
08:23Isso, de alguma forma, afeta a liderança brasileira na América do Sul, especialmente?
08:29Talvez se imaginava que, num governo Lula, o Brasil pudesse ter uma dianteira mais evidenciada
08:36da América do Sul no contexto geopolítico.
08:39Talvez esses episódios venham a ter deixado a posição brasileira mais fragilizada nesse sentido?
08:46Bom dia, Cristiano.
08:49Excelente pergunta, com certeza.
08:51Essa é a minha posição.
08:52Eu acho que a nossa diplomacia tem sido omissa em tudo que se refere à Venezuela.
08:57Isso eu falo desde a questão lá, não é de agora, né?
09:01Desde a questão, por exemplo, dos refugiados que eu citei aqui,
09:04da questão das eleições venezuelanas, que claramente foram fraudadas.
09:07O próprio governo brasileiro, de certa forma, reconhece isso.
09:10Ou seja, a posição da diplomacia brasileira hoje está em uma situação muito ruim nesse caso,
09:16que é a principal, vamos dizer assim, a principal crise que a gente vivencia na América do Sul,
09:20onde o Brasil deveria se fazer presente como uma liderança.
09:24Mas por que não se está se fazendo presente?
09:25Primeiro, porque se afastou, desde essa questão das eleições venezuelanas,
09:31se afastou um pouco do governo Maduro.
09:33A gente não tem visto mais a nossa diplomacia atuando diretamente em relação ao governo Maduro,
09:39seja para apoiar, seja para se contrapor.
09:42Está um pouco distante.
09:43E com os Estados Unidos nem se fala, né?
09:45O governo tem tentado uma reaproximação aí com os Estados Unidos.
09:49Ou seja, o Brasil não está habilitado para exercer seu papel de liderança
09:53pela própria forma como a diplomacia brasileira vem atuando nos últimos tempos.
09:59Então, assim, seria importante o Brasil buscar, se é que vai haver essas conversas
10:05do nosso presidente Lula atual com o presidente Trump, colocar esse assunto na pauta.
10:10Não sei se isso vai ser feito em função de que já há problemas demais na pauta Brasil-Estados Unidos.
10:16Mas se houvesse essa possibilidade, seria muito importante para o Brasil afirmar a sua liderança nesse quesito.
10:22O problema todo é que o Brasil também não consegue ter bons canais de comunicação atualmente
10:30com o próprio governo venezuelano, o que é de se estranhar, né?
10:33Porque pode ser que essas canais até existam, porque sempre houveram, né?
10:38Entre os governos do PT, do presidente Lula ou da Dilma, sempre tiveram boas relações com o Nicolás Maduro.
10:47E o que não ocorre, pelo menos aparentemente, não está ocorrendo hoje em dia.
10:50Então, existe um vácuo que certamente prejudica a diplomacia brasileira hoje.
10:55A gente vai continuar acompanhando esse assunto.
10:57Obrigada, coronel.
10:58Marco Antônio de Freitas, tenha um bom domingo.
11:01Obrigado.
11:02Bom domingo.
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