00:00Porque o mercado internacional, como você disse, tem cobrado cada vez mais práticas mais sustentáveis na hora de produzir.
00:06A gente sabe que boa parte do Brasil tem práticas sustentáveis, até por isso que a gente consegue essa penetração em outros países.
00:12Mas como acabar, tirar essa concepção, principalmente internacional, de que o agronegócio está muito atrelado ao desmatamento hoje no Brasil?
00:21Que é o que mais se destaca nessas discussões fora daqui.
00:24Perfeito. A questão do desmatamento é importante, porque primeiro, o setor do agronegócio, sério, ele é totalmente contrário ao desmatamento ilegal.
00:34Como vocês sabem, nós temos um código florestal, esse código florestal, ele distingue a questão do que é desmatamento legal daquele que é ilegal.
00:42Hoje, quando você pensa em termos de preservação ambiental dentro de propriedade rural, quando a gente pega zonas da Amazônia, a gente está falando de cerca de 80% de preservação.
00:51Quando a gente pega no centro-oeste e cerrado, principalmente, a gente está falando de cerca de 35% que pode haver o desmatamento.
01:00E quando a gente pega nas outras regiões, são cerca de 40%, se não me engano.
01:07Então, a gente tem um código florestal que é muito rigoroso quando nós pensamos em termos internacionais, talvez um dos mais rigorosos do mundo.
01:12A questão do desmatamento legal são ações de comando e controle que o Estado precisa adotar para evitar que esse desmatamento legal,
01:23que não tem a ver com o setor do agronegócio sério, correto, acaba pregando na prática.
01:31E você disse muito bem, hoje em dia os mercados internacionais estão trazendo medidas contrárias à importação de produtos
01:39que podem ser oriundos do desmatamento de maneira geral.
01:43Então, como que o Brasil garante essa rastreadibilidade, são boas práticas que as empresas vêm adotando
01:49por meio desses projetos de sustentabilidade nas suas cadeias, mas que, de novo, precisam de financiamento.
01:55Só que aí entra um outro desafio muito importante dentro dessa agenda.
01:59Para que a gente consiga viabilizar esse financiamento, nós precisamos garantir que as nossas métricas,
02:05as nossas metodologias, as nossas práticas sejam realmente reconhecidas a nível internacional
02:12para exatamente que o Brasil siga sendo competitivamente ativo, mas também que a nossa balança comercial
02:20siga sendo favorecida pelo setor do agronegócio.
02:25Coisas que, quando nós pensamos num critério geopolítico, isso pode não acontecer como não está acontecendo.
02:30E em conversas com o próprio bloco europeu, com os Estados Unidos, mas que, na realidade,
02:38na visão da BAG, são muitas vezes medidas protecionistas disfarçadas de ambientais.
02:45Porque o Brasil, como eu falei, é muito competitivo.
02:48Como que, dentro de um cenário geopolítico, os outros países encontraram mecanismos de reduzir
02:54essa competitividade do Brasil, exatamente não aceitando as métricas, as metodologias e as práticas brasileiras
03:01que são realmente sustentáveis, mas que, na visão de países de clima temperado
03:06e que talvez tenham outros interesses comerciais, não fazem sentido, não são interessantes.
03:12Então, com base exatamente nessas medidas, nessas justificativas, eles acabam barrando esses produtos brasileiros
03:17que, na realidade, são, de fato, sustentáveis.
03:20Então, eu acho que esse cenário, como um todo, mostra a complexidade que a gente vem dando dentro da associação.
03:25É o que você acha que acontece, por exemplo, com os produtos franceses,
03:28essa pressão que existe dos produtores rurais lá do país.
03:32Você acha que é mais protecionismo do que uma barreira realmente preocupada com a agenda ambiental?
03:37Eu imagino que, em alguns setores, sim.
03:39Porque, quando a gente pensa, obviamente, na própria questão do Acordo Mercosul-União Europeia,
03:44que é um acordo que vem há muitos anos sendo discutido,
03:47a França é um dos principais países que são contrários à assinatura desse acordo por questões ambientais.
03:54E, quando nós pegamos exatamente os produtos franceses com os nossos produtos,
03:58a nossa competitividade é muito maior do que os produtores franceses.
04:02Então, é, de certa forma, uma maneira de proteger o mercado francês, principalmente o setor produtivo,
04:07contra essas importações de produtos brasileiros, que são mais baratos e que são, com certeza, mais sustentáveis.
04:14Agora, entender ou justificar que eles não são, com base em métricas ou com base em justificativas,
04:21que funcionam só para países de clima temperado, que são diferentes de países de clima tropical,
04:28não me parece ser uma justificativa muito razoável e muito equilibrada.
04:33Juliano, quais são os compromissos do agronegócio para a Agenda 2035?
04:38O Brasil tem, dentro das MDCs, diminuir a redução, a emissão de gases do efeito estufa.
04:44Quais são as contribuições que o agronegócio tem para conseguir atingir essa meta?
04:48Porque vários setores terão que se empenhar para que o Brasil realmente consiga fazer isso, né?
04:53Exatamente, Patrícia. Eu acho que, antes de responder a sua pergunta,
04:57é importante fazer uma contextualização em relação ao que a COP se propõe
05:01e quais foram os compromissos assumidos pelo Brasil até 2035, que basicamente é só a nova NDC.
05:09Então, a COP visa, basicamente, criar mecanismos, instrumentos,
05:13para que os países, de maneira consensual, consigam trazer ações práticas
05:19para a redução das emissões de gases de efeito estufa,
05:24para evitar aquele aumento da temperatura até 2050.
05:27Então, grande parte dos países, ou grande parte das empresas também,
05:30setores privados, setor público, eles vêm assumindo compromissos até 2050, 2060,
05:37de net zero, ou seja, zerar suas emissões.
05:40O Brasil, obviamente, está dentro desse contexto
05:42e, ao longo dos últimos anos, ele vem apresentando NDCs,
05:46que são essas contribuições nacionalmente determinadas,
05:50que são as suas próprias metas, em busca do net zero até 2050.
05:55Então, a cada 10 anos, cada 5 anos, desculpa,
05:58o Brasil acaba renovando as suas NDCs
06:00e, até 2035, o Brasil apresentou uma NDC nova
06:04que visa reduzir as emissões de gases de maneira economy-wide,
06:09o que a gente chama, para todos os setores da economia,
06:12de 850 milhões de toneladas de gases de efeito estufa
06:19até 1.5 gigatoneladas de gases de efeito estufa,
06:24o que é, de fato, bastante ambicioso.
06:26Se você for pensar que o Brasil, somando todos os setores,
06:30tem cerca de 2.2 gigatoneladas de emissão de carbono equivalente, principalmente.
06:37Então, como que o setor do agropecuário pode apoiar toda essa construção?
06:43É exatamente o que a gente traz no nosso documento.
06:46Ações, boas práticas, projetos verdes, agricultura regenerativa,
06:49conversão de pastagem degradada, integração lavoura-pecuária-floresta,
06:53plantio direto, biocombustíveis, bioinsumos.
06:56Todas essas práticas, elas hoje são vistas como ações que podem contribuir
07:03com aquela agenda de mitigação e adaptação.
07:06Então, nós trazemos dentro desse documento uma coletânea, digamos assim,
07:11de ações que podem ser compreendidas dentro do ambiente da COP
07:15como ações realmente factíveis que o Brasil pode adotar dentro do setor agropecuário
07:22para contribuir com a agenda da COP.
07:25Então, eu vejo que é muito mais nesse sentido.
07:27Só que, ao mesmo tempo, a gente sabe que, como você mencionou na abertura,
07:32a agenda da COP é muito maior do que isso.
07:34A agenda da COP é de mudanças do clima, não é da agropecuária.
07:38A agropecuária é um setor importante para o Brasil.
07:41Talvez não seja para a grande maioria, porque quando a gente pensa em emissões globais,
07:46as emissões oriundas de combustíveis fósseis são muito maiores.
07:49Só que, quando você pega num cenário internacional,
07:52você percebe que grande parte dos países apresentam suas NDCs
07:57conectadas com ações da agropecuária,
07:59o que mostra que a agropecuária pode ser vista como uma das soluções.
08:02Se não me engano, são cerca de 141 NDCs, ou seja, 141 países apresentaram NDCs
08:09que possuem ações da agropecuária para atendimento das suas metas.
08:15O que, na nossa visão, e acho que fica muito claro,
08:18mostra, de novo, como a agropecuária é um setor importante para essa agenda do clima.
08:23E não é um setor que vai contribuir para as mudanças do clima.
08:29Em relação a isso, o setor, claro, a gente já comentou aqui,
08:33é essencial para a economia brasileira, para a segurança alimentar.
08:37Tudo isso junto com um uso excessivo também de recursos naturais,
08:42da terra, do solo, da água.
08:44Que tipo de tecnologia hoje, que investimentos tem acontecido
08:49para a gente diminuir a quantidade de recursos naturais
08:53para ter uma produção mais eficiente e sustentável ao mesmo tempo?
08:57É uma ótima pergunta e eu vou, talvez, ser um pouco repetível,
09:01mas eu retomo aqui algumas questões, como eu falei.
09:04Para você viabilizar uma grande eficiência na utilização dos recursos naturais,
09:08são aquelas agendas de adaptação.
09:10Então, por exemplo, a agenda de biotecnologia.
09:14Com o desenvolvimento de novas biotecnologias,
09:17que podem ser, de fato, usufruídas e implementadas no campo,
09:21você consegue reduzir a área de produção,
09:27ou seja, você vai reduzir, muitas vezes, o aumento do uso da terra.
09:32E isso pode ser visto ao longo dos últimos anos,
09:34principalmente para a soja e para a mídia.
09:36Se você pegar um gráfico, se não me engano,
09:40Conab deve ter esses dados em termos de produtividade em relação ao uso da área,
09:44você vê que a produtividade de milho, de soja,
09:47vem numa exponencial, enquanto o uso da área está chegando num fator.
09:51Porque nós conseguimos, cada vez mais, ser mais produtivos
09:54em uma região menor do que antigamente,
09:58no qual era necessário a expansão territorial.
10:00Isso graças ao desenvolvimento da tecnologia,
10:03que a Embrapa, muitas vezes, foi importante nesses aspectos.
10:05Então, de novo, a questão da biotecnologia,
10:08você ter grãos, sementes, que têm esse diferencial
10:13para reduzir o uso da terra, para reduzir o uso da água,
10:18para ser mais assertivo, inclusive,
10:21no momento em que você vai fazer a pulverização de defensivos químicos,
10:26você ser mais assertivo naquela região apenas,
10:28o que contribui, inclusive, para a redução do uso de combustíveis,
10:32porque os próprios maquinários agrícolas não vão precisar,
10:37muitas vezes, se movimentar ao longo da propriedade,
10:41eles vão ser muito mais assertivos,
10:42então, se reduz também as emissões oriundas de combustíveis fósseis.
10:45Então, no final das contas,
10:47isso é só uma utilização de uma tecnologia,
10:50mas você tem, obviamente, contribuindo também com a redução do uso de defensivos,
10:54que são importantes,
10:54mas há o uso de bens sumos,
10:57que também reduzem a necessidade de você utilizar fertilizantes,
11:00que também geram, obviamente,
11:02as emissões de óxido nitroso.
11:06Então, todas essas tecnologias que vão sendo desenvolvidas,
11:10que estão dentro dessa agenda de adaptação,
11:12contribuem para a redução das emissões do clima
11:15e que são importantes para o setor da agropecuária.
11:17Obrigado.