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DiversãoTranscrição
00:00Eles estiveram aqui, patrão. Ficaram assustados de tanto vivo aí.
00:06E daí?
00:06E daí que disseram que vão ficar só com as terras improdutivas da fazenda.
00:10Eu dei um prazo de três dias pra eles me tirarem esse povo nas minhas terras, Mauriti.
00:14Pois eu duvido que eles vão sair.
00:16Se eles não saírem, eu mando chamar o Zé da Araguaia e os meus peões.
00:20E nós vamos sair em comitivo com essa boiada.
00:22Levar pra onde, patrão?
00:24Pra Brasília!
00:30O que eu tinha visto tanto boi junto?
00:53Vai ver que é por isso que o sujeito é conhecido como o Rei do Gado.
00:56E agora, Regina? Como é que fica?
00:58Vamos perder a viagem de novo?
01:01Não.
01:02Vocês mandaram a gente pra cá invadir essas terras.
01:04Eles devem saber o que estão fazendo, Jacinta.
01:07Será que estão mesmo?
01:09O que é que foi, Luana?
01:11Você tá no parecer tão esquisito.
01:14Ela ficou impressionada com os boi do sujeito.
01:17O medo do Rei, é?
01:20Não é isso não.
01:21É o que, então?
01:22Não sei.
01:25As coisas ainda estão tão maraiadas na minha cabeça.
01:28Desculpa.
01:36Por causa do tardesagem que ela sofreu com a família dela, Regina.
01:40Tá, caminhão de boia fria.
01:42Eu sei dessa história, minha senhora.
01:45Você quer um pai ser tão marido.
01:48E você tá me parecendo muito entusiasmado com ela, viu?
01:51Eu não tava gostando dessa história.
01:57Não é assim, né?
01:59É que é besteira?
02:09O que é que foi, Luana?
02:10Do jeito que não pode conversar, não.
02:13Eu não converso nada.
02:14O que é que você tem que ser tão redia?
02:18Você não me aborrece.
02:19Sai daqui.
02:20Olha esse facão que eu sou de paz, ué.
02:21Vai tá me aborrecendo.
02:22Só tô querendo puxar a prosa com você.
02:28Eu acho você bonita demais pra viver nessa vida sozinha.
02:31Eu tô lhe dizendo isso com todo respeito.
02:35Por causa que eu também sou sozinho nesse mundo.
02:38Vai.
02:39Nesse assentamento.
02:42Tem preferência quem tem família.
02:44Quem tem mais braço pra lidar na terra.
02:47Essa conversa não tá me interessando.
02:56Eu acho.
03:01Não sei, rapaz, não sei, não.
03:06Eu não sei como é que vocês vão fazer isso.
03:10É, mas a reação lá foi unânime.
03:12Amigos, e aí não...
03:14Nã?
03:16Nenhum.
03:17Claro que eu tentei.
03:19Imagine a manchete dos jornais lá de fora.
03:23Rei do gado perde as suas terras e solta seus bois no gabinete do presidente.
03:28Claro, rapaz, isso é força de expressão.
03:32Mas pode perfeitamente aparecer um maluco que escreveu uma coisa dessas.
03:39Tá bom, rapaz.
03:40Tá.
03:41Aguardo.
03:41Meu medo é que eles entram com um trator e começam a fazer um estrague danado naquelas terras.
04:08Não se preocupe, mas isso não vai acontecer.
04:10Não sei como é que o patrão tem tanta certeza disso.
04:14E acho que o senhor tá blefando quando diz que vai levar aquela boiada toda lá pra Brasília.
04:18Pois, ó, pode ter certeza, Martí, que eu vou fazer isso sim.
04:23Como diz o ditado, eu dou um boi pra não entrar numa briga, mas dou uma boiada pra não sair dela.
04:27Ah, isso eu tô sabendo.
04:29Vocês que fazem parte dessa massa
04:36Que passa nos projetos do futuro
04:41É duro tanto ter que caminhar
04:47Bom dia.
04:51Bom dia.
04:54Cadê o resto do nosso povo?
04:56E os trator?
04:57Calma, irmão.
04:59Calma.
05:00Houve uma mudança nos planos.
05:02Ah, que mudança?
05:03Pode levantar o campamento que nós vamos embora daqui.
05:05Ah, por quê?
05:06O que que aconteceu?
05:07O senhor é seu grupo...
05:09Direitinho do jeito que ela tá quando você chegar aqui.
05:11O senhor pode ficar sossegado que a gente vai levantar a cerca do senhor.
05:15Mas que o senhor nos forneça o arame.
05:18Porque o que tava aqui a gente contou e não vai ter mais jeito de emendar.
05:21Isso ele tem razão, patrão.
05:25Vai deixar aqui, depois eu cuido essa seca.
05:28Vocês são os menos culpados disso que tá acontecendo aqui.
05:32Vocês tão servindo de massa de manobra e não tão se dando conta disso.
05:37Vão com Deus.
05:39Com cuidado.
05:39Vamos, Martí.
05:41O que o senhor quer dizer com massa de manobra?
05:50Nada, irmão.
05:51Nada.
05:53Vamos levantar o campamento, hein?
05:54Vamos.
05:55Vamos embora.
05:55E vão pra onde agora?
06:11Sou desse chão onde o rei é peão.
06:21Vão com um laço na mão.
06:23Na mão.
06:24Laça, fé, reen, marca.
06:26Deixando a ilusão de que tudo é seu.
06:30Com coragem de quem vive, luta, sonha.
06:35Vem ser mais feliz e quem sabe será.
06:39Formam livres pensamentos seus
06:44Que vão pelo ar
06:47Ou fazem sonhar
06:50E sentem-se um Deus
06:54Sobre esse chão, solta a terra, raiz
07:04Estava aliviado no telefone
07:06É, graças a Deus, viu?
07:08Porque eu já tava ficando preocupada com a história de morte, tiroteio
07:11E todas essas terras aí que eles embadem
07:13Mas que assim, um sarro
07:15Pai marchar pra Brasília chefeando uma comitiva de 15 mil bois
07:19Isso seria, né? Se eu até queria ir com ele
07:21Dá um pedacinho pra mim
07:22Pois eu acho bom você se apegar a sua coragem, Marcos
07:25Pra poder contar pra ele que você comprou o tal barco
07:28Ah, e por favor me avise que eu não quero nem estar por perto
07:31Pode deixar que eu... que eu dobro, bicho
07:33E vem com a gente, Lula
07:35Pra dor, Dona Jacir
07:37Pra onde? Eu não sei
07:39Mas vem com a gente
07:41Não faça besteira
07:44Eu vou ficar
07:47Daqui vai pra onde?
07:49Também não sei
07:50Mas eu não vou subir em caminhão nenhum, não
07:57Eu te boto na mulher, Lula
08:12Não
08:14Bota tua mulher que tá com teu fio nos braços
08:19Eu vou ficar
08:23Se vai, Luana
08:24Vem com a gente
08:26Vão com Deus
08:31E com cuidado
08:34Só que aqui não saiu nem um tiro, nem uma tragédia, mas o etado nem um jeito de chegar, não, coitado?
08:54Tá aí, agora o patrão falou uma coisa certa
08:56Me diga uma coisa
08:58Se não fosse aquele tarde, seu amigo senador, a mexer os pauzinhos lá em cima
09:02O senhor ia deixar aquele povo todo aqui?
09:05Tá aí, uma boa pergunta, Mauritinho
09:07O que é isso?
09:12Poxa, patrão
09:13É a tamoça do acampamento
09:15O que ela tá querendo aqui?
09:17Vai, vem que deixaram lá pra trás
09:18Oi, Lula, moço
09:23Deseja alguma coisa?
09:27Pode falar
09:27Por que que não foi com os outros?
09:30Porque eu não quis
09:31O que que você tá querendo aqui?
09:35Nada, não
09:35Desculpa
09:39Espera
09:41Tá sozinha?
09:49Tem pra onde ir?
09:55Eu só tava querendo um canto pra...
09:57Pra ficar essa noite
09:58Porque amanhã, logo cedo, eu vou pegar a estrada de novo
10:02Mas já achou esse canto?
10:04Cuida dela, Marti
10:05Sim, senhor
10:06Venha comigo, me acompanhe
10:09Como é seu nome?
10:23É a Luana
10:24Bonito nome
10:27Pra D
10:30Vocês vejam só como é que vive esse povo
10:43Uma sem terra dessa
10:45Eu até que levaria lá pra casa
10:47Uma bobagem
10:49Ah, cuidado da sua vida
10:50É verdade
10:51E aí
11:21O senhor quer que eu sirva alguma coisa?
11:23Não, senhor, vá lá dentro, que eu preciso conversar em particular com o doutor Fausto.
11:27Sim, senhor, licença.
11:37E aí, então, o que que diz esse relatório?
11:41Eu lamento, seu Jeremias, mas não diz nada de bom.
11:46Como assim?
11:46Eu acho que toda a esperança que o senhor tinha de encontrar o seu irmão, Giacomo Guilherme, acaba aqui.
11:54Por quê? O que mais eles descobriram?
11:58Eu lamento lhe dizer, mas as pistas que eles estavam seguindo acabaram num acidente que aconteceu com um caminhão de boias frias, há muitos anos atrás, no interior de São Paulo.
12:08E morreram todos.
12:12Como assim? O que que tinha que ver meu irmão com boias frias?
12:16Ele era um deles e estava com toda a família.
12:21Não, não. Não, não, não, não, não.
12:24Não é possível.
12:27Não tem cabimento.
12:28Eu não vou aceitar uma coisa dessa.
12:30Cuide-se controlar, seu Jeremias. Cuidado com o coração.
12:33O diabo, coração. Você vem com uma notícia dessa e quer que eu faça o quê?
12:36Só calme.
12:39E procure me escutar.
12:40Ainda resta uma última esperança.
12:42Mínima, mas existe.
12:45Que última esperança?
12:47Consta que a única sobrevivente daquela tragédia foi uma menina.
12:50Dos seus 12 anos.
13:00Uma menina?
13:08É.
13:10E o seu irmão tinha uma filha dessa idade.
13:12Pelo menos é o que consta dos relatórios anteriores das investigações que o senhor deve ter dito.
13:17Sim, sim, eu sei disso.
13:18Mas o que que tem essa menina?
13:20Ela pode ser minha sobrinha?
13:22Aí é que está o problema, seu Jeremias.
13:25Todos os documentos dos bois frias que o caminhão levava estavam na boleia com o gato.
13:30O chofer do caminhão.
13:31E foram incinerados no incêndio que seguiu a queda do caminhão.
13:35A menina só se salvou porque foi jogada longe quando o caminhão rolou da ribanceira.
13:40Segundo consta deste relatório, ela ficou em coma na santa casa de uma cidade próxima durante muitos dias.
13:47E quando recobrou os sentidos, ela não lembrava de nada.
13:51Nem do próprio nome.
13:54Mas e aí? O que que aconteceu com ela?
13:56Consta que os médicos e as enfermeiras da santa casa se encantaram com ela.
14:02Estavam fazendo de tudo para recuperá-la.
14:04Como um dia, ela simplesmente desapareceu.
14:08Sem deixar rastro.
14:10É.
14:10E nunca mais se soube dela.
14:22Se ela era mesmo uma perdinase, seu Jeremias.
14:26Acha que nunca vamos passar bem.
14:30Porque o seu irmão e a família dele nunca mais voltaram para casa onde eles viviam.
14:36Na cidade dormitório dos boias frias daquela região.
14:39Segundo consta...
14:40Há alguma chance da gente achar essa menina para saber se ela é a minha sobrinha?
14:53Sinceramente.
14:55Eu creio que não.
14:55Então, me estude um jeito de deixar tudo que eu tenho.
15:08Tudo que eu construí nesta vida é para os meus empregados.
15:12E se inclua entre eles.
15:15Eu quero deixar tudo para o governo quando eu morrer.
15:18Uma fundação.
15:20Esse seria o caminho.
15:21Mas não vamos falar sobre isso.
15:23Afinal de contas, o senhor está vendendo saúde.
15:25Não, por isso você puxa a saca, doutor Falso.
15:28Que ninguém vem de saúde com quatro safena no peito.
15:32Aqui, ó.
15:33Come sossegada.
15:37Você fez bem ter batido aqui.
15:38Porque é perigoso andar por essas estradas à noite, ainda mais sozinha, né?
15:47Ela estava me contando que trabalhava no corte da cama.
15:50Vamos ir longe daqui.
15:51E foi despedida porque cortou no facão o sujeito que se atreveu com ela.
15:56Poxa.
15:57E a moça é brava, né?
15:59O que mais é que ela te contou?
16:01Falou mais nada, não.
16:03Só que ela sozinha no mundo, né?
16:05Ela parece não ser de muita prosa, não.
16:07Mas ela não é uma sem terra.
16:09Ela é uma boia fria, coitada.
16:11Ixi, não é a mesma coisa, Maurício?
16:15Escuta.
16:17Por que você não fala pra ele levar ela com ele lá pra Ribeirão?
16:20Ela pode ser de ser ventia, coitada.
16:23Poxa.
16:24Não fala besteira, mulher.
16:26Como é que o seu Bruno ia se explicar com a dona Leia?
16:30Oxa.
16:30É.
16:39Ele tá certo.
16:41A diabo é bonita demais.
16:44E eu não vou querer ela aqui.
16:46Vai levar ela pra cá, não é de genio.
16:48Você tá maluco, Maurício?
16:50Foi ideia minha não, patrão.
16:51Então eu sou mulher que fique com ela.
16:53Eu faço até um bom salário pra pobre.
16:54Agora eu acho que é o patrão que tá brincando.
16:58É.
16:58Mas seria até um ato de caridade tirar uma beleza daquelas da estrada.
17:03É, então você leva ela com você lá pra sua casa, tá?
17:06Aí é.
17:06Ela entrar pela porta e minha mulher sair pela janela.
17:10Meu casamento já anda por um fio por causa dessas viagens que eu ando fazendo com o patrão.
17:14Imagina se eu chegar lá com uma encomenda dessas.
17:17Até parece pecado a pobre ser tão bonita.
17:20Agora você falou uma verdade, Maurício.
17:22Se ela picou mesmo de facão o sujeitinho como ela contou lá pra sua mulher,
17:27imagina as coisas que a pobre não deve ter passado nessa vida.
17:30E isso quer dizer que ela é uma moça séria, né?
17:33E que carece de proteção.
17:36O que você quer dizer com isso, Maurício?
17:39O patrão podia mandar a pobre da moça pra sua outra fazenda.
17:42Deixar ela lá com o Donano e Zé do Araguaia.
17:44Por que você tá dizendo isso?
17:46Porque ela vai estar muito bem protegida.
17:48E mesmo por que, patrão?
17:49A sua mulher e seus filhos nunca botaram pra lá mesmo.
17:52Você tá muito enganado se você acha que eu tenho qualquer mau pensamento com essa moça, Maurício.
17:57Não, de jeito nenhum, patrão.
17:59Quando o senhor for embora amanhã, eu pego a pobre da moça e largo na estada outra vez.
18:04Pronto.
18:05Já vi que sobrou é pra nós.
18:07E dessa vez, o que que foi que aconteceu?
18:22Deram por encerrada as buscas do meu irmão e da família dele.
18:27Acho que eu não tenho a minha mãe e ninguém nessa vida.
18:34Mas eles não estavam no rastro dele?
18:37Tavam.
18:38E até com muita esperança.
18:41Então?
18:42O rastro terminou numa ribanceira ver na minha estrada, Judito.
18:46No acidente de caminhão de boia fria, onde não sobrou ninguém.
18:50Mas o seu irmão estava nele?
18:55Ele era um boia fria?
18:57É.
18:59Me custa acreditar nisso.
19:03Mas é.
19:05Ele e toda a família.
19:07Diz que só sobrou uma menina, mas ela ficou desviolada e desapareceu, se deixou a rastro.
19:22Olha, eu não quero mais jantar.
19:26Deixa a sopa aí no fogão, se mais tarde tiver fome, eu mesmo esquento.
19:35Esse remorso não acaba com ele.
19:38Coitado.
19:40Mas, doutor Fausto, há alguma chance de que ela seja encontrada?
19:44Nenhuma.
19:46Ou quase nenhuma.
19:50Legalio, fique tranquilo.
19:52Isso já aconteceu há muitos anos e é muito pouco provável que ela seja uma aberdinase.
19:56E se for, e se ela ainda estiver viva, talvez ela nem saiba disso.
20:01Mas como assim?
20:02Isso quer dizer que ninguém sabe dela mesmo?
20:05Ninguém.
20:05Ela desapareceu da Santa Casa e deve ter se perdido no mundo.
20:09Ué, mas então como é que ficamos?
20:12Parece que o nosso patrão se convenceu de que não tem mesmo nenhum herdeiro nessa vida.
20:17Ele me deu ordem para tocar o assunto da fundação, porque ele não quer deixar a fortuna dele para o governo.
20:21Ah, mas isso é ótimo.
20:24Mas espera.
20:25Ele tem uma irmã que se casou com o tal de desafeto deles dos berdinase.
20:30É, mas dessa irmã, ele não fala.
20:33Para ele, ela morreu quando saiu fugida de casa com esse tal desafeto deles.
20:36E é melhor a gente nem tocar nesse assunto.
20:49Alô?
20:53Maurício, você me acorda uma hora dessa para me dizer que seu patrão vai se atrasar?
20:57Foi para onde agora?
21:03O que ele foi fazer na fazenda do Pará?
21:07Sim.
21:09Invadiram lá também.
21:14Sim.
21:14Tá bom, Maurício, vai.
21:18Agora me deixa dormir, tá?
21:20Tomara que aquele avião caia.
21:34Você não precisa ter medo lá.
21:36Não fique aí apavorado.
21:38Eu estou com dor na barriga.
21:40Então relaxa.
21:42Mas se a gente cair...
21:44Esse avião aqui é mais seguro do que o caminhão de boia fria, Luana.
21:49Tá certo.
21:54Perdi o medo.
21:59Me conte um pouco mais de você.
22:02Não tem o que falar, não.
22:04Não vai ficar com o pé atrás comigo, vai.
22:07Por que o senhor me trouxe?
22:10Onde é que está me levando?
22:12Por um lugar que é melhor do que ficar perambulando pelas estradas da vida.
22:17Não é porque é isso.
22:20Eu não sei.
22:24Sinceramente, eu não sei.
22:25Se eu não gostar de onde o senhor está me levando, eu vou poder ir embora?
22:30A hora que você quiser, Luana.
22:35O senhor parece boa pessoa.
22:39Você também parece uma boa moça.
22:41Já estamos quase chegando, seu Bruno.
22:50O senhor vai querer...
22:51Não, não.
22:52Só me bote esse avião no chão com segurança.
22:54Sim, senhor.
22:58Por favor, aperte o cinto de segurança.
23:01Não tem perigo nenhum, não.
23:03Mas é melhor apertar direitinho, viu?
23:22Olha lá embaixo, ó.
23:23Ó.
23:24Maraguai é lindo daqui, ó.
23:26Só pensa nos bois dele e a família que se dane.
23:55Eu já estou cheia disso.
23:57Dona Leia, por favor, a senhora se acalme.
24:00Se o patrão voltou lá para a fazenda do Araguai,
24:02algum motivo ele deve ter tido, patrão.
24:04Claro!
24:05Claro!
24:06Alguma vaca especial deve ter parido.
24:07Ele foi lá parar a cria dela, não é?
24:15Que lhe roda merece ter chifre mesmo?
24:17Que lhe roda merece ter chifre mesmo?
24:30Que lhe roda merece ter chifre mesmo?
24:32É já.
24:34Vamos lá.
25:04Vamos lá.
25:34Ou será que roubaram estoques de arroz, de trigo, de milho?
25:39Televisão e jornal vem denunciando isso faz tempo, essa pouca vergonha, mas sempre tem nada.
25:44Por isso que eu digo, café mil, a gente só vai jogar no mercado depois que o governo joga o dele.
25:52Por falar nisso, o doutor Fausto não teve que ir falando a respeito desses relatórios que o senhor recebeu sobre sua família.
26:02Me desculpe, eu não estou querendo absolutamente me intrometer.
26:05Tira o cavalo da chuva, olhegaro.
26:10E tudo que tiver que acontecer aqui, só vai acontecer depois que eu fechar os olhos.
26:17Portanto, não tenha pressa.
26:19Ah, pelo amor de Deus.
26:22O senhor sabe que eu não estou querendo dizer uma coisa dessa.
26:25O senhor começa a morrer no dia em que nasce, negar?
26:29Ah, estou conformado com isso.
26:30Só peço a Deus que me dê mais algum tempo, porque achou que tem alguma coisa a mais ainda para fazer nessa vida.
26:46O senhor começa a morrer no dia em que nasce, negar?
27:16Quem é a moça?
27:18Nada aqui, viu?
27:19Sim, senhor, patrão. O senhor é quem manda.
27:21Alguma um quarto para ela, vai. Comanda, vai.
27:23Sim, senhor. Vem comigo, moça.
27:36Ixi.
27:37Onde é que o senhor pescou esse peixão, patrão?
27:39Não é besteira, Zé. Nada disso ainda está pensando.
27:42Cuida bem dela que eu vou seguir viagem agora mesmo.
27:44Vai voltar para Ribeirão, patrão?
27:46Não vou. Faz 15 dias que eu vou ver na minha família.
27:48Não imagino nem as cagadas que meus filhos estão fazendo por lá.
27:51Tá, não?
27:51Recolhe o avião para revisar ou depois pode ir para suas casas.
28:16E quando é que o patrão vai precisar da gente?
28:18Não pretendo viajar nos próximos 15 dias. Pode ir para suas famílias. Obrigado.
28:23Tomara que ele não ligue para a gente amanhã.
28:25Como é que estão as coisas em casa, Dimas?
28:32Tá tudo bem, patrão.
28:34Alguma novidade?
28:35Nenhuma.
28:36Novidade mesmo, só tem uma.
28:42Vou comprar um iate.
28:44O quê?
28:45O Dimas foi buscar ele e pode contar que vai dar com a língua nos dentes no caminho.
28:48Com toda certeza.
28:50E como é que vamos explicar que Dona Leia não está em casa?
28:52A gente não tem que explicar nada, Lurdinha.
28:54Quem tem que explicar é ela.
28:56Xiii, não quer nem saber do bafafá que vai dar.
28:58Esquece.
28:59A Dona Leia sempre acaba arranjando uma boa desculpa.
29:02Ela tinha certeza que o patrão não ia voltar hoje.
29:05Aliás, a gente nunca sabe quando é que ele volta.
29:08Quando ele ligou de Pereira Barreto dizendo que ia para fazer um andar do Araguaio antes de voltar para casa, eu me mandei.
29:24Sempre que ele vai para lá, ele se esquece da vida e de mim.
29:28Vai ver, ele deve ter arrumado uma vaquinha muito especial.
29:32Está sempre esperando por ele.
29:34Fala bobagem, velho.
29:35Meu marido é um homem fiel, essa questão eu não posso perder.
29:40E por que você está sempre nos braços?
29:45Porque o meu casamento foi uma mentira.
29:53Só que eu não quero falar sobre isso.
29:55Minha mulher?
29:56A Dona Leia foi para São Paulo.
29:58Fazer o quê? Eu não sabia que eu estava chegando?
30:00Quando o senhor ligou ela já tinha saído.
30:02Eu ia fazer o quê em São Paulo?
30:03Compras, como sempre.
30:05Até dia eu compro o supermercado só para ela.
30:07Eu fiz.
30:08Fala, Júlia.
30:10O seu Carlos foi para o Guarujá.
30:12E a Leia?
30:13Nós não sabemos da Dona Leia, seu Bruno.
30:17Eu espero.
30:18Pelo amor de Deus, seu Bruno.
30:19O senhor não me pergunte.
30:20Está certo, está certo.
30:21Perguntei para a pessoa errada.
30:22Está certo.
30:24Eu não falei que eu tinha que andar com a Leia no frente.
30:26Tem medinho que vai ter que devolver o iate.
30:33com a Leia.
30:35Eu não viro.
30:38Tchau.
30:38Tchau.
30:39Tchau, tchau.
31:09Tchau, tchau.
31:39Tchau, tchau.
32:09Sou desse chão onde o rei é pião com um laço na mão, laça, fere, marca, deixando a ilusão de que tudo é seu com coragem de bem.
32:25Viva e luta, sonha em ser mais feliz e vença.
32:30Foram livres pensamentos seus que vão perdoar, ou fazem sonhar e sentir-se um Deus.
32:43Sou desse chão, sou da terra, sou a relva do campo.
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