Após o tarifaço imposto por Donald Trump contra o Brasil, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) anunciou a liberação de R$ 30 bilhões em apoio aos exportadores. O pacote inclui também a ampliação do programa Reintegra, voltado para estimular a competitividade internacional. Para falar sobre o assunto, a Jovem Pan entrevista o economista Rodolpho Tobler.
Entrevistado: Rodolpho Tobler
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NotíciasTranscrição
00:00Sobre esse assunto, nós conversamos agora com o economista Rodolfo Tobler, que chega para nos ajudar a entender melhor
00:05essa medida do governo e os impactos, não só do tarifaço com esses setores que serão impactados,
00:11mas também agora os benefícios anunciados pelo governo.
00:14Professor, boa tarde, bem-vindo à Jovem Pan.
00:18Muito boa tarde, obrigado pelo convite.
00:20Quero já entender do senhor qual é o potencial, o peso dessa medida anunciada pelo governo
00:27para neutralizar os impactos econômicos da taxação?
00:32Eu acho que a medida que o governo tomou, de fato, é muito difícil não ser a favor dessa medida,
00:38é uma necessidade urgente, a gente viu que foi, de fato, uma medida em resposta ao que vem acontecendo
00:43dos Estados Unidos, em resposta a isso que tem sido feito, desse aumento da tarifa
00:47e que algumas atividades ainda continuam sendo muito taxadas.
00:51Depois de toda aquela isenção que a gente viu de diversos produtos, alguma quantidade de produtos
00:55ainda continuam sendo taxadas e isso afetaria diretamente o setor produtivo dessas atividades.
01:00A gente teria impacto ali na questão de geração de empregos,
01:03a gente teria impacto na questão de produção.
01:05Alguns itens que continuam sendo muito taxados têm questões de ser perecíveis,
01:09como o caso de frutas e alimentos.
01:12Então, na medida que teria um problema, um risco grande para essas atividades,
01:15o governo chega e faz com que atenue esse efeito.
01:18Acho que o objetivo dessa medida, o que a gente espera que aconteça,
01:20é que atenue, seja uma medida paliativa para que,
01:22nesse primeiro momento de impacto muito grande, as empresas consigam se organizar
01:26e não afetar tanto a sua atividade, a sua produção e também não chegar a afetar tanto a economia.
01:31Muitas vezes, a economia local, que em determinados lugares dependem
01:34de uma relação mais forte com os Estados Unidos.
01:36Professor, eu vou trazer para a nossa conversa o nosso analista do Fast News de hoje,
01:39o João Belucci, ele vai te fazer a próxima pergunta.
01:42Professor, boa tarde.
01:43É com relação à questão do arcabouço,
01:45porque o que se diz é que a questão do crédito ficará fora do arcabouço,
01:49do orçamento principal e haverá o sobrestamento, a suspensão por um período dos tributos.
01:56Como que é possível o senhor analisar para a gente essa questão dos valores de creditícios
02:01ficarem fora do arcabouço, que não é uma sinalização muito positiva
02:05em termos do orçamento brasileiro, que já é tão prejudicado?
02:09É, acho que ser um ponto relevante, a gente tem que sempre lembrar todo o panorama brasileiro.
02:13A gente tem hoje uma questão fiscal muito forte, que tem sido debatida bastante.
02:17Desde o ano passado, a gente tem visto bastante o aumento desse debate,
02:20de como o governo pode reduzir seus gastos, conseguir também, de alguma certa forma,
02:23aumentar sua receita até 100, que também pese no bolso do contribuinte,
02:26sem ser em aumento de impostos.
02:28Então, a gente tem visto que isso tem sido um debate muito grande.
02:30Quando a gente vem agora com essa medida de tentar atenuar o impacto das empresas
02:33e ficar ali fora do regime fiscal, isso pode sim trazer um problema fiscal
02:37de um pouco mais longo prazo.
02:38Mas, geralmente, quando a gente passa por medidas de choques,
02:41que precisa de uma resposta rápida, esse é um caminho que muitas vezes é feito
02:44e a gente pode ver que não tem tido muita restrição.
02:47Esse assunto, até mesmo oposição e situação, tem convergido para esse tema,
02:51porque, de fato, a gente tem um problema fiscal,
02:53mas, na medida que a gente tem esse impacto muito grande,
02:57que pode acontecer em determinados setores,
02:59não vai ser um impacto tão grande na economia como um todo,
03:01mas diversos setores acabam tendo um impacto muito grande,
03:04isso pode gerar um problema.
03:05Então, nesse momento, se faz uma medida fora do regime fiscal,
03:09mas o principal ponto é que a gente não faça,
03:10que essa medida, que é provisória, que é paliativa,
03:15se torne algo permanente e duradouro.
03:16Então, é muito importante a gente focar em resolver esse problema no curto prazo
03:20e, logo depois, voltar para as medidas fiscais,
03:22voltar a ter o regime fiscal um pouco mais controlado
03:24para que isso não gere problema maior de longo prazo.
03:26Então, de fato, não é um dos menores do mundo
03:28a gente ficar aumentando nessa expansão fiscal,
03:31mas, dado o cenário de urgência que as empresas precisam,
03:34não parece ser o pior do cenário,
03:35dado que a gente, no segundo momento,
03:37volte a debater questões mais estruturais.
03:39E aí, não só a questão fiscal, mas também a gente debater
03:41questões de nossa competitividade,
03:43por que a gente continua dependendo tanto de alguns países,
03:46por que nós somos considerados um país fechado,
03:48o quanto que a gente não pode também aumentar
03:49nossa cadeia global, integrar mais cadeias globais
03:52para que esses impactos, essas medidas,
03:53não impactassem tanto aqui dentro.
03:55Então, acho que, de certa maneira,
03:56a gente pode olhar para essas medidas agora
03:58como medidas de curto prazo,
03:59mas que são apenas paliativas.
04:01É algo muito para tentar corrigir um problema,
04:03um choque que aconteceu agora,
04:05mas a gente precisa ver o longo prazo.
04:07E por que a gente está dependendo tanto
04:09dessas medidas nesse momento?
04:10Por que a gente tem pouca integração global?
04:12Por que a nossa competitividade global é baixa?
04:14E é isso que a gente também tem estudado aqui no MBC
04:16e tentado ver quanto que a gente pode reduzir
04:18esse custo Brasil, que é o que a gente chama.
04:20O quanto que o Brasil pode melhorar
04:22seu ambiente de negócios para que esses efeitos,
04:24esses choques, não tenham um impacto tão grande aqui.
04:27Professor, já considerando a taxação,
04:29como ela se configurou, com tantas exceções,
04:32mais de 700 exceções,
04:34a medida de reação do governo brasileiro
04:36com esses 30 bilhões liberados e anunciados,
04:40como é que o senhor vai projetar a inflação,
04:43o crescimento do PIB,
04:44os impactos depois desse cenário que se apresenta?
04:48É, isso tem que esperar um pouco ainda
04:50para ter certeza absoluta,
04:51para ver de fato se vai ser aprovada
04:52essas medidas ou não, né?
04:53Alguma parte desse pacote do governo
04:55depende da aprovação do Congresso,
04:57me parece que vai ser aprovada,
04:58acho que a gente não tem visto
04:59nenhum tipo de restrição.
05:00Quando a gente olha um pouco para o PIB desse ano,
05:02a tendência é que tenha algum impacto negativo
05:04essas medidas do governo norte-americano,
05:07não parece que vai ser uma medida tão forte
05:09quanto até se esperava no início,
05:10quando se fala em aumento de 50% de todos os produtos,
05:13há uma reação um pouco mais cautelosa
05:15da nossa parte na hora de fazer as previsões,
05:17mas o que tem se visto agora
05:18talvez seja o impacto de 0,2% do PIB.
05:20Então, é reduzir um pouco o nosso crescimento de 0,2%
05:23com essas medidas do governo ajudando a atenuar.
05:25Pode ser até que a gente consiga zerar,
05:27acho que é um pouco mais difícil,
05:28mas dependendo da efetividade dessas medidas,
05:30a gente consiga até zerar esse impacto inicial.
05:32Com relação à inflação,
05:33o que a gente tem visto agora
05:34é que tem uma tendência até a desacelerar a inflação.
05:37A gente já tem visto uma desaceleração da inflação
05:40desde os inícios dos anos,
05:41teve um momento mais crítico ali na virada de 24 para 25,
05:44mas quando a gente começou,
05:45já fechando esse primeiro semestre,
05:47já tinha uma certa desaceleração,
05:49especialmente a inflação de alimentos,
05:51e essas medidas do governo norte-americano
05:52também tendem a reduzir um pouco a inflação aqui,
05:55porque dado que tem alguns alimentos,
05:57alguns produtos são mais de alimentares e perecíveis,
06:00é natural que também se tente encontrar
06:01algum mercado interno para não se perder,
06:04para não ter um estoque ali perdido.
06:05Então pode ser que ainda contribua a reduzir a inflação,
06:08então a nossa expectativa aqui também reduza,
06:09não é um efeito tão grande assim,
06:11mas ela entra com um certo ponto favorável
06:14nessa questão da inflação.
06:15E aí tem essa questão das contas públicas agora,
06:17que nesse impacto inicial é uma sinalização
06:19de certa forma ruim,
06:21dado que vai ter um aumento de gastos,
06:23mas se eles forem concentrados apenas nessa medida,
06:25como algo emergencial,
06:27é algo fácil de ser resolvido,
06:28é algo mais tranquilo de ser resolvido.
06:29O problema é se isso virar uma medida permanente
06:31ou com mais rodadas,
06:33como tivemos outros programas anteriormente,
06:35no caso da pandemia tem o caso, por exemplo,
06:37do PERS,
06:37que foi um programa que foi feito para um curto período
06:39e foi muito prolongado.
06:41Então isso acaba sendo um problema grande
06:42para as contas públicas.
06:44Então acho que de maneira geral,
06:45um resumo é,
06:46a gente deve ter alguma queda no PIB ali,
06:48talvez de zero a dois pontos,
06:50alguma redução na inflação também
06:51e alguma piora das contas públicas no curto prazo,
06:53mas não se espera que isso se estenda para o longo prazo.
06:56Professor, mais uma pergunta do João Beluti.
06:58Professor, a gente sabe que quando o governo,
07:00como você bem mencionou,
07:01cria algum programa provisório,
07:03a gente pode ter certeza que de provisório,
07:05normalmente, é só o nome.
07:07Mas como fazer esse calibramento
07:09entre a questão política e a questão legislativa mesmo?
07:13Porque a tendência é que na votação dessa MP,
07:15muitos dos players do governo
07:17façam novos discursos
07:18em face do governo americano,
07:20do Donald Trump,
07:21o que não ajuda em nada a esfriar a temperatura.
07:24Então, a tendência pode ser que,
07:25como você bem mencionou,
07:26o programa acabe se estendendo mais do que deveria.
07:29Como fazer esse meio de campo
07:31entre o político e o legislativo?
07:36É, acho que isso não é uma tarefa muito fácil,
07:38como você falou,
07:38é natural que as empresas mais afetadas
07:40também tenham a querer mais benefícios,
07:44tentar se tranquilizar um pouco mais,
07:45porque o principal fator que tem acontecido,
07:47além dessa questão da tarifa aumentada,
07:49do custo para algumas empresas,
07:50é um grande aumento de incerteza.
07:51Não se sabe, a gente não pode garantir
07:53de que essa tarifa não possa aumentar
07:55ou que possa ter mais produtos
07:56entrando ali na tabela de isenção.
07:59Então, é um pouco difícil de prever
08:00o próximo passo do governo americano, por exemplo.
08:02Então, esse ambiente de incerteza
08:03faz com que as empresas queiram
08:05cada vez mais benefícios
08:06para tentar atenuar esse impacto
08:07no dia a dia delas.
08:08Eu acho que o principal ponto
08:09que o governo pode fazer
08:10para tentar tornar o mínimo possível
08:13esse programa permanente,
08:14que seja realmente algo paliativo ali,
08:16é não só fazer essa ajuda,
08:18mas é começar a pensar em medidas estruturantes.
08:20é tentar mirar essa conversa,
08:22mirar esse debate
08:23para um debate de longo prazo.
08:24Quanto que a gente pode melhorar
08:25o ambiente de negócios no Brasil
08:26no longo prazo?
08:27Quanto que a gente pode,
08:28já agora, começar a ver medidas
08:30que aumentem a competitividade do Brasil?
08:32O que pode ser feito
08:33para que o crédito, de maneira geral,
08:35reduza o seu custo?
08:35Para que as empresas tenham acesso
08:37não só para programas específicos?
08:39O que pode ser feito
08:39para que a gente não precise
08:40depender tanto de apenas um país?
08:42Que essas empresas possam também
08:44se integrar com outras economias globais?
08:46O quanto que pode reduzir
08:47o custo de operação,
08:48seja com diminuição da complexidade tributária,
08:51seja com melhoria do ambiente de negócios?
08:53Então, assim, acho que direcionar
08:55esse debate já agora
08:56para como a gente pode melhorar
08:57nossas questões estruturais
08:58é um favorecedor
09:00para que essas empresas
09:00também comecem a olhar
09:01de maneira mais tranquila
09:02para o longo prazo,
09:03sem ter tanto medo
09:04dessa incerteza
09:05que pode vir à frente.
09:06Professor, uma última pergunta.
09:08O senhor já bem disse aí
09:09do impacto,
09:10inclusive positivo,
09:11no curto prazo
09:11que isso pode gerar
09:12em relação à inflação.
09:14Enfim, a gente vai ter mais oferta
09:15aqui no território nacional
09:17dos produtos que deixam
09:18de ir para os Estados Unidos,
09:19não é isso?
09:20Isso tem potencial,
09:21isso tem tamanho
09:22para impactar positivamente
09:23a taxa de juros
09:24que segue alta,
09:26segue na faixa dos 15%
09:28numa próxima reunião
09:29do Copom ou não?
09:32É assim,
09:33o Banco Central
09:33costuma olhar mais
09:34a expectativa de inflação
09:35no longo prazo, né?
09:36Acho que essa medida,
09:37o que tem acontecido agora,
09:38principalmente nesses primeiros
09:39semanas,
09:40não vai ser suficiente
09:41para mudar ali
09:42o cenário dele
09:43de longo prazo
09:43quando ele começa
09:44a olhar para a economia
09:45mais à frente.
09:46A gente já tem visto
09:47alguns dados
09:47de desaceleração
09:48da atividade econômica,
09:49as últimas pesquisas
09:50divulgadas pelo IBGE
09:51de atividade,
09:52de serviço,
09:52indústria, comércio,
09:53já tem alguma sinalização
09:54de desaceleração,
09:56mesmo que a gente
09:56ainda esteja
09:57no patamar elevado
09:58desses indicadores.
09:59Eu acredito
10:00que o Banco Central
10:01ainda deve permanecer
10:02estável nesses juros,
10:03olhar esse ambiente
10:04de certeza também
10:04acaba fazendo com que
10:06ele seja um pouco
10:06mais cauteloso,
10:07porque é difícil
10:08a gente já conseguir
10:09prever o que pode
10:10acontecer nas próximas
10:11semanas,
10:11então é natural
10:12que ainda tem
10:12uma certa cautela
10:13também do Banco Central
10:13em relação a qualquer
10:14tomada de decisão,
10:16mas acredito
10:16que o que a gente
10:17tem visto até agora
10:17não me parece
10:18que vai ser algo
10:19que vai contribuir
10:19muito positivamente
10:20para essa decisão
10:21do Banco Central.
10:22Acho que se de fato
10:23a gente continuar
10:24observando que o impacto
10:26não foi tão grande
10:27ou que realmente
10:27aumentou muito mais
10:28a tarifa e conseguiu,
10:29enfim, a oferta
10:30de produtos aqui
10:31ficou maior ainda,
10:31a gente reduziu bem
10:32a inflação nesse momento,
10:33então a inflação
10:33de longo prazo
10:34vai ficar mais controlada,
10:35aí eu acho que pode
10:36sim acabar afetando
10:37um pouco mais à frente
10:37essa decisão dele,
10:38mas nesse momento
10:39acho que nesse curto prazo
10:40aqui não é algo
10:41que vai afetar tanto
10:42a expectativa
10:43de inflação de longo prazo,
10:44eu acho que é algo
10:44mais pontual
10:45que tem sido visto,
10:47tem esses programas
10:48do governo
10:48que também vai ser importante
10:49ver o quanto
10:49que as empresas
10:50vão conseguir
10:50atenuar seus impactos
10:52para aí sim
10:53o Banco Central
10:53conseguir ter uma clareza
10:54do tamanho
10:55dessa desaceleração agora
10:56e do que pode acabar
10:57impactando a inflação
10:58de longo prazo
10:58e decidir se já pode
11:00chegar o momento
11:00de reduzir juros ou não.
11:02Perfeito,
11:03conversamos aqui
11:03com o economista
11:04Rodolfo Tobler,
11:06muito obrigado
11:06pela sua participação,
11:07professor,
11:08sempre um prazer
11:08te receber aqui
11:09na Jovem Pan.
11:11Eu que agradeço,
11:11fico aí à disposição
11:12para novas conversas.
11:13Até mais.
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