00:00Muito bem, sobre esse tema, vamos conversar e receber agora o mestre em Direito Internacional e vice-presidente acadêmico da FMU, o professor Manuel Furriella. Seja bem-vindo.
00:12Bom dia.
00:13Bom dia, professor. Professor, a gente não pode esquecer nunca, né? Também aí a gente falou muito de Evo Morales, né?
00:19Que havia uma obra, até hoje o Brasil é carente de gás natural.
00:22Era uma obra da Petrobras executada por um gasoduto lá, pra chegar aqui pro Brasil.
00:27E foi reestatizado por Evo Morales, né?
00:30Ele sempre falava que ele precisava de uma reeleição, porque ele não tinha feito tudo pela Bolívia, né?
00:34O que ele precisava, e ele teve até um quarto governo lá seguido, e depois teve-se a crise, como foi dita na matéria.
00:41Como é que o senhor avalia esse desgaste da esquerda também lá agora na Bolívia, e a situação econômica do país muito debilitada também, professor?
00:49Bom, primeiro, o desgaste começou a partir do momento que Evo Morales, que era considerado um exemplo pra esquerda,
00:59não só por ter levado esse modelo a governar a Bolívia, mas também por ele ser pragmático.
01:05Ele seguia o modelo de outros poucos presidentes latino-americanos de esquerda que seguiram o modelo pragmático.
01:11Tanto é verdade que ele esteve na posse do presidente Bolsonaro no Brasil, que é de uma linha ideológica completamente oposta dele.
01:21Mas mantinha, então, esse pragmatismo nas relações internacionais, mantinha nas relações econômicas,
01:28e nos seus primeiros governos ele teve bastante sucesso em relação à distribuição de renda,
01:33em relação à inserção internacional.
01:36Então, em alguns aspectos, o governo dele teve como modelo uma questão que envolvia não só
01:44os recursos naturais da Bolívia serem utilizados por entes estatais e modelos que trouxeram melhoria na condição de vida da população
01:54no primeiro momento, como também, como eu mencionei, em ser pragmático, manter relações com o mundo todo,
02:00ser um político moderado.
02:03Só que depois, quando ele não conseguiu, por conta de impedimento constitucional,
02:10manter candidaturas à reeleição indefinidamente, que era o modelo dele, era o modelo que ele buscava,
02:17ele começou a se desgastar, ele se desgastou a tal ponto que chegou a ter que se exilar no exterior.
02:23Retornando à Bolívia, ele apoiou o candidato Ars, que não fez uma boa gestão.
02:29Tanto é verdade que agora não consegue apoiar nem sequer um candidato que vá ao segundo turno com o modelo de esquerda.
02:37Então, você tem aí uma ruptura.
02:39E Evo Morales desgastou-se como liderança dentro do país,
02:43como um grande protagonista internacional na linha da esquerda no mundo todo,
02:49principalmente na América Latina,
02:51e tanto é que agora não apoia candidato nenhum, apoia propriamente o voto nulo.
02:55Então, você tem uma cisão, uma divisão nas lideranças de esquerda,
03:00e a origem de tudo isso, o primeiro ato de origem,
03:03foi essa questão do Evo Morales querer continuar indefinidamente no poder,
03:09um modelo que não servia a ele próprio, em termos políticos,
03:14que não servia institucionalmente à Bolívia,
03:17que proíbe as reeleições indefinidas,
03:20e que, por parte dos seus opositores dentro do partido,
03:24significaram essa cisão.
03:26Então, este é o momento.
03:27Economicamente falando, o modelo estatizante se esgotou.
03:32Como nós bem sabemos, é um modelo que traz uma série de consequências negativas
03:37em termos de investimentos,
03:39já que o Estado não tem fôlego suficiente para este modelo.
03:42causou um desgaste, num primeiro momento, com o Brasil,
03:45já que, como você mencionou,
03:47houve a estatização da distribuição de gás ao Brasil,
03:53do gasoduto Brasil-Bolívia,
03:54que foi construído com recursos brasileiros,
03:57com investimentos da Petrobras,
04:00investimentos esses até hoje não ressarcidos ao Brasil,
04:04e que depois, em um segundo momento,
04:06surgiu um outro recurso natural importante, que é o lítio,
04:09que poderia ter sido explorado por várias empresas estrangeiras
04:14que têm interesse na utilização deste material,
04:17principalmente, como a gente sabe,
04:19para baterias dos carros elétricos,
04:22e que a Bolívia não definiu um modelo interessante de exploração.
04:26Criaram um estatal ineficiente,
04:28um estatal que é deficitária,
04:30e que não consegue explorar esse recurso natural.
04:33Então, você tem a Bolívia refratária em investimentos estrangeiros,
04:37ela não aproveitando esse recurso.
04:41Então, a consequência é uma crise econômica profunda,
04:44mesmo ela tendo tantos recursos naturais,
04:47e poderia ter aproveitado o bom aumento do lítio,
04:50poderia ter aproveitado a necessidade brasileira do seu gás natural,
04:55e poderia ter aproveitado também uma reinserção mais pragmática
05:00na política internacional.
05:02Perdeu todas essas oportunidades.
05:04O resultado é, surpreendentemente, negativo
05:07para um país onde a esquerda chegou a estar muito sólida
05:11na liderança de Evo Morales,
05:13e que hoje, os dois candidatos com chance do segundo turno,
05:17nenhum deles é de esquerda.
05:18Agora, professor, vamos trazer aqui para a nossa realidade no Brasil,
05:22porque amanhã o governo brasileiro
05:24tem que apresentar aquela defesa,
05:26as acusações de práticas comerciais desleais
05:29feitas pelos Estados Unidos,
05:30no processo que foi aberto no dia 15 de julho
05:33pelo escritório do representante comercial do país.
05:36A gente recebeu essa carta.
05:38Tem várias acusações ali preocupantes
05:40em relação ao PIX,
05:42em relação também à nossa economia.
05:44Você acredita que essa resposta
05:46será com base na narrativa
05:48que já vem sendo repercutida
05:50pelo governo federal
05:52de soberania do Brasil,
05:54ou ela vai além?
05:54Ótimo ponto.
05:57Bom, primeiro,
05:58que a carta que veio de Donald Trump ao Brasil,
06:01ela veio contaminada com fatores
06:03que tanto são
06:04de decisão política do governo americano
06:07a favor do ex-presidente Bolsonaro,
06:10como também tem a questão
06:12que envolve decisões do governo brasileiro
06:14de não ter construído
06:15um relacionamento produtivo
06:17com os Estados Unidos,
06:19um relacionamento,
06:20aí a gente já usou essa expressão hoje,
06:22pragmático,
06:22que era clássico da diplomacia brasileira.
06:25Então, há décadas,
06:27o governo brasileiro
06:28se notabilizava
06:29os governos brasileiros
06:30em manter uma postura pragmática.
06:33Tanto é verdade
06:34que o Brasil tem relacionamento
06:36com praticamente todos os Estados do mundo
06:38e não tem nenhum desgaste representativo
06:41em nenhum dos relacionamentos.
06:42Isso está começando até agora.
06:44Então, um dos pontos
06:46que eu acho que são importantes
06:47é que o governo brasileiro
06:48deveria ter distensionado
06:51o seu relacionamento.
06:52não é questão de se subjulgar,
06:55não é questão de se alinhar,
06:57até porque os perfis dos governos
06:58são diferentes,
07:00mas era uma questão especificamente
07:02de tratar negócios
07:03de uma forma mais prática.
07:06Então, em vários momentos
07:07o Brasil fez isso.
07:08Inclusive, se a gente quiser pegar
07:09até mesmo um dos exemplos
07:11das gestões do presidente Lula,
07:14já que ele está na sua terceira gestão,
07:16havia George Bush,
07:17filho no governo americano,
07:18que também era de uma ideologia oposta
07:22ao governo brasileiro,
07:23e as relações foram produtivas.
07:25Não foram próximas
07:26como foram em outros governos,
07:27como, por exemplo,
07:29no de Barack Obama,
07:30mas foram produtivas.
07:32Elas significaram um incremento
07:33nos negócios entre Brasil e Estados Unidos,
07:35que foi muito interessante para os dois.
07:37Mas, desde o início,
07:39o governo brasileiro,
07:40ele decidiu utilizar um discurso hostil.
07:43E eu acho também
07:44que não foi útil
07:45esse mesmo discurso,
07:47porque a gente tem que ter
07:48um posicionamento internacional.
07:50Quando nós somos cobrados,
07:52a gente não tem escolha.
07:53Mas, quando nós não somos,
07:55a gente tem a escolha
07:56de deixar para um momento
07:57onde o assunto vai ser abordado.
07:59Por exemplo,
08:00por que a gente insiste
08:01em moeda única para os BRICS,
08:03se nem a própria China,
08:05que vai ser quem vai liderar
08:07uma futura eventual moeda no futuro,
08:09está tratando desse assunto no momento?
08:11Ponto de desgaste para os Estados Unidos.
08:13Então, eu acho
08:14que essa é uma questão
08:16que vai também, infelizmente,
08:18contaminar.
08:19Aí, o nosso relacionamento
08:20está contaminando.
08:22Mas, em termos da Carta Brasileira,
08:23eu acho que tem que ser deixado
08:24muito claro que
08:25as questões judiciais abordadas
08:27na correspondência de Donald Trump,
08:30elas não podem ser tratadas
08:31por quem cuida da nossa política externa,
08:33que é o Poder Executivo,
08:35simplesmente pelo fato
08:36de que elas estão sendo tratadas
08:39em outro poder,
08:40independente da República,
08:41que é o Judiciário.
08:42Então, eu acho que essa questão
08:43tem que ser abordada dessa forma.
08:45E nunca pode se esquecer
08:47de lembrar
08:47os 200 anos
08:49de relacionamento produtivo
08:51entre Brasil e Estados Unidos
08:53e, principalmente,
08:55o fato de que
08:56os Estados Unidos,
08:58eles são superavitários
08:59no relacionamento com o Brasil
09:01e de que grande parte
09:03dos produtos americanos
09:05já entra no Brasil
09:07com tarifa zero.
09:08Então, eu acho que tem que colocar
09:09no caráter prático
09:10essa correspondência
09:11e tirar esses dois lados políticos.
09:14E aí, uma sugestão,
09:16diminuir esse discurso hostil
09:18que não é produtivo
09:19neste momento.
09:20Muito bem,
09:21agradecemos a participação
09:23do mestre em Direito Internacional
09:25e vice-presidente acadêmico
09:27da FMU,
09:28o professor Manuel Furrela
09:30participou conosco
09:31deste Jornal da Manhã.
09:32Muito obrigado, professor.
09:33Um ótimo domingo.
09:35Ótimo domingo, Arthur.
09:36Até mais.
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