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Pesquisadora da Embrapa Soja e vencedora do Prêmio Mundial da Alimentação, o "Nobel da Agricultura", Mariangela Hungria avalia a trajetória da pesquisa e desenvolvimento de produtos biológicos produzidos no Brasil como alternativa aos produtos químicos, dominantes no mercado agrícola.

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Transcrição
00:00Professor Mariângela, se nós temos de aprender com o Estado de São Paulo, a FAPESP,
00:03nós temos de aprender com o Paraná, o espírito das cooperativas agrícolas,
00:08que teve um papel fundamental, principalmente para o pequeno e médio agricultor.
00:11Então, talvez essa cultura foi muito disseminada da pesquisa em campo,
00:17como você está colocando, justamente por causa desse espírito tão forte de cooperativas no Paraná.
00:21Sim, é muito forte. A gente trabalhou com as cooperativas,
00:25até agora a gente estabeleceu a primeira parceria da Embrapa em biológicos
00:31com uma cooperativa lá, a Copavel, e eu estou colocando todas as fichas.
00:38Por quê? Nessa parte dos biológicos, o que está acontecendo?
00:41Teve um negócio assim, estouro, sabe? Estourou o consumo, a produção,
00:47todo mundo agora quer os biológicos e começou assim muito venda, compra multinacional e tal.
00:53E daí a gente tem parcerias, por quê? Embrapa não vende nada, né?
00:57Nós não vendemos. Então, a gente desenvolve a pesquisa, faz as tecnologias
01:02e tem que fazer uma parceria para colocar esses produtos no mercado, né?
01:07Porque nós não vamos ao mercado.
01:09Daí estava muito frustrante, o quê? Você vai lá, faz 5, 10 anos,
01:13desenvolve um produto, é tudo maravilha, põe lá, faz uma parceria público-privada,
01:18pá, a empresa vende, daí você não sabe para quem que vendeu,
01:22tira o produto do mercado e tal.
01:24Pode ser uma, duas, três, quatro vezes, daí eu falo,
01:26ai, chega, pelo amor de Deus, estou frustrada.
01:29E nós estabelecemos agora com uma parceria,
01:31eu até brinquei, fui lá e falei assim,
01:33vocês têm que me assinar um papel que vocês não vão ser vendidos para ninguém,
01:37sabe? Não, não vamos ser vendidos.
01:39E estabelecemos, estamos lá com parceria,
01:42já colocamos o primeiro produto.
01:44E qual que é a, o que a gente está muito confiante dessa parceria com a cooperativa?
01:50Primeiro, porque as cooperativas do Paraná são muito fortes.
01:54E segundo, qual que é a limitação que hoje a gente tem nos biológicos?
02:00Muita solução, a gente tem solução para muitas culturas.
02:05Mas o que que acontece?
02:06Entra o setor privado, que é o setor que comercializa.
02:10O setor que comercializa quer lucro.
02:13O lucro, ele acha mais fácil fazer lucro com grandes agricultores.
02:18Ir lá numa fazenda de 50 mil hectares, vender para lá.
02:21Ele não quer ir atrás de 500 pequenos agricultores e vender para eles.
02:26Então, embalagem, procurar, tal.
02:29Então, às vezes, os pequenos agricultores,
02:32eles não estão tendo acesso a essa tecnologia que a gente desenvolveu
02:36e que serve para todo mundo.
02:38Então, a nossa esperança também, em parceria com a cooperativa,
02:42é que essa grande maioria dos pequenos agricultores finalmente possa ser atendida.
02:48Isso aí.
02:49A cooperativa é o canal com o pequeno e médio agricultor.
02:52É.
02:53Estamos jogando todas as nossas fichas.
02:55Eu cobro lá, falo, olha, vocês que andem na linha, viu?
02:59Porque todas as fichas estamos jogando nisso.
03:01Porque eu tenho certeza que, se der certo,
03:03até o setor privado vai olhar com outros olhos e falar,
03:07ah, é melhor a gente atender os pequenos.
03:09Na hora que tiver a capilaridade, aí é fácil, né?
03:11É, é.
03:12Agora, vamos falar agora, começar a entrar e falar dos biológicos,
03:14que é uma coisa muito importante, né?
03:15A agricultura tropical, se nós olharmos o estado da natureza,
03:20não seria uma agricultura competitiva.
03:22A gente tem um monte de problemas.
03:23Solo pobre, mais pragas, problemas específicos da agricultura tropical.
03:28E isso, a Embrapa, como nós conversamos daqui a pouco,
03:32conseguiu superar essas dificuldades e transformar isso em área de produtividade.
03:36E um dos grandes problemas do Brasil era a dependência de fertilizantes.
03:40Isso ficou muito claro na guerra da Ucrânia com a Rússia e, principalmente, na pandemia, né?
03:45Então, o Brasil começou a ter que descobrir outras formas também de substituir os fertilizantes químicos.
03:51Quando começou essa parte da pesquisa biológica fazer a diferença,
03:58se tornar competitivo e começar a chegar às fazendas e ajudar a aumentar a produtividade?
04:05Então, nós temos esse gargalo absurdo que é o dos fertilizantes e que piorou.
04:11Piorou por quê?
04:12Se pegar, assim, uns sete, oito anos, a gente importava 65% dos fertilizantes que a gente usava.
04:24De repente, passou para 85%.
04:26Então, como que pode um país que é tão importante a agricultura importar 85% dos fertilizantes que usa?
04:35Desmantelaram várias indústrias de fertilizantes porque estava mais barato importar.
04:40Tá. Entendeu? Então, isso foi um absurdo.
04:43A pesquisa com biológicos, nós temos uma tradição de quase 70 anos no Brasil.
04:51Nós sempre tivemos essa tradição, nós sempre tivemos soluções biológicas para a agricultura
04:57e o agricultor sempre usou.
05:00Nós sempre tivemos uma posição de destaque, só que a gente foi crescendo, crescendo, crescendo
05:06e a gente já estava meio líder no mundo do uso, principalmente por causa da soja, que é o nosso carro-chefe.
05:15E a gente mostrava para o mundo que a gente era uma vitrine, porque a nossa soja brasileira,
05:22ela é 100% independente do fertilizante nitrogenado, que é o mais caro, o mais poluente.
05:30A gente importa 85%, é tudo.
05:33Então, a gente já tinha essa vitrine no caso da soja.
05:38E daí, o que aconteceu?
05:40Então, a gente crescia, crescia, estava crescendo, crescendo o uso de biológicos.
05:45E daí, sempre de um problema, de uma coisa ruim, nascem as oportunidades, que foi exatamente o que você falou.
05:52Veio a pandemia, guerra da Rússia e da Ucrânia, que eram os países que a gente importava a maior parte dos fertilizantes.
06:01E a situação era, o marketing dos químicos era mil vezes maior do que o marketing dos biológicos.
06:09E o marketing dos biológicos era 100 mil vezes maior do que o marketing da pesquisa.
06:16E, então, a gente sempre estava ali tentando convencer, convencer os agricultores, mostrava o resultado lá de 100 experimentos de campo.
06:26Olha, você pode usar, você confia.
06:29Mas, vinha lá o marketing dos químicos e falava, não, você nunca vai produzir máximo de produtividade se você não usar o químico.
06:37O químico é tudo, tal, tal, tal.
06:39E a gente não conseguia vencer a barreira de vários agricultores.
06:43Como daí não tinha os fertilizantes, e também isso aconteceu com vários agrotóxicos lá, para controlar pragas e doenças.
06:56O agricultor não tinha opção, sabe?
06:58Daí ele, a gente falou, ah, então arrisca, né?
07:01Por que você não resolve acreditar na gente?
07:03E ele resolveu arriscar, muito porque ele não tinha opção.
07:07E ele arriscou, ele usou e ele viu que o que a gente falava era verdade.
07:11E daí isso deu uma explosão no uso dos biológicos, porque ele viu que o que a gente falava insistentemente era verdade.
07:20Que os produtos que a pesquisa brasileira tinha desenvolvido, tanto para substituir os fertilizantes químicos,
07:29como para o controle biológico de pragas e doenças, eram efetivos, funcionavam e que eles podiam confiar.
07:37Então aumentou muito o uso desses produtos.
07:40Foi uma grande oportunidade para nós.
07:43Agora, professora, explica um pouco para a nossa audiência, é até interessante a história do risóbio,
07:47como daí começa toda uma pesquisa importante, esse desenvolvimento.
07:51O que que a levou, a curiosidade, especificamente, começar ali com o risóbio,
07:56e ali começar a desenvolver essa parte biológica?
07:59Olha, eu sempre amei, né?
08:03Eu queria ser microbiologista desde os oito anos de idade e queria muito...
08:08Minha família não é do agro, nada.
08:10Eu, inclusive, morava aqui em São Paulo, era menina de cidade, né?
08:15Mas eu queria muito produzir alimentos, porque eu era muito...
08:19Eu achava muito triste ver pessoas passando fome.
08:22Então eu queria uma coisa assim de produzir alimentos.
08:24E queria a parte de biológicos.
08:26Só que, olha só, eu entrei, né, conforme eu falei, entrei na faculdade de 1976.
08:32E na década anterior, a gente estava com uma grande crise mundial de produção de alimentos.
08:42Tinha a teoria malthusiana de que a população estava crescendo exponencialmente
08:47e a produção de alimentos não estava crescendo.
08:50Então veio o Norman Buller, que era agrônomo também,
08:57e que provou que, através de melhoramento de milho e de trigo,
09:02junto com a adubação química pesada,
09:05mostrou que poderia aumentar a produção de alimentos,
09:08que a humanidade não ia morrer de fome conforme previsto.
09:11Por causa disso, que ele tirou milhões de pessoas da fome
09:15e também provou que tinha uma saída de produção de alimentos para a humanidade,
09:20ele ganhou o Prêmio Nobel da Paz,
09:22porque não havia categoria de alimentação ou agricultura.
09:26E, com isso, ele criou a fundação, né?
09:29Porque ele achava absurdo não ter a categoria de alimentação ou agricultura,
09:33que é a que...
09:34Você foi pra mim.
09:35É, e ele falou, não, eu quero criar uma categoria que eu acho a mais importante,
09:39que não existe lá.
09:41Mas eu entrei na faculdade, ele ganhou em 1970,
09:44eu entrei na faculdade, estava o auge, chamava Revolução Verde.
09:49Então era tudo a adubação química, química, química, química.
09:52E eu já tinha um negócio de infância que eu queria o Biológicas, né?
09:56Então fui atrás de saber o que poderia ser feito.
10:00E tem esse processo maravilhoso, que é o mais perfeito,
10:05que daí escolhi, né, que foi o carro-chefe da minha carreira,
10:09que é o da fixação biológica do nitrogênio.
10:12Como que é esse processo?
10:15Aqui no ar que a gente respira, quase 80% é N2,
10:20que é nitrogênio gasoso.
10:22E o nitrogênio, todos nós precisamos muito de nitrogênio.
10:26Por quê?
10:27Ele faz parte do DNA, RNA, aminoácidos, proteína.
10:31Só que, olha só o paradoxo, nós precisamos muito,
10:34mas ninguém consegue aproveitar esse N2 que está no ar,
10:38porque são dois átomos de nitrogênio com uma ligação tripla muito forte entre eles.
10:43Então ninguém, nenhum homem, planta, animal consegue aproveitar.
10:48Mas algumas bactérias lá, há bilhões de anos,
10:52elas evoluíram para ter uma enzima que consegue quebrar e usar esse nitrogênio.
10:57Quando apareceram as primeiras plantas na Terra,
11:01elas começaram a se associar com essas plantas e fazer uma troca,
11:05falando, olha, eu te dou nitrogênio, você me dá o seu carbono da fotossíntese.
11:10E então se estabeleceu esse processo de fixação biológica do nitrogênio.
11:14Já para as plantas que não se associaram a isso, o que acontece?
11:20Em 1910, teve o processo, o Haber-Bosch desenvolveram o processo de síntese do fertilizante nitrogenado,
11:31que imita lá a bactéria.
11:33Ele captura esse nitrogênio do ar e quebra a tripla ligação
11:38e transforma, então, numa forma que a planta pode usar.
11:42Só que para quebrar essa ligação,
11:44ele precisa de uma média de seis barris de petróleo para fazer uma tonelada.
11:49Porque ele precisa dar uma temperatura de 400, 500 graus,
11:53300 atmosferas de pressão.
11:55Então é o mais caro energeticamente de todos os fertilizantes químicos.
12:01E então é o que mais requer energia,
12:05tanto que um quilo de nitrogênio fertilizante,
12:09ele equivale a, ele está implicado com 10 quilos de emissão de CO2 equivalente.
12:15Nossa!
12:16E por isso que é tão caro.
12:17Legenda por Sônia Ruberti
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