00:00A gente agora volta a falar sobre os casos de violência contra mulheres.
00:05O crime de feminicídio no Brasil aumentou cerca de 4,7% em relação ao ano anterior.
00:11Para tratarmos desse assunto, vamos ao vivo com Elize Madela,
00:16que é presidente da Comissão da Mulher, advogada da OAB Santana de Parnaíba.
00:22Elize, primeiramente, muito bom dia, feliz dia da mulher,
00:26seja bem-vinda à edição deste domingo do Jornal da Manhã.
00:30E vamos tratar sobre esses números, Elize, porque quando a gente olha para o dado 4,7%,
00:36pode parecer um número pequenininho, mas que representa centenas, milhares de vidas
00:43simplesmente interrompidas por serem vidas de mulheres.
00:49Mais uma vez, bom dia.
00:50Exatamente. Bom dia, bom dia, Beatriz.
00:52Pois é, quando a gente fala em porcentagem, parece um nadinha.
00:59O grande problema é que esse nadinha em números reais é algo muito, muito difícil
01:04da gente lidar na nossa realidade.
01:07Se não me falha a memória, nós tivemos agora, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança Pública,
01:12no ano de 2025, 1.470, perdoe se eu não estiver sendo específica, mas acredito que seja esse o número,
01:22sim,
01:22de feminicídios no Brasil, no ano de 2025 inteiro.
01:27Isso foi um recorde. O número de 2024 já era alto, o número de 25 acabou aumentando.
01:32É uma situação extremamente delicada, Beatriz.
01:35Mas nós temos aí uma realidade em relação à violência de gênero, a violência contra a mulher,
01:41muito, muito dura, muito severa.
01:44E os números não deixam de demonstrar isso, ainda que possa existir um questionamento
01:50em relação ao aumento do número de casos ou o aumento do número de denúncias,
01:56ou mesmo da tipificação como feminicídio.
01:59Os números são claros. Eu acho que a gente está, de certa forma,
02:03enfrentando uma epidemia de vários níveis de violência contra a mulher,
02:09sendo aí, obviamente, o feminicídio, o derradeiro, a escalada desses graus de violência.
02:17Elize, bom dia.
02:19Diante de todo esse cenário, o que é necessário, de fato,
02:23uma mudança legislativa da lei penal, o maior rigor, evidentemente,
02:29já que, de fato, nós estamos cada vez mais assustados.
02:33Aquele caso aqui que o jovem arrastou a pessoa por dois quilômetros,
02:38uma jovem que tinha dois filhos, infelizmente morreu,
02:42e parece que a violência não para.
02:44O que é necessário, neste momento, no Dia Internacional da Mulher,
02:48a gente discutir para uma mudança, claro, comportamental,
02:51a gente está observando, infelizmente, assédio, estupros, feminicídios.
02:56Então, essa mudança comportamental precisa ser com o rigor da lei?
03:01Eu entendo... Bom dia, Marcelo, perdão.
03:04Eu entendo que nós temos dois pontos interessantes nesse sentido.
03:09Eu acho que quando você traz a questão do comportamento,
03:12ele, de certa forma, se ancora e se aproveita da lei penal,
03:17no que se refere à punição do agressor, e como você mesmo disse,
03:23nós temos casos de abuso, de assédio, de estupros, de feminicídio,
03:29mas eu acho que está ficando claro que a lei, por melhor que ela seja,
03:34e aí eu sou obrigada a dizer que a Maria da Penha é tida como uma das melhores leis
03:37de proteção da mulher, lato senso,
03:41mas eu acho que o que a gente está falando realmente,
03:44Marcelo, é de uma questão de mudança de comportamento,
03:48uma mudança de visão de mundo, de visão de parâmetro em relação ao relacionamento,
03:55homem-mulher aos direitos da mulher.
03:58Eu vejo a lei enquanto proteção, enquanto visão punitiva ou pedagógica do Estado,
04:06mais voltada à punição do agressor,
04:10o que, infelizmente, nem sempre resulta na diminuição da agressão.
04:16Então, a gente tem aí um componente social comportamental
04:20que eu acho que precisa ser levado mais a sério.
04:22Então, desde uma condição de educação das nossas crianças,
04:28dos nossos homens e das nossas mulheres a respeito de igualdade,
04:32de equidade entre homens e mulheres,
04:36mas, fundamentalmente, um desmistificar de uma cultura
04:41extremamente dominante na visão masculina
04:44sobre a figura ou a posição da mulher.
04:48Então, acho que o que a gente tem aí de componente
04:50que a lei poderia oferecer com mais guarida,
04:53que, inclusive, consta da Maria da Penha,
04:55é uma questão da própria reeducação e ressocialização do agressor.
04:59Porque existe, sim, um componente comportamental,
05:02existe, sim, um componente ecotostial na conduta do agressor.
05:07E aqui eu não estou tirando a importância da punição,
05:09mas eu estou adicionando a necessidade da gente mudar um pouco esses roteiros,
05:15que são sempre iguais, gente.
05:16Nós sabemos, dificilmente um agressor se torna um assassino
05:21logo num primeiro ato de violência.
05:23Via de regra, essa violência tem um desenho,
05:27uma escala de, vamos assim, de gravidade
05:30em termos do comportamento do agressor para a vítima,
05:33que muitas das vezes, graças a Deus, não todas,
05:38desemboca no feminicídio.
05:41Mas é uma questão punitiva em termos de visão estatal,
05:45mas é uma questão também da necessidade de a gente mudar
05:48comportamento e visão de mundo, Marcelo.
05:52Elize, justamente por conta desse ciclo da violência
05:55que a gente vê tão previsível, né?
05:57Começa com agressão verbal, aumenta para agressão física,
06:01até que se escale para uma situação de feminicídio,
06:04nós também vemos reverberando na sociedade,
06:07não apenas entre os agressores,
06:09mas entre muitas pessoas, homens e mulheres,
06:11aquela culpabilização da vítima,
06:14de dizer que a mulher apanhou num primeiro momento
06:16porque ela não saiu imediatamente daquele relacionamento.
06:19Eu acho sempre muito importante a gente trazer a consciência
06:23e a mudança de visão sobre esse tema.
06:26E por isso eu também gostaria de ouvir a sua fala sobre isso,
06:30por que é tão importante a gente quebrar e romper com esse discurso
06:35que culpa sempre as vítimas?
06:37Se ela apanhou, se ela foi assassinada, se ela foi estuprada,
06:41de alguma forma ela foi culpada, o que é um absurdo
06:45e o que alimenta a violência cada vez mais.
06:49Eu concordo com você, Bia, é realmente um absurdo
06:53e aí talvez se me permita ser um pouco dura,
06:56eu acho que é um discurso extremamente cúmodo
06:59culpar o outro e principalmente culpar a vítima
07:03dentro de uma situação de violência como um todo
07:07me parece ser a saída mais fácil,
07:12seja para quem não está na posição,
07:14seja para quem olha a situação da violência de gênero
07:18por métricas matemáticas.
07:21Isso também passa por uma questão de visão de mundo,
07:24de comportamento, obviamente,
07:26e aí eu acho que a gente tem um ponto que é bastante relevante,
07:30que é, não é uma condição simples a percepção da mulher vítima,
07:35como vítima, é uma caída de ficha muito dura,
07:39e ela passa por revisão de conceitos pessoais que também são muito duros.
07:45cair a ficha de que, poxa, eu escolhi errado, entre muitas aspas,
07:51eu não vi que o homem com quem eu me relacionei,
07:55o mesmo homem a quem eu amo, é um agressor, um violentador impotencial.
08:00Isso tem um tempo na própria percepção da mulher.
08:03Isso a gente está falando porta para dentro.
08:06Se a gente for falar porta para fora, Bia,
08:08a gente tem questões fáticas, práticas,
08:11que impedem muitas mulheres de se distanciarem do ciclo de violência.
08:17Entre elas, o mais comum que a gente cita,
08:19e eu acho que é importante a gente usar como exemplo,
08:21porque ele é muito palpável,
08:23que é o seguinte,
08:24uma mulher que já é, ao longo de anos,
08:27atolida de uma série de direitos,
08:29até pela própria consequência da agressão,
08:32e do ambiente de violência dentro da casa,
08:35ela eventualmente não trabalha,
08:37ela não tem os próprios rendimentos,
08:41ela tem, por exemplo, filhos menores de idade,
08:43criança, com obrigações escolares,
08:46obrigações muito, entre aspas,
08:47por a própria casa, para o lar.
08:50Como a gente pode pensar que essa mulher tenha condições
08:53entre cair essa ficha, a porta para dentro,
08:56estruturar da onde?
08:58A ideia de que magicamente ela vai sair de casa,
09:01ela se mantém como,
09:03até sendo um pouco dura na frase,
09:05português, claro, ela come o quê?
09:08Ela alimenta os filhos como?
09:11Então, existe uma condição da violência doméstica
09:15que permeia uma série de pedacinhos
09:19da vida de uma mulher,
09:21e a ideia de que a gente diga,
09:24ah, mas por que ela não foi embora
09:25depois do primeiro tapa?
09:27Ou mesmo coisas absurdas,
09:29do tipo, ah, ela usou determinada roupa
09:31ou se comportou de determinada forma,
09:35a razão pela qual fez por onde mereceu
09:38ou é responsabilidade dela?
09:40É um pensamento extremamente curto.
09:42Não divide, enquanto sociedade,
09:44a responsabilidade de olhar um fato
09:47que está maculando o Brasil, por exemplo,
09:50como país,
09:51e simplesmente dizer, ah, comigo não morreu.
09:55Isso é muito sério.
09:56Eu acho que a proposta que se tem
09:58de trazer homens e mulheres
10:01para o combate à violência,
10:03mas também para a conscientização,
10:05se a gente conseguir trabalhar direitinho,
10:08vamos dizer assim,
10:09tem chances disso dar certo.
10:11Mas é uma caída de ficha dura,
10:12e é muito cômodo mesmo, Bia,
10:14que a gente diga, ah, a culpa é dela.
10:17Tanto que a gente tem mulheres
10:18que se sentem culpadas
10:19por serem vítimas de violência.
10:21Exato, né?
10:22Como culpar uma freira dentro de um convento
10:25de que, por conta da roupa que ela estava usando,
10:27ela, de alguma forma,
10:29buscou ser vítima desse abuso.
10:31Elize Madela...
10:32Esse é um exemplo excelente, Bia.
10:35Excelente.
10:36A gente toma todos os lados fora
10:37e não dá para escapar, entendeu?
10:39Ele rompe com esse discurso cômodo
10:41que você colocou como ocorre.
10:43Exatamente.
10:44Elize Madela,
10:45presidente da Comissão da Mulher Advogada
10:47da OAB de Santana de Panaíba.
10:48Elize, a gente vai continuar
10:49ao longo dessa edição do Jornal da Manhã
10:51falando sobre esse assunto,
10:52não só hoje,
10:53Dia Internacional das Mulheres,
10:55mas durante todos os dias
10:56nós temos esse compromisso também
10:57de levar a conscientização
10:59por meio de informação
11:00e de notícias sobre esses casos.
11:03Mas por aqui,
11:04eu agradeço a sua participação,
11:06a sua atenção com a nossa audiência
11:07nesta manhã de domingo.
11:09Até uma próxima.
11:10Até, Beatriz.
11:11Até mais.
11:12Marcelo, um bom programa para vocês.
11:14Obrigada pelo convite.
11:16Tchau, tchau.
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