Pular para o playerIr para o conteúdo principal
Lygia da Veiga Pereira, pesquisadora do Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP, relembra as dificuldades para iniciar os estudos sobre a genética da população brasileira e como a falta de investimento público e privado dificulta o desenvolvimento de soluções para áreas importantes, como o sistema de saúde.

Baixe o app Panflix: https://www.panflix.com.br/

Inscreva-se no nosso canal:
https://www.youtube.com/c/jovempannews

Siga o canal "Jovem Pan News" no WhatsApp:
https://whatsapp.com/channel/0029VaAxUvrGJP8Fz9QZH93S

Entre no nosso site:
http://jovempan.com.br/

Facebook:
https://www.facebook.com/jovempannews

Siga no Twitter:
https://twitter.com/JovemPanNews

Instagram:
https://www.instagram.com/jovempannews/

TikTok:
https://www.tiktok.com/@jovempannews

Kwai:
https://www.kwai.com/@jovempannews

#JovemPan

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Uma coisa interessante é, como que essa pesquisa, você se interessou e começou a desencadear essa pesquisa?
00:06Porque pesquisa no Brasil já é difícil.
00:09Você convencer a turma aqui, o importante é dedicar tempo a pesquisar o DNA brasileiro.
00:15Eu imagino como é que foi esse seu caminho de Damasco para poder chegar a esse ponto
00:21e conseguir mobilizar a comunidade científica, recursos e uma grande universidade, óbvio, que é a USP,
00:27para você poder fazer esse trabalho tão importante para o Brasil.
00:31É, não, assim, ser cientista ainda mais do Brasil não é para os fracos, né?
00:38Enfim, estuda-se a genética do brasileiro há décadas aqui no país, né?
00:45A gente tem grandes professores, o professor Salzano no Rio Grande do Sul,
00:49depois o professor Sérgio Danilo Pena em Belo Horizonte, sabe?
00:54A gente tem bastante um histórico de estudo da genética da nossa população, muito bacana,
01:02mas a história de estudar a nossa genética com essas técnicas mais modernas de sequenciamento do genoma completo,
01:12isso, enfim, era um sonho nosso, mas era uma coisa muito cara.
01:17Em 2014, eu participei de uma reunião com vários cientistas no Incor,
01:23pensando como é que a gente põe um projeto desses, como o que está acontecendo na Inglaterra, na Finlândia,
01:31como é que a gente põe isso de pé aqui no Brasil e não saía e não saía.
01:35E aí, em 2016, começaram a sair os artigos nas maiores revistas internacionais
01:42falando da falta de diversidade dos estudos genéticos, né?
01:48E mostrando que isso gerava, iria gerar uma desigualdade enorme, né?
01:55Na aplicação da medicina de precisão e falando que a gente precisa mudar isso,
02:00mostrando que 80% dos genomas conhecidos eram de populações brancas,
02:05depois você tinha uma grande fatia lá asiática por causa da China,
02:10a China virou, assim, um powerhouse, né? Um poder de ciência.
02:15Se eu olhasse a América Latina, 1%.
02:17África também, uma fração pequenininha, quer dizer,
02:20desproporcional a essa distribuição na população mundial.
02:25E aí, quando eu vi que a comunidade internacional estava falando de falta de diversidade,
02:31que a gente precisava de diversidade, eu falei, putz,
02:33esse é um momento político, né?
02:36Legal.
02:37Bom para a gente tentar colocar, porque se o Brasil tem alguma coisa a contribuir,
02:42é com a nossa diversidade.
02:44Aí, toca tentar.
02:47Aí, montei, conversei com parceiros, professores, experts em genética de população,
02:53a professora Tabitha Unemeyer, da USP,
02:56a professora Alexandre Pereira, do INCOR.
02:59Hoje em dia ele está em Harvard, mas segue lá trabalhando com a gente.
03:02E, ótimo, então temos a turma e agora precisamos de dinheiro.
03:08Você se lembra, 2016, 2017, não era uma época favorável.
03:12Não, impeachment da Dilma, entrando no governo Temer.
03:15Não tinha Brasília e tal.
03:18E aí, eu resolvi, pela primeira vez, Felipe, fazer uma coisa que eu nunca tinha feito,
03:24que foi bater na porta da iniciativa privada.
03:29E pensei o seguinte, olha, isso não é um projeto da Ligia, isso é um projeto para o Brasil.
03:35O que a gente está propondo é fazer um projeto para a gente criar uma infraestrutura de pesquisa
03:42para o Brasil, para a população brasileira.
03:45Se o governo está atrapalhado agora, não consegue, será que é iniciativa privada, né?
03:49Aí eu fiz um PowerPoint lindo, maravilhoso, falando genomas do Brasil.
03:55E fui bater na porta das maiores empresas nacionais com DNA bem brasileiro.
04:03Fiz uma peregrinação, assim, que se eu te mostrar, tem um slide mostrando com todos os logos e tal.
04:09E aí, descobri uma coisa, ou é que eu sou péssima vendedora,
04:15ou que enquanto a gente não tiver uma lei Rouanet, uma lei de incentivo fiscal para a ciência,
04:24como a gente tem para a cultura, né?
04:25As empresas dão dinheiro para o Cirque de Solé, dão dinheiro para a Árvore de Natal.
04:31E todo mundo achou lindo o projeto, mas na hora de... não encaixou.
04:36Só que aí eu tive a sorte que o grupo DASA, de diagnóstico,
04:40e toda vez que eu posso eu tenho que falar deles, né?
04:43Legal.
04:43Eles estavam começando um laboratório de genética, de diagnóstico genético,
04:49e disseram, Lígia, a gente entra com serviço.
04:52A gente sequencia dois mil genomas para você.
04:56Como serviço.
04:57Compraram um super sequenciador, montaram lá.
05:00E a Google Cloud, que a gente precisa de uma infraestrutura de computação muito robusta,
05:07e a ideia de fazer em computação em nuvem, eles também nos deram crédito.
05:10E com isso a gente lançou o projeto em 2019.
05:15Em 2019, aí o governo já estava mais estruturado,
05:19e aí eu mostrei o projeto para o Ministério da Saúde,
05:22na época o ministro era o Mandetta,
05:24e aí eles adoraram, eles disseram,
05:26caramba, a gente está querendo mesmo, sabe,
05:29essa coisa de medicina de precisão, saúde de precisão,
05:33está no nosso radar, é isso.
05:35Então eles encamparam o projeto.
05:38E na época, o projeto se chamava Projeto Genomas Brasil,
05:42eles falaram, ah, Lígia, esse nome é bom demais.
05:45Dá para a gente.
05:46Aí o programa do Ministério da Saúde virou o programa Genomas Brasil,
05:50e aí eu mudei o nome do meu, que virou o Projeto DNA do Brasil.
05:55E o objetivo do nosso Projeto DNA do Brasil
05:59era conhecer a variação genética na nossa população,
06:04para a gente poder, então, desenvolver essa medicina de precisão.
06:08E o Einstein também, na época, também começou um projeto
06:11para sequenciar o genoma de pessoas com doenças raras.
06:16Já com esse foco em medicina, em diagnóstico.
06:22E aí, enfim, aí a coisa andou.
06:25Andou, passei de 2019 a 2020 o melhor Réveillon da minha vida.
06:30Putz, conseguimos, estamos de pé, vamos começar.
06:33Aí veio o Covid, aí caiu o ministro.
06:36Então, demorou mais do que a gente previa.
06:42Mas, fechamos essa primeira fase do projeto com chave de ouro.
06:49Conseguimos, a gente sequenciou já, estamos chegando a quase,
06:54a gente sequenciou nessa primeira fase uns 4 mil genomas.
06:57Nesse artigo que a gente mostrou agora,
07:00a gente mostrou os resultados dos primeiros 2.700.
07:05E conseguimos publicar isso numa revista incrível que é a SAI.
07:10A mais importante revista científica do mundo.
07:12É, é science e nature que ficam lá brigando.
07:15E por que isso é incrível?
07:18Porque demonstra o valor que a comunidade científica internacional dá
07:25para a diversidade genética do Brasil, da nossa população.
07:30A gente conseguiu mostrar nesse artigo uma riqueza que essa super revista reconheceu esse valor e publicou.
07:42Então, isso põe um holofote no Brasil muito importante.
07:48Demonstra a capacidade do pesquisador brasileiro.
07:52Quando nos é dada a condição para a gente realizar todo o nosso potencial,
07:59isso mostra do que a gente é capaz.
08:01Então, eu acho que foi muito bacana em vários aspectos.
08:05E todas as novidades aí que a gente mostrou.
08:09Olívia, você está tocando num ponto que é fundamental.
08:12Um país precisa ter verba de pesquisa a despeito de governo.
08:17Precisa ser um plano de Estado.
08:18Aliás, os Estados Unidos tiveram essa revolução na ciência e na tecnologia
08:23porque tem muito dinheiro para pesquisa e desenvolvimento
08:27mais do que o dobro do resto do mundo que se gasta nos Estados Unidos em pesquisa e desenvolvimento.
08:31E isso foi o que fez com que os Estados Unidos se tornassem essa grande meca da ciência e tecnologia.
08:39No Brasil, nós não podemos, à mercê do...
08:42Como você fez aí o seu PowerPoint tentando levantar dinheiro na iniciativa privada
08:46ou conseguir um dinheiro aqui, outro ali, porque isso cria instabilidade na pesquisa.
08:51Se o dinheiro acabasse no meio da pesquisa, provavelmente você ia perder um monte de dado, informação,
08:56inclusive o time que você montou, você não ia conseguir manter o time junto.
09:00Felipe, você tocou em pontos importantíssimos, né?
09:04Enfim, ciência, gastos, dinheiro para a ciência é investimento.
09:10Todos os países desenvolvidos, eles, até em tempos de crise financeira,
09:18eles dobram a aposta em ciência porque eles sabem que o desenvolvimento científico
09:23é um modelo saudável de desenvolvimento econômico e desenvolvimento da nação como um todo.
09:31Então, a gente, infelizmente, aqui no Brasil ainda não tem essa visão de Estado, né?
09:41A gente tem muita variação de acordo com o governo, entra governo...
09:45E, assim, na média, mesmo na média, mesmo nos melhores governos, né?
09:52Quando eu ouço que vai precisar ter corte no orçamento, eu já faço assim, né?
09:56Porque é o primeiro que vem e é para cima da gente.
09:58E aí, é isso que você falou, né?
10:01É um desperdício de dinheiro.
10:04Porque você dá pouco dinheiro, você vai gastar um dinheiro que não vai ter impacto, né?
10:08Um desperdício de recursos humanos incrível, né?
10:11A gente tem uma capacidade intelectual aqui.
10:15Os nossos alunos brilham quando vão lá para fora.
10:18E a única diferença é que lá eles encontram condições adequadas, né?
10:22Para a pesquisa.
10:24Então, essa história, por exemplo, desse programa Genomas Brasil,
10:28isso tem que ser um programa de Estado.
10:31Porque ele vai criar uma plataforma de dados que é perene e que tem que ficar aí por anos e anos.
10:37Porque isso vai gerar uma matéria-prima que pode gerar quase que um infinito de descobertas e conhecimentos, né?
10:45Então, isso não pode ficar à mercê das vontades políticas, ideologias.
10:53Enfim, eu estou há 30 anos na USP e há 30 anos, toda vez que muda o governo e vem um novo ministro da ciência,
11:02a gente fala a mesma coisa.
11:03Olha, ciência é investimento.
11:07Enfim, e vamos seguir falando isso até o fim dos tempos.
11:10Tchau, tchau.
Comentários

Recomendado