00:00A edição genética de bebês deixou de ser ficção científica, pois é, bilionários do Vale do Silício apostam que em poucos anos será possível escolher ou aprimorar características antes do nascimento.
00:14A questão agora não é mais se isso vai acontecer, mas como e quem vai ter acesso.
00:19Este é um assunto que vamos discutir com o Álvaro Machado, um dos notáveis do nosso canal. Oi, Álvaro, muito boa tarde, que prazer tê-lo aqui.
00:26Prazer recíproco.
00:27Fazia tempo também que eu não conversava com você, eu estava falando com o Rodrigo Batista, do Cripto Brasil,
00:33que você vai começar a levar todo mundo para o agora também.
00:35Todo mundo acordar cedinho comigo e a gente vai bater papo para o agora, que é das 7h às 9h30 da manhã.
00:40Sim.
00:40Mas é bom ter isso.
00:41Aliás, recomendo para todo mundo, viu? Não pode perder.
00:43Boa, é isso aí. Valeu.
00:45Que a gente sabe.
00:45O Álvaro...
00:46Eu sei, eu sei.
00:47Porque eu levo a sério esse negócio de programa bom.
00:49E o agora é essencial para quem quer se informar.
00:53Maravilha.
00:54Ô, Álvaro, conta um pouquinho pra gente dessa questão da edição ou escolha dos bebês.
00:59Isso, claro, tem características, mas também isso pode prevenir doenças.
01:04Como que isso está chegando? Que loucura, né?
01:06Pois é.
01:06Olha só, a gente tem já uma tradição de testes genéticos durante a gravidez.
01:12E essa tradição, evidentemente, está baseada no fato de que há marcadores muito claros para algumas doenças.
01:20Então, por exemplo, a gente sabe pais que são um pouco mais velhos fazem testes específicos e a gente tem casos mais extremos.
01:28Então, por exemplo, na Islândia, praticamente 100% da síndrome de Down foi, vamos dizer assim, eliminada recentemente.
01:36Por quê? Porque há um teste específico que avalia se há uma trissomia, quer dizer, uma cópia a mais de um cromotoma específico, que é o 21.
01:45E quando isso acontece, a orientação no país é que se faça o aborto.
01:51Dinamarca, Suécia, outros países também estão lá com 98%, 99%.
01:55Escandinávia.
01:56É, exato. É claro que isso, do ponto de vista da visão brasileira da vida, né, sobretudo a visão religiosa, é mais controverso, porque, afinal de contas, vai contra um dogma religioso, que é esse, de que mesmo, assim, no seu nível mais fundamental, com poucas células, ali a gente tem efetivamente um ser humano.
02:16Que é uma longa discussão e não cabe a gente debater o papo, não é?
02:20Mas, enfim, esses são testes já muito bem estabelecidos para você fazer um diagnóstico e, a partir disso, tomar uma decisão ou não.
02:29Do outro lado, o que existe, e pouca gente comenta porque é tabu, é que nas clínicas de reprodução assistida, efetivamente há a genotipagem desses embriões.
02:41E aí, consequentemente, há um processo, num certo sentido, de escolha, mas que tem bases muito mais médicas, ou seja, são escolhas baseadas na probabilidade de sobrevivência e saúde e assim por diante, ou seja, alinhadas a essas perspectivas que eu mencionei anteriormente de testes genéticos ligados à homeostase.
03:02Agora, a grande tendência é entrar com edição genética, que é uma coisa diferente de você fazer um processo de screening meramente e, através da edição genética, mudar fatores para que você gere um super-humano.
03:19Os ecos da eugenia do nazismo estão aqui, é claro, mas do outro lado também estão ecos de uma tentativa de erradicação de doenças que são de maior complexidade.
03:34Então, eu diria que é essa luta de forças que está acontecendo e que agora vem ganhando forma através de investimentos específicos que estão sendo feitos por grandes bilionários da tecnologia
03:48e empresas como Autoslab ou Colasol, que são empresas que estão efetivamente buscando estratégias de edição genética em embriões para, supostamente, melhorar a vida, mas efetivamente, no final das contas, características que são secundárias, ou seja, que não tem nenhum papel adaptativo, também podem entrar na história.
04:07Esse é o cenário.
04:09Fantástico.
04:09Agora, explica pra gente, por que gigantes de tecnologia e não só cientistas estão liderando esta nova fronteira da biologia?
04:18Olha só, eu acho que aqui a gente tem uma combinação de dois fatores, o ideológico e a oportunidade de negócios.
04:24Do ponto de vista ideológico, você deve ter percebido que existe uma tendência de ter muitos filhos, o Elon Musk tem um monte de filhos.
04:30Tem uma tese, tem uma tese que, do ponto de vista das pessoas mais normais, ela é meio bizarra, que é que o futuro dos Estados Unidos e das grandes potências, ele vai exigir supermentes para competir com a China e assim por diante.
04:47É uma coisa meio filme de ficção, mas ela é levada a...
04:51Mas já é a realidade.
04:52Já é a realidade, exatamente.
04:53Então, há mesmo essa orientação pró-eugênica, pró-super-humanos, pró...
05:01Os meus filhos serão os gênios do futuro e, consequentemente, eles vão liderar o país, vão liderar o mundo.
05:08Então, essa obsessão, ou talvez essa fantasia, eu acho fantasia porque, no final dos contos, quando a gente olha historicamente, os grandes líderes e as grandes líderes da humanidade raramente vieram de uma preparação específica para isso.
05:21Isso vem muito mais de uma seleção natural, por exemplo, da cultura.
05:24Mas tudo bem, tem esse aspecto ideológico forte.
05:28E, do outro lado, a tese é que essa maneira como a gente trata o surgimento da vida humana vai mudar.
05:35Então, o que antes era só um screening básico para pessoas mais velhas e coisas muito específicas em alguns poucos países, vai se tornar a tendência.
05:44E aí, isso vai destravar um mercado trilionário, como agora se tornou moda a dizer, né?
05:49Mercados trilionários estão por aí, nos data centers, na IAI, etc.
05:53Então, o mesmo papo do mercado trilionário, só que, no caso, é o mercado mais fundamental.
05:58E eu diria, aquele que é mais controverso a gente chamar de mercado, que é o mercado da vida humana.
06:03Então, agora é uma pergunta de talvez um trilhão de dólares.
06:06Quando que essa inovação biológica já vai ser colocada em prática?
06:16Ou ainda vai demorar um pouquinho?
06:18Essa é de um trilhão de dólares mesmo, porque, no final das contas, ao contrário do que pode parecer, a discussão não é simplesmente tecnológica.
06:27Não é você conseguir fazer edição genética de forma segura, não é você conhecer protocolos e implementá-los nos serviços públicos, não é nada disso.
06:37Ela é, sobretudo, regulatória.
06:39O Brasil, por exemplo, tem uma regulação de biossegurança de 2005 que proíbe a manipulação de embriões com finalidades reprodutivas.
06:48Na Europa, existe algo parecido.
06:51E assim vai.
06:52Nos Estados Unidos e na China, a regulação é muito mais flexível, por assim dizer.
06:57E aí, consequentemente, é possível que surjam iniciativas e ganhem formato, assim, através dessas startups ou, eventualmente, até de outras, que venham a criar paradigmas.
07:09Mas, no final das contas, vai ser no domínio regulatório que essas coisas vão entrar para a prática comum da vida humana e mudando ela de uma forma que, se a gente parar para ver, compete com os desígnios da seleção natural.
07:23Ou seja, a partir dessa premissa, a gente não vai estar mais submetidos a meras forças darwinianas ou, eventualmente, tentando tratar as doenças para mitigá-las,
07:33mas a gente vai estar fazendo seleção cultural muito na linha que o Nietzsche falava da criação de um super-humano.
07:41Ô Alvaro, então, diante de tudo que você falou, eu já começo a imaginar um mundo onde nascer de forma natural vai ser exceção e não a regra?
07:49Essa é a premissa, essa é a promessa, se ela é uma promessa positiva ou não, eu acho que, é assim, cabe, esse é um papo de bar, tá bom?
07:57Agora, eu acho que, para a gente, vale pensar que, sendo essa promessa uma realidade, eventualmente, o que pode acontecer é que a espécie humana, como a gente a conhece,
08:09ela deixa de existir aos poucos.
08:10Muito se discute sobre como a espécie humana pode desaparecer.
08:14O aquecimento global, guerras locais com armas biológicas que vão se espalhando, a inteligência artificial, eu acho essas hipóteses...
08:26Robôs humanoides.
08:26Robôs humanoides, eu acho essas hipóteses pouco prováveis.
08:31Agora, a tese de que a gente mesmo possa se diferenciar geneticamente desse ser de origem e através dessa criação de uma variante humana culturalmente induzida na sua reconstrução genética,
08:46criar um ser que, no final das contas, se diferencie tanto da gente a ponto de gerar uma outra espécie, essa eu não duvido.
08:52Eu acho que, eventualmente, o fim da espécie humana não virá na dor, mas virá no amor, justamente a partir desse tipo de coisa.
08:59Legal. Alvaro Machado, obrigado, meu amigo, pela sua participação aqui no Real Time.
09:04Um grande abraço para você e uma ótima semana.
09:06Eu que agradeço você, agradeço todo mundo que nos acompanhou. Até semana que vem.
09:10Valeu. Tchau, tchau.
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