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  • há 1 ano
O economista Marcos Mendes compara as perspectivas econômicas do governo Dilma Rousseff e de gestões da ditadura militar.

Assista à entrevista completa: https://youtu.be/ajArMWYKUgo

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Transcrição
00:00Eu queria fazer só mais algumas, mas eu queria só tratar aqui, Marcos,
00:05eu trabalho aqui muito próximo de gente do mercado financeiro,
00:10lido muito com esse pessoal aí, e a impressão que eu estava falando com o pessoal mais próximo,
00:16a impressão que dá é que o mercado ainda não caiu a ficha,
00:20porque se você olhar hoje para a curva de juros,
00:23a gente ainda está precificando ali pelo menos um ponto percentual de queda na Selic
00:28no segundo semestre desse ano, e aí depois ela fica mais ou menos estável ali,
00:34volta um pouquinho para 12, alguma coisa nesse sentido.
00:37Mas dado esse panorama que a gente tem hoje, de contas públicas em desarranjo,
00:45sem nenhuma, pelo menos por enquanto, sem nenhum vislumbre
00:50de que isso possa ser sanado no curto a médio prazo.
00:58Você acha que o mercado ainda não se deu conta do tamanho do problema?
01:02O wishful thinking? O que está acontecendo?
01:07É o dólar caindo? O dólar voltou a R$ 5,00 hoje praticamente.
01:11Essa é a grande pergunta do momento.
01:14Você participa de um call com o pessoal do mercado,
01:17escuta os comentários do pessoal do mercado,
01:19e a grande pergunta é esse discurso populista e agressivo do Lula,
01:24em que ele promete trazer de volta todas as políticas
01:27que jogaram a gente na crise de 2014.
01:32Um discurso contra a estabilidade fiscal,
01:36um discurso que aceita mais inflação,
01:39inclusive afronta o Banco Central.
01:41E, sobretudo, um discurso de nós contra eles.
01:44Era o discurso típico.
01:46Se você pega a literatura, a literatura caracteriza o populismo
01:50como aquele... o líder populista como aquele cara
01:54que escolhe um inimigo na sociedade,
01:57que são os eles,
01:58e vai proteger o povo desse inimigo.
02:02Então, o Lula elegeu o mercado financeiro,
02:05as elites, alguma coisa nesse sentido,
02:08como o Collor fez lá atrás,
02:11como o Bolsonaro, o Feio, né?
02:13O populismo pode ser de direita ou pode ser de esquerda,
02:17mas tem essa característica da confrontação,
02:21do tensionamento de escolher um modo expiatório na sociedade,
02:26e, ao mesmo tempo,
02:27ter pouca responsabilidade fiscal,
02:29de tentar entregar muito resultado no curto prazo,
02:32eu vou aumentar a Bolsa Família,
02:33eu vou financiar a Argentina,
02:37eu vou aumentar o salário mínimo,
02:40eu vou aumentar a despesa da cultura,
02:42eu vou aumentar o orçamento de 200 bilhões.
02:46Então, atira com promessas para todo lado,
02:48e isso vai gerar custos lá na frente.
02:52Acabei de ler um paper muito interessante,
02:54em que os autores pegam líderes populistas
02:59desde 1900 até 2018,
03:03fazem uma base de dados enorme,
03:05e eles analisam qual é o desempenho
03:09da economia sob o governo populista,
03:14tipicamente populista, com essas características,
03:1715 anos depois.
03:19Fazem técnicas e estatísticas sofisticadas,
03:22criam um cenário
03:23caso não houvesse populismo,
03:27e a conclusão deles é que,
03:2915 anos após a posse do populista,
03:32em média, o PIB per capita,
03:35a renda per capita daquele país,
03:36é 10% menor do que poderia ser
03:39no cenário contrafactual,
03:41no cenário em que você não tivesse
03:43o líder populista no poder.
03:46Então, claramente,
03:47o discurso do Lula é um discurso populista,
03:51na direção de trazer todo esse prejuízo
03:54econômico de curto prazo,
03:55ainda que entregue algum benefício
03:57de curto prazo,
03:59e a grande pergunta que as pessoas fazem
04:01é, mas ele vai entrar nessa onda?
04:04Se ele faz isso,
04:06ele perde o poder,
04:07ele perde a próxima eleição,
04:08vai jogar o país numa crise
04:09e vai perder a próxima eleição.
04:10Aí, esse paper também é muito interessante.
04:13Ele fala o seguinte,
04:14olha, os populistas ficam no poder
04:16um tempo quase 70% maior
04:19do que os não populistas.
04:24Porque você,
04:25ao criar essa narrativa de nós contra eles,
04:27e criar algumas bases muito sólidas
04:30de apoio na sociedade,
04:32você consegue se reeleger.
04:35E você bota, olha,
04:36a crise econômica é culpa da FMI,
04:38a crise econômica é culpa deles,
04:40da elite financeira,
04:42é culpa do Banco Central,
04:43que aumentou juros para dar mais venda
04:45para o capital financeiro.
04:48Nós estamos aqui lutando contra o sistema,
04:50mas o sistema está nos engolindo,
04:53mas nós temos que resistir.
04:54Quem pega só esse pedaço aqui
04:57pode achar que eu estou falando do Bolsonaro,
05:00porque o discurso é igualzinho também.
05:02Porque se aplica,
05:04é a lógica do populismo,
05:05da polarização.
05:08Então, pode ser que a estratégia seja essa.
05:11Olha,
05:12não importa o que vai acontecer com a economia,
05:16mas o populismo vai nos dar
05:18uma vida política mais longa
05:21do que o não populismo
05:22num ambiente polarizado
05:24que nós temos hoje.
05:26Isso é terrível,
05:27porque a gente já está numa situação,
05:30a gente não é um país rico,
05:31a gente é um país de renda média,
05:33que não cresce decentemente
05:34há 40 anos,
05:35e se a gente entrar numa trajetória
05:37e perder 10% da renda per capita
05:40daqui a 15 anos,
05:43é um cenário bastante negativo.
05:48Então, para resumir,
05:51pode ser que haja racionalidade política,
05:53sim,
05:54nessa estratégia agressiva e populista
05:56que o Lula está adotando
05:57e que isso não seja alguma coisa transitória
05:59que vai se ajustar ao longo do mandato,
06:02justamente por privilegiar
06:04a sobrevivência política
06:05em detrimento da estabilidade econômica.
06:08Então, a gente pode abandonar
06:10aquela possibilidade de um Lula pragmático,
06:13que alguns gestores gostam de falar.
06:16Não, eu não abandonaria,
06:17eu só diria que não é irracional,
06:21não é irracional ele ir para a opção
06:24do populismo full,
06:26do populismo completo,
06:28em termos políticos.
06:30Olha, o Lula olha para a Argentina,
06:32ele olha aí, vai visitar a Argentina,
06:34e a Argentina fala assim,
06:35os peronistas estão no poder desde 1946,
06:39saíram só no golpe militar
06:40e no governo do Macri.
06:44Mas, fora isso,
06:46você criou uma máquina populista
06:48que é muito resiliente
06:52em termos eleitorais.
06:55Tem um eleitorado cativo, forte,
06:59a despeito de,
07:00há oito décadas,
07:01a Argentina está se destruindo.
07:04Mas por que a Argentina consegue fazer isso?
07:05Porque a Argentina era muito rica.
07:07em 1946,
07:09quando o peron chegou ao poder,
07:11a Argentina tinha a nona maior
07:12renda per capita do mundo.
07:15Tinha uma renda per capita maior
07:16que a França,
07:17que a Bélgica,
07:18que o Reino Unido,
07:20que a Noruega,
07:22que a Suécia,
07:23eram muito, muito ricos.
07:25E eles vêm queimando essa riqueza
07:27de lá para cá.
07:30E apesar de decaírem por oito décadas,
07:32a renda per capita deles
07:34ainda é quase 50% maior que a nossa.
07:37Então, eles sustentam o populismo
07:39queimando o patrimônio.
07:42Nós não temos esse patrimônio para queimar.
07:45Se nós entrarmos nessa onda,
07:48vai ser um processo de empobrecimento
07:52muito forte e muito duro.
07:55Deixa eu te provocar.
07:56Você já escreveu
07:58que foi um erro redemocratizar
08:00antes de reformar a economia.
08:03e que nos trouxe a esse populismo.
08:08Mas a ditadura, o regime militar,
08:11ele também tem o seu quê de populista.
08:16O regime autoritário,
08:21ele também trabalha com algumas...
08:24com algumas...
08:27algumas narrativas
08:31para ter esse apoio da sociedade.
08:33A gente teve...
08:35teve um período extenso
08:39de ditadura no Brasil
08:42sustentado por certas elites.
08:45Eu acho que, no fundo,
08:49os grupos de...
08:51Aliás, muitos dos grupos
08:52que se beneficiaram lá atrás
08:54permanecem sendo grupos de influência
08:57na própria democracia.
09:01É um...
09:04Não tem aí um ponto
09:06em que a própria sociedade
09:08tem o poder de virar as costas
09:12para esse cenário
09:13e tocar a sua vida
09:15e manter a sua atividade econômica,
09:19ainda que a despeito
09:21de todas essas barreiras
09:23que são impostas?
09:27Não, vamos com calma,
09:28porque esse é um tema espinhoso.
09:31A gente precisa tratar disso
09:32com muita calma.
09:33Eu não escrevi que
09:35era melhor ter reformado antes
09:37e deixar para redemocratizar depois.
09:39até porque a democracia
09:41tem outros valores
09:42de liberdade de expressão,
09:46liberdade de vir,
09:47que são muito importantes
09:49ao lado da questão econômica.
09:52O que eu escrevi
09:53é retratando
09:56a experiência prática
10:00e vista na literatura,
10:03em que países
10:04que eram autoritários
10:11e reformistas
10:12conseguiram fazer essas reformas
10:17com mais facilidade
10:19do que se estivessem
10:20numa democracia.
10:22Mas a maioria das ditaduras,
10:25dos países autoritários,
10:26não são reformistas.
10:27Então, você teve casos
10:29muito pontuais,
10:32como Coreia,
10:33como Singapura,
10:35que eram governos
10:37não democráticos
10:38e fizeram reformas
10:40e depois se redemocratizaram.
10:43O Chile também fez reforma,
10:45mas a um custo social,
10:47humano, muito grande,
10:49de uma ditadura cruel.
10:51Mas quando abriu-se
10:53para a democracia,
10:54ele tinha uma economia
10:55de mercado
10:55e não tinha
10:57a consolidação
10:59de privilégios,
11:00etc.
11:02O que aconteceu no Brasil
11:03foi que,
11:04durante o governo militar,
11:06você teve um governo
11:07que era uma ditadura
11:08e não era reformista,
11:10era um governo
11:10intervencionista.
11:12Era um governo,
11:14se você pega o programa
11:15do Geisel,
11:16é igual ao programa
11:17da Dilma.
11:19Então, não tem direita esquerda,
11:20tem estatismo.
11:22Tem uma sociedade estatista
11:23que acredita que o Estado
11:25é o motor principal
11:27do crescimento
11:27e só com investimentos fatais
11:29a gente vai para frente.
11:31E com isso,
11:32você criou um modelo
11:33cheio de privilégios
11:34durante a ditadura militar,
11:37um modelo concentrador
11:38de renda
11:39e um modelo
11:40que não parava de pé,
11:44improdutivo
11:46e que gerou
11:47uma enorme dívida interna,
11:48externa,
11:50acabou na crise econômica
11:51de 81, 82.
11:55Agora,
11:55quando você
11:56redemocratizou
11:57o Brasil,
12:01esses grupos
12:02privilegiados
12:04conseguiram continuar
12:06mantendo seu privilégio
12:07sobre a força,
12:08sobre a forma
12:09de poder econômico,
12:10influência
12:11sobre as decisões econômicas,
12:12influência sobre o Congresso,
12:14etc.
12:15Mas você tinha
12:16uma dívida social enorme,
12:18você tinha uma massa
12:19de pobres
12:19que não foi atendida
12:22durante o governo militar,
12:23não tinha escola pública,
12:25não tinha SUS,
12:25os nossos indicadores
12:26eram africanos,
12:28e que num ambiente democrático
12:29você tem que atender,
12:30porque essa é a maioria
12:31dos eleitores.
12:32Então,
12:32a gente foi para um modelo
12:34em que você
12:35manteve os privilégios
12:36do topo
12:37e teve que criar
12:38assistência
12:39para a base.
12:41E, ao mesmo tempo,
12:43a classe média
12:44ganhou muita voz
12:45e capacidade
12:46de organização
12:47e conseguiu também
12:48ter
12:49uma série
12:51de benefícios
12:52como emprego público
12:53com boa remuneração,
12:55universidade de graça
12:56para todo mundo,
12:59programas sociais
13:00que atingem
13:01a classe média,
13:03aposentadorias privilegiadas,
13:04etc.
13:05Então,
13:05a gente acabou criando
13:06um modelo
13:07em que o Estado
13:08redistribui para todo mundo,
13:10que é um negócio
13:11altamente ineficiente,
13:13porque ele redistribui
13:13e tributa
13:14todo mundo
13:14ao mesmo tempo.
13:15Então,
13:16fica o cachorro
13:18correndo atrás do rato.
13:19A gente aumenta
13:20o gasto público
13:21para atender
13:22todo mundo
13:23e,
13:25ao mesmo tempo,
13:25tem que tributar.
13:26Como é que a gente
13:26financiou isso?
13:27No primeiro momento,
13:28você financiou
13:29via inflação.
13:31O governo
13:31gastou mais,
13:32atendeu todo mundo,
13:34financiando via inflação.
13:36Veio para o ano real,
13:37não dava para financiar
13:38mais com a inflação.
13:39Aí teve que aumentar
13:40a carga tributária.
13:41A carga tributária
13:42partiu de 20 e poucos
13:43do pico,
13:44foi bater lá
13:44em 30 e tantos por cento
13:45do PIB.
13:46Continuamos aumentando
13:47o gasto.
13:48Não dava para aumentar
13:49mais a carga tributária.
13:50Aí começamos a nos endividar.
13:53Aí foi quando a dívida pública
13:54disparou.
13:56E aí,
13:56na crise de 2014,
13:58o PIB desabou,
14:01os juros lá para cima,
14:02a dívida deu aquela empinada,
14:04perdemos o grau de investimento,
14:06esgotou-se também a dívida
14:08como opção de financiamento.
14:10Aí veio o consumo de reformas,
14:12teto de gastos,
14:13reformas fiscais,
14:15privatização,
14:16reforma da Previdência.
14:17A gente começou a respirar
14:19e agora a gente está voltando
14:21para um modelo inconsistente.
14:23Vamos ver o que vai dar.
14:25um modelo disfuncionista novamente.
14:28Não é um contrassenso,
14:31pelo menos retórico,
14:33de você ter essa similitude
14:35entre o tipo de intervencionismo
14:39que você tem no governo Dilma,
14:40por exemplo,
14:41que você tem no regime militar.
14:45O discurso
14:46é um discurso de oposição,
14:51mas a prática política,
14:52a prática da política econômica,
14:53ela se iguala,
14:56se nivela de alguma maneira.
14:57E agora a gente está vendo
14:58que até em termos de garantia
15:03das prerrogativas constitucionais,
15:05dos direitos individuais,
15:07a gente também está sob risco,
15:09ainda que numa democracia,
15:11com todo esse discurso
15:12de combate à desinformação,
15:14etc.,
15:15com criações
15:17de Ministério da Verdade
15:20para decidir o que cada um fala,
15:22etc.,
15:23e tal.
15:24É confuso,
15:25a nossa realidade
15:27não é simples de ser entendida
15:29pelo brasileiro médio.
15:32É,
15:32o que está na cabeça
15:34do militar típico?
15:36A cabeça do militar típico
15:38formado nas escolas brasileiras
15:39é a ideia
15:40de soberania nacional.
15:42Então,
15:44nós precisamos
15:45ter um país industrializado,
15:48rico,
15:49e para isso
15:50nós vamos
15:51criar
15:53empresas estatais,
15:55vamos subsidiar
15:56o investimento,
15:57o capital privado,
15:58e só industrializando,
16:00fazendo investimento
16:01para ter
16:02uma indústria potente,
16:04nós vamos ficar ricos,
16:06vamos ser poderosos
16:08e vamos poder garantir
16:10a nossa segurança.
16:14Já na cabeça
16:15da esquerda,
16:19o pensamento econômico
16:21de esquerda,
16:22a coisa vai menos
16:23de soberania nacional
16:24e vai mais
16:25de
16:26confrontar
16:29o capitalismo internacional,
16:31o conflito
16:33entre países pobres
16:34e os países ricos,
16:35que ficaram ricos,
16:36porque exploram
16:37os países pobres.
16:38Então,
16:38nós temos que
16:40nos industrializar
16:41para nos equipararmos
16:43aos países ricos.
16:46E, portanto,
16:47é o Estado
16:48que tem que fazer isso.
16:49Então,
16:50partindo de mentalidades
16:51um pouco diferentes,
16:53você acaba chegando
16:54na mesma
16:55na mesma
16:58prática
16:58econômica
17:00de você ter
17:00um Estado
17:02forte
17:03e condutor
17:04da economia.
17:06quando você
17:07olha a experiência
17:09internacional
17:10e vê
17:12o que gera
17:13crescimento
17:14de longo prazo,
17:14o que gera
17:15crescimento
17:15de longo prazo
17:16é educação,
17:17capacitação
17:18das pessoas,
17:19tornar as pessoas
17:20mais produtivas,
17:22mais habilitadas
17:23para entender
17:23novas tecnologias,
17:25mais habilitadas
17:25para inventar
17:26novas tecnologias,
17:28uma economia
17:28aberta
17:29para absorver
17:30inovações,
17:32para trocar
17:33inovações
17:35e abrir
17:35mercados
17:36no exterior.
17:37Então,
17:38essa
17:38mentalidade
17:41autárquica,
17:43fechada,
17:44defensiva
17:45e de conflito
17:47com os outros,
17:47seja conflito
17:48de soberania
17:49nacional,
17:50seja conflito
17:50ideológico,
17:53isso é muito
17:54empobrecedor
17:55e foi isso
17:55que tanto
17:56o governo militar
17:57quanto
17:57o pensamento
17:59gerado
18:01na Cepal
18:03trouxe
18:06para a América Latina
18:07e para o Brasil
18:07em especial.
18:08E aí
18:13E aí

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