00:00Segunda-feira, dia 12, o Vladimir Putin, o presidente, ou como alguns preferem chamar, líder autocrata russo,
00:07ele deixou de dar sua entrevista coletiva de fim de ano pela primeira vez em 10 anos, se não me engano,
00:12pela primeira vez desde 2012.
00:16E não houve muita justificativa oficial para isso por parte do Kremlin.
00:21O porta-voz do Putin, que é o Dmitry Peskov, se manifestou ontem, disse apenas uma coisa muito genérica,
00:27como, ah, ele não vai dar entrevista coletiva neste ano, mas os jornalistas podem fazer perguntas a ele em outras ocasiões e tal.
00:36Sendo que no ano passado, antes da invasão da Ucrânia, que aconteceu em 24 de fevereiro do ano passado,
00:43no final de 2021, desculpe, a invasão aconteceu em 24 de fevereiro deste ano.
00:49No final do ano passado, o Putin deu uma entrevista coletiva de quatro horas.
00:52Então, o hábito dele não só é dar a entrevista coletiva, como falar muito.
00:58E todo mundo leu essa suspensão da coletiva tradicional como um indicativo de que as coisas não vão bem no fronte ucraniano para o Putin.
01:09Sobretudo depois da retomada de Kerson, que é uma das principais cidades tomadas pelo exército russo,
01:15e que foi retomada pelas forças ucranianas agora em novembro.
01:18E eu queria que o Felipe, antes de a gente entrar no livro específico dele,
01:22que ele comentasse com a gente se ele acha isso também, se ele vê como um sinal de que as coisas não andam muito bem internamente no Kremlin,
01:30ou se ele acha que há algum outro motivo para a suspensão.
01:34Em primeiro lugar, eu queria agradecer muito a participação no podcast Latitude,
01:39agradecer a você, Rogério, ao Duda, e a todos os telespectadores que nos assistem.
01:44Na realidade, a gente está falando, sim, de algo bastante significativo.
01:49Porque antes mesmo de 2012, quando a gente olha o primeiro mandato do Putin,
01:53quando ele acende ao poder lá de 2000 até 2008,
01:57e aí ele vai ser substituído pelo Medef por quatro anos, sendo o primeiro-ministro dele,
02:02o Putin praticamente todos os anos fez essa coletiva de final de ano,
02:06que é uma oportunidade, como você disse, horas de entrevistas.
02:09E ela é significativa porque, normalmente, o Kremlin dá um certo espaço para jornalistas internacionais
02:17e jornalistas de meios de comunicação que não estão totalmente alinhados ao Kremlin em si.
02:24Então, ali é o momento em que o Putin demonstra a sua capacidade de articulação
02:29sobre os diversos temas domésticos e internacionais que envolvem a Rússia.
02:34O fato de ele ter cancelado mostra que, provavelmente, o Kremlin está preocupado
02:38com algum tipo de pergunta, digamos, mais difícil,
02:42algum comentário, sobretudo envolvendo esforço de guerra,
02:46a questão da mobilização parcial que ele decretou alguns meses atrás,
02:50que teve muitas repercussões negativas na sociedade, vários tipos de problemas.
02:56A convocação dos reservistas.
02:57Exatamente, a convocação dos reservistas.
03:00Então, me parece que havia, sim, um temor de que a entrevista pudesse sair do controle
03:05e daí o cancelamento.
03:06Agora, é interessante que, contraditoriamente, ele aumentou a sua presença na mídia
03:12nas últimas semanas.
03:14Ou seja, a entrevista foi cancelada, mas tudo que envolve participação mais controlada
03:19da figura do Putin, a gente teve um crescimento bastante significativo.
03:23E ele falando sobre temas diversos, inclusive falou sobre zoológico, né, no Ocidente,
03:29que os animais são mortos na frente das crianças.
03:32Então, batendo muito na tecla de que, digamos, o Ocidente não permitiria um respeito
03:38à sensibilidade das pessoas e da família, etc.
03:41Então, ele discutiu temas diversos, mas sempre num ambiente controlado,
03:45coisa que essa coletiva, que era uma coletiva longa, né,
03:49Obviamente, meios tradicionais e pró-Kremlin estariam presentes,
03:54mas também haveria a possibilidade de alguma pergunta sair do controle
03:57e parece que ele não está disposto a assumir esse risco.
04:01E como é que você vê a situação da guerra?
04:03É uma guerra perdida já ou o Putin ainda pode conseguir dar uma volta por cima
04:08e levar melhor na Ucrânia?
04:11No curto prazo, todos os indicadores mostram que a situação da guerra,
04:16uma situação para a Rússia, não é nada simples.
04:18Ou seja, mesmo com a mobilização dos reservistas parcial que foi feita,
04:23ainda precisa muito tempo para a Rússia conseguir construir capacidade de ataque
04:27para, por exemplo, recuperar os territórios perdidos nos meses anteriores.
04:32Agora, se a gente for pensar no médio prazo, resistindo a esse momento,
04:37e pensando no ano que vem, é muito difícil a gente fazer um prognóstico.
04:40O momento da guerra está mais favorável para os ucranianos do que para os russos.
04:45Os russos estão claramente cavando trincheira, estão construindo condições para se defender
04:50dos territórios que eles ocupam e estão utilizando táticas que, do ponto de vista
04:55do direito internacional, são muito complicadas, que é atacar infraestrutura energética,
05:01infraestrutura de transportes, ainda num contexto em que o inverno está começando,
05:05ou seja, dificultar em populações civis acesso à água, acesso à eletricidade,
05:11a questão do aquecimento dessas pessoas e dessas famílias durante o inverno.
05:17Então, a situação no curto, médio prazo é uma situação difícil para a Rússia,
05:21mas isso não significa que ela não tenha condições mais para frente
05:25de recuperar capacidade de combate e reverter alguma coisa nesse conflito.
05:29Eu queria aproveitar, Duda, justamente com isso que o Felipe está falando,
05:34para entrar um pouco no assunto do próprio livro.
05:38A gente estava comentando aqui, antes de virmos gravar,
05:41que é uma coisa muito corajosa e um pouco arriscada, como o próprio livro reconhece,
05:48fazer uma coletânea de ensaios variados, plurais, sobre a invasão da Ucrânia quente,
05:53enquanto o conflito está se desenrolando, enquanto você tem uma noção
05:57do que pode acontecer agora no curto prazo, mas não tem muita ideia de para onde vai no futuro.
06:02Você diz aqui em um trecho que coisas que a gente hoje toma,
06:07com vários de hoje tomam como muito significativas, podem não ser no longo prazo.
06:11E vice-versa, outras coisas em que a gente não está prestando muita atenção,
06:16de repente, tomam uma dimensão enorme decorrida um certo tempo.
06:21Eu queria que você contasse um pouco para a gente como foi o processo de organizar esse livro,
06:25de convidar as pessoas, porque há especialistas de opiniões, às vezes, muito divergentes,
06:30de procedências muito diversas, e como foi o processo de escrever,
06:38tentar dar ao leitor uma clareza sobre os antecedentes,
06:43os diversos pontos que explicam, ajudam a gente a entender essa guerra,
06:48com a guerra rolando, com ela se desenvolvendo, se desenrolando,
06:52para um caminho que a gente não sabe ao certo onde vai dar.
06:55Quando a editora da Unicamp me honrou com o convite,
06:59eram as preocupações principais.
07:01Ou seja, quando você analisa um processo tão complexo, multifacetado,
07:05como esse, no momento em que ele está acontecendo,
07:08como você disse, você pode acabar assumindo conclusões
07:11que mais para frente não são nada significativas,
07:13e deixar de olhar para coisas que, posteriormente, vão ter um impacto muito grande.
07:18Além disso, a nossa própria proximidade com o objeto
07:21dificulta um pouco a nossa capacidade de ser minimamente imparcial perante esse objeto.
07:27A guerra, ela anima paixões, inclusive, é muito difícil você acabar,
07:33em determinado contexto, não assumindo, mesmo que do ponto de vista normativo,
07:37mas assumindo algum tipo de posição sobre o próprio conflito.
07:40Então, quando a editora fez o convite, a preocupação mais importante era
07:45a pluralidade teórico-metodológica, ou seja, permitir ao leitor e à leitora
07:51que consigam enxergar coisas diferentes, a partir dos olhares e narrativas distintas
07:56dos próprios autores e autoras, necessariamente trazer pessoas de universidades diferentes,
08:02o mais heterogêneo possível, no Brasil.
08:04Então, a gente tem gente do Nordeste, do Sul, aqui do Sudeste, enfim, do Centro-Oeste,
08:11o mais diverso possível dentro do Brasil e também do exterior.
08:15Tem especialistas de Portugal, especialistas ucranianos, especialistas em Ucrânia e Rússia
08:20nos Estados Unidos.
08:22E aí, o trabalho de se pensar nos temas foi um trabalho difícil,
08:26porque a gente teve três, quatro meses para escrever tudo.
08:29Então, a gente sentou e basicamente refletiu, óbvio, que eu, como organizador, liderei
08:34esse processo, no que parecia para a gente ser o fundamental.
08:37Então, no mínimo, localizar o leitor e a leitora com relação aos antecedentes,
08:41pensar um pouco a história da identidade russa-ucraniana, pensar a relação entre Rússia,
08:46Estados Unidos e OTAN, os momentos iniciais pré-conflito, porque esse é um conflito que vem
08:51desde 2014, ele não nasceu em 2022, a Rússia invadiu a península da Crimeia, que pertencia
08:58à Ucrânia lá, em 2014.
09:00Depois, pensar um pouco o quão multifacetado em si é o conflito, olhar a história mesmo
09:06das operações militares, a questão do direito humanitário internacional, crimes de guerra,
09:10a questão dos alimentos, que é um tema-chave que a guerra causou, ou seja, o preço dos alimentos,
09:16oferta, a questão energética, a questão da guerra e o sul global, como é que países
09:23do sul global se posicionaram, tem um capítulo sobre o Brasil, tem um capítulo que olha
09:27para a África na Assembleia Geral da ONU, e aí, por fim, que era o mais difícil, que
09:32a editora também pediu, para pensar perspectivas de médio e longo prazo, aí tem um capítulo
09:36focado em economia, um outro em segurança internacional, e eu tento trabalhar um pouco com a ideia
09:42da relação Estados Unidos e Rússia à luz da experiência da Guerra Fria.
09:46Então, é uma experiência dificílima, mas ao mesmo tempo, ainda mais pensando num país
09:52e numa sociedade como a brasileira, tendo em vista, se a gente está correto, que essa
09:56guerra representa uma linha vermelha para o sistema internacional, um divisor de águas
10:01importante para o sistema internacional, nós, enquanto sociedade e o Brasil, do ponto
10:07de vista da sua inserção no sistema internacional, tem que saber ler o que está acontecendo e tem
10:12que saber minimamente navegar nessas águas cada vez mais difíceis que o sistema internacional
10:17parece nos ofertar.
10:18Então, daí, apesar da dificuldade, o desafio foi aceito.
10:22Espero que ele tenha sido minimamente bem entregue.
10:42Obrigado.
10:43Obrigado.
10:44Obrigado.
10:45Obrigado.
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