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No programa Visão Crítica, os especialistas Roberto Dumas (Insper), Lucas Ferraz (FGV) e Gustavo Macedo (Ibmec) analisaram o enfraquecimento da relação bilateral entre Brasil e Estados Unidos. O debate abordou a perda de protagonismo brasileiro na agenda norte-americana e os novos focos estratégicos de Washington.

Confira o programa na íntegra em: https://youtube.com/live/zDg9uE79VIM

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Transcrição
00:00Lucas, justamente pegando um gancho do que o Dumas estava apresentando,
00:04eu lembrei aqui, sempre a história, mas que em 1935 teve a política do marco compensado
00:12e o maior parceiro do Brasil naquele ano foi a Alemanha nazista e não os Estados Unidos.
00:18Havia uma disputa entre Estados Unidos e Alemanha para ter uma influência no Brasil
00:23nesse momento que precede a Segunda Guerra Mundial.
00:26E aqui uma disputa política e ideológica muito forte entre a ação integralista brasileira,
00:32que era um partido de tipo fascista, próximo mais aos ideais da Itália,
00:37mais com a proximidade com a Alemanha, e a maior seção do partido nazista no exterior era no Brasil.
00:43Bem, aí o Lucas ia pensar o seguinte, como é que nós devemos, na tua opinião,
00:48a relação do Brasil nesse momento histórico?
00:50De um lado, os Estados Unidos, potência que está colocada aí,
00:54do outro lado, a China, uma potência ascendente.
00:57Alguns falam de armadilha de Tucídides, tem essa discussão que é uma discussão interessante.
01:01É, então.
01:03E como é que nós, e justamente a questão que o Roberto nos falou,
01:06como é que nós devemos relacionar nesse momento, garantindo os interesses nacionais,
01:10claro, a nossa soberania, mas como é isso concretamente,
01:13nesse momento tão difícil da terceira década do século XXI?
01:16Olha, eu concordo com o Du, mas eu acho que certamente o Brasil não tem sido a prioridade.
01:25O Brasil e a América Latina, de uma forma geral, não tem sido a prioridade dos Estados Unidos.
01:29Isso não é só com o governo Trump, com governos democratas também.
01:34Os Estados Unidos têm se envolvidos em muitas questões no Oriente Médio,
01:38teve a questão da ascensão chinesa nas últimas décadas,
01:40e isso evidentemente coloca a China como um ponto focal da região asiática
01:46para a política externa americana.
01:49Então, de fato, isso compõe um quadro realmente,
01:53e agora mais nesse cenário atual de guerra comercial e de 70 frente de negociações,
01:5880 a cada dia é um número que se fala, né?
02:01Que teriam sido abertas pelos Estados Unidos.
02:04O Brasil, as pessoas me perguntam, quando é que o Trump vai negociar com o Brasil?
02:07Certamente o Brasil não é a prioridade nesse momento que o Trump tem que acertar a vida dele com a União Europeia,
02:14está tentando acertar a vida dele com a China,
02:18anunciou esse acordo, que depois a gente pode falar um pouco mais também com o Reino Unido,
02:23mas o Reino Unido é um aliado histórico, muito próximo, com laços culturais muito fortes,
02:28é um pouco diferente do Brasil.
02:30Mas, evidentemente, que tudo isso, apesar dessa postura,
02:36e aí volto um pouco também para a tua pergunta para o colega que me antecedeu,
02:43isso impacta o Brasil.
02:46Querendo ou não, isso tem impacto no Brasil.
02:48E impacto em que sentido?
02:50Impacto individual, no sentido de que os Estados Unidos é o nosso principal parceiro comercial
02:56no que tangem as nossas exportações industriais.
02:59Vamos lembrar que ano passado nós exportamos ali 40 bilhões de dólares para os Estados Unidos,
03:04que é o nosso principal parceiro no setor importante da economia brasileira,
03:07que é o nosso setor industrial.
03:09E nós estamos lá com a tarifa de importação de 10%.
03:12Então, indegavelmente, isso tem um impacto.
03:16Não é uma catástrofe, mas isso impacta na economia brasileira,
03:20ao menos do ponto de vista setorial, do ponto de vista industrial.
03:24Nós estamos com 25% de tarifas que foram cobradas sobre aço e alumínio.
03:28Isso tem um impacto direto nas nossas exportações de aço e alumínio,
03:31que os dados de abril agora, inclusive, mostraram que caíram drasticamente
03:35em relação a abril do ano passado, já como consequência dessa política tarifária.
03:39Então, querendo ou não o Trump negociar conosco,
03:42a gente deve manter um diálogo aberto na medida do possível
03:45para que, em algum momento, a gente consiga conversar
03:48sobre essas barreiras que foram colocadas ao Brasil.
03:52E aí, eu acho que tem um outro aspecto também, Vila, que é pouco falado
03:55e que vale a pena mencionar, que também o Brasil indiretamente, eu diria, é afetado,
04:01que é o desmonte do sistema multilateral de comércio baseado em regras.
04:06Exato.
04:07Esse é um tema muito pouco mencionado, mas tudo o que está acontecendo,
04:11e que, na verdade, já vem acontecendo, pelo menos desde 2017,
04:14aliás, eu diria até um pouco antes, até com o governo Obama,
04:18com a questão da nomeação dos juízes para o órgão de apelação do OMC,
04:22e depois com o Trump, aí ocorre o bloqueio propriamente dito,
04:26o órgão fica bloqueado, fica paralisado.
04:29Quer dizer, um sistema de comércio que não funciona,
04:34regras de comércio que não funcionam, o que vale é a lei do mais forte.
04:38E é exatamente o que a gente está observando agora.
04:41Eu acho curioso que muitos analistas, inclusive, dizem que não,
04:44mas agora o Trump fazendo esse tipo de ação, negociando bilateralmente,
04:48na base da coerção, na base do bullying, nós vamos ter um mundo mais aberto.
04:53Isso é um lei do engano.
04:54Quer dizer, não existe segurança jurídica nenhuma para essas negociações
04:57que estão sendo anunciadas.
04:58Quebra-se completamente princípios basilares da OMC,
05:02como o princípio da nação mais favorecida,
05:04como o princípio da não discriminação.
05:06E existe uma falta de compreensão enorme do Trump,
05:09sobre como esse sistema funcionou,
05:11e funcionou muito bem, pelo menos até a oitava rodada de comércio
05:13que nós tivemos, que foi a rodada do Uruguai,
05:15que terminou em 94, com a criação da OMC.
05:18Lembrando que em 1947, Vila, as tarifas de importação,
05:21a média mundial das tarifas de importação no mundo era 40%.
05:24Em 95, chegamos a 5%, para as tarifas de bens industriais.
05:28Então, o sistema funcionou muito bem.
05:30O que não significa que o sistema não precise de reformas.
05:33E claro que a China, fazendo parte desse sistema,
05:36a partir de 2001, é um bode na sala que se coloca,
05:39e é um inconveniente não só para os Estados Unidos,
05:41mas para muitos outros países, inclusive para o Brasil.
05:44Porque, infelizmente, aquela expectativa de que a China,
05:46ao entrar na OMC em 2001,
05:48a OMC faria com que a China se moldasse às práticas de mercado,
05:52às práticas de economia de mercado,
05:53isso não se concretizou.
05:55Isso é um fato.
05:56A China, de fato, tem muita dificuldade de respeitar as regras de comércio.
06:00Agora, o que não significa que, em função disso,
06:03a gente tenha que jogar o sistema, destruir o sistema,
06:05jogar o sistema, jogar o bebê com a bacia junto, para fora.
06:09Então, um mundo sem regras é um mundo que prejudica
06:13muito mais os países em desenvolvimento,
06:15os países menores do que os países grandes.
06:18Porque o poder de barganha dos países pequenos em negociações
06:20é muito restrito.
06:23Como é que o Brasil vai sentar de igual para igual
06:25com a economia de 29 trilhões de dólares
06:27e nós com a economia de 2 trilhões de dólares?
06:29Quer dizer, é muito desproporcional.
06:31E, na verdade, o sistema multilateral OMC,
06:34ela nivelava o campo de jogo.
06:36Ela estabelecia as regras onde esse poder de barganha,
06:39essa simetria em poder de barganha,
06:41ela acabava sendo, digamos, mitigada
06:43e você conseguia ter negociações, digamos,
06:46mais interessantes para os dois lados.
06:47Esse sistema, infelizmente, está sendo destruído.
06:50Se ele vai ser reconstruído ou não,
06:52é uma outra história.
06:54É uma pergunta também complexa.
06:56Nós tivemos a Pax Britânica no final do século XIX.
07:01Tínhamos ali uma potência hegemônica
07:02e aquilo ali levou a um processo de globalização
07:05muito significativo, pelo menos até o início de 1910,
07:10próximos à Primeira Guerra.
07:11Tivemos aquele período turbulento entre as guerras
07:14e tivemos a Pax Americana,
07:17construída a partir da Segunda Guerra,
07:18de novo uma potência hegemônica
07:20que conseguiu levar o mundo
07:22para um nível de integração sem precedentes.
07:25Então, nós não temos, por ora,
07:27uma experiência de uma situação multipolar
07:30onde a gente conseguiu alcançar
07:32níveis de integração muito fortes.
07:34E acho que é esse o desafio que se coloca nesse momento
07:36e acho que há saídas.
07:39Temos os Estados Unidos hoje,
07:40que é essa potência que levou a esse equilíbrio
07:42altamente integrado,
07:44que representa hoje apenas 12% das importações mundiais.
07:49Ou seja, 12% daquilo que é vendido pelo mundo
07:54vai para os Estados Unidos.
07:55Ou seja, tem 85%, 87% daquilo que é exportado
07:58que vai para outros lugares.
08:00Aliás, os países em desenvolvimento hoje
08:02exportam 50% de tudo que exportam
08:05para outros países em desenvolvimento.
08:07Em 2000, isso era 25%.
08:08Quer dizer, a importância dos países em desenvolvimento
08:10aumentou bastante.
08:12Então, assim, você tem hoje um mundo
08:13que é, de fato, já meio que multipolar.
08:16Aquela hegemonia americana já não existe mais.
08:19O desafio agora é como reconstruir,
08:21como reformar esse sistema.
08:23Uma palavra final, porque eu sou um defensor da OMC,
08:26mas sou defensor de uma OMC moderna.
08:29Nós criamos uma OMC numa época que o mundo era analógico.
08:32O mundo hoje é digital.
08:33As regras de comércio precisam modernizar.
08:37As regras de comércio precisam estar atualizadas.
08:40A gente está falando hoje de comércio de serviços,
08:42de propriedade intelectual,
08:43de comércio digital,
08:45de uma série de comércios que eram irrelevantes
08:48na época que a OMC foi criada
08:50e que hoje ganharam uma relevância muito grande.
08:52E a gente não tem regras, digamos,
08:54para dar o conforto necessário
08:56nas negociações no âmbito da OMC.
08:59E um ponto final.
09:00Não dá para a gente ter a China
09:01como a segunda maior economia do mundo hoje,
09:04a primeira já em paridade de poder de compra,
09:07se declarando como país em desenvolvimento
09:10e, na verdade,
09:12desfrutando do chamado tratamento especial
09:14e diferenciado nas negociações da OMC,
09:17como se ela fosse um país em desenvolvimento
09:18que precisasse disso.
09:19Então, muita coisa aí precisa ser mexida,
09:22mais agilidade na OMC,
09:23mais agilidade no julgamento dos painéis,
09:26das apelações,
09:28no órgão de apelação e etc.,
09:30para que a gente consiga ter um sistema mais moderno,
09:32mas que dê o conforto necessário,
09:34sobretudo para as economias em desenvolvimento.
09:36E é interessante, Vila,
09:37desculpa, só uma parte aqui,
09:39que é justamente essas instituições
09:42pós-Bretton Woods, OMC,
09:44Banco Mundial, etc.,
09:46globalização,
09:48suprimento de cadeias produtivas, etc.,
09:50que tornou os Estados Unidos o maior país do mundo.
09:54Perfeito.
09:54Exatamente.
09:55Tornou, mesmo com o dólar sendo a moeda corrente,
10:03ou a moeda mais conversível que existe,
10:06isso é que tornou os Estados Unidos sendo o maior do mundo.
10:09E o que o Trump quer, parece que ele quer voltar ao tempo.
10:13Porque na economia, você começa sempre com escravidão,
10:16feudalismo,
10:17manufatura,
10:20agricultura, manufatura e serviços.
10:22Ele tem o Vale do Silício,
10:24é a maior empresa do mundo.
10:26São as maiores empresas
10:28tecnológicas que tem.
10:31Quer dizer, você quer voltar para a manufatura,
10:34com nível de desemprego de 4%,
10:37como é que eu vou trazer aqueles produtores
10:40que, por exemplo, ele falou,
10:42eu quero trazer novos produtores para o Rust Belt,
10:45para o cinturão de ferrugem,
10:47cinturão de ferro aqui.
10:49Veja, na época de Ronald Reagan,
10:50você precisava de 10 homens-hora
10:52para fazer uma tonelada de aço.
10:54Hoje, você precisa de 2 homens-hora
10:56para fazer uma tonelada de aço.
10:58Então, culpe a tecnologia,
10:59não culpe os outros.
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