- há 3 semanas
O que leva os adolescentes a experimentarem drogas?
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NotíciasTranscrição
00:00Lembra do Serginho Rondiakoff? O Eterno Cabeção, e aquele ator também que ficou muito conhecido pela luta contra as drogas,
00:08ele recebeu alta de uma clínica de recuperação.
00:10E aí ele participou de um podcast, O Papagaio Falante, e contou como começou o seu envolvimento com as drogas.
00:19Escuta isso! Escuta isso! Ele disse o seguinte, abre aspas,
00:23foi por uma questão de inclusão social.
00:27Tinha um amigo que já tinha experimentado maconha, se dava bem com as garotas,
00:34e acabei me inspirando nele e experimentando também, fecha aspas.
00:39O ator revelou que usou drogas pela primeira vez aos 14 anos.
00:46Presta atenção que a notícia não para por aí não, porque uma pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz
00:51sobre o panorama do consumo de drogas no Brasil, mostra que grande parte dos jovens que enfrentam problemas com as
01:00drogas
01:00foram viciados por amigos, tá? Por amigos!
01:06Por isso, pai, mãe, tio, tia, vovó, todos nós temos que ficar de olho no comportamento dos nossos filhos.
01:14A gente precisa orientar sobre a escolha das amizades.
01:20E vamos bater um papo sobre esse assunto? A gente vai conversar sobre isso agora.
01:23Eu recebo aqui a psicóloga Satina Pimenta.
01:27Muito obrigada pela sua participação. Uma boa tarde, Satina.
01:30Boa tarde para todo mundo.
01:31Seja bem-vinda, viu?
01:32A Lohane Aquino e o André, que ambos já foram usuários de drogas em algum momento da vida.
01:41Vocês têm essa coincidência, hoje estão aqui no Fale o Espírito Santo, para contar a história.
01:47E contar, houve influência na época da amizade? Boa tarde, sejam bem-vindos, viu?
01:53Boa tarde, Roberto. Boa tarde a todos.
01:56Logo lá na adolescência, quando eu comecei, quando eu conheci, foi através de amizade.
02:02Foi através de ciclos de amizade que eu estava ali relacionada, né?
02:07Você tinha consciência na época que aqueles amigos ali não te faziam bem ou não?
02:13Você enxergava todo mundo como legalzão? Como é que era isso?
02:17É, quem está dentro na adolescência ali, eu não via, né?
02:21Não via a consequência que isso poderia me causar, né?
02:25Os danos que isso me causaria futuramente.
02:27Então, ali, naquele momento, eu queria estar ali junto da galera, né?
02:32A ser aceita, então, assim, aí já vem já de uns traumas, já que eu carregava e não sabia, né?
02:40E só depois que eu fui descobrindo, né?
02:43E você experimentou qual droga?
02:45Eu, a primeira droga que eu experimentei foi a maconha, né?
02:49Como eu acho que a maioria, né, das pessoas que já foi dependente ou está na dependência,
02:53começa ali pela maconha, que é o mais leve, né?
02:55Na praia, aquele negócio todo, e aí já cheguei a usar cocaína, já cheguei a usar crack, né?
03:02Em quantos anos você experimentou a maconha, Lovania?
03:04Acho que eu estava na faixa dos meus 15, 15 para 16 anos, mais ou menos.
03:08E você, André?
03:10Foi através de amizade também, aquela adolescente, né?
03:14Meu colega trabalhava numa agência de carro e estava com um carro diferente direto,
03:18aí comecei a sair com ele, aí comecei a usar droga, maconha,
03:22depois foi para a cocaína, aí foi para o estágio crítico, que é o crack, né?
03:29Quando você usou a maconha pela primeira vez,
03:32houve claramente, assim, o seu amigo te ofereceu,
03:35a curiosidade veio de quem?
03:37Foi sua ou ele que chegou e falou, prova aí?
03:40É, nós estávamos juntos, ele começou a enrolar, começou a falar e tal,
03:45me acendeu, aí eu estava junto, acabei indo e fumando.
03:49Só que eu não me adaptei com a maconha, né?
03:52Eu ficava muito, começava a chorar, entrava em depressão.
03:56Ficava melancólico?
03:57É, ficava...
03:58Aí isso te fez experimentar outras drogas?
04:01Isso, isso, aí não me adaptei com a maconha.
04:04Chorava muito, começava a pensar na minha vida,
04:07eu estava em depressão terrível.
04:08Aí eu parti para a cocaína.
04:10Satina, acho que a gente trouxe aqui dois exemplos,
04:12e se a gente fosse abrir espaço para mais pessoas participarem com o relato,
04:17acho que todas elas vão ter uma referência de um amigo
04:21que em algum momento da vida ofereceu alguma droga, né?
04:26Por que que existe essa influência?
04:28Qual é essa relação?
04:29Boa tarde.
04:30Boa tarde de novo para todo mundo.
04:32Então, a adolescência é um momento onde a gente vai buscar saber quem a gente é.
04:37E nesse buscar que a quebra em ti,
04:40que eu não sou meu pai, eu não sou minha mãe,
04:43né, eu tenho que descobrir quem eu sou,
04:44porque pedem a sociedade para disso, deles também, né?
04:47A gente acaba se envolvendo com grupos.
04:49Grupos, às vezes, bons, grupos, às vezes, ruins.
04:52Aí eu vou pegar algumas falas, pode ser?
04:54Fica à vontade.
04:55Tinha coisas que aconteciam comigo que depois eu fui descobrir.
04:59Olha que bacana.
05:01Se eu falar que toda amizade é influenciadora de maneira ruim,
05:05é mentira.
05:06Então, às vezes, a gente está propício a receber aquele convite e aceitá-lo.
05:15Então, você vai ver adolescentes que vão receber o convite para fazer uso da bebida,
05:20que, na verdade, é a primeira droga.
05:21A gente vai para a maconha e depois a gente está falando de uma ilícita,
05:24mas a ilícita, primeiro, é a que chega para o adolescente.
05:27E ele vai falar, não, não, obrigada.
05:30E o outro vai falar, sim.
05:31Qual a diferença dos dois?
05:33É isso que a gente tem que aprofundar.
05:36Às vezes, ele não tem uma base familiar legal,
05:38às vezes, ele está passando por uma situação complicada,
05:41às vezes, muita coisa está acontecendo.
05:43E é por causa disso que ele diz sim e o outro diz não.
05:47Então, acho que aí é o primeiro ponto.
05:49Uma outra coisa que é interessante é que a amizade,
05:53eu quero me enturmar, eu quero estar.
05:56E aí, quando ele fala, não, você é um bobo.
05:59Poxa, você não está na mesma onda.
06:01Poxa, cara, besta.
06:04Nossa, nunca mais eles vão me chamar para sair.
06:06É o careta da turma.
06:07É o careta da turma, maravilha.
06:09E aí, ele fala bem assim, poxa, eu quero me enturmar.
06:11Se eu não aceitar, eles nunca mais me chamam para sair.
06:14Eu vou ser excluído.
06:16Então, eu vou fazer.
06:18Né?
06:19Então, tem muitas coisas que estão envoltas.
06:22Mas o mais importante é a gente entender.
06:24Por qual motivo eu digo sim?
06:26Por qual motivo eu digo não.
06:29Porque não é só aquele momento e aquela influência.
06:32Sou eu também que estou me construindo.
06:34E é importante ter uma fala do Serginho que ele diz, né?
06:38Que ele fazia justamente isso porque ele via o amigo fazendo
06:44e se dando bem com as meninas.
06:46Olha a interpretação que o homem tem também em relação,
06:52a associação que há em relação ao uso da droga.
06:54Porque eu vou ser também o garanhão das meninas.
06:58Existe isso, Sátina?
06:59Existe.
07:00Existe o fora da curva, o diferentão, sabe?
07:06E que chama mais atenção do que aquele menino todo certinho.
07:09Ou aquela menina todo certinho.
07:11Então, eles acabam aparecendo mais no meio social que eles se encontram.
07:15E isso chama atenção.
07:16E a curiosidade, né, gente?
07:18Um adolescente extremamente curioso.
07:20Eu já escutei um colega meu falar junto, assim,
07:22não chama aquele cara lá não, que ele é caretão.
07:24Ih, não chama não.
07:25Aí acabava que não chamava o rapaz.
07:27Isso de um outro colega seu.
07:29Isso, um outro colega.
07:30E ele era realmente excluído da galera?
07:33Ele era excluído.
07:33Porque ele não usava nenhuma droga.
07:34Porque ele era careta.
07:36Então, mostra...
07:37Imagina isso para um adolescente.
07:39Tudo que ele quer na vida é descobrir quem ele é e se enturmar.
07:42Aí ele fala não.
07:44E aí ninguém te chama para a festa.
07:46Ninguém te chama para aquele rolê na praia.
07:49E aí?
07:50Difícil.
07:51É muito difícil ser adolescente.
07:53É difícil.
07:53Vamos voltar aqui um tempo um pouquinho, Lohane.
07:56Na sua adolescência, você lembra se você tinha essa percepção em relação aos homens?
08:01Que o homem que usava na turma da escola, na galera ali do bairro, da comunidade,
08:06eles se tornavam mais atraentes para as meninas?
08:10Olha, o meu primeiro relacionamento, que é o pai do meu filho mais velho, ele estava
08:15envolvido, né?
08:16Na época, com essas coisas, né?
08:19Com tráfico.
08:20E eu me recordo que quando eu comecei a me relacionar com ele, eu me sentia assim...
08:27Eu queria arrumar uma turma para mim.
08:30E aí foi onde eu comecei a me relacionar com ele.
08:34E aí tive muitos problemas na escola, porque a diretora, né?
08:38Eles já não estudavam mais lá, eles eram mais velhos.
08:40Mas eu ficava no muro na hora do recreio, conversando com eles do outro lado da pracinha.
08:45Às vezes, pulava...
08:46Na hora do recreio, pulava o muro para ficar na pracinha.
08:49Depois eu voltava uma vez, eu pulando de volta, de cara com a diretora, assim.
08:53E foi uma situação terrível.
08:54Fui convidada até para ser retirada da escola.
08:57E na época, eu só queria me entumar, só queria pertencer a algum grupo.
09:03Mas, como a doutora falou, e eu falei no início, eu tinha alguns problemas que eu não sabia.
09:11Então, eu queria me sentir pertencente a um grupo, eu queria me sentir importante,
09:14porque já tinha uns traumas ali da minha primeira infância, carregado, marcado em mim,
09:20de uma família desconstruída, de desfuncional mesmo ali, em relação ao meu pai.
09:28Acho que eu já falei que em uma outra oportunidade, ele é usuário, ele ainda está nessa situação.
09:34E aí, eu cresci vendo ele usar dentro de casa.
09:36Era algo que eu detestava, que eu odiava.
09:39Minha mãe se separou dele por causa dessa situação.
09:41E quando eu me vi lá na minha adolescência, nos meus 15 anos, até os 21, mais ou menos,
09:46eu estava repetindo o que eu odiava, que era essa situação do meu pai.
09:52E hoje, fora desse contexto, graças a Deus, há mais de 15 anos, eu olho e vejo assim,
10:01gente, olha a importância de uma família estruturada, olha a importância de você conversar com o seu filho.
10:07Porque minha mãe criou a gente sozinha, quatro filhos, e elas, às vezes, não estavam muito presentes,
10:13porque elas precisavam trabalhar.
10:14Você chegou num ponto que eu estou aqui para perguntar se houve orientação nessa fase da primeira infância,
10:23e depois você vai crescendo na adolescência, se os pais falaram assim, vem cá.
10:27Chegou a hora da gente conversar, a gente precisa falar sobre drogas.
10:31Aconteceu essa conversa na família de vocês?
10:34Na minha família, não.
10:36Minha mãe, ela era uma pessoa legal, mas ela era um pouco desequilibrada, né?
10:40Ela não conversava, ela começava a gritar, a chamar a atenção dos vizinhos, e falava você é um maconheiro e
10:47tal.
10:48E aquilo acaba machucando a gente, né?
10:50Na minha juventude, eu escutei muito que eu tinha que curtir a minha adolescência,
10:56porque isso ia passar e eu não soube como curtir.
11:00Aí aquilo vai entrando na sua mente e você não sabe como curtir.
11:03Você não é ensinado a ter uma adolescência sadia, né?
11:08Então, foi a oportunidade que apareceu, de amizade, aquele negócio de carro, de andar de carro, de ir para outros
11:15lugares.
11:16Ostentação.
11:17É, eu pensava que estava curtindo, mas eu estava caindo no buraco.
11:20Na sua casa, mesmo com a ausência dessa forma que você relatou para a gente do seu pai,
11:25também, consequentemente, da sua mãe, em algum momento teve essa conversa?
11:30Olha, Roberta, minha mãe nunca aprovou isso, né?
11:35Era algo assim, que não era aceito dentro da minha casa, então a gente tinha muitos conflitos.
11:40E eu, na minha adolescência, eles tinham muitos conflitos, inclusive eu não aceitava ela me julgar e tal.
11:47E falava que ia embora de casa, aquela rebeldia toda, bem rebelde mesmo.
11:51Mas, assim, não chegou a sentar comigo e falar.
11:54Só falava, não pode, só que eu queria mais, né?
11:57Na verdade, o adolescente, a mente do adolescente, ela está muito, assim, confusa, né?
12:03E são tantas informações, isso lá nos anos 2000.
12:06Você imagina hoje, nos dias atuais, né?
12:09Com internet, com esses contatos que não existiam, né?
12:13Naquela época de essas redes sociais todas.
12:16Então, assim, foi bem complicado para mim.
12:21Mas, do jeito que ela pôde, ela tentou ali me ajudar.
12:26Pois é, Satina, acho que os pais, ao mesmo tempo que querem conversar sobre esse assunto com os filhos,
12:32têm medo de tocar, falam assim, é um tabu, né?
12:36Qual que é o momento de falar sobre drogas?
12:38Eu não sei, eu estou...
12:39Está desconfiado se está usando alguma coisa ou não.
12:42E fica com medo, talvez, de encarar a realidade, né?
12:46Então, como que a gente deve fazer isso e ao mesmo tempo, sem ser careta, né?
12:51Porque o pai e a mãe falam assim, é proibido, hein?
12:53Não pode usar droga aqui em casa, nem na rua.
12:56Você está proibido.
12:57É mais ou menos assim, né?
12:58Que é a conversa, como o próprio André disse, né?
13:01Que a mãe dele, às vezes, ficava até mais exaltada do que conversando.
13:06Muito bom, muito bom.
13:07De verdade, não é com a droga que a gente começa essa conversa.
13:10A gente começa essa conversa sobre a influência do coleguinha na gente.
13:15Então, essa conversa, ela pode começar lá dos 4 anos de idade.
13:18Qual a influência que esse coleguinha está fazendo com você?
13:21Você bateu no outro, mas meu coleguinha também bateu.
13:24Opa, vem aqui, vamos começar a conversar.
13:27E aí vai ser o comportamento que vai ser no modulado.
13:30Quando chegar na época da droga, a gente vai sentar assim,
13:34porque nossos filhos não vivem numa bolha.
13:36Não dá, não tem como.
13:37Vai falar o que existe, o que não existe, quais as consequências.
13:41O que vão dizer para a gente?
13:42Ah, que é bom, que é legal, que vai curtir, que isso, que aquilo.
13:45Vai dizer a verdade e vai lembrar.
13:48Lembra da influência?
13:50Todo mundo vai ser influenciado, mas uns vão trazer influências positivas,
13:53outros vão trazer influências negativas.
13:56E o mais importante, o adolescente, ele quer pertencer a algo.
14:01Então, que seja a nossa família.
14:03Olha só, se prepara que está chuva de perguntas aqui.
14:06Vamos lá.
14:07A Luciana Sena quer saber como que ela pode ajudar uma pessoa que está namorando um usuário de drogas.
14:15Essa pessoa provavelmente tem consciência que está namorando um usuário...
14:20Tem que tomar cuidado com a síndrome do super-herói, da super-heroína também, né?
14:24Tem gente que começa a namorar com usuários para falar,
14:26nossa, vou tirar ele do fundo do poço, vou tirar ela do fundo do poço.
14:29Então, tem que tomar um pouquinho de cuidado com isso.
14:32Eu, como psicóloga, acredito sempre na regeneração das pessoas.
14:35Estamos aqui com duas maravilhosas.
14:37Até me emociono, porque é verdade.
14:40Com duas maravilhosas.
14:41Entende?
14:42Então, acho que o mais importante é saber qual é o limite daquela pessoa.
14:47Se eu quero ajudar, ótimo, maravilhoso, mas eu não posso me prejudicar.
14:51Prejudicar a minha família.
14:52Prejudicar os meus para defender aquele.
14:55Então, a gente tem que tomar um pouquinho de...
14:58Qual é o meu passo?
14:59Até onde minha perna vai?
15:01Tem também uma outra pergunta aqui.
15:04São vários comentários, né?
15:05A Marileia Araújo, ela diz,
15:07andei com vários tipos de pessoas na minha adolescência
15:10que já me ofereceram vários tipos de drogas, tá?
15:14E não tive curiosidade.
15:16Então, para mim, você faz crer que cada um tem a sua cabeça.
15:21O que é determinante?
15:23Às vezes, uma mãe cria o filho, dois filhos,
15:26com a mesma estrutura, com o mesmo amor,
15:28mesmo carinho, eu sei que não é tudo tão igual.
15:30Eu falo assim que você já me corrigiu uma vez.
15:33Mas o que é determinante também?
15:35A personalidade da pessoa também diz muito nessa hora?
15:39É a construção mesmo da gente no decorrer da vida.
15:44Essa família estruturada que é importante.
15:46Lembrando que família estruturada não quer dizer pai, mãe, filho.
15:49Por favor, não é isso.
15:50Mas a família estruturada é aquele que está ali do nosso lado,
15:53que nos acompanha e tudo mais.
15:54Então, isso é importante.
15:56É importante que a gente saiba realmente sobre a verdade em relação às drogas,
16:02em relação às amizades, em relação aos grupos sociais que a gente está.
16:06E, a partir dessas informações e dessas vivências,
16:09a gente vai construindo uma adolescência, uma vida adulta saudável,
16:14onde eu possa viver e conviver, mas não precisar ser igual a ninguém.
16:20Entende?
16:21Até porque as pessoas vão gostar da gente não é por causa de uma coisa,
16:24é por causa de diversas, né?
16:25Então, não é porque eu barei de usar droga ou não estou usando droga,
16:28é que eu vou deixar de ser bem quisto, bem amado, bem querido.
16:33Agora, Lohane e André, o que ajudou vocês a sair disso?
16:39E, ao mesmo tempo, o que atrapalhava?
16:42O que fazia com que vocês enfiassem cada vez mais a cabeça
16:45até chegar no fundo do poço?
16:49Eu caí no craque mesmo quando eu perdi minha mãe.
16:54Eu tive uma adolescência muito conturbada com ela e,
16:59quando eu perdi ela, eu caí mesmo.
17:04Aí eu caí, foi quando eu perdi minha esposa que eu acordei para a vida.
17:10Eu estava perdendo alguém muito importante na minha vida, a minha filha,
17:14e aí eu falei, eu tenho que tomar um jeito.
17:17Então, ao mesmo tempo que as frustrações da vida te levaram ao fundo do poço,
17:24também foram elas que te fez acordar?
17:26Isso.
17:26Para a realidade.
17:28E para você, Lohane?
17:29No meu caso, né, foi quando me deparei já dentro de um presídio,
17:33já trouxe isso aqui em outra oportunidade.
17:36E não foi o presídio em si, né, só a prisão ali.
17:41Foi eu acordar mesmo, caiu a ficha de, não, peraí, eu sou mãe, né?
17:48Matheus, na época, meu filho mais velho tinha cinco anos e a Jasmine tinha seis meses.
17:53E eu falei, não, que tipo de mãe que eu estou sendo?
17:55E aí eu pude refletir, né, fiquei lá dentro de seis meses,
18:00porque na época, né, a pessoa que eu estava mexia com tráfico,
18:03aí fui presa com uma associação ao tráfico,
18:06e aí eu pude refletir sobre aonde que a minha vida estava indo parar.
18:11E eu falei, não, não quero isso, não quero isso para mim,
18:14não quero isso para os meus filhos, né,
18:16porque eu já estava me tornando um alguém muito pior do que um assombro
18:21que eu já tinha na minha vida, sabe?
18:23Aquilo que vinha. Então, ali foi um start mesmo.
18:27Só que eu não mudei, assim, sair do presídio e acabou, já era,
18:32não, não. Foi, assim, uma construção, sair, né, já determinada a parar.
18:38Aí tive umas recaídazinhas, né, naqueles meses, e...
18:43Mas foi uma luta diária.
18:45Ainda ontem, eu estava até falando com uma conhecida ontem,
18:48que eu pedi tanto, pedi tanto a Deus,
18:51eu não precisei passar numa clínica, eu acredito muito, sim,
18:54nas clínicas, hoje em dia a gente tem, né, muitos métodos, né, que ajudam, sim,
18:59mas o principal, o principal fator para a pessoa parar mesmo de usar é ela querer.
19:07Porque pode estar na melhor clínica, nos melhores médicos e, sabe, tem os melhores profissionais ali ajudando.
19:14Se a pessoa não quiser mudar, nossa, Roberta, ela não muda.
19:17Então, assim, se a pessoa querer mesmo mudar de vida, ela já tem 90% do tratamento dela completo ali.
19:25E é uma decisão diária?
19:26É uma decisão, todos os dias, sabe, todos os dias.
19:29Hoje, minha filha faz 16 anos em dezembro, e eu me recordo, assim, que no aniversário dela de dois anos,
19:37eu já não estava mais usuária.
19:38E eu não lembro quando foi, porque eu lembro que eu pedi tanto a Deus para me tirar aquela vontade,
19:44e a primeira coisa foi, saindo do ciclo de amizade, não bebia nem cerveja, parei de fumar cigarro.
19:50Então, eu fui tirando aquilo ali para mim, porque eu sabia que se eu tomasse uma cerveja, ia dar vontade
19:56da cocaína.
19:57Se eu pegasse um cigarro, daqui a pouco eu já estava novamente na maconha.
20:01E como é que você trata desse assunto hoje com a sua filha de 16 anos?
20:04Então, eu converso abertamente, como nós estamos conversando aqui.
20:07Converso na mesa, né, tem, Jasmim agora vai fazer 16, tem a Pérola com 12, e eu converso abertamente, sabe,
20:14converso abertamente, falo as consequências em relação a amizades também, sabe, converso muito.
20:20Elas sabem, né, das consequências que eu já passei na minha vida, como foi doloroso,
20:25e eu sempre pontuo bastante isso, porque, assim, eu não quero que elas passem.
20:30Então, elas têm o exemplo.
20:32E eu policio muito, sabe, eu olho a rede social delas, converso no WhatsApp, as amizades,
20:38eu não deixo ficar na rua, sair assim à toa, eu procuro bem saber.
20:42Porque você sabe o tamanho da influência dessas amizades, né?
20:45E você, André, com a sua filha?
20:48Minha filha, eu converso bastante com ela, ela passou muita turbulência comigo, né,
20:53eu machuquei muito ela, e ela, graças a Deus, a minha filha é uma pessoa bastante cabeça, né, cabeça, graças
21:03a Deus.
21:03Ela está com quantos anos hoje?
21:04Ela está com 20, acho que há 20 anos.
21:07Ela tem a lojinha dela, ela conversa muito comigo,
21:11ela chamou a minha atenção uma vez, ela falou assim, eu vou estudar psicologia para te ajudar.
21:16Nossa, a Sátina está aqui, ó, feliz da vida, mais uma companheira.
21:20E Sátina, diante desses momentos que a gente está aqui envolvendo os filhos,
21:24porque a gente vai exatamente nisso, né, começa na primeira infância,
21:28e a gente tem que ir cada dia, não é uma única conversa.
21:31Só que aí a gente se pergunta, tá, ele insiste naquela amizade?
21:35A minha filha insiste em sair com aquela amiguinha que eu sei que não está sendo uma boa influência para
21:41a minha filha.
21:43proibir é melhor ou pior?
21:47Então, aí vai depender, vai depender de qual é o grau de influência que essa criança
21:52ou esse adolescente está tendo sobre o nosso filho ou nossa filha.
21:55Mas sabe o que é uma estratégia da minha mãe?
21:57A minha mãe botava todo mundo dentro da minha casa, gente.
22:00Ela falava para mim, eu prefiro você aqui dentro com todo mundo fazer bagunça do que na rua.
22:06Então vem para cá, traz para junto.
22:08Acho que, e deu certo, deu muito certo.
22:11Tanto que eu tenho amizades de 20 anos, 30 anos, que se constituíram lá,
22:16sob os olhos do meu pai e da minha mãe, entende?
22:18E aí quando ela via alguma coisa mais, porque na rua a gente não vê, né?
22:22Ela falava, Sá, de novo, tá legal isso daqui, não.
22:25Então foi uma estratégia muito boa de Dona Maria José, um beijo, inclusive.
22:28Um beijo para Dona Maria José, é emocionante ouvir isso.
22:32Agora, e quando o nosso filho é a má influência?
22:37Nossa, essa é pesada.
22:38Difícil para os pais enxergar essa realidade.
22:41Reconhecer isso é extremamente complicado.
22:46Ele não se tornou uma influência do nada.
22:49O que que levou ele a chegar onde ele está?
22:52Então a gente faz primeiro o caminho de volta,
22:56para entender como que ele se constituiu,
22:59para depois falar que compreendi, vem comigo, vamos fazer diferente.
23:02Vamos ressignificar isso.
23:05Porque, Beto, a gente não precisa ser sempre a mesma pessoa.
23:10A gente muda o tempo inteiro.
23:12Eu tenho uma frase de Facebook, essas coisas,
23:16que fala, o que eu era ontem eu não sou hoje.
23:19E é isso.
23:20Se a gente determina que uma pessoa é só aquilo,
23:24ela não vai mudar.
23:25Então mostra para ele, tem como mudar.
23:27Tem como mudar, sim.
23:29O Serginho Rondiakoff está aí como exemplo.
23:31O André está aqui como exemplo.
23:33A Lohane também.
23:34Receba o nosso abraço.
23:36Muito obrigada.
23:37Mais uma vez por vocês estarem aqui incentivando,
23:40mostrando que é possível, gente,
23:42virar a página, ressignificar.
23:44Eu sou diferente hoje do que eu fui ontem.
23:47Obrigada, viu?
23:48Um beijo.
23:48Um beijo na sua mãe.
23:50Tá?