00:00Pô, pode perguntar quanto ganhava?
00:02R$ 1.750 por semana, toda terça-feira.
00:05Na Fundação Casa, quase metade dos jovens estão presos por ligação com o tráfico de drogas,
00:10segundo relatórios de março deste ano.
00:12A Folha ouviu dois adolescentes que relatam, a partir de suas experiências,
00:15como funciona a suposta dinâmica de trabalho nesse meio.
00:18Como é que você começou a vender drogas?
00:20Fiquei na campana, na parte da rua que dá acesso a onde está a pessoa com a droga, com a
00:25bolsa.
00:26Você vê a polícia vindo, aí você grita.
00:28Aí eu fui, umas duas, três dias.
00:30Aí tinha que ficar da sete até sete.
00:32Depois aí eu já comecei a pegar na bolsa, seu vapor, ficar vendendo.
00:35Aí depois gerência, e daí não pensei em cana.
00:38Aí eles aí colocaram, nossa, que tá mais novo, que tá começando agora.
00:41O que o gerente faz?
00:42Eu bati o fecha da loja, o fecha que eu falo é tipo uma contagem que você faz.
00:46Faz o tanto de droga que entrou na bolsa e o que é pra mandar pra filha, os caras.
00:52A ilusão de ganhar dinheiro rápido é um atrativo.
00:54Pode até parecer uma oportunidade, mas é uma carreira curta e instável.
00:57O tráfico expõe jovens à violência e ao risco de ficar até três anos privados de liberdade.
01:02Tem uma roda minha de amigo que eu tava lá, tava tudo preso, todo mundo.
01:06Ninguém nunca ficou rico fazendo isso aí, nem ficou bem de vida.
01:08Todo mundo foi em cana ou morreu.
01:10Porque eu conheço, assim, tá tempo no período.
01:12Você entrou aqui a primeira vez, quantos anos?
01:14Treze anos, eu comecei a traficar, eu ganhei um plantão.
01:18Eu fui subindo de nível de carga, eu colocava os outros pra abrir pra mim.
01:23E quantos anos você disse?
01:24Dezesseis.
01:25Como que era a sua função?
01:26Eu pegava as bolsas, aí eu ia pra Cracolândia, vendia.
01:31A diferença grande para o grupo de dezesseis, dezessete anos sugere uma progressão dentro da atividade criminosa.
01:37Muitos vão se consolidando com um plano de carreira.
01:40Não, mas também tem umas outras coisas, que é tipo, vale alimentação.
01:43Pode pegar até, não sei, de vale alimentação.
01:46Tem vários benefícios.
01:47Eu só ligava pros caras e falava, vim, quebrou meu celular aqui, ó.
01:51Vou pegar logo um dinheiro pra comprar um novo aqui, tá?
01:53Quem é os caras?
01:55Ah, nunca vi eles não, só por telefone só.
01:57Eles não aparecem, não.
01:59Os dois jovens dizem que entraram no tráfico por influência de pessoas próximas,
02:03como amigos da escola ou gente do próprio bairro.
02:05Você começou fazendo essa parte de vigiar.
02:08E quem que te chamou pra fazer isso?
02:10É um pessoal que eu conhecia através do pessoal da escola.
02:12Querendo ou não, as pessoas que eu andava, se eu era muito envolvido, assim, no crime.
02:17Eles me tratavam de uma forma também como, só que me dava respeito.
02:21Eles não me cobravam, não colocavam a mão em mim.
02:23Tipo, porque me acolhia, sabe?
02:25Roupa cara, dinheiro.
02:27Tem carro, tem moto, mano.
02:29Eu já pegava, queria me espelhar, sabe?
02:31Sem igual a eles.
02:33Esse é o quarto episódio da série Juventude Sob Custódia, produzida pelo Folhetim.
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