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  • há 3 semanas
Qual o futuro de jovens que se envolvem com o tráfico de drogas?

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Transcrição
00:00Eu recebo especialista em segurança pública, Rafael Pereira, muito obrigada pela sua participação.
00:05Rafael, Anne D'Altro, psicóloga, boa tarde também pra você, Anne.
00:09E a gente recebe hoje aqui a Shirley, gente, a Shirley Lopes, ela é mãe, cinco filhos, né?
00:16Seis filhos, seis filhos com pequenininho agora, de sete meses.
00:20Mas a Shirley também tem uma história parecida com esse relato da mãe,
00:25que você também deu incansáveis conselhos pro seu filho, Shirley. Boa tarde.
00:31Boa tarde.
00:32Seja bem-vinda, viu?
00:33Obrigada.
00:34E dou até hoje.
00:36E dou até hoje. Vai pra 11 anos que eu vivo nessa mesma luta.
00:42E quando eles completam a maioridade, é aí mesmo que parece que a gente não tem mais o que fazer.
00:48Quando o meu filho completou a maioridade, que eu não era mais obrigada a ir buscar ele na porta da
00:54delegacia,
00:55porque por inúmeras vezes que eu estava trabalhando, eu recebi a ligação que eu tinha que ir buscar,
01:03um dia eu falei que eu não iria.
01:06Aí o policial falou pra mim assim, se a senhora não vier, nós vamos até onde a senhora estiver, porque
01:10ele é menor.
01:12Então quando ele completou a maioridade, eu falei pra ele que daquela forma não dava pra ele ficar dentro de
01:17casa,
01:18porque eu tinha outros filhos.
01:19E eu falei pra ele, você tem tudo.
01:22É só você estudar, você só precisa estudar.
01:26E ele falou pra mim que ele gostava de traficar.
01:29Porque então ele ia sair de casa pra ele traficar.
01:32E nisso ele tinha quantos anos?
01:34Quando ele completou 18 anos, mas quando ele entrou pro tráfico, ele tinha 14 anos de idade.
01:38Ele vai fazer 25 anos mês que vem.
01:4214 anos, Anny, a gente pode dizer assim, praticamente uma criança, né?
01:47Entrando aí na fase da adolescência, era pra ele estar estudando, era pra ele estar jogando bola com os amigos
01:53na rua,
01:54mas não, olha o prazer que ele sentia, que ele sente.
01:58Traficar.
01:59Mesmo sabendo de todos os riscos.
02:02Por quê?
02:02A gente tem alguns fatores aí, estávamos inclusive conversando, né, Shirley, aqui sobre isso.
02:08A gente tem alguns fatores.
02:10Temos alguns fatores que são sim individuais, então a gente tem sim questões que dizem respeito à pessoa.
02:17Temos questões, com certeza, sociais que envolvem o bairro onde esse adolescente morava, né?
02:23As influências, é uma coisa que a gente precisa ficar muito atento,
02:28quando a gente fala sobre crianças e adolescentes, é o quanto que eles estão sendo influenciados
02:33ou influenciando outras pessoas.
02:35Então isso é muito importante, porque ninguém vai procurar, né, um adolescente de 14 anos,
02:40ele não vai procurar, ah, eu quero agora começar a fazer parte dessa vida.
02:45É apresentado a ele, alguém apresentou isso pra ele.
02:48Então isso é muito importante que os familiares, que a escola esteja atento nisso.
02:53Inclusive, eu estava falando com a Cirna, que muitas vezes vem da escola.
02:56Então também é muito importante ficar atento com as amizades do bairro, da própria escola,
03:02porque às vezes a escola deveria ser um fator de proteção, né, mas pode também ser um fator de risco.
03:07Se essa escola, por exemplo, tem muitos alunos e os profissionais não dão conta,
03:12se a gente tem pessoas que, alguns outros adolescentes ali, que já estão envolvidos com isso,
03:17às vezes por ter pessoas da própria família.
03:19Então a gente tem aí essas questões individuais que dizem respeito a fatores,
03:24inclusive genéticos, a gente tem sim.
03:26E a gente também tem essa parte social, que aí é onde a família vai conseguir intervir,
03:31a família e a escola em conjunto vão conseguir intervir, assim, com uma maior eficiência, né?
03:38Rafael, não é a primeira vez, infelizmente a gente sabe que não vai ser a última vez,
03:42que o Fale Espírito Santo abre um espaço pra falar sobre drogas,
03:47e ainda mais se tratando de crianças, de adolescentes, e que trilham, trilham uma carreira ali, sonham com isso, gostam.
03:55Por quê? De que forma que o tráfico se torna tão atrativo assim pra eles?
03:59É, Roberto, o modus operandi do tráfico, ele é covarde, ele inicia-se na covardia,
04:04porque ele utiliza-se daqueles indivíduos que ainda estão numa formação mental,
04:09estão numa formação como pessoa ainda, né, pra atender aos seus próprios interesses.
04:15Porque o tráfico de drogas, ele sabe que, em nosso país, a legislação que trata da criança e do adolescente,
04:25especial nesse caso do adolescente, né, que é aquela pessoa de 12 anos completos até os 18 anos incompletos, né,
04:32ela traz uma limitação muito grande no que tange à punibilidade.
04:37O adolescente, ele não pode ser preso em flagrante, né, o que há para o adolescente é a apreensão,
04:42e essa apreensão, né, a depender da natureza do delito, e a nossa legislação, ela já deixa claro de que,
04:51se tratando de delito, né, ou de ato infracional, análogo a um crime, que não haja violência ou grave ameaça
04:58contra a pessoa,
05:00esse adolescente terá que ser reintegrado à família ou responsável.
05:03Ou seja, não há nem a possibilidade em delitos como furto, por exemplo, onde há subtração de coisa móvel ali
05:10é sem violência,
05:11e pasmem, né, o tráfico de drogas, né, o artigo 33 da lei 11.34306, que para o adulto, né,
05:18para o imputável,
05:19ele prevê uma perda de reclusão de 5 a 15 anos, para o adolescente não há essa possibilidade.
05:26Por quê? Porque o tráfico de drogas, o ato infracional análogo ao tráfico de drogas, não tem, em nenhuma de
05:31suas condutas,
05:32e olha, Roberto, são 18 verbos no tipo, importar, exportar, remeter, transportar, vender, guardar,
05:37mas nenhum desses verbos tem violência ou grave ameaça contra a pessoa.
05:41Traz como consequência a impossibilidade até da apreensão desse adolescente.
05:45Ele não pode ser encaminhado, por exemplo, a uma unidade de internação.
05:50Então, ele é reintegrado à família.
05:53Então, além de todos esses fatores que foram colocados aqui, fatores sociais, fatores de Estado,
05:58fator familiar, né, isso aí, a segurança pública, ela faz parte dessa engrenagem, né,
06:04há de se avaliar também, e com muita crítica e com muita celeridade, a questão da legislação.
06:10É um debate muito complexo, a questão da redução da maioridade penal, mas não se limita a isso,
06:15se limita a uma revisão de todo o ordenamento jurídico,
06:17no sentido de adequar algo que vem, muitas vezes, de um passado,
06:22o nosso ECRIAD, o nosso Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei 8069,
06:26ela é de 1990, ela vem muito junta à promulgação da Constituição de 88.
06:31Só que de lá para cá, passaram-se tantas décadas e a sociedade, ela mudou, a sociedade é dinâmica.
06:37Então, talvez seja o momento de se reavaliar também o ordenamento jurídico,
06:42e infelizmente isso não é papel da segurança pública,
06:44não tem competência nem atribuição da segurança pública.
06:47Mas sim do poder legislativo federal, dos nossos representantes, deputados e senadores
06:54que têm a função típica em nosso país de elaborar a lei, a função legiferante.
07:01Você, Shirley, em que momento que você começou a perceber,
07:05ou se foi até mesmo o seu filho que te trouxe essa informação,
07:09que ele estava envolvido com algo errado?
07:11Como é que foi que você se deu conta disso?
07:13A gente, eu não percebi, né, porque nós somos uma família evangélica, né, todos,
07:19e ele dava trabalho na escola, sabe, de não querer estudar,
07:24eu e meu esposo, nós éramos muito chamados na escola, né,
07:28e ele, quando ele foi, ele foi de uma vez.
07:32Eu saí de casa para me internar com o meu menino, que na época tinha seis, cinco meses,
07:38e ele aproveitou essa oportunidade, juntou as coisas e foi embora.
07:46Ele chegou da escola, né, meu esposo ainda não havia chegado em casa,
07:50ele chegou em casa, juntou o que tinha, que ele achou que fosse interessante levar,
07:55e foi embora.
07:56Antes ele não tinha dado nenhum sinal.
07:59Não, não, na verdade, uma única vez, e é muito interessante isso que o Rafael falou,
08:05porque na minha família nós temos inúmeros casos.
08:10Eu já perdi primo para o tráfico, eu já perdi primo para as drogas, né,
08:16e quem apresentou a primeira vez maconha para o meu filho foi um sobrinho meu.
08:24Foi um sobrinho meu.
08:26Meu filho devia ter uns 11 anos de idade, 12, mais ou menos.
08:33Só que quando eu bati o olho nele, eu percebi.
08:35Eu bati nos dois, inclusive, nesse dia, porque o meu sobrinho já era mais velho, né.
08:43E até então foi aonde eu soube.
08:46Mas para ele, para o tráfico mesmo, ele saiu de dentro da minha casa e entrou para o tráfico de
08:52drogas.
08:53Eu fui saber uns 3, 4 dias depois, porque eu não sabia onde ele estava,
08:56eu sabia que ele estava dentro do bairro, em Vitória, mas eu não sabia onde.
09:01As pessoas conseguiam ver ele, mas não sabiam certo onde ele estava.
09:05Aí um dia eu consegui encontrar ele.
09:08Eu cheguei bem sorrateiramente, consegui pegar ele, e aí ele falou,
09:12Estou morando ali, estou morando ali, não vou voltar para casa, é isso que eu quero e acabou.
09:15Só que quando a situação apertava, só sobrava para a mãe.
09:18E isso que eu ia perguntar, em algum momento ele expressou medo para você?
09:23Ué, em muitos momentos.
09:24Ele chegou e falou, mãe, saí dessa vida?
09:26Aqui estou arrependido?
09:27Em muitos momentos, em muitos momentos, em muitos momentos.
09:30Ele, uma vez que ele foi até detido, como ele falou, detido, porque aí são detidos, né.
09:35Ele foi detido, e lá na delegacia eu falei que quase que eu que ficava lá presa.
09:41Porque quando eu vi o delegado devolver para ele um dinheiro que não era de trabalho,
09:48porque o meu filho não trabalhava, ele traficava drogas.
09:52E quando eu vi aquele delegado devolver para o meu filho aquele dinheiro que não era fruto do suor dele,
09:59devolver um relógio que não fui eu que comprei, que não foi ele que comprou com fruto do suor dele.
10:05E liberou ele, eu não conseguia acreditar.
10:10E quase que eu fiquei lá presa, porque eu perguntei o que mais precisava para o meu filho ficar preso.
10:16O meu filho teve oito passagens pela polícia na de menor.
10:21Foram oito passagens por tráfico de drogas.
10:24O que você, como mãe, conseguia fazer?
10:29O que a gente viu agora o relato dessa mãe dizendo,
10:32eu fiz tudo para poder tirá-lo dessa vida.
10:34O que você chegou a fazer, Chirley?
10:36A gente faz realmente tudo.
10:37Quando ele saía que queria voltar para dentro de casa, as portas estavam abertas.
10:42Pode voltar.
10:43Mãe é mãe, né?
10:43Mãe é mãe.
10:44Pode voltar.
10:46Ficava um pouquinho bem, daqui a pouco endoidava de novo.
10:49E outra coisa, aonde vai a pronta?
10:52Por que, Anne?
10:53Porque que...
10:54Olha só a frase que a Chirley falou.
10:56Ele ficava um pouquinho bem, daqui a pouco a pronta.
10:59Quantas mães deram a abrir as portas da casa, do coração para os filhos.
11:03Não, agora ele vai mudar.
11:04Agora eu acredito.
11:05Ele se arrependeu, mudou de vida.
11:07Passa um mês, passam dois meses, é a época pronta.
11:10Por que que é tão difícil assim, Anne?
11:12É, uma grande questão que inclusive o Rafael trouxe é essa promessa que o tráfico tem,
11:17né?
11:17De melhora de vida, esse poder de compra.
11:20É um reforço que a gente fala, uma recompensa, que ela é imediata.
11:24Então você recebe uma recompensa e que ela é imediata.
11:29Então é muito difícil para a gente entender, principalmente um adolescente que ainda está
11:35em desenvolvimento, o cérebro ainda está em desenvolvimento, ele entender que, por exemplo,
11:40ok, para eu conseguir comprar o que eu quero, só um exemplo, eu preciso esperar um ano inteiro,
11:45eu preciso trabalhar, eu não posso comprar nessa fase da minha vida, eu preciso ficar adulto,
11:49né?
11:50Então são momentos, são coisas que o adolescente acaba não conseguindo entender que eu não
11:56vou ter essa gratificação agora.
11:58Ainda mais quando se trata de um adolescente que pertence a uma família que não tem condições
12:03de comprar determinado tênis, determinado relógio.
12:05Mas o meu filho hoje está pior do que quando vivia comigo dentro de casa.
12:09Eu cheguei a encontrar o meu filho na rua com bermuda amarrada, com sacola.
12:15Os meus filhos nunca precisaram disso.
12:17Eu trabalho dia e noite junto com o meu esposo.
12:22Nós estamos casados há 21 anos.
12:25A gente trabalha dia e noite, eu tenho inúmeras profissões.
12:29Eu já lavei muito vaso dos outros para dar estudo, para dar roupa, para dar viagens.
12:37E eu já cansei de encontrar meu filho com bermuda amarrada, com sacola e descalço.
12:42É uma grande ilusão.
12:44E um dia eu encontrei ele assim, eu falei, você não precisa disso.
12:48Você tem tudo.
12:49Porque eu tenho uma família que nos apoia em tudo.
12:51Se eu não posso, a minha mãe pode.
12:54Se eu não posso naquele momento, se eu não tenho condições naquele momento, a minha irmã pode.
12:59As minhas sobrinhas podem.
13:01Nós somos esse tipo de família.
13:03Então não falta.
13:05Nunca faltou o alimento.
13:07E é muito triste, né?
13:08Para uma mãe.
13:09Nunca faltou.
13:10É muito triste para uma mãe ver essa cena.
13:13Isso dói na gente.
13:14Dói.
13:14E de uma mãe, imagina a própria mãe ver isso com os olhos.
13:16E não é da criança.
13:18Por muito tempo eu me culpei.
13:19Porque eu falava, onde eu errei com o meu filho?
13:22Só que hoje, eu olho para o meu filho que vai fazer 19 anos, que trabalha e faz faculdade.
13:27Eu olho para a minha filha, que já está casada, que está com 22 anos, que trabalha, faz faculdade e
13:32está casada.
13:33Eu olho que eu não errei.
13:35Eu não errei.
13:36É escolha.
13:37São escolhas.
13:38Eu tive uma escolha.
13:39Eu fui nascida e criada no meio do tráfico.
13:42Eu venho da comunidade do bairro da Penha.
13:45A minha mãe criou cinco filhos sozinha.
13:47Eu tinha tudo para entrar nesse mundo e eu não entrei.
13:51Então, assim, muitas vezes não é sobre a situação financeira.
13:54Não é sobre não poder estudar, porque o meu filho fez prova para conseguir bolsa.
14:00A minha filha fez prova para conseguir bolsa.
14:02Então, assim, se você quiser, se você tiver força de vontade, você consegue.
14:07Então, assim, é mais da própria pessoa.
14:10Eu, às vezes, eu discordo muito de culpar a segurança pública sobre isso.
14:14Porque é mais sobre a pessoa do que sobre a segurança pública.
14:19Eu falo pela minha experiência com o meu filho.
14:22Porque o tráfico, a única coisa que tirou dele, sabe o que foi, Roberta?
14:26A liberdade de ir e vir.
14:29O meu filho hoje tem locais dentro do Estado do Espírito Santo que ele não pode entrar.
14:33Se o meu filho for preso hoje, ele corre um sério risco de morrer dentro da cadeia.
14:39Eu já paguei dívida do tráfico porque ele foi preso com a droga.
14:43E depois ele tinha que pagar a droga.
14:45E uma ex-patroa até que me ajudou a pagar essa droga.
14:48E eu fui pessoalmente na boca de fumo e falei para o rapaz, está aqui o seu dinheiro.
14:52Se você der droga para o meu filho de novo, eu venho aqui com a polícia.
14:57Olha que relato.
14:59Haja coração, hein, mãe?
15:00E são 11 anos.
15:0211 anos.
15:0311 anos.
15:03Quando ele teve a filha dele, a minha neta, eu achei que ele fosse mudar.
15:07Só que ele continuou no mesmo lugar.
15:10Então, não é sobre ninguém.
15:11É sobre ele.
15:12São sobre as escolhas que ele quer para a vida dele.
15:15E eu falo, eu só consigo passar porque eu tenho um Deus na minha vida.
15:21É uma mãe que tem que se manter muito na fé, né?
15:23Quantas mães em casa agora também estão se reconhecendo na sua fala?
15:28E olha só, também nesta quarta-feira, a polícia esclareceu a morte de um outro jovem,
15:33também em Cariacica, no começo de março.
15:36Vinícius da Cunha Tiradentes, de 24 anos, segundo a polícia, foi morto por causa de
15:42uma dívida com traficantes da região.
15:45Três homens e um adolescente teriam assassinado Vinícius.
15:49Até agora, apenas um deles foi preso.
15:55Olha só, o delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, falou sobre a covardia
16:00do Tribunal do Crime, que não perdoa, gente.
16:04Olha aí.
16:05Foi um crime, um requinte de crueldade, foram 20 tiros, desses 28, na face.
16:13Isso é um recado claro do tráfico de drogas para aquelas pessoas que consomem drogas e
16:18não pagam.
16:19O tráfico de drogas impõe suas próprias leis, existe um código do tráfico.
16:24Então eu quero aqui dizer para as pessoas, evitem, evitem usar drogas, não usem drogas,
16:29porque o resultado é sempre esse, né?
16:33Geralmente, quando você não paga, o tráfico não perdoa.
16:37E quando o adolescente entra nesse mundo, ele não imagina isso, né, Rafael?
16:42Pode até ouvir a história de um amigo que aconteceu com um com o outro, mas ele não
16:46imagina, não, comigo não vai acontecer nada.
16:48É por aí?
16:49Sim, Roberto, é muito interessante que esse vazio que é o tráfico, que é o envolvimento
16:55com o tráfico, ele não é só perceptível e real nas camadas iniciais, naquele indivíduo
17:03que é olheiro, que é fogueteiro, né?
17:05Os próprios frentes, os próprios chefes do crime organizado são indivíduos também
17:10que quando são presos, quando há interferência do Estado, esses indivíduos são presos, você
17:16na grande maioria dos casos, você percebe que esses indivíduos também não têm nada.
17:21São indivíduos que vivem numa casa, muitas vezes, sem mínimas condições sanitárias.
17:26São indivíduos que ficam andando pela comunidade com cordões de ouro, ostentando fuzis aí
17:31no valor de 50, 70 mil reais, carros, que são carros produtos de crime, e são indivíduos
17:37que acabam girando muito dinheiro, mas são indivíduos que não têm nada, são indivíduos
17:41que vivem em situação de penúria total.
17:44E olha o que a gente está falando dos que se dizem os chefes do tráfico.
17:47Quem dirá, então, os joelhos que ficam aí embaixo, né?
17:50Quem dirá quem está na escala inferior disso aí.
17:52Então, o tráfico, ele é uma grande ilusão.
17:54Essa história, essa conversa que eu digo que ela é totalmente inverídica, papo furado
17:59de que o tráfico substitui o Estado, aonde há ausência do Estado, isso é mentira.
18:04O traficante, no máximo, ele se preocupa com seus amigos ou com ele mesmo.
18:08E utiliza, principalmente, jovens, adolescentes, como instrumentos, como meros joguetes do sistema.
18:15Indivíduos que vão assumir a autoria do tráfico, da posse, do porte legal de armas,
18:19no lugar desses indivíduos, porque sabe que a legislação favorece.
18:22Então, é uma grande ilusão, né?
18:24O tráfico não transforma nada, o tráfico não melhora nada, o tráfico de drogas não
18:29substitui a presença do Estado.
18:32Ou seja, ele simplesmente vai ali, ocupa, gera uma situação de cárcere para aquela
18:39sociedade, aquela comunidade na qual ele está inserido e traz para essa comunidade somente
18:45sofrimento, seja pelo confronto que há entre essas diversas facções criminosas, pelo controle
18:52dos pontos de droga, seja no recrutamento desses jovens.
18:56Infelizmente, é uma ilusão, todo jovem que se envolve com o tráfico de drogas, ele realmente
19:01só tem dois caminhos, ou ele sai, ou o caminho será.
19:05Se adolescente, se criança, infelizmente, um curto espaço de tempo, no máximo com a sua
19:11liberdade privada aí, de 45 dias a 3 anos.
19:17A posterior, e quando adulto, uma pena de reclusão de 5 a 15 anos, mas em razão de
19:21um sistema de execução penal que nós temos, que prevê vários institutos, como a progressão
19:27de regime de pena, o livramento condicional, ele cumpre uma parte da pena e depois é colocado
19:31em liberdade.
19:32Então, infelizmente, acaba sendo um estímulo indireto à continuidade daquela conduta,
19:38mas tudo não passa de ilusão.
19:39Em suma, o tráfico é covarde, o tráfico não modifica a sociedade, não transforma
19:44a comunidade e deixa, por outro lado, crianças e adolescentes reféns desse sistema e famílias
19:50que acabam sendo reféns desse sistema também.
19:52Agora, a gente tocou num ponto muito importante que a gente precisa falar sobre isso.
19:56A realidade da mãe que cria o filho numa comunidade, essas crianças se tornam mais vulneráveis?
20:04Ah, perfeito, sim.
20:05Sim, porque o tráfico sabe disso.
20:07O tráfico sabe que quem está no seu entorno acaba tendo uma proximidade muito grande com
20:15aquele tipo de dinâmica.
20:17Então, aquilo que é próximo, aquilo que você visualiza...
20:21Existe uma frase que eu já ouvi que você só inveja aquilo que você vê, aquilo que
20:24você está próximo.
20:25Então, o tráfico sabe disso.
20:26Ele trabalha com essa covardia, ele trabalha com essa perspectiva de ganho rápido, de poder
20:33uma compra de um tênis, de um aparelho celular, esse imediatismo que é muito mais acentuado
20:39em crianças e adolescentes, ou até em indivíduos já maiores de idade, mas que não tiveram
20:45uma formação como cidadão adequada.
20:48E aí são outras questões a serem debatidas.
20:51Então, o tráfico, sabendo que essa proximidade com essa dinâmica criminosa, influencia muito,
20:57eles se valem disso aí.
20:59Mas, claro, sem dúvida, de forma covarde, de forma cruel.
21:03Até porque, geralmente, a gente vê uma realidade, não sei se foi a sua, Shirley, mães tendo que
21:08sair de casa de manhã cedo, na madrugada, para trabalhar e voltando à noite.
21:13E a gente não vê creches em horário integral, a gente vê a falta que isso faz para dar todo
21:21esse suporte, para que a gente possa levar a comida para casa.
21:24E aí, nessas horas, o tráfico vai e alicia os nossos filhos.
21:28Tem muita gente aqui no Facebook falando da sua fortaleza, falando o quanto você é guerreira.
21:35E a gente vê, Anny, como que, por mais forte que as mães sejam, ainda assim, são seres
21:43humanos, né?
21:45Imagina quantas mães nos sofrem, ficam noites e noites sem dormir.
21:49Que tipo de apoio?
21:50Essa mãe, a Shirley, a mãe que a gente viu o relato, que ela se despediu do filho nessa
21:56última noite.
21:56Que tipo de apoio essas mães precisam?
21:59Com certeza, o apoio da família e de amigos, né?
22:02É essencial pedir ajuda.
22:05Muitas vezes a gente tem muita vergonha de mostrar que estamos com dificuldade, principalmente
22:10dificuldades emocionais, né?
22:13Mas é muito importante não ter vergonha de procurar ajuda de familiares, de amigos,
22:17uma ajuda profissional.
22:19E tem mães que têm vergonha de expor isso para algum amigo, porque, ah, é um assunto que
22:24não...
22:25O julgamento.
22:25A culpa é sua, porque eu trabalhei muito, né?
22:30Eu sempre precisei sair de casa para poder trabalhar.
22:36Eu me separei do pai do Iago e da Ana Júlia, que são os dois mais velhos, justamente porque
22:41ele foi preso.
22:41Eu larguei ele lá dentro da cadeia, porque não era isso que eu queria para a minha vida,
22:45porque quando eu o conheci, ele não era assim.
22:47E eu fui trabalhar, mas eu nunca deixei sozinho.
22:52Eu sempre busquei um período, minha mãe cuidou para mim, ela não trabalhava todos os dias,
22:56então eu intercalava os dias que ela estava em casa e eu estava fora trabalhando.
23:00Não deixou o relento, né?
23:01Nunca deixei meus filhos de qualquer maneira.
23:05Eu criei o Iago no bairro da Penha, que é de onde eu vim, até os três, quatro...
23:11Não, foi mais um pouquinho.
23:12Eu acho que ele tinha uns sete, oito anos.
23:15Eu fiquei lá, depois eu saí de lá, nós nos mudamos de lá de cima e desde então eu
23:21sempre pagando aluguel.
23:22Eu nem pagava aluguel, mas nós fomos para o aluguel para ter uma qualidade de vida melhor
23:28e nunca deixei sozinho, depois que estava com a certa idade, não, né?
23:33Mas eles sempre fizeram muitos projetos sociais, né?
23:36Sempre intercalava a escola com alguma coisa, com algum projeto social.
23:41Não tinha essa história de ficar na tarde jogado na pracinha, né?
23:45Não, não tinha isso.
23:46Tanto que o meu filho até brinca comigo assim, né?
23:49O meu de 18 anos.
23:50Ele fala, mãe, por que você não deixou a gente brincar na rua?
23:54Agora a gente só quer ficar dentro de casa,
23:55porque realmente os meus filhos não tiveram o hábito de brincar na rua.
23:59E é aí que a gente faz mais uma pontuação aqui,
24:03a importância de ter projetos sociais.
24:05É muito importante.
24:06Porque a gente sabe o quanto que isso ajuda, né?
24:09Com que as crianças não fiquem ali jogados, sendo atraídos, aliciados pelo tráfico.
24:14Shirley, infelizmente o nosso tempo acabou,
24:16mas eu agradeço de todo o coração a sua participação aqui no Pará do Espírito Santo.
24:20Conte sempre com a gente, volte sempre.
24:22Eu tenho certeza que você levou muita esperança para as mães que estão em casa agora.
24:26Essa é a minha intenção.
24:27Eu não tenho problema de falar sobre isso.
24:29Nos meus piores momentos, eu ajudei famílias, né?
24:33Nos meus piores momentos foram oito anos trabalhando com famílias.
24:37Inclusive já passei pela TV Vitória falando do meu projeto social.
24:42E eu não tenho problema de falar sobre isso,
24:45porque eu acho que nós temos que ser mulheres que levantam outras mulheres.
24:48E hoje o que eu vejo muito são mulheres destruindo outras mulheres por inúmeros motivos.
24:54Eu não tenho problema de falar que o meu filho seguiu por esse caminho,
24:57porque eu sei que a culpa não foi minha.
24:59Que eu dei o meu melhor para ele, como eu dei para todos os meus filhos.
25:04E a única coisa que eu tenho para dizer para essas mães,
25:06não desistam de vocês.
25:08Porque por muito tempo eu desisti de mim.
25:10Muitas mães desistem.
25:11Eu desisti de mim e hoje foi uma palavra do meu filho que me fez acordar.
25:17O meu filho falou assim, você não tem só ele.
25:19Olha para a gente que não te dá nenhum tipo de trabalho.
25:23E aí eu acordei, eu coloquei ele nas mãos de Deus,
25:28deixei ele lá e estou seguindo a minha vida, cuidando dos meus filhos.
25:32Isso aí, seus filhos precisam de você.
25:33Precisam de mim.
25:34Ana, obrigada também pela sua participação.
25:36Mas só para a gente finalizar, Rafael, vamos falar mais uma vez,
25:39cobrar das nossas autoridades.
25:41Esses projetos sociais precisam acontecer.
25:43E não é projeto que a sociedade não se identifique.
25:46A comunidade tem que gerar essa identificação.
25:49A gente vê a importância desses projetos.
25:51Sim, segurança pública não é só polícia.
25:53Eu sempre falo aqui, a polícia é um braço da segurança pública.
25:56Segurança pública envolve a participação efetiva do Estado,
25:59a presença do Estado, principalmente onde há essas lacunas
26:03que podem ser, ainda que de forma indevida e superficial,
26:08ocupadas por essas facções criminosas.
26:09A segurança pública perpassa pela família também.
26:12Então, somando-se isso tudo, tendo todos esses instrumentos agindo em conjunto,
26:17com certeza reduz muito, mitiga muito esse tipo de ocorrência e esse tipo de situação.

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