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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um Ponto de Vista.
00:12As mudanças climáticas são o assunto que vamos discutir esta semana.
00:17Enchentes, tornados, terremotos, o fenômeno do El Ninho.
00:21Cada vez mais no Brasil e no mundo, nós estamos vendo esses assuntos ocupando mais espaço na mídia.
00:27E precisamos falar mais sobre eles.
00:30Por isso, nosso convidado de hoje é o professor Moacir Araújo, coordenador da Rede Clima,
00:37que é a rede brasileira de pesquisas sobre mudanças climáticas globais.
00:42O professor Moacir é também o vice-reitor da Universidade Federal de Pernambuco.
00:48Professor, seja muito bem-vindo e obrigado por estar aqui hoje com a gente.
00:52Muito obrigado, Fernando. Muito obrigado pelo convite da TV Tribuna.
00:55É um grande prazer estar aqui discutindo um tema tão importante e tão atual como as mudanças do clima.
01:01Eu queria começar com o senhor explicando o que é essa rede clima que o senhor é o presidente.
01:08Bem, veja, a rede clima é talvez, e muito provavelmente eu acho que a gente pode dizer isso,
01:14o braço científico mais importante da ciência climática no Brasil.
01:20Na verdade, nós temos uma rede que é composta de pesquisadores do mais alto nível
01:26e em todas as áreas que envolvem as mudanças do clima.
01:30E nós somos responsáveis também por subsidiar o Estado brasileiro, não o governo brasileiro,
01:36o Estado brasileiro em todas as negociações internacionais envolvendo a agenda climática.
01:42Então, eu acho que a rede clima é, de fato, muito importante.
01:46Essa semana, professor, nós estivemos no sul do Brasil, né?
01:50Nós voltamos a sofrer aquelas rajadas de ventos, enchentes, chuvas muito fortes, né?
01:56Com ventos de mais de 80 km por hora, 100 km por hora.
02:01Isso era raro no Brasil e a gente tem visto isso se tornando cada vez mais frequente.
02:07Por quê?
02:07Bom, a gente tem visto a ocorrência de eventos extremos cada vez mais intensos e cada vez mais frequentes.
02:17Não é só no Brasil, tá?
02:18E também não são só eventos associados a chuvas, né, a tornados e etc.
02:24Eventos também de falta de água, de secas extremas, né?
02:29E a gente tem a certeza absoluta hoje, é a contribuição da ciência,
02:33de que isso é decorrente de uma mudança do sistema climático global, né?
02:39Resultado do aquecimento a partir do lançamento excessivo de gases de efeito estufa.
02:45Quer dizer, já dá para saber com certeza que tudo que está acontecendo,
02:49seja no hemisfério norte, seja no hemisfério sul, tem a ver com o aquecimento global.
02:55Já dá para a gente ter com certeza, inclusive tem uma parte da ciência climática,
02:59que é a ciência de atribuição, em que você, a partir de uma metodologia científica,
03:04consegue identificar se aquilo tem origem natural, ou seja, sempre aconteceu,
03:09ou se realmente aquilo é decorrente da ação antrópica, ou seja, da ação do homem
03:15sobre a natureza, né, e sobre os ecossistemas.
03:18Os cientistas já alertaram também que o fenômeno do euninho este ano
03:23pode ser um dos mais intensos da história, né?
03:26A gente sempre tem o euninho, mas às vezes ele é mais fraco, às vezes mais forte,
03:30e o que estão alertando é que o deste ano deve ser um dos mais fortes da história.
03:35O que é que temos já como amostra disso?
03:38Veja, assim, nós temos um processo de aquecimento das águas do Pacífico
03:43para acima daquilo que seria considerado normal.
03:46É isso que caracteriza o euninho.
03:48Esse aquecimento, ele interage com a atmosfera,
03:52e aí ele começa a mexer no clima todinho do planeta.
03:56O Pacífico é uma massa d'água enorme.
03:59Tudo que acontece ali, via o que nós chamamos de teleconexão,
04:03interage com a atmosfera e modifica o clima no Brasil,
04:07modifica o clima na América do Norte, na Europa, na Ásia, na África,
04:11e, de fato, nós estamos vivendo um euninho,
04:13talvez o euninho mais intenso de toda a história,
04:16e que nós já observamos.
04:18E isso já tem consequência, sim.
04:21E nós estamos apenas começando,
04:23porque é de se esperar que esses eventos extremos,
04:26que já começaram a acontecer, não só no Brasil,
04:29no mundo todo,
04:30esse aumento de frequência, aumento de intensidade,
04:33fique ainda pior a partir de outubro, novembro,
04:36e ao longo de todo o ano de 2027.
04:39Porque justamente essa interação do oceano com a atmosfera
04:42tem um tempo para que ela aconteça.
04:44Então, o pior ainda está para ouvir.
04:46Muita gente acha que o euninho lá no Oceano Pacífico
04:49não seria tão simples atingir o Brasil.
04:54É ignorância da nossa parte achar isso.
04:56Com certeza.
04:57É falta de conhecimento.
04:58Tudo está interligado.
04:59Está tudo interligado.
05:00Está tudo interligado.
05:01Nós temos três grandes fenômenos que são intensificados
05:05quando você tem um euninho forte.
05:07Olhando agora para o Brasil.
05:08O primeiro é a troca de calor em toda a região amazônica.
05:12Você intensifica a evaporação.
05:15O segundo é um transporte maior dessa evaporação,
05:18dessa umidade, para o sul do Brasil.
05:21E a consequência disso são aquelas chuvas extremas
05:25que nós vemos já recorrentes.
05:26A gente viu em 2024, etc., na região sul.
05:29O Rio Grande do Sul tem sofrido uma frequência impressionante.
05:34Muito, muito.
05:34E vai sofrer ainda mais.
05:36E um terceiro fenômeno, que é muito claro também,
05:40já muito debatido pela ciência,
05:43é o processo de intensificação das secas no Nordeste do Brasil.
05:48Essa, inclusive, era a minha próxima pergunta.
05:50Ao mesmo tempo que a gente está tendo essas chuvas intensas,
05:54na região sul, às vezes ainda chegando ali para o Paraná,
06:00já encostando já em São Paulo,
06:02a gente tem visto chuva.
06:04São Paulo, direto, tem alagamento por causa das chuvas,
06:07chuvas muitas vezes intensas e até inesperadas.
06:10Ao mesmo tempo que a gente tem isso,
06:12a gente tem a seca no Nordeste, no semiárido nordestino,
06:16e que a previsão é que vai ser mais intensa esse ano.
06:20Com certeza, não tenho a menor dúvida.
06:21Inclusive, o que a gente está vendo,
06:25que os modelos de previsão estão indicando,
06:28é, de fato, o aumento das áreas do semiárido,
06:31que vão ser sujeitas a processo de desertificação.
06:35Isso é o mais grave.
06:37Porque o semiárido nordestino, ele é riquíssimo.
06:40Tem uma biodiversidade riquíssima.
06:42Ele é cinza no verão e é verde no inverno.
06:46Nessas áreas em que você já passa para um processo de desertificação,
06:51você perde a capacidade de enverder o nosso semiárido.
06:58Ou seja, você não consegue mais transformar aquilo e recuperar aquelas áreas.
07:03Nós temos já áreas de desertificação no norte da Bahia
07:07e a previsão é que a gente expanda essas áreas
07:09a partir dessa intensidade do euninho que nós estamos observando.
07:13As chuvas no semiárido normalmente ocorrem entre novembro e abril.
07:19Nós ainda estamos em setembro.
07:21A previsão, então, com esse euninho mais forte
07:24é que essas chuvas não ocorram com tanta intensidade, é isso?
07:27A previsão é que as chuvas atrasem, né?
07:30E além de atrasarem, elas tenham uma intensificação menor,
07:35uma intensidade menor do que a gente normalmente está acostumado a ver.
07:38No litoral nordestino, a gente já sente normalmente um calor maior já a partir de setembro, né?
07:44O clima começa... a temperatura se eleva, as pessoas começam a sentir mais calor.
07:49Isso vai ser pior esse ano?
07:51Isso deve ser pior esse ano, não tenho a menor dúvida, né?
07:54Quando você... os dados mostram... isso aí são dados, né?
07:56Nem projeção de modelos, né?
07:58Que geram uma certa incerteza, mas os dados mostram, por exemplo,
08:02que na região metropolitana, falando aqui de Recife, né?
08:06Que não é o caso isolado.
08:07Na região metropolitana, nós temos praticamente 2 graus Celsius
08:12mais quente em toda a região metropolitana do que nós tínhamos no início do século passado.
08:17Esse calor mais intenso no litoral brasileiro, nordestino sobretudo, né?
08:22Ele pode vir acompanhado também de chuvas inesperadas ou não?
08:26Vem. Por que que vem?
08:27Porque nós temos, em particular, na borda leste do Nordeste,
08:30que é ali, viu, pessoal, de Natal até Salvador, né?
08:34É o que a gente chama de borda leste do Nordeste.
08:37Existe uma massa d'água muito quente,
08:40que eu, inclusive, dei o nome de piscina quente do Atlântico Sudoeste
08:45e ficou conhecida como isso já há uns 10, 15 anos.
08:48Essa massa d'água quente, que está sempre acima de 27, 28 graus,
08:53ela cede muito calor, ela cede muita energia,
08:56para as instabilidades atmosféricas que vêm da África.
08:59Então, quando você aquece ainda mais essa massa,
09:03você dá mais energia para essas instabilidades,
09:06para essas nuvens carregadas,
09:08que quando encontra o litoral,
09:10o litoral pernambucano, paraibano,
09:12o litoral baiano, enfim, alagoano,
09:15caem essas grandes trombas d'água que a gente tem observado
09:18e que causam perdas de vida e grandes perdas para a economia também.
09:25Então, a gente precisa aumentar a nossa resiliência
09:28e se preparar para o que vem por aí.
09:31Agora, professor, mesmo com todos esses problemas climáticos
09:34que a gente vem verificando ano a ano,
09:37ainda há quem negue isso,
09:38que ache que há um exagero dos cientistas,
09:42que a situação não é tão grave assim.
09:44O que é que o senhor diria para essas pessoas?
09:47Veja, eu estava, inclusive, dando uma palestra
09:49essa semana passada na Academia Brasileira de Ciência
09:52e nós tivemos uma grande discussão sobre isso
09:57há 15, 20 anos atrás.
09:59Eu mesmo participei de várias audiências
10:01no Congresso Nacional, no Parlamento,
10:04discutindo com pesquisadores
10:06que duvidavam das mudanças do clima,
10:10o que nós chamamos de negacionistas.
10:12Agora, existe um ou outro pontualmente.
10:15Aí eu tenho uma figurinha muito engraçada
10:18que eu coloco no meu slide,
10:19que é o Ariano.
10:21É uma daquelas figurinhas que Ariano faz,
10:25aparece dizendo assim,
10:26ele não disse isso, mas é simbólico,
10:28que é, eu não converso com o doido, não.
10:31Percebe?
10:32Então, eu acho que a gente não tem mais espaço
10:33para negacionismo.
10:35Não existe absolutamente nenhuma dúvida,
10:38nenhuma dúvida,
10:39que no que nós estamos passando,
10:41que nós vamos passar ainda ao longo de todo esse século,
10:44é resultante do excesso de aquecimento da atmosfera
10:48pela emissão de gases de efeito estufa
10:50de origem humana.
10:51Não existe mais dúvida sobre isso.
10:53Tudo que a gente tem visto é muito evidente, né?
10:56É muito...
10:58São evidências com uma frequência muito grande
11:01para que as pessoas continuem negando.
11:03É, exatamente.
11:03Eu acho, inclusive, viu, Fernando,
11:06que a ciência, vejam, me entendam,
11:09a ciência, ela já cumpriu o seu papel.
11:13Ela já cumpriu o seu papel, qual é?
11:15É, dizer que isso é resultado da ação humana
11:19e que nós vamos passar por cenários cada vez mais complicados.
11:24O que existe agora é o que a gente chama
11:27de contribuição incremental.
11:29Ou seja, a gente melhora a previsão do cenário,
11:32olha, realmente vai ficar pior do que a gente imaginava.
11:34A gente, olha, vai acontecer antes do que a gente imaginava.
11:38A gente fica melhorando aquela ciência, né?
11:41Mas a ideia central de que nós precisamos, de fato,
11:44reduzir a emissão de gases de efeito estufa
11:46e o que está acontecendo é resultado desse aquecimento.
11:51A ciência já fez seu papel.
11:52O problema é a gente fazer com que essa ciência
11:57seja considerada cada vez mais na hora de você elaborar políticas públicas.
12:03Para mitigar os efeitos disso.
12:05Para mitigar e para fazer com que a gente tenha a capacidade
12:07de nos adaptarmos a essas novas realidades climáticas
12:12que vão chegar e já estão chegando.
12:13Voltando ao euninho, qual o impacto econômico dele?
12:17A gente pode ter problemas, por exemplo, com a quebra de safra na agricultura.
12:22Quais são os efeitos imediatos que a gente pode sentir
12:25por causa desse euninho mais forte?
12:27Veja, o primeiro efeito imediato e que é muito grave
12:31é com relação à saúde pública.
12:34Só para você ter uma ideia, assim,
12:36você aumentar a temperatura de uma região metropolitana,
12:41que são normalmente regiões que têm o que a gente chama de ilhas de calor.
12:46Você aumentar a temperatura em 2, 3 graus,
12:49você começa a impor sérias consequências,
12:54sobretudo à população idosa e às crianças.
12:58A Europa vai perder 30 mil vidas agora por causa de onda de calor.
13:03No Brasil, nós talvez não chegamos a tanto,
13:07mas nós vamos, com certeza, ter muita mortalidade de pessoas idosas e de crianças
13:13submetidas ao calor extremo.
13:15Então, esse é o primeiro aspecto muito importante.
13:18O outro aspecto importante também são os efeitos sobre a economia,
13:22porque você começa a interferir na produção agrícola.
13:27Pode haver uma quebra de safra?
13:28Pode haver uma quebra de safra, pode haver, por exemplo,
13:31um aumento do preço dos alimentos,
13:34que também tem consequências desastrosas sobre as populações.
13:39Então, você está submetido a uma certa vulnerabilidade muito maior
13:46em uma situação em que você tem um euninho forte,
13:50em que você tem eventos extremos cada vez mais intensos.
13:55Muito bem, professor.
13:55A gente vai fazer um rápido intervalo.
13:57Você que está acompanhando aí, não saia daí, que a gente volta já, já.
14:14O Ponto de Vista está de volta.
14:16Hoje eu recebo aqui o professor Moacir Araújo,
14:19que é o coordenador da Rede Clima.
14:22Professor, vamos continuar a nossa conversa.
14:24A gente falou do impacto econômico em termos de quebra de safra,
14:27que é possível que aconteça por conta do euninho.
14:30Eu queria saber também em termos de segurança energética.
14:34A gente corre algum risco?
14:35Podemos ter alguma consequência direta por causa do euninho mais forte?
14:40Com certeza.
14:41Não tenho a menor dúvida,
14:42sobretudo considerando a matriz energética do nosso país.
14:46Se, por um lado, nós temos uma matriz energética
14:48considerada uma das mais limpas do mundo.
14:51A geração de energia elétrica por hidroeletricidade,
14:56nas nossas grandes hidroelétricas,
14:59a gente tem uma dependência dessa quantidade de água.
15:03Então, na verdade, se faltar água,
15:06nós vamos ter que pensar em soluções alternativas que já estão acontecendo.
15:11Diga-se de passagem,
15:12o crescimento da energia eólica e da energia fotovoltaica,
15:18inclusive aqui no Nordeste do Brasil,
15:20é impressionante.
15:22É um dos maiores do planeta.
15:24Acho que talvez fique atrás da China apenas,
15:27porque é outra escala também.
15:28Ou seja, nós vamos ter que cada vez mais
15:30nos utilizar das energias renováveis,
15:33inclusive a energia oceânica também.
15:35A produção de energia oceânica
15:37via gradiente térmico, enfim, né?
15:40Eólica.
15:41Eólica, muita eólica, né?
15:43E também fotovoltaica.
15:45Mas nós temos, sim,
15:47nós temos que nos preparar
15:48para uma eventual crise energética,
15:52porque nós precisamos garantir
15:53a segurança hídrica,
15:55a segurança energética
15:57e a segurança alimentar.
15:58É o que nós chamamos de nexus.
16:00Então, essas três seguranças,
16:02o que é que elas têm no centro delas?
16:04Água, no caso do Brasil.
16:07Para muitos países,
16:08a segurança energética
16:09não se resolve com água.
16:11Mas nós temos uma configuração
16:14em que a água está no centro de tudo.
16:16Então, o conflito que vai gerar
16:18a partir de uma escassez hídrica
16:20afeta todas essas áreas.
16:22Falando de água,
16:24na comunidade científica,
16:25muito se fala sobre a Amazônia
16:28atingir um limite irreversível
16:30de degradação.
16:31Um ponto de não retorno.
16:33É essa situação que a gente tem acompanhado
16:36mesmo, hoje?
16:37Veja, assim, nós temos,
16:39nós estamos caminhando
16:40para um ponto de não retorno
16:41do sistema amazônico.
16:42O que é absolutamente perigoso,
16:45não para o Brasil,
16:46para o planeta como um todo.
16:49Felizmente, nós reduzimos,
16:51desde 2022,
16:54o desmatamento no Brasil.
16:56Redução significativa.
16:57Antes de 2022,
16:59tivemos um período
16:59de muito crescimento e desmatamento.
17:01e após 2022,
17:03nós temos decaindo,
17:04por exemplo,
17:0550% a menos de desmatamento
17:07foi conseguido em três anos.
17:09É uma coisa maravilhosa.
17:11Por quê?
17:11Porque, simplesmente,
17:13isso tenta fazer com que
17:15esse efeito
17:17de transformação da Amazônia
17:19em algo parecido com a savana,
17:22por exemplo,
17:23ele seja reduzido.
17:25Mas nós precisamos cuidar muito
17:26da Amazônia.
17:27O planeta precisar cuidar muito
17:29da Amazônia,
17:30porque ela é, de fato,
17:32um reservatório de carbono
17:35monstruoso
17:35para o planeta.
17:37E, se nós não cuidarmos,
17:39nós estamos, sim,
17:40caminhando para
17:41um ponto de não retorno.
17:43E a gente,
17:43em termos de clima,
17:44tudo que acontece na Amazônia
17:46se reflete já no sudeste,
17:48no centro-oeste,
17:50todo o país,
17:51praticamente,
17:53desce lá da região norte
17:56e vai cruzando o país todo
17:57e a gente vai sentindo
17:58as consequências
17:59do que está acontecendo lá.
18:00Perfeito.
18:01Assim,
18:01numa visão muito esquemática,
18:03os ventos que vêm do oceano
18:05entram pela Amazônia,
18:07que está evaporando lá,
18:09trocando calor com atmosfera,
18:12batem nos Andes,
18:13viram e transportam
18:14toda essa umidade
18:16para a região central do Brasil
18:18e, por fim,
18:19para a região sul.
18:20ou seja,
18:21na verdade,
18:22a Amazônia,
18:23ela é,
18:24talvez,
18:25o principal ator
18:26ou atora,
18:27a Amazônia,
18:28de todo esse processo
18:29de irrigação
18:31que a gente tem
18:32no país todo.
18:33Ou seja,
18:33mexer com a Amazônia,
18:34com certeza,
18:36mexer com o agronegócio
18:37de uma forma
18:38muito brutal,
18:40até uma contradição
18:41do ponto de vista
18:42do agronegócio,
18:43mas, felizmente,
18:44grande parte do agronegócio
18:45hoje em dia
18:46já percebe
18:47que é muito mais importante
18:49e interessante
18:50para o negócio
18:52manter uma árvore em pé
18:53do que desmatar
18:55para fazer
18:56algum tipo
18:56de intervenção
18:58agropecuária,
18:59enfim, etc.
19:00Está sendo mais rentável
19:01manter a árvore em pé.
19:03Agora, professor,
19:04o Brasil tem
19:04ferramentas avançadas
19:06hoje,
19:07de monitoramento
19:08do clima.
19:09Nós temos o INPE,
19:10por exemplo,
19:11temos o MAPI Biomas,
19:13vários órgãos
19:14que colaboram
19:16ou contribuem,
19:16digamos,
19:17para que a gente
19:18tenha um controle
19:20maior
19:20e um entendimento
19:22maior
19:23de como está
19:23a situação.
19:24Mesmo assim,
19:25a gente,
19:25de vez em quando,
19:26é atingido
19:27por algum fenômeno
19:28que não foi previsto,
19:30um enchente
19:32mais forte
19:32no Rio Grande do Sul
19:34ou uma seca maior
19:35no Nordeste.
19:36Por que isso ainda acontece?
19:38Isso acontece
19:39porque a nossa capacidade
19:40de previsão,
19:41e aí não tem nada,
19:41absolutamente nada,
19:43a ver com a limitação
19:44computacional
19:45dos modelos.
19:46nossa capacidade
19:47de previsão,
19:48ela é limitada
19:49por uma coisa
19:51que a gente chama
19:51não linearidade
19:53dos fenômenos.
19:54Ou seja,
19:55a gente está tendo
19:56um aumento
19:57de concentração
19:58de umidade
19:59aqui em determinada região,
20:01isso significa
20:02que vai ter
20:03um evento de chuva,
20:04mas de uma hora
20:05para a outra
20:05ele pode,
20:06o que a gente chama,
20:07bifurcar.
20:08E isso é inerente
20:10ao fenômeno,
20:11e essa dificuldade
20:12faz com que a gente
20:13tenha previsões
20:14com o tempo
20:15que nós gostaríamos.
20:17E às vezes
20:18nós somos obrigados
20:19a fazer previsões
20:20com 3, 4, 5,
20:22e não é no Brasil não,
20:23porque eu posso
20:24assegurar a você,
20:26e aí eu falo realmente
20:27com 20 anos
20:28de experiência,
20:29que a ciência climática
20:30brasileira
20:31não deixa
20:33a desejar
20:34a nenhuma ciência climática
20:36de qualquer outro país
20:38no mundo.
20:39nós temos
20:40um arcabouço científico
20:41e de recursos humanos
20:44invejável.
20:45Então,
20:46isso aí
20:46não é falta
20:47de capacidade,
20:49é de fato
20:52essa complexidade
20:53desses mecanismos
20:54que fazem com que
20:55a gente não consiga
20:56ter uma precisão maior.
20:58E é assim aqui,
20:59é assim na Inglaterra,
21:01é assim nos Estados Unidos,
21:02é assim na França.
21:03Às vezes nos Estados Unidos
21:04a gente vê até o contrário,
21:06há uma previsão
21:07de um tornado
21:08ou de um furacão
21:09e ele não vem,
21:10não aparece.
21:11É exatamente
21:12por causa
21:12dessa bifurcação
21:14que a gente chama.
21:14De uma hora para outra,
21:16a não linearidade
21:18na linguagem científica
21:20faz com que a gente
21:21erre na previsão
21:22de muito curto prazo,
21:24mas de médio e longo prazo,
21:25não.
21:26Por exemplo,
21:26nós sabemos
21:27que o EUNIN
21:28agora vai influenciar
21:30fortemente
21:31todo o ano
21:32de 2027.
21:34Nós sabemos disso,
21:35não tem como você
21:36fugir disso mais.
21:38Entendeu?
21:38Então assim,
21:39aí a gente consegue prever,
21:40mas de fato,
21:41qual vai ser o dia
21:42que vai começar
21:43a cair
21:44uma chuva torrencial
21:46no litoral
21:47pernambucano,
21:48a gente consegue
21:50com quatro,
21:50cinco dias
21:51de antecedência.
21:52Muito mais do que isso
21:54é difícil.
21:55No mundo todo,
21:56não é no Brasil, não.
21:58Entendi.
21:59Professor,
22:00uns anos atrás
22:01a gente não tinha
22:01no Brasil,
22:02por exemplo,
22:03tornados,
22:03e de uns anos
22:05para cá,
22:06a gente tem tido
22:07sobretudo na região
22:08ali do Rio Grande do Sul,
22:09Santa Catarina,
22:10um pouquinho já no Paraná
22:11também,
22:13ventos fortíssimos
22:14e classificados
22:16mesmo como tornados.
22:17Por que isso
22:18está acontecendo?
22:19Isso está acontecendo
22:21justamente pelo
22:22aquecimento
22:22do Atlântico Sul,
22:24porque o aquecimento
22:25não é só
22:26no Atlântico Tropical,
22:26não,
22:27ele aquece
22:27em todo o oceano,
22:29ele aquece
22:29no Atlântico Norte,
22:31que é uma de regiões
22:32de maior aquecimento,
22:33e aquece
22:33no Atlântico Sul.
22:35Então,
22:35quando você aquece
22:36no Atlântico Sul,
22:37você começa a ter
22:38aquela mesma energia
22:39que eu falei
22:40que a gente tem
22:41na piscina quente
22:42aqui na Fenda Nordeste,
22:43você começa a ter
22:44fonte de energia,
22:46tá certo?
22:47Para que você possa
22:47alimentar
22:48as instabilidades
22:50atmosféricas,
22:51então você fornece
22:52mais energia
22:53para uma região
22:54que antes
22:55você não fornecia,
22:57porque a água
22:58estava mais fria
22:59do oceano.
23:00Mas também não é só
23:01no Atlântico Sul,
23:02então é muito importante
23:02isso.
23:03No Índico
23:04tem acontecido
23:05mais tornado,
23:06no Pacífico Sul
23:07tem acontecido
23:08mais tornado,
23:09enfim,
23:09isso é um fenômeno
23:10também planetário.
23:12O derretimento
23:13das geleiras,
23:14professor,
23:14sobretudo no círculo
23:15polar ártico,
23:17ele tem avançado
23:18de maneira contínua
23:19e intensa.
23:20Quase todo ano
23:21a gente vê reportagens
23:23informando que a situação
23:24esse ano está pior
23:25do que no ano anterior,
23:27o degelo
23:28das geleiras
23:29foi muito maior
23:30do que o esperado
23:31até.
23:33Isso também parece
23:35não ter retorno,
23:36é isso mesmo?
23:37É outro,
23:38assim como a gente
23:39diz que a situação
23:39na Amazônia
23:40pode chegar a um ponto
23:42de não retorno,
23:43no círculo polar ártico
23:45a gente também pode chegar
23:46a um ponto
23:46de não retorno
23:47e já chegou?
23:48Ah, Fernando,
23:48não tenho a menor dúvida,
23:50não tenho a menor dúvida,
23:52a aceleração
23:52do derretimento
23:53das calotas polares
23:55e da Groenlândia,
23:56por exemplo,
23:57do Ártico,
23:59está muito acelerada
24:00e está acelerando
24:01cada vez mais.
24:02Isso é que é o pior.
24:03O que significa?
24:04Significa que aquilo
24:06deve influenciar
24:07em todo o transporte
24:09também de calor
24:10ao longo dos oceanos,
24:11porque nós temos
24:12uma grande circulação,
24:14a circulação
24:15de revolvimento
24:16meridional,
24:17então fala-se,
24:18por exemplo,
24:19da corrente do Golfo
24:20ficar mais lenta,
24:21fala-se até em colapso
24:23da circulação oceânica,
24:24mas tem outra consequência
24:26que é muito grave
24:27e aí eu quero aproveitar
24:28para falar sobre ela,
24:30que tem uma influência
24:30particular
24:31na nossa cidade
24:32onde nós vivemos,
24:34que é uma cidade
24:34que tem apenas
24:35quatro metros
24:36acima do nível médio
24:37do mar,
24:38então você imagina
24:39Recife
24:40com quatro metros
24:41só quando você vai
24:42e passa ali pela Avenida Norte
24:44que olha
24:45por aqueles morros lá,
24:47enormes aqueles morros ali,
24:49você fica imaginando
24:50que para Recife
24:51ficar a quatro metros
24:52apenas acima
24:53do nível do mar,
24:54tem que ter muito buraco,
24:56tem que ter muito cavado,
24:57tem que ter...
24:58É lógico,
24:59nós estamos
24:59em um estuário,
25:01em vários estuários,
25:02no delta,
25:03aí onde nasceu Recife.
25:05E o que a gente
25:07associa,
25:07que a gente observa,
25:09que é também
25:09veio uma virada de chave
25:10na relação
25:11com o aumento
25:12do nível do mar
25:13é que historicamente,
25:15desde que nós medimos
25:16o aumento do nível do mar
25:17que está acelerando
25:18como eu falei,
25:19dois terços
25:20praticamente desse aumento
25:22vinha do derretimento
25:23das geleiras
25:23e um terço
25:24vinha pelo aquecimento
25:26do oceano.
25:27Porque quando você
25:28aquece uma água
25:29ela expande,
25:30se você botar
25:31uma panela lá
25:32cheia d'água
25:32antes de começar a evaporar
25:34ela vai transbordar
25:35porque a água
25:36expande com o calor.
25:37E o que nós estamos
25:38observando
25:39de 2024
25:40para cá,
25:41ou seja,
25:41muito recente,
25:43é que essa
25:44ordem
25:44inverteu.
25:46Ou seja,
25:47nós temos
25:47dois terços
25:48do aumento
25:48do nível do mar
25:49praticamente associado
25:50ao aumento
25:51da temperatura
25:52do oceano
25:53e apenas um terço
25:54associado
25:55às geleiras,
25:56mesmo com a aceleração
25:57do derretimento
25:58das geleiras.
25:59Ou seja,
25:59é uma configuração
26:00que é particularmente
26:01complicada para a gente
26:02que está nos trópicos,
26:04uma região
26:05em que aquece muito
26:06e também
26:08com baixo nível
26:10médio do mar
26:10como a região
26:11metropolitana
26:12de Recife.
26:13Muito bem,
26:14professor,
26:14a gente está chegando
26:15no final já
26:16da entrevista,
26:16eu queria terminar
26:18com qual recado,
26:19perguntando para o senhor,
26:21qual recado o senhor
26:21daria para as pessoas
26:23que ainda não se preocupam
26:24tanto com essas mudanças
26:26climáticas que a gente
26:27tem visto?
26:28Veja,
26:28assim,
26:29eu primeiro gostaria
26:30de dizer que a população
26:31brasileira,
26:32Brasil como um todo,
26:33é um dos países
26:35no mundo em que
26:36a sua população
26:37mais acredita
26:38na mudança do clima.
26:40Boa notícia.
26:41É uma excelente notícia,
26:42isso é muito importante,
26:43porque a transformação
26:45tem que ser de dentro
26:46para fora,
26:46então nós temos
26:47essa virtude,
26:49mais de 80%
26:50da população brasileira
26:51acredita de fato
26:52que nós temos
26:53um aumento
26:54dos eventos extremos,
26:56tudo ligado
26:56à mudança climática.
26:58Mas eu acho
26:59que a gente precisa
26:59avançar mais,
27:00nós temos avançado,
27:01nós acabamos de
27:02refazer um plano geral
27:05de a política nacional
27:07de mudança do clima,
27:08o plano clima,
27:09onde nós elencamos
27:1416 tópicos
27:15de mitigação
27:17e 8 tópicos
27:19de adaptação
27:20para que a gente
27:20possa de fato
27:21encerrar com essa discussão
27:23e tomar ações.
27:24Então,
27:25educação.
27:26Olha,
27:26educação,
27:27Fernando,
27:28é transformadora.
27:29É a saída.
27:30É a saída.
27:31Então,
27:31conversar muito
27:32sobre isso,
27:33inserir nos currículos
27:37da nossa meninada,
27:39o pessoal do ensino médio,
27:42do ensino fundamental,
27:43que já está acontecendo,
27:45diga-se de passagem.
27:46O Brasil também é virtuoso
27:47nesse sentido,
27:49muito recentemente,
27:50mas está acontecendo.
27:51E promover
27:53e divulgar
27:54a ciência,
27:55e promover
27:56e divulgar
27:56a conscientização
27:58ainda mais
27:59do que nós precisamos
28:01efetivamente fazer
28:02para nos adaptarmos
28:04a esse novo momento
28:04que nós vamos passar.
28:05Tá certo.
28:06Professor Moacir Araújo,
28:08muito obrigado
28:08pela entrevista.
28:09Eu que agradeço,
28:10Fernando,
28:11agradeço a TV Tribuna.
28:12É um grande prazer
28:13estar aqui
28:13e falar desse tema,
28:14que para mim
28:15é particularmente interessante,
28:17eu acho que já deu
28:17para perceber,
28:18e é de alcance
28:20para todos,
28:21para o Brasil,
28:22para o planeta,
28:22e para Recife,
28:23e para Pernambuco.
28:25Enfim,
28:25estou à disposição
28:26sempre para vir conversar.
28:27Muito bem.
28:28Para você que acompanhou
28:29até aqui também,
28:30obrigado pela audiência
28:31e companhia,
28:32a gente volta
28:33na semana que vem.

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