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  • há 17 horas
João Pinheiro Neto foi presidente da SUPRA durante o governo João Goulart. Vindo de uma família ligada ao PSD de JK, se aproxima do trabalhismo de Jango. Atuou na reforma agrária, mas foi preso pela ditadura militar. Um olhar intimista sobre um período decisivo da História do Brasil a partir do ponto de vista de uma figura que esteve presente nos bastidores do poder.
Transcrição
00:00:04E aí
00:00:34E aí
00:01:27E aí
00:01:29E aí
00:01:32E aí
00:01:47E aí
00:01:49E aí
00:01:52E aí
00:02:01E aí
00:02:31Então a gente viajava
00:02:33Pra casa de amigos e tal
00:02:35Eu viajava
00:02:36E aí
00:02:37A gente chegava
00:02:37Um certo momento
00:02:38Os pais queriam saber
00:02:39Quem era quem ali
00:02:40Dos convidados
00:02:42Dos filhos
00:02:42E você
00:02:43É filho de quem?
00:02:45Aí eu
00:02:45Ah, todos nós
00:02:46Ah, filho de falam de tal
00:02:49E você?
00:02:51Ah, gosto muito
00:02:53E você?
00:02:53Ah, gosto muito, excelente
00:02:53Seu pai é superinteligente
00:02:55E você?
00:02:57Eu falava o João Pinheiro Neto
00:02:58E aí
00:03:01gente. Vamos? Vamos indo? Eu sabia que eles conheciam, mas não queriam falar, daí a
00:03:14busca, né? Daí foi a busca para entender quem é esse pai.
00:03:31Então, vamos lá.
00:04:01Eu acho uma das histórias mais interessantes de famílias políticas, mineiras pelo menos.
00:04:10No caso, a família Pinheiro, ela tem um ponto interessante, que é o fato de que João
00:04:18Pinheiro, que é, vamos dizer, o primeiro e o grande nome dessa família, o nome referencial
00:04:25da família, ele é alguém que entra na política com a república. Ele vai ser entendido como um referencial da
00:04:38nossa política republicana, que tem ideias progressistas, ideias de inclusão da população mais pobre e, sobretudo, de inclusão pela educação
00:04:52e pelo trabalho.
00:04:54João Pinheiro, meu avô, foi um republicano histórico, foi o homem que ajudou a depor a monarquia, filho de imigrante
00:05:01italiano.
00:05:03Com uma conversa, com um papo, vamos dizer assim, que levaria muita gente a considerar subvencivo até hoje.
00:05:10Ele pensava na terra, ele pensava na terra, ele pensava em educação, ele pensava em assentar o camponês, ele pensava
00:05:18em escola.
00:05:20Isso não era o que se pensava, era um país agrário, acabado de sair da monarquia, latifundiário dos barões.
00:05:31E ele vem querendo mexer com isso.
00:05:35Primeiro, ele é um constituinte, ele vai participar da Assembleia Nacional Constituinte da nossa primeira república de 1890.
00:05:44E ele também vai se tornar governador, presidente de Estado, se dizia assim, presidente de Estado de Minas, muito jovem,
00:05:56ele não tinha 30 anos e ele é governador do Estado.
00:05:59Muito provavelmente, se ele não tivesse morrido, tão cedo, ele morre com 47 anos, ele teria sido um presidente da
00:06:07república.
00:06:08Ele tinha tudo para ser um presidente da república, inclusive por ser um mineiro, né?
00:06:13Então, ele muito provavelmente teria sido um presidente da república.
00:06:17Ele inaugura a tradição de uma nova família que vai perdurar durante muito tempo mesmo.
00:06:24E aí eu gostaria de frisar o papel da dona Helena, né?
00:06:30Da esposa do João Pinheiro.
00:06:32Ela tanto fazia um trabalho de guardiã de memória junto aos filhos, no sentido de que eles conhecessem esse pai,
00:06:45né?
00:06:45Que, na verdade, tinha se ausentado da família muito rapidamente, conhecessem as ideias do pai
00:06:52e, certamente, continuassem o trabalho político do pai.
00:06:58Pelo menos três dos seus filhos e um dos seus netos vão fazer política.
00:07:05Israel Pinheiro vai ter uma carreira política muito mais longa do que o João Pinheiro, filho,
00:07:11mas este fará também política e também é um empresário.
00:07:18Portanto, não admira que João Pinheiro Neto, ainda jovem, ele tenha se vinculado à política mineira.
00:07:28Como é que o João Pinheiro Neto entrou para a política?
00:07:32Ele não entrou, ele já nasceu entrado.
00:07:36O meu pai era o neto do João Pinheiro.
00:07:38Ali já vem toda a carga da continuidade, de ter que manter aquilo, de manter os mesmos ideais, a carreira
00:07:49política.
00:07:50Então, quer dizer, ele nasceu já nesse meio.
00:07:53E eu que já tinha o mesmo nome e era o mais velho lá dos meus irmãos, realmente me preocupei
00:07:59em cultivar as ideias dele.
00:08:01E tenho consciência de que realmente a preocupação com o problema econômico, a intervenção do Estado,
00:08:09a luta contra as desigualdades, os desajustes econômicos, regionais, sociais, etc.
00:08:14Tudo isso que é a ideia dele, me foram transmitidos através dele e através do meu pai,
00:08:20pelos seus livros, seus escritos e seus discursos.
00:08:22O João Pinheiro Neto era um aristocrata.
00:08:26Ele vem de uma linhagem de grandes homens públicos de Minas Gerais.
00:08:31João Pinheiro Neto fez parte, muito jovem, de um escritório de advocacia, referência no Rio de Janeiro,
00:08:39quando foi atraído para a política, que estava no seu DNA.
00:08:43Primeiro ele foi secretário do Juscelino Kubitschek, quando o Juscelino foi presidente da República.
00:08:48E depois, aí ele entrou na política e não quis mais sair.
00:08:54Foi para o governo João Goulart, na qual ele foi ministro do trabalho e foi superintendente da reforma agrária.
00:09:11No primeiro momento que ele está formado, logo após ele estar formado,
00:09:15ele recebe um telefonema do pai e fala
00:09:19Olha, você agora vai procurar o Juscelino Kubitschek, ele é o prefeito de Belo Horizonte
00:09:29e você vai começar a trabalhar com ele.
00:09:32Aí o meu pai falou
00:09:34Ok, perfeitamente.
00:09:36Você procura o chefe de gabinete dele, fulano de tal.
00:09:40Passou uma semana, o dia seguinte, eu não sei,
00:09:43ele foi lá e procurou.
00:09:45Aí ele falou
00:09:45Ah, que ótimo!
00:09:47Filho do João Pinheiro, neto do João Pinheiro, gostamos muito da sua família e tal.
00:09:53Vamos começar a trabalhar aqui, então.
00:09:54Nossa primeira função é escrever discurso para a dona Sara,
00:09:59inauguração de lojas, inauguração de projetos sociais
00:10:05e vai responder a correspondência do prefeito, do Juscelino.
00:10:11Juscelino Kubitschek, um grande político mineiro que tem a ver com o João Pinheiro, o avô,
00:10:18porque também foi um homem vindo de uma família pobre, também que ascendeu pela educação,
00:10:27no caso de João Pinheiro, pelo direito, no caso de Juscelino Kubitschek, pela medicina.
00:10:34Mas, de qualquer forma, a educação foi o que enobreceu esses homens.
00:10:49Juscelino Kubitschek, um grande político mineiro que tem a ver com o Juscelino.
00:10:50Juscelino vem para o Rio de Janeiro como presidente da República.
00:10:53E meu pai vem junto e continua com ele.
00:10:58Meu pai perdeu o pai muito cedo também.
00:11:02O meu avô, ele morreu e tinha 56 anos.
00:11:06Isso fez muita falta para ele, porque ainda mais alguém que estava querendo alçar a carreira política, né?
00:11:14Perdeu o pai, que foi o grande incentivador dessa carreira, mas ele já estava ali com o Juscelino, né?
00:11:23E o Juscelino passou a ser uma espécie de pai para ele.
00:11:42Era uma pessoa profundamente transparente.
00:11:46Ele era transparente nas coisas dele.
00:11:48João não escondia nada.
00:11:51E, às vezes, até ele pagou um certo preço, politicamente falando,
00:11:55por ser muito sincero.
00:11:57Era o grande defeito dele.
00:11:59Era o único que ele tinha.
00:12:02Era gostar da verdade.
00:12:04Ele dizia que não mentia, que ele não conseguia mentir,
00:12:07que ele só sabia dizer a verdade.
00:12:09Ele certa feita, no almoço, a gente conversando,
00:12:12sobre o poder, sobre o exercício do poder,
00:12:15sobre estar no poder.
00:12:17Ele saiu-se com essa para mim.
00:12:20Então, Vani, preste atenção.
00:12:21O poder é altamente afrodisíaco.
00:12:25E, com isso, ele quis dizer exatamente, quis comunicar,
00:12:29que a atração do poder, às vezes, faz da cabeça das pessoas, dos políticos,
00:12:35algo que pode não ser muito aceitável na convivência social comum.
00:12:42Porque ele se encanta com aquilo.
00:12:45Ele, às vezes, se esquece que a função dele é de ser um intermediário
00:12:50entre o poder e o povo.
00:12:52E o João criticava muito isso.
00:13:02Ele era uma pessoa que não era autoritária em relação às ideias.
00:13:07Ele tinha muito respeito, no caso, conosco, das coisas que a gente trazia.
00:13:14Imagina que éramos jovens de 18, 20, 22 anos e eu estudando direito e me aprofundando no direito internacional.
00:13:26Meu pai conversava comigo como se eu fosse a secretária-geral da ONU.
00:13:32Era um respeito tão grande por uma menina de 20 anos e um interesse tão grande pelo que eu trazia.
00:13:39E ele mudava de ideia, que eu achava isso muito interessante, a possibilidade, o amor que ele tinha pela verdade.
00:13:48E eu acho que se ele conseguiu passar para nós três, nós três filhos,
00:13:53se é uma marca que a gente tem de João Pinheiro, é essa questão com a verdade.
00:13:59Mas era de uma forma em que ele abria a mão também dessa verdade em um dado momento,
00:14:06que ele percebia que ele não estava certo, que as coisas haviam mudado.
00:14:11E abria a mão no nível de uma conversa com a gente que tinha 19, 20 anos.
00:14:19Ele considerava a política um instrumento para chegar exatamente à pacificação dos conflitos sociais,
00:14:30à pacificação das diferenças sociais, das desigualdades.
00:14:34Quer dizer, ele acreditava nisso.
00:14:36Ele sempre foi um homem que lutou por isso, lutou pela distribuição de renda,
00:14:42pela diminuição da miséria e da pobreza.
00:14:47Ele sempre se empenhou nisso e participou do poder, do poder maior como ministro do Estado,
00:14:54em que ele pôde exercitar essa vocação dele em termos de ajuda à população,
00:15:03de ajuda às pessoas na distribuição de renda, etc.
00:15:20Do meu momento de empolgação com a política e da fase de redemocratização e as diretas já,
00:15:28eu já via o meu pai numa fase já meio de desilusão.
00:15:33A gente não tinha conversas sobre isso, sobre se eu iria seguir a política ou não ia seguir a política,
00:15:39por mais que ele observasse que eu estava num caminho.
00:15:42Ele sabia muito bem quem eram os filhos dele e as aptidões de cada um dos filhos dele.
00:15:48Ele talvez soubesse que, sendo muito parecida com ele, eu não daria para a política,
00:15:55porque eu também era uma pessoa da verdade, uma pessoa muito impetuosa,
00:16:01uma pessoa que talvez, como ele, a política partidária não fosse o caminho para mim.
00:16:08Eu segui uma vida acadêmica e essa vida acadêmica que resultou na defesa da minha tese,
00:16:17no dia da defesa da minha tese, eu muito jovem, eu fiz logo emendada da faculdade,
00:16:23e me lembro muito bem, eu sozinha, ali defendendo naquela banca com Celso Melo de Albuquerque,
00:16:30professores muito importantes na área do direito internacional,
00:16:35eu vejo ali, no meio da minha fala, um burburinho, com as pessoas comentando,
00:16:42que isso, não sei o que, e tal.
00:16:44Daqui a pouco abre a porta, entra João Pinheiro Neto, com aquele seu terno sempre muito elegante,
00:16:51aquele homem quase de dois metros de altura, e eu, ah, meu pai, meu pai chegou.
00:16:57E ele, então, atravessa, tentando não aparecer, mas todo mundo tinha visto que ele entrou ali,
00:17:04e senta humildemente naquele canto, lá no fim da cadeira, mas com um olhar de orgulho para mim.
00:17:15Ele tinha amigos intelectuais, ele tinha amigos dos livros,
00:17:19amigos em que ele discutia a política, e que não necessariamente precisavam ser ou de esquerda,
00:17:26ou de direita, mas eram pessoas queridas, e pessoas da rádio.
00:17:31O programa da Daisy Lucid era um programa que varava a tarde da Rádio Nacional,
00:17:38no tempo da grande Rádio Nacional, e ali nós debatíamos os assuntos do dia,
00:17:44e divergíamos muito na rádio, ah, estávamos ali nos degladiando,
00:17:50mas com essa ligação fraterna, nós corríamos em linhas paralelas,
00:17:57com o mesmo objetivo, grandeza de Minas, a qualidade de vida do povo brasileiro,
00:18:04a liberdade e a democracia.
00:18:07Divergimos em relação, digamos, à opinião e ao conceito sobre algumas pessoas,
00:18:13mas nunca sobre as ideias.
00:18:14Ele era um homem veemente, mas um homem muito razoável.
00:18:19E o bom humor.
00:18:20O João Pinheiro era um homem de boa conversa, de bom papo, ele era uma pessoa leve.
00:18:27Era um otimista, quer dizer, eu sou otimista,
00:18:30acredito que o Brasil vai melhorar, apesar de todos os pesares.
00:18:35Mas ele era de uma inteligência fora do comum.
00:18:38E tinha o dom da palavra, ele sabia falar bem.
00:18:44Escrever também, que são duas coisas difíceis de você saber falar e escrever,
00:18:48e ele fazer as duas coisas maravilhosamente bem.
00:19:07A Leda era muito interessante, porque ela também era uma pessoa muito querida,
00:19:12muito bonita, muito inteligente também.
00:19:25Eles formavam uma dupla, assim, muito interessante, muito simpática,
00:19:30muito sempre presente.
00:19:32Então, a minha admiração por João Pinheiro era uma coisa, assim, muito forte,
00:19:38porque ele foi o grande amigo do Jango.
00:19:45Ele era muito doce, muito carinhoso, amigo mesmo, sabe?
00:19:51Sempre muito próximo da gente.
00:19:54Então, ele realmente foi, assim, próximo da família.
00:19:57E o Jango sempre tinha muita admiração por ele.
00:20:01Com o Jango, ele teve todas essas oportunidades,
00:20:03que era um homem honesto, direito, que também queria um Brasil melhor.
00:20:28Ele se juntou a alguns advogados recém-formados, promissores, vamos dizer assim.
00:20:37Eles vieram a ser grandes figuras depois que esse escritório virou uma coisa muito importante.
00:20:43Mas ele saiu em seguida desse escritório.
00:20:47Ele queria ter advogado.
00:20:49Tinha um nome dele no quadro de advogados.
00:20:52João Pinheiro Neto, Nelson Mota e tantas outras figuras importantíssimas.
00:20:59E aí ele militou um pouco na advocacia na área trabalhista.
00:21:04Ele fez um concurso para ser procurador da Justiça do Trabalho.
00:21:11E foi aprovado e incentivado por um professor dele, que era o Hermes Lima.
00:21:17E o Hermes Lima passou a ser o ministro do Trabalho do Jango.
00:21:23No primeiro governo parlamentarista do Jango.
00:21:35O Hermes Lima foi meu professor na Faculdade Nacional de Direito
00:21:40antes de eu me transferir para Minas.
00:21:43Chamou-me ao ministério e, com carinhosa generosidade,
00:21:48declarou-se leitor assíduo da minha coluna no jornal Última Hora
00:21:52e também ouvinte e habitual das mesas redondas do Gilson Amado na TV Continental.
00:21:59Gostaria que eu aceitasse o convite para assumir o cargo de subsecretário do Trabalho
00:22:04e da Previdência Social.
00:22:07Estávamos no regime parlamentarista e eu poderia vir a ser seu substituto a qualquer momento.
00:22:13Confidenciou-me o saudoso mestre, humanista, homem de letras, jurista,
00:22:19não ter nenhuma intenção de permanecer muito tempo naquele cargo,
00:22:24para o qual dizia não ter a menor vocação.
00:22:28E eu, que mal tinha 30 anos,
00:22:31parecia feito sob medida para enfrentar
00:22:35cansativas personagens montadas no cavalo do efêmero,
00:22:39como filosofava Hermes Lima em frase que nunca esqueci.
00:22:44Em seguida, o Hermes Lima é chamado para ser o primeiro ministro do governo parlamentarista.
00:22:52E o meu pai é promovido a ministro do Jango,
00:22:58ministro do trabalho.
00:22:59Era um momento super turbulento.
00:23:04Economia, greves, sindicatos, sindicatos tinham vez,
00:23:09sindicatos eram independentes, né?
00:23:12E ele pegou isso tudo.
00:23:16Consegui estabelecer uma grande ligação com as lideranças sindicais,
00:23:21organizamos o CGT,
00:23:23organizamos a CONTAG,
00:23:26que era a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura,
00:23:28fiz-me amigo dessa gente,
00:23:30gente muito boa,
00:23:32também muito sem, vamos dizer,
00:23:34bom senso,
00:23:35que eu também não tinha muito na época,
00:23:38sem sentido da realidade,
00:23:40fazia um greve à torto à direita,
00:23:42e o Jango me dizia,
00:23:43tu vai lá, diga a essa gente para não me pressionar demais.
00:23:47De repente estola aí uma ditadura militar,
00:23:49não vou poder passar nem na rua.
00:23:54O LAR estava numa situação muito difícil,
00:23:57porque o país estava com as contas completamente descontroladas,
00:24:00os gastos públicos descontrolados,
00:24:03a inflação numa espiral ascendente,
00:24:06o que levava a greves de trabalhadores
00:24:08para a reposição dessas perdas salariais,
00:24:11havia desabastecimento de mercadorias,
00:24:13o que irritava a população.
00:24:15Então, ele convoca Celso Furtado,
00:24:20o ministro de Travordidade do Planejamento,
00:24:22e o ministro da Fazenda, Santiago Dantas.
00:24:25E eles, então, elaboram um plano de estabilização econômica,
00:24:29que é o plano trianal.
00:24:31Esse plano tinha duas fases.
00:24:33Uma primeira fase, uma fase ortodoxa,
00:24:36que era para controlar a economia,
00:24:39tomar as rédeas da economia.
00:24:41E a segunda fase,
00:24:42que era, então, levar adiante as reformas de base,
00:24:45entre elas, a reforma agrária.
00:24:51Meu pai, ele sabia que era um governo de esquerda.
00:24:56Isso eu tenho certeza que ele sabia.
00:24:58A saída dele do Ministério do Trabalho diz muito sobre ele.
00:25:02Fala que é contra o acordo
00:25:06que está sendo negociado com o Brasil e a FMI.
00:25:13Aparecia a televisão,
00:25:15programa Gilson Amar, TV Continental,
00:25:17e, na qualidade de ministro do Trabalho,
00:25:20afirmei que a presença aqui
00:25:22da missão do Fundo Monetário Internacional
00:25:25era lesiva aos interesses do Brasil.
00:25:28Que, enquanto Roberto Campos fosse
00:25:30embaixador do Jango nos Estados Unidos,
00:25:33não haveria estabilidade social no Brasil.
00:25:35Porque o salário no Brasil não é causa de inflação.
00:25:38Nunca foi.
00:25:40Evidentemente, o governo estava negociando
00:25:42com o Fundo Monetário,
00:25:43o primeiro-ministro Hermes Lima,
00:25:45governo parlamentarista,
00:25:46eu fui demitido.
00:25:49Depois eu entendi a minha demissão.
00:25:51De início, não,
00:25:52porque eu achava que estava certo.
00:25:54Mas o Samuel Vaila, dono da Última Hora,
00:25:56meu amigo, com aquela sabedoria extraordinária,
00:25:58me dizia,
00:25:59João, política, negócio de estar certo,
00:26:01não vale muito não, hein?
00:26:03Não se pode é perder.
00:26:04Você perdeu.
00:26:06Você e o Jango.
00:26:06Você acha que o Jango está satisfeito
00:26:07com esse FMI aqui?
00:26:09Não, mas vocês perderam.
00:26:09Calma, calma.
00:26:11Está certo?
00:26:12Em política é muito relativo.
00:26:19João Goulart,
00:26:20só se torna realmente
00:26:21o presidente da República
00:26:22dos poderes presidencialistas
00:26:25em janeiro de 1963.
00:26:27Então, logo em janeiro de 1963,
00:26:29o plano trienal é levado a dientes.
00:26:45Vitorioso na missão
00:26:46que o levou aos Estados Unidos
00:26:48o ministro Santiago Dantas.
00:26:50Valiosos recursos econômicos
00:26:52foram obtidos
00:26:53num clima de alto entendimento
00:26:54em que se fizeram respeitar
00:26:56mais uma vez
00:26:57as diretrizes
00:26:58da independência política.
00:27:07Graças à sua importante atuação,
00:27:10inspirada no plano
00:27:11de nossa recuperação econômica,
00:27:13revitaliza-se o conceito internacional
00:27:15de confiança
00:27:16no governo João Goulart.
00:27:17As linhas de crédito
00:27:19do Brasil nos Estados Unidos
00:27:20serão dinamizadas
00:27:22sem que se comprometam
00:27:23os princípios básicos
00:27:25de nossa soberania.
00:27:27Mas ele encontra problemas.
00:27:29Ele encontra apoios
00:27:30e encontra problemas.
00:27:32Problemas é que o movimento sindical
00:27:35e as esquerdas
00:27:37tornaram-se críticos duros
00:27:39do plano trienal.
00:27:40Era um plano pró-imperialista,
00:27:43contra os trabalhadores.
00:27:46Na tribuna de honra,
00:27:48o presidente Kennedy
00:27:49saudou o presidente do Brasil
00:27:50expressando-lhe as boas-vindas
00:27:52do povo e governo
00:27:53de seu país.
00:27:57Goulart retribuiu
00:27:58a gentis palavras
00:27:59asseverando desde este instante
00:28:01que o Brasil
00:28:02não desejava fugir
00:28:03às suas responsabilidades
00:28:05para com os seus amigos naturais.
00:28:07Os empresários se dividiram.
00:28:09A Federação de Indústrias
00:28:11do Estado da Guanabara
00:28:12e as associações de comércio
00:28:14foram contra o plano trienal.
00:28:17Defendiam uma política liberal
00:28:20ortodoxa, com livre-cambismo,
00:28:22coisas assim.
00:28:23Mas o Goulart encontrou apoios.
00:28:25Encontrou apoios em São Paulo,
00:28:27com a Federação das Indústrias
00:28:29do Estado de São Paulo, a Fiesp,
00:28:31e com os industriais do Rio do Sul,
00:28:33a Federação de Indústrias do Estado
00:28:35do Rio do Sul e da imprensa.
00:28:36A imprensa apoiou o plano trienal.
00:28:39É um equívoco acreditar
00:28:41que a imprensa já de início
00:28:42foi contra o Goulart.
00:28:44A imprensa apoiou claramente
00:28:46o plano trienal,
00:28:46com exceção de dois jornais,
00:28:48o Estado de São Paulo
00:28:50e o Tribunal da Imprensa.
00:28:51Esses dois jornais
00:28:52sempre foram contra
00:28:53tudo o que o Goulart fazia.
00:28:54Três meses depois,
00:28:56quando os cortes de créditos
00:28:58e o controle de preços,
00:29:00porque no plano trienal
00:29:01constava também,
00:29:02em uma das medidas,
00:29:03o controle dos preços.
00:29:04Quando isso atinge a indústria,
00:29:08aí os industriais
00:29:09passam para a oposição.
00:29:10O Goulart ficou numa situação
00:29:11muito difícil,
00:29:12depois de três meses,
00:29:13porque ele não tinha apoio
00:29:14nem do movimento sindical
00:29:16e nem dos empresários.
00:29:19Então, o Goulart,
00:29:21surpreendentemente,
00:29:22ele abandona o plano trienal.
00:29:24Ele chega a dizer
00:29:25que iria reformular o plano,
00:29:27mas, na verdade,
00:29:28ele abandona o plano trienal.
00:29:29E é algo surpreendente,
00:29:31porque o plano trienal
00:29:32era o plano de governo dele,
00:29:34ele não tinha outro plano de governo.
00:29:36Então, o que ele faz?
00:29:37Ele volta-se, então,
00:29:39para as reformas,
00:29:40para a reforma agrária.
00:29:41A admiração entre o Jango
00:29:43e o meu pai continuou.
00:29:46Só que, naquele momento,
00:29:47houve um afastamento.
00:29:49E um afastamento
00:29:50que era importante para o governo.
00:29:52E meu pai entendeu.
00:29:55Mas, passados sete meses,
00:29:58meu pai recebe um telefonema do Jango
00:30:00e pede para o Jango ir ao Laranjeiras.
00:30:04E aí, o meu pai foi.
00:30:06E aí, o Jango falou,
00:30:07ó, vou precisar de você de novo.
00:30:11Eu estou precisando de alguém
00:30:12para tocar a reforma agrária.
00:30:24O Jango, lá, estava procurando alguém
00:30:26para fazer a reforma agrária.
00:30:29E ele não encontrava ninguém
00:30:31que iria com essa bomba, né?
00:30:33Era uma bomba a reforma agrária.
00:30:35E o único corajoso
00:30:37que tinha coragem para tudo
00:30:39e que aceitou
00:30:41foi o João Pinheiro.
00:30:43Todo mundo falava,
00:30:44João, você está louco.
00:30:46Vai fazer reforma agrária nesse Brasil?
00:30:48Eu disse, vou, vou fazer sim.
00:30:50O presidente quer, eu vou fazer.
00:30:51Logo, reforma agrária.
00:30:53Você leu o príncipe de Maquiavel?
00:30:56Se você lê para mim,
00:30:57quando eu fui comunicar ele
00:30:58que ia ser presidente da reforma agrária.
00:31:00O que?
00:31:02O que ele disse sobre reforma da terra?
00:31:04Terra.
00:31:05Não me lembra, não, presidente?
00:31:08É leitura antiga, no ginásio.
00:31:11Então, eu vou lembrar você.
00:31:13Mexa com a mulher do cidadão.
00:31:15Mexa com a honra do cidadão.
00:31:17Mexa com o dinheiro do cidadão.
00:31:19Mas não mexa com a propriedade nem com a terra.
00:31:22Mas como eu não sou de chatear ninguém,
00:31:23vai com Deus.
00:31:26Getúlio chegaram e trouxeram consigo a criação do Ministério do Trabalho.
00:31:34Com o Ministério do Trabalho, a legislação relativa aos direitos sociais na cidade.
00:31:40Mas chega João Lula e passa a perceber o quanto era, ao mesmo tempo, um vazio não termos os direitos
00:31:50sociais no campo.
00:31:52Ele que convivera no campo por si próprio, pela sua própria fazenda e por tudo que ele via da própria
00:31:57história do Rio Grande,
00:31:59os direitos sociais no campo eram nada.
00:32:03Eram nada.
00:32:04Os homens no campo eram explorados e superexplorados.
00:32:08Era preciso criar, ao mesmo tempo que leis sociais,
00:32:12para que os homens no campo tivessem direitos elementares,
00:32:14elementares que o momento da cidade já tinha,
00:32:17era importante ter a área, portanto, social assegurada.
00:32:21Mas como tê-la, se não a propriedade da terra estava latifundiariamente assegurada
00:32:27na mão das minorias ricas?
00:32:29Não era uma solução.
00:32:31Portanto, era importante passarmos a discutir o acesso à terra.
00:32:35E o acesso à terra passou a chamar-se a reforma agrária.
00:32:38A ideia do homem do campo, a ideia do homem da terra,
00:32:42o descompasso na vida de todos esses passava a haver a expectativa de poder ter terra
00:32:47para poder cada um ter o seu próprio chão onde plantasse, criasse, vivesse.
00:32:55É nesse rebojo que eu coloco João Goulart como um fato excepcional na nossa história.
00:33:00Ele, de imediato, de uma maneira paradoxal, ele, proprietário de terras,
00:33:07passa a sustentar a necessidade da reforma agrária como uma das bandeiras fundamentais
00:33:12do seu governo.
00:33:13Em 1962, já tem uma portaria do Ministério do Trabalho
00:33:17que autoriza a sindicalização dos trabalhadores rurais.
00:33:23Em 1963, é aprovado o Estatuto do Trabalhador Rural.
00:33:27Então, você começa a ter um conjunto de medidas estatais nessa direção.
00:33:50Quem contempla esse quadro comum no interior do Brasil,
00:33:54sente logo a necessidade de reformular a política agrária do país.
00:33:59Há dois aspectos que merecem ser postos em evidência.
00:34:02O primeiro deles é a necessidade de salvar as novas gerações que vivem da terra
00:34:08e o segundo consiste em estancar o processo de depauperamento da agricultura e da pecuária,
00:34:14bases da economia do Brasil, que em 30 anos terá sua população duplicada.
00:34:33Aqui, estes lavradores do município de Campos, Estado do Rio,
00:34:37receberam seus lotes de terra e vão ter também a necessária assistência técnica para cultivá-la.
00:34:43É o que se espera que ocorra em outras áreas do país
00:34:47quando o governo federal dispuser de meios para realizar a reforma agrária.
00:34:55A reforma agrária, ela não era algo desconhecido e nem mesmo tão rejeitado
00:35:04como às vezes se pensa pela sociedade brasileira.
00:35:07A gente tem pesquisas realizadas por institutos da época, do IBOP,
00:35:13que mostram que grande parte da sociedade brasileira era a favor da reforma agrária.
00:35:18Considerava que era preciso fazer uma transformação do regime de propriedade no campo
00:35:24na medida em que era muito grande a concentração dessa propriedade
00:35:28e que os homens do campo, camponeses e trabalhadores que viviam de várias outras formas,
00:35:38parcerias, etc., eram homens que viviam em estado de pobreza muito grande
00:35:44e, portanto, em estado de exploração de trabalho igualmente muito grande.
00:35:48Então, não era essa oposição à reforma agrária,
00:35:53não era oposição a alguma coisa que a sociedade recusava
00:35:59e muito menos que recusava terminantemente.
00:36:02O que era a agricultura brasileira?
00:36:03Eram fazendas que produziam cana-de-açúcar, algodão,
00:36:07que eram produtos que vinham da colônia,
00:36:09ou então café para exportação, que eram produtos do século XIX
00:36:14e tudo produzido, como era na colônia no século XIX,
00:36:17com pá, inchada, peneira, com exploração do camponês,
00:36:22que nem salário recebia.
00:36:25Ou então existiam os latifúndios improdutivos,
00:36:29ou com pouquíssima produção,
00:36:31ou um minifúndio que não alimentava sequer a família que ali vivia.
00:36:36A modernização da agricultura articulou muito rapidamente
00:36:40com o tema da reforma agrária.
00:36:41Então, enquanto as organizações camponesas estavam falando
00:36:44em distribuição de terras,
00:36:46as entidades empresariais estavam falando em reforma agrária
00:36:51como modernização do campo.
00:36:53Então, eles dizem, se o campo não for modernizado,
00:36:55se as condições do produtor para modernizar o campo
00:37:00não forem melhoradas,
00:37:01a situação de miséria, de pobreza rural vai persistir,
00:37:05tanto para o proprietário como para o pequeno produtor.
00:37:07A reforma agrária não era tema tabu,
00:37:10era algo necessário.
00:37:11A questão não era fazer ou não fazer a reforma agrária.
00:37:14A questão era como fazer a reforma agrária.
00:37:18Era isso que dividia.
00:37:20Ou seja, vai ser feita só em terras improdutivas
00:37:22ou nas produtivas também?
00:37:25Sem indenização nenhuma?
00:37:27Com indenização integral?
00:37:29Com pouca indenização?
00:37:30Com maior indenização?
00:37:32Era isso que dividia.
00:37:34Era esse o problema.
00:37:35Não são muito numerosas no nosso imenso Brasil
00:37:38as ricas propriedades como esta,
00:37:40mas são cada vez mais prósperas.
00:37:43E sua prosperidade cresce na medida em que se isolam dos menos afortunados,
00:37:48dando razão a quem disse que,
00:37:50no arame farpado, está a desgraça de nosso país.
00:38:03No entanto, não é mais possível ignorar o clamor dos que são íntimos da terra
00:38:09e dela não podem sequer colher o seu sustento.
00:38:12O homem do campo, esquecido e abandonado durante séculos,
00:38:16vê surgir no horizonte de nossa terra uma esperança de melhores dias.
00:38:31A reforma agrária, já proposta ao Congresso,
00:38:34poderá ser a realização desta esperança.
00:38:37A de uma justa distribuição de nossos recursos.
00:38:41O movimento camponesco, Francisco Julião,
00:38:43falava de o lema reforma agrária na lei ou na marra.
00:38:46Para o Goulart, a reforma seria feita na lei.
00:38:49Então, em março, ele mandou uma mensagem ao Congresso Nacional
00:38:53em que nessa mensagem ele propõe uma emenda constitucional
00:38:56alterando a Constituição.
00:38:58A Constituição de 1946 permitia a desapropriação
00:39:03para que a terra, quando fosse necessária,
00:39:07quando a terra tivesse interesse social,
00:39:09era esse o termo usado,
00:39:11mas com o pagamento em dinheiro.
00:39:14Isso interessava o lote fundiário,
00:39:16porque não é receber indenização a preço de mercado em dinheiro.
00:39:22A vista interessava a ele.
00:39:23Então, as esquinas diziam com razão,
00:39:25e elas tinham razão,
00:39:26que isso não era reforma agrária,
00:39:27isso é negociata rural,
00:39:28que interessava o lote fundiário.
00:39:30Reforma agrária é outra coisa,
00:39:31é justiça social.
00:39:33E havia ali aquele dispositivo constitucional
00:39:35que dizia que deveria ser pago à vista,
00:39:38a preço de mercado,
00:39:39e as empresas esquerdas queriam deletar esse dispositivo.
00:39:42Mas os conservadores não aceitavam.
00:39:44Então, quando o Goulart manda esse projeto de manda constitucional,
00:39:48ele está pensando num debate,
00:39:52num acordo, num compromisso entre o centro e a esquerda,
00:39:55entre o PTB e o PSD.
00:39:59E aí a gente tem um pouco de dificuldade de compreender o PSD.
00:40:01O João Queiro Neto era do PSD.
00:40:04Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães.
00:40:07Mas o PSD era um partido conservador.
00:40:09Não era um partido de esquerda.
00:40:11Mas não era um partido reacionário.
00:40:13Não era um partido de direita, golpista.
00:40:16E esse é o lugar da UDN.
00:40:18Os PCDistas estavam expostos a negociar a reforma agrária.
00:40:22Só que quando o projeto chega, a mensagem chega ao Congresso,
00:40:26o líder do PTB, o Caio Iva Cunha, acrescenta um item.
00:40:30A reforma urbana.
00:40:32Ou seja, a reforma não seria só agrária, mas seria urbana também.
00:40:36Inaceitável foi o PSD.
00:40:38O PSD aceitava negociar a reforma no campo, mas na cidade não.
00:40:42E aí cria-se um conflito entre o PTB e o PSD.
00:40:46Em vez de eles negociarem, eles entram em conflito.
00:40:58O Goulart entrou em ação.
00:41:01Ele entrou, fez uma reforma ministerial no sentido de acomodar grupos
00:41:09que chegassem a um acordo, que chegassem a uma negociação.
00:41:12Mas mesmo assim não adiantou.
00:41:14O traço marcante na personalidade de João Goulart era a moderação.
00:41:23Se algumas vezes deu a impressão de radical,
00:41:27foi para conter setores mais aflitos, mais assodados,
00:41:31que poderiam perturbar seus objetivos.
00:41:36Quem perdeu?
00:41:37Bom, perderam todos, evidentemente.
00:41:40Mas perdeu, em particular, João Goulart.
00:41:42Ele perdeu.
00:41:44Ele perdeu porque o plano trienal foi abandonado.
00:41:50A inflação começou a disparar.
00:41:53Ele não conseguiu estabilizar a economia.
00:41:56A possibilidade de fazer a reforma agrária por vias constitucionais,
00:42:00no Congresso Nacional, também se perdeu.
00:42:02Porque naquela legislatura ele não teria como apresentar um novo projeto.
00:42:07Então ele ficou sem a alternativa para fazer as reformas.
00:42:11Usou-se o tema reforma agrária para criar um Estado de Espírito
00:42:15e contar a todas as outras reformas.
00:42:18E essa era mais fácil de ser manipulada,
00:42:21mais fácil de ser jogada,
00:42:22mais fácil você temer uma reforma agrária
00:42:25do que regulamentar a remessa de lucros, por exemplo.
00:42:29Não é de hoje que vem se fazendo sentir a necessidade sempre crescente
00:42:33de uma reforma agrária para o nosso país.
00:42:36Mais de 50 projetos enviados à Câmara dos Deputados
00:42:40ali encontraram o seu túmulo,
00:42:42esperando que um dia a nação se volte para suas próprias realidades.
00:42:58Entre as reformas de base que o atual governo começa a levar a efeito,
00:43:03a reforma agrária se impõe como sendo uma das primordiais.
00:43:07Estimulando grandemente todas as fontes produtoras,
00:43:10a reforma dará ao agricultor brasileiro
00:43:13condições de vida compatíveis com as conquistas sociais de nosso tempo.
00:43:18Nesse contexto de conflitos,
00:43:19acho que tem uma importância crucial
00:43:22a criação da Supra em 62.
00:43:25E o João Pinheiro Neto foi nomeado como superintendente nesse momento.
00:43:32O que fazia a Supra?
00:43:34Qual é a atividade?
00:43:35Qual é o papel da Supra?
00:43:37Era justamente ter uma política.
00:43:41dentro do que a legislação naquele momento permitia.
00:43:45Então, a política é para a reforma agrária.
00:43:48E a Supra, na sua prática, acabou não só delineando algumas linhas de ação,
00:43:57mas efetivamente atuando, fazendo algumas apropriações.
00:44:01O Goulart conversa com o João Pinheiro Neto, presidente da Supra.
00:44:04Os técnicos da Supra procuram uma alternativa para fazer a reforma agrária.
00:44:09É aí que surge o famoso decreto da Supra, que é um decreto executivo.
00:44:16Por esse decreto executivo, o Goulart podia levar adiante a medida
00:44:20a parte do Congresso Nacional, sem passar pelo Congresso.
00:44:24até porque não era propriamente reforma agrária,
00:44:27e sim algumas medidas que foram usufruídas, muito usufruídas, com dinheiro público.
00:44:36Então, o Goulart podia levar isso adiante.
00:44:39O decreto da Supra dizia o seguinte,
00:44:43rodovias e ferrovias federais construídas com dinheiro público,
00:44:49as terras seriam desapropriadas 30 quilômetros de cada lado.
00:44:55Sendo que seriam desapropriadas as terras somente acima de 500 hectares.
00:45:00Abaixo de 500 hectares, não.
00:45:04E também açudes, obras de irrigação, obras de drenagem.
00:45:13A propriedade que estivesse situada naquela posição
00:45:16passava a ser de interesse puro para efeito de desapropriação
00:45:20desde que abandonada.
00:45:21Pequena ou grande, desde que abandonada.
00:45:24Mas situada estrategicamente, ela poderia vir a ser...
00:45:27Não estava desapropriada.
00:45:28Não foi uma desapropriação geral do país.
00:45:31Foi um esquema preparatório daquilo que viria a ser o processo desapropriatório,
00:45:41se necessário.
00:45:41Era uma ameaça contra aqueles que possuíam terras situadas privilegiadamente,
00:45:47beneficiadas através de obras públicas, tipo açude, tipo rodovias e ferrovias,
00:45:53que não estavam aproveitando essaquela ideia.
00:45:55Com isso, os olhares, tanto do Congresso Nacional, como das organizações camponesas, das entidades empresariais,
00:46:07se voltavam para a Supra.
00:46:09Ela virava o ponto-chave.
00:46:12Se dizia o seguinte, se alguém, eventualmente, situado em área estratégica do país,
00:46:20possui mais do que deve, mais do que pode ou mais do que precisa, no sentido social,
00:46:24esse alguém tem que abrir mão.
00:46:27Ser normalmente, naturalmente, indenizado,
00:46:30como nós queríamos indenizar, com o título da dívida pública,
00:46:33e não em dinheiro, porque senão seria um negócio agrário, e não uma reforma agrária.
00:46:37E esse alguém dividiria a sua propriedade ociosa e especulativa
00:46:41com aqueles que precisam e querem trabalhar.
00:46:48A Supra era um órgão novo.
00:46:50Quer dizer, ela também estava...
00:46:52Não tinha instrumental para trabalhar.
00:46:53Ela tinha que instituir, construir os seus instrumentos de ação,
00:46:58construir o seu corpo técnico-administrativo,
00:47:01que não é uma coisa simples de se fazer,
00:47:05num tema que é absolutamente novo,
00:47:07sobre o qual não existia uma história de intervenções estatais.
00:47:11Óbvio que isso dificultava a ação da Supra,
00:47:15e chamava para a Supra uma série de críticas dos segmentos mais à esquerda,
00:47:21que se posicionava a favor de uma reforma agrária mais radical.
00:47:25Não necessariamente na lei ou na marra,
00:47:29mas chamava a atenção que precisava acelerar o processo.
00:47:32Mas, por outro lado, o pouco que a Supra fazia,
00:47:36também chamava a atenção dos setores contrários a uma reforma agrária distributiva,
00:47:42porque mostrava o potencial da ação da Supra.
00:47:44Eu não seria.
00:47:46Olha, João, lamento muito.
00:47:47Tinha citado para você que era do Maquiavel,
00:47:49você foi se meter nessa reforma agrária,
00:47:50não tem nada de pessoal.
00:47:52Está muito bem que você é um grande amigo meu.
00:47:55Você foi para Minas com 20 anos,
00:47:57pediu do seu pai trabalhar comigo.
00:47:59A sua família é toda minha amiga,
00:48:01mas agora eu fui obrigado a comunicar ao Jango
00:48:03que o PSD não o apoia mais.
00:48:08E, por circunstâncias da vida, pela força das coisas,
00:48:13quem diria que aquele magricela que me apareceu lá em Belo Horizonte em 1950
00:48:17ia depois se transformar nesse incendiário agrária.
00:48:21O PSD não pode nem ouvir falar em você,
00:48:23nem em reforma agrária, nem no Jango.
00:48:25E, de agora em diante,
00:48:28teve um susto danado.
00:48:30Acostumado com o Juscelino,
00:48:31como se fosse uma espécie de pai, de guia, né?
00:48:34Ele dizia, presidente, mas será possível?
00:48:36Agora o Jango já está mais para lá do que para cá.
00:48:39O senhor ainda vai fazer oposição?
00:48:41Ele, não, eu não vou fazer oposição ao Jango.
00:48:44Pessoalmente, mas o PSD vai.
00:48:46João Pinheiro Neto também é um percedista,
00:48:50mas também será um PT-bista,
00:48:52com uma característica que eu acho interessante,
00:48:56porque o João Pinheiro Neto,
00:48:57ele é um político muito importante,
00:48:59ele faz uma política muito importante,
00:49:02mas ele não é um homem da política parlamentar.
00:49:06Quer dizer, ele não se elegeu, né?
00:49:09Para nem vereança, nem deputado,
00:49:13mas ele tem uma trajetória importante
00:49:17na burocracia do Estado, né?
00:49:21E na burocracia do Estado,
00:49:23no sentido weberiano,
00:49:25no sentido daqueles homens
00:49:28que gerenciam políticas públicas.
00:49:31É um dos políticos que atua
00:49:34no que diz respeito exatamente
00:49:37à organização de trabalhadores rurais,
00:49:40tendo em vista acesso a direitos,
00:49:44a direitos sociais desses trabalhadores.
00:49:46será dele o decreto
00:49:49que vai permitir a desapropriação de terras
00:49:53ao longo das rodovias e das ferrovias.
00:49:56O decreto é esse que será assinado
00:49:58por João Goulart,
00:50:00quando no começo do 13 de março.
00:50:07Democracia, meus patrícios,
00:50:10é o que o meu governo vem procurando realizar
00:50:13como é do meu dever,
00:50:15não só para interpretar os anseios populares,
00:50:19mas também para conquistá-los
00:50:22pelo caminho do entendimento e da paz.
00:50:25Não há ameaça mais séria à democracia,
00:50:28trabalhadores,
00:50:29do que a democracia que desconhece
00:50:31os direitos do povo.
00:50:33Não há ameaça mais séria à democracia
00:50:36do que tentar estrangular a voz do povo,
00:50:39dos seus legítimos líderes populares,
00:50:43fazendo calar as suas reivindicações.
00:50:57E é muito interessante que no dia seguinte,
00:51:00ele pega a família e vai descansar em São Borja,
00:51:03mas antes ele liga para o João Pinheiro Neto
00:51:05e fala para ele de desapropriar imediatamente
00:51:08duas fazendas dele, de João Goulart.
00:51:11Eram duas fazendas que se enquadravam
00:51:13no decreto da Supra.
00:51:14Ou seja, ele deu um exemplo,
00:51:16ele cresceu o primeiro a mostrar,
00:51:17veja, isso aqui é para valer
00:51:19porque está sendo nas minhas fazendas.
00:51:21As pressões se davam do modo mais violento,
00:51:24mas não eram pressões diretas de fazendeiro,
00:51:27eram pressões do meio rural brasileiro,
00:51:29da classe rural brasileira,
00:51:31que mandava e ainda manda no país.
00:51:34E essa classe rural se infiltrava nas forças armadas,
00:51:37se infiltrava no industrial,
00:51:38que também tinha fazenda,
00:51:40se infiltrava no grande comerciante,
00:51:42a pressão era global.
00:51:43não era só do fazendeiro, não.
00:51:45O fazendeiro comandava a pressão,
00:51:47mas o industrial também era fazendeiro.
00:51:49O militar também tinha ligações com o fazendeiro.
00:51:52Todo militar de um modo geral ia para o interior,
00:51:53casava com filha de fazendeiro.
00:51:55É uma interligação do meio rural brasileiro,
00:51:58que era fortíssimo e ainda é.
00:52:00A proposta do Jango e da Supra e de João Pinheiro Neto
00:52:05era assentar e criar uma classe média rural
00:52:11com os mesmos direitos da classe média urbana.
00:52:14Eu sempre dizia, repetia,
00:52:16eu sempre dizia que ninguém quer a socialização do campo,
00:52:19nem da terra, nem a comunização rural.
00:52:21Não, ao contrário, queremos criar propriedade.
00:52:23Criar propriedade e mais propriedade
00:52:25para dar estabilidade à vida rural no Brasil.
00:52:28Onde, inclusive, for necessário muita terra,
00:52:31continue muita terra, não tem problema.
00:52:33A terra não é boa se ela é muito ou é pouca.
00:52:35Ela é boa se ela é má ou bem aproveitada.
00:52:38Tanto meu pai, João Goulart, como João Pinheiro Neto,
00:52:42eles têm uma semelhança muito grande nas origens.
00:52:46Os dois vieram de famílias muito ricas,
00:52:50famílias tradicionais.
00:52:52Sua trajetória política foi dedicada
00:52:54aos menos favorecidos, aos trabalhadores.
00:52:58E isso foi visto, muitas vezes, como uma traição
00:53:02à burguesia, ao grande empresariado,
00:53:06a classe a qual eles pertenciam.
00:53:08Isso nunca foi perdoado, na verdade.
00:53:11João Pinheiro Neto está engajado, nesse momento,
00:53:15com uma proposta política reformista,
00:53:21modernizadora, que nós jamais saberemos
00:53:26a que teria nos levado.
00:53:4231 de março de 1964.
00:53:47Na velha cama de bronze do segundo andar
00:53:50do Palácio das Laranjeiras,
00:53:52residência oficial no Rio,
00:53:54do Presidente da República,
00:53:56no quarto dos fundos,
00:53:58bem à direita do acanhado elevador,
00:54:01que, de tão gasto,
00:54:03gemia modorrento, sempre que acionado,
00:54:06Jango cochilava.
00:54:08Calados, velando cuidadosos
00:54:11pelo silêncio do chefe,
00:54:13alguns dos seus amigos e colaboradores
00:54:16mais chegados.
00:54:17Abelardo Jurema,
00:54:19ministro da Justiça,
00:54:21Expedito Machado,
00:54:23ministro da Aviação,
00:54:24o fidelíssimo secretário,
00:54:26Cailar,
00:54:28o general Osvino Ferreira Alves,
00:54:31presidente da Petrobras
00:54:32e ex-comandante do primeiro exército,
00:54:35e eu,
00:54:37presidente da Supra,
00:54:39superintendência da reforma agrária.
00:54:42O silêncio era pesado.
00:54:44A angústia,
00:54:45a ansiedade
00:54:46e a crescente frustração
00:54:48haviam se apoderado de todos nós.
00:54:52Ressonando,
00:54:53só João Goulart
00:54:55parecia alheio
00:54:56às tormentas
00:54:57que se haviam desencadeado
00:54:59lá fora.
00:55:00Naquela madrugada,
00:55:02já explodira
00:55:03a rebelião dos militares
00:55:05em Minas,
00:55:06sob a dupla liderança
00:55:08do pitoresco,
00:55:10pequeno e sagaz
00:55:12general
00:55:12Olímpio Mourão Filho,
00:55:15que mais tarde,
00:55:16numa entrevista coletiva,
00:55:18se definiria como
00:55:19uma vaca fardada.
00:55:21e do governador
00:55:23José de Magalhães Pinto,
00:55:24cujos sonhos
00:55:26de chegar à presidência
00:55:27da República
00:55:28não eram desconhecidos
00:55:30de ninguém.
00:55:31O ambiente ali,
00:55:33no quarto,
00:55:34era de velório.
00:55:35E, desgraçadamente,
00:55:37como os acontecimentos
00:55:38daquele dia
00:55:39iriam mostrar,
00:55:40não haveria
00:55:42missa de sétimo dia.
00:55:43Vem um golpe
00:55:45e,
00:55:46dez dias depois,
00:55:47do golpe militar,
00:55:48o decreto da Supra,
00:55:49ele é suspenso,
00:55:52não acha de existir.
00:55:53E, lá em outubro,
00:55:54então,
00:55:55vem o projeto do governo,
00:55:57que é o Estatuto da Terra,
00:55:58que é uma outra coisa
00:55:59completamente
00:56:02diferente.
00:56:03É algo que vai beneficiar
00:56:05as grandes empresas,
00:56:07que transforma
00:56:08latifúndios em empresas,
00:56:10e aí que vai surgir
00:56:11o agrobusiness,
00:56:12a introdução da soja,
00:56:14da laranja,
00:56:14para a exportação,
00:56:15como também projetos
00:56:16de colonização
00:56:17na Amazônia,
00:56:19que não é reforma agrária,
00:56:21não é?
00:56:21É outra coisa.
00:56:23Uma das primeiras medidas
00:56:24pós-golpe foi
00:56:25não extinguir exatamente
00:56:27a Supra,
00:56:27mas fazer uma intervenção
00:56:29sobre ela.
00:56:30Ou seja,
00:56:30muda completamente
00:56:32a direção.
00:56:34Quando houve o golpe,
00:56:35eu tinha,
00:56:36a minha filha menor,
00:56:37Silvia,
00:56:38tinha quatro meses.
00:56:40Então, eu disse,
00:56:40João, vamos embora,
00:56:42tá bom?
00:56:42Todo mundo vai ser preso,
00:56:44nós vamos ser presos,
00:56:44nós temos filhos pequenos,
00:56:46não podemos continuar aqui.
00:56:48Ele disse,
00:56:48eu não saio do Brasil,
00:56:50eu não fiz nada
00:56:52que tenha que ser preso.
00:56:54É um daqui,
00:56:55não sai,
00:56:56é o meu país,
00:56:57é aqui que eu vou provar
00:56:58porque eu não fiz
00:56:59absolutamente nada de errado.
00:57:02Só fiz coisas certas,
00:57:03você vai ser preso.
00:57:04E ele foi.
00:57:05Ele foi levado.
00:57:06Não falavam
00:57:07para onde ia levar.
00:57:09Não falavam nada.
00:57:11Não davam explicação nenhuma.
00:57:14arrancava a pessoa
00:57:15de dentro de casa
00:57:16e botava dentro
00:57:18de um carro
00:57:19daqueles oficiais,
00:57:22chapa branca,
00:57:24aquele Opala,
00:57:26chapa branca,
00:57:27e você sumia.
00:57:29Toda a família
00:57:30ficou muito abalada.
00:57:31E você já imaginou?
00:57:33Isso ele conta depois,
00:57:35que ele,
00:57:36sendo interrogado,
00:57:38um coronel chegou
00:57:39para ele e falou assim,
00:57:40um neto de João Pinheiro
00:57:43metido com esses comunistas
00:57:47para entender
00:57:48que não era isso
00:57:49que a família queria.
00:57:51O João Pinheiro
00:57:53e a família
00:57:55Pinheiro conservadora
00:57:57naquele momento
00:57:59olhava o meu pai
00:58:00como um cara que,
00:58:01pô,
00:58:02levou o nome da família
00:58:04para um furacão.
00:58:05um furacão?
00:58:06Aí a minha mãe
00:58:07foi informada
00:58:09por um general,
00:58:11amigo de alguém
00:58:12da família,
00:58:14que ele estava
00:58:15na Fortaleza de Santa Cruz,
00:58:17em Niterói.
00:58:19Tuts.
00:58:20Aí foi um alívio, né?
00:58:22E aí ela correu
00:58:23para a porta
00:58:24da Fortaleza de Santa Cruz
00:58:25imediatamente,
00:58:27com os filhos todos,
00:58:29botou minha irmã
00:58:31no colo
00:58:32com todo mundo
00:58:35e desesperada
00:58:36procurando informação
00:58:37sobre ele.
00:58:38E ninguém falava nada.
00:58:39Ninguém falava nada.
00:58:41Ela levou a turma toda
00:58:42para ver se sensibilizava.
00:58:44E aí a gente passou
00:58:45a ser conhecido
00:58:46como os Pinheirinhos.
00:58:48Lá vem a dona Leda
00:58:49com os Pinheirinhos,
00:58:51é assim que chamavam.
00:58:53Mas meu pai,
00:58:54sempre muito jeitoso
00:58:56e muito ligado
00:58:57nas pessoas,
00:58:58ele conseguiu
00:59:00que o carcereiro dele
00:59:02passasse bilhetes
00:59:04para a minha mãe.
00:59:06Logicamente que todos liam,
00:59:09todos liam
00:59:10o que estava sendo
00:59:10passado para ela
00:59:12e depois mandavam.
00:59:13Inclusive tem uma carta
00:59:15muito bonita dele
00:59:16que foi publicada
00:59:17num jornal
00:59:18que ele fala
00:59:20sobre isso,
00:59:21ele fala sobre
00:59:22a situação na prisão.
00:59:26Santa Cruz,
00:59:284 de maio de 1964.
00:59:31Leda,
00:59:32muito querida,
00:59:35escrevo-lhe hoje,
00:59:36segunda-feira,
00:59:37dia 4,
00:59:38um mês de separação
00:59:40da família.
00:59:42Há 31 dias
00:59:43afastado de tudo
00:59:45e de todos,
00:59:46a não ser nos rápidos
00:59:48momentos de suas visitas.
00:59:51Mas estou bem,
00:59:52minha querida.
00:59:53Não dê crédito
00:59:54aos boatos malévolos
00:59:56que estou doente,
00:59:57nervoso, etc.
00:59:59Alimento-me bem.
01:00:01Quando o sol se anima,
01:00:02faço exercício
01:00:03ao ar livre.
01:00:05Leio muito.
01:00:07Deus,
01:00:08que nesse mês
01:00:09negou-me tanto,
01:00:10não me negou
01:00:11os livros.
01:00:13O que me preocupa
01:00:14é você,
01:00:15que achei mais magra,
01:00:17e a mamãe,
01:00:18que sei preocupada.
01:00:21Tranquilizem-se,
01:00:22estou bem.
01:00:24Tinha tudo
01:00:24para ser irresponsável,
01:00:26frequentador
01:00:27de festinhas alegres,
01:00:28gozando da vida
01:00:29às doces amenidades
01:00:31que a posição social
01:00:33e o dinheiro
01:00:33nunca me negaram.
01:00:35Fiz-me as tormentas
01:00:37da vida pública.
01:00:39Mais por destino
01:00:40que por opção.
01:00:42Achei que,
01:00:43sendo um privilegiado
01:00:44pelo nascimento,
01:00:45pelo nome da família
01:00:47e pelos recursos materiais
01:00:48que não me faltaram,
01:00:50deveria dar um pouco
01:00:52do que muito receberam.
01:00:54Sou professor
01:00:55da Fundação Getúlio Vargas,
01:00:57com viagem à Europa
01:00:59desde os vinte e poucos anos,
01:01:01jornalista de algum êxito,
01:01:03advogado,
01:01:05ministro de Estado
01:01:06com 33 anos,
01:01:07aos 34,
01:01:09dirigente de uma autarquia
01:01:10de importância
01:01:11da Supra.
01:01:12Como haveria de querer
01:01:14condenar tudo
01:01:15que aí está,
01:01:16assumindo atitudes
01:01:17extremistas
01:01:18ou subversivas,
01:01:19para com uma organização social
01:01:21que não me negara nada,
01:01:23que ao contrário,
01:01:25dera-me tudo.
01:01:26Apenas queria
01:01:27aperfeiçoá-la,
01:01:29fazê-la para os outros
01:01:31tão magnânima
01:01:32o quanto estava sendo
01:01:34para mim.
01:01:35Só isso,
01:01:36nada mais.
01:01:38Sou um conservador,
01:01:39no fundo.
01:01:41Apenas,
01:01:42como dizia,
01:01:43é preciso podar o mal
01:01:44para conservar o bem.
01:01:47Não estaria submetendo
01:01:48a família
01:01:49a esses sofrimentos.
01:01:51Não me estaria,
01:01:52como agora,
01:01:53privando de tudo
01:01:54e de todos,
01:01:55se tivesse feito
01:01:56o que todos
01:01:57ou quase todos
01:01:58os moços
01:01:59na minha posição fazem.
01:02:01Gastar o dinheiro
01:02:02dos pais,
01:02:03jogar golfe,
01:02:05viver sossegado,
01:02:06cruzar os braços
01:02:07e esperar que outros
01:02:09façam alguma coisa
01:02:11por nós.
01:02:13Para mim,
01:02:14chega.
01:02:15Vou viver para você
01:02:16e os garotos,
01:02:18manso,
01:02:19sossegado,
01:02:20com tristes
01:02:21recordações
01:02:22de tudo isso,
01:02:23dos sucessos
01:02:25efêmeros,
01:02:26das honrarias
01:02:27que nunca procurei
01:02:28e nunca me seduziram,
01:02:31das incompreensões,
01:02:33das dores
01:02:34e das penas
01:02:35que passam,
01:02:36mas não se apagam.
01:02:39como a melhor,
01:02:41minha filha.
01:02:42Achei-a magra.
01:02:44Escreva-me
01:02:45dando notícias.
01:02:46Sempre que puder,
01:02:48venha.
01:02:48A sua presença
01:02:50reconforta e estimula.
01:02:52Aguardo-a esta semana.
01:02:55Lembranças para a mãe
01:02:56e para todos.
01:02:57Um afetoso abraço
01:02:58para você,
01:02:59do seu João.
01:03:01creia-me,
01:03:02querida,
01:03:02estou bem.
01:03:03meu Deus.
01:03:12Há muito tempo
01:03:13eu não li essa carta dele.
01:03:19Ele sempre dizia
01:03:20que não tinha feito
01:03:22nada de errado
01:03:23e queria ser julgado.
01:03:24E ele foi julgado.
01:03:26Ele foi julgado.
01:03:28Ele,
01:03:30na época,
01:03:30o Sobral Pinto
01:03:32defendia muito
01:03:34preso político
01:03:35dessa primeira
01:03:36dessa primeira cepa,
01:03:38desse início da Revolução
01:03:40e dos que quiseram ficar
01:03:42e falou,
01:03:43João,
01:03:44eu topo o seu caso.
01:03:47E fez uma defesa
01:03:50Sobral Pinto,
01:03:51brilhante.
01:03:53e meu pai
01:03:54foi absorvido.
01:03:55Quase unanimamente.
01:03:59Porque ele era
01:04:00acusado de subversão.
01:04:01Ele era acusado
01:04:02de ser subversivo.
01:04:05E de ter tentado
01:04:07envenenar
01:04:08as águas
01:04:10da Sedai
01:04:11num último
01:04:13recurso desesperado
01:04:16pós-golpe.
01:04:19Imagina.
01:04:21como se fosse
01:04:22um terrorista.
01:04:24Mas você tinha
01:04:25que colar
01:04:26alguma coisa
01:04:27nas pessoas,
01:04:28entendeu?
01:04:29Você tinha que ter
01:04:30um motivo ali.
01:04:32Inclusive,
01:04:32foi muito interessante
01:04:33porque a minha avó,
01:04:35que era sábia,
01:04:37mãe dele,
01:04:38falou,
01:04:38meu pai,
01:04:39tão otimista,
01:04:39no início do golpe,
01:04:40achava que a coisa
01:04:41ia ser rápida,
01:04:42que logo em seguida
01:04:43tudo ia voltar
01:04:44à normalidade.
01:04:45e a minha avó
01:04:46falava,
01:04:47olha,
01:04:47isso vai durar
01:04:47mais de 20 anos.
01:04:50E durou.
01:04:53E ele ficou
01:04:54nessa expectativa
01:04:55por 20 anos.
01:04:57Nunca mais voltou
01:04:58a ter o brilho
01:04:59no olhar.
01:05:01Nunca mais.
01:05:01vocês cheiraram dele.
01:05:10Principalmente
01:05:10na faculdade,
01:05:11quando vinham me trazer
01:05:14você,
01:05:14filha do João Pinheiro Neto,
01:05:16eu tinha vontade
01:05:17de chegar em casa
01:05:19e perguntar
01:05:19e saber dessa pessoa,
01:05:22saber de tudo
01:05:22que ele passou.
01:05:24Eu nem sabia
01:05:24que ele tinha sido preso.
01:05:26Eu só via aquele homem
01:05:27sentado,
01:05:28lendo,
01:05:28lendo,
01:05:29lendo,
01:05:29e nunca havia contado
01:05:33para nós nada,
01:05:34nada do que havia
01:05:36acontecido na vida dele.
01:05:37Mais tarde,
01:05:38eu me perguntava
01:05:39por que ele não
01:05:41se referia a isso.
01:05:43Hoje,
01:05:45talvez,
01:05:46eu consiga responder
01:05:47um pouco
01:05:48pelo medo,
01:05:49porque como ele
01:05:50não se exilou
01:05:51e ele ficou no Brasil,
01:05:53ele foi um exilado
01:05:54no próprio país,
01:05:56eu acho que existia
01:05:57um certo temor
01:05:58da parte dele
01:05:59de falar,
01:06:00falar sobre isso,
01:06:02contar para nós,
01:06:03externar o que aconteceu,
01:06:05porque, na verdade,
01:06:07não se tinha muita certeza
01:06:08em relação
01:06:09ao que acontecia,
01:06:11se isso era possível
01:06:12ser falado.
01:06:14O seu afastamento
01:06:15da vida política
01:06:16se deu em 64,
01:06:17exatamente?
01:06:18É, 64.
01:06:19Foi dia...
01:06:21Não sei lá,
01:06:22dia 2 ou 3,
01:06:23quando falo
01:06:24que era a primeira
01:06:24lebra
01:06:25de que essas ações...
01:06:27E você vive isso
01:06:29como uma frustração
01:06:32ou...
01:06:33Como um corte?
01:06:34Não, eu vivo isso
01:06:35como quem foi
01:06:37interrompido
01:06:37na sua realização
01:06:40objetiva
01:06:40de alguma ideia
01:06:42ou de algum ideal
01:06:43e que teve isso
01:06:45interrompido,
01:06:45teve isso
01:06:49protelado,
01:06:50talvez definitivamente
01:06:51interrompido.
01:06:52Então, eu vivo
01:06:52um pouco
01:06:53a angústia
01:06:55e a frustração
01:06:56de não ter realizado
01:06:57os planos
01:06:58que nós tínhamos
01:06:58em mente realizar.
01:07:01E vivo um pouco
01:07:02a frustração também
01:07:03de sentir
01:07:04que há uma geração
01:07:06que está se perdendo,
01:07:08que há uma geração
01:07:09que está se perdendo
01:07:10e que talvez
01:07:10não se encontre mais.
01:07:12Não se encontre mais.
01:07:34Não se encontre mais.
01:07:40a sua fazenda
01:07:40é um milagro.
01:07:42Muita gente tinha medo
01:07:43de viajar,
01:07:44de encontrar com o meu pai
01:07:47pelo que poderia acontecer
01:07:49na volta.
01:07:50Vivia um período de ditadura,
01:07:51as pessoas eram perseguidas,
01:07:53presas,
01:07:55tinham que responder
01:07:56a questionários
01:07:59e por que tinham viajado,
01:08:00mas tinha alguns,
01:08:01muitos,
01:08:02que iam visitá-lo.
01:08:04E entre eles
01:08:05foi o João Pinheiro Neto.
01:08:06Meu pai nos chamou
01:08:08para falar quem era ele
01:08:10e eu lembro mais ou menos
01:08:12desse dia
01:08:13que ele estava
01:08:14na fazenda de Maldonado
01:08:16com o meu pai.
01:08:17Teria ficado
01:08:18bastante tempo com ele.
01:08:19Foi uma conversa
01:08:20que depois meu pai
01:08:21nos relatou
01:08:22e eu acho que
01:08:23o João Pinheiro Neto
01:08:25também comentou
01:08:25que falando
01:08:27sobre o governo,
01:08:28sobre o exílio,
01:08:30sobre os erros
01:08:31e os acertos,
01:08:32o que eles poderiam
01:08:33ter feito ou não
01:08:34de diferente
01:08:35e nessa conversa
01:08:37meu pai teria falado
01:08:38para o João Pinheiro
01:08:39que ele não sabia
01:08:41quando ele ia poder voltar
01:08:42e que talvez
01:08:44a minha mãe
01:08:45voltasse viúva
01:08:46e com o neto.
01:08:48E realmente
01:08:48foi o que aconteceu.
01:08:53Olhei para trás
01:08:54e a última vez
01:08:55que eu vi o João,
01:08:56olhei escrito
01:08:59toscamente
01:09:00numa tábua de madeira.
01:09:02El Milagro,
01:09:05propriedade
01:09:05de João Goulart
01:09:07e da varanda
01:09:09o Jango
01:09:09me acenou
01:09:11pela última vez.
01:09:12Não mais o dia.
01:09:14Ninguém tomou
01:09:15decisões
01:09:16mais importantes
01:09:17do que João Goulart
01:09:18neste país,
01:09:20na área social
01:09:20e na área econômica.
01:09:22Encampou
01:09:23as refinarias privadas,
01:09:25deu início
01:09:25à reforma agrária,
01:09:27congelou os aluguéis,
01:09:28regulamentou
01:09:29a lei de remessa
01:09:30de lucros.
01:09:30Quem fez isso
01:09:31não pode ser indeciso.
01:09:33Às vezes,
01:09:34como eu digo,
01:09:35no varejo,
01:09:36nas pequenas decisões
01:09:37do dia a dia
01:09:38do governo.
01:09:39Mas no fundamental,
01:09:41o seu governo
01:09:41foi absolutamente
01:09:42fiel
01:09:43ao seu ideário
01:09:44político
01:09:45e a tudo aquilo
01:09:46que ele representava
01:09:47no governo,
01:09:48que era o apoio
01:09:49da classe trabalhadora.
01:09:53Eu acho que
01:09:54todas essas pessoas
01:09:55que trabalharam
01:09:56nesse momento
01:09:57no governo
01:09:58João Goulart,
01:09:59durante muito tempo
01:10:01e algumas até hoje
01:10:02foram esquecidas,
01:10:03porque eles fizeram
01:10:05um trabalho
01:10:06que não é reconhecido,
01:10:09porque pelo que
01:10:10eles lutaram,
01:10:11por exemplo,
01:10:12pela reforma agrária,
01:10:14reforma tributária,
01:10:15reforma de educação
01:10:16e o voto
01:10:20para os analfabetos,
01:10:23foi superimportante,
01:10:24foi um momento
01:10:26decisivo para o país.
01:10:30As questões relacionadas
01:10:32à desigualdade
01:10:33que permanecem hoje,
01:10:35elas têm hoje
01:10:36outras soluções,
01:10:37mas que se lá atrás
01:10:39a reforma agrária
01:10:41realmente
01:10:41tivesse sido ali
01:10:42implementada
01:10:43da forma como se pensou
01:10:45e não da forma
01:10:47instrumental
01:10:48como ela foi feita
01:10:49durante a ditadura militar,
01:10:52iria ser um ponto
01:10:53de mudança realmente
01:10:55estrutural
01:10:56para esse país.
01:10:58Hoje,
01:10:59eu tenho uma relação
01:11:00com estudos na terra
01:11:02e fico pensando
01:11:04no meu pai.
01:11:04Tenho certeza
01:11:05se ele estivesse aí
01:11:06acompanhando
01:11:07todos os debates
01:11:09que a gente vê
01:11:10com relação
01:11:11à importância
01:11:12do meio ambiente,
01:11:14do impacto
01:11:15das mudanças climáticas.
01:11:17Meu pai ia estar
01:11:18muito feliz
01:11:19em discutir,
01:11:20em debater esses temas,
01:11:21porque ele era um homem
01:11:23que pensava
01:11:23para a frente.
01:11:26O governo João Goulart
01:11:29durou apenas
01:11:29três anos,
01:11:31tempo por demais curto
01:11:33para o muito
01:11:34a que se propunha.
01:11:35Iniciar a derrubada
01:11:37de uma estrutura
01:11:37administrativa
01:11:38viciada,
01:11:39imobilista,
01:11:41quase a imagem
01:11:42e semelhança
01:11:43da que herdamos
01:11:44da colônia,
01:11:45para, em troca,
01:11:47instalar em nosso país
01:11:48uma sociedade justa,
01:11:50democrática,
01:11:51na qual cada brasileiro
01:11:53pudesse ter
01:11:54um pouco
01:11:54do muito
01:11:55que o Brasil
01:11:56pode distribuir
01:11:57a cada um
01:11:58de seus filhos
01:11:59sem privilegiar
01:12:01nenhum deles
01:12:01e, principalmente,
01:12:04sem privilegiar
01:12:05uma determinada classe.
01:12:19A sociedade
01:12:20é totalmente
01:12:21desequilibrada,
01:12:22ela atende
01:12:23para quem tem
01:12:23força.
01:12:24Como o fraco
01:12:25não tem força
01:12:26nenhuma,
01:12:27ninguém se preocupa
01:12:28com o saneamento
01:12:29básico,
01:12:30com a alfabetização.
01:12:32Mas o setor
01:12:33de seguros
01:12:33vai bem,
01:12:33o setor financeiro
01:12:35vai muito bem,
01:12:38dinheiro há.
01:12:39Acontece
01:12:40que esse dinheiro
01:12:41não está sendo
01:12:41desviado
01:12:42para o interesse
01:12:43do povo brasileiro,
01:12:45está sendo
01:12:45cooptado
01:12:46para o bolso
01:12:46do privilégio.
01:13:19do povo brasileiro,
01:13:20eu que você
01:13:21não está sendo
01:13:21desviado
01:13:21do povo brasileiro,
01:13:21eu que oele
01:13:29não está sendo
01:13:29desviado
01:13:29do povo brasileiro.
01:13:56A CIDADE NO BRASIL
01:13:59A CIDADE NO BRASIL
01:14:30Quem foi João Pinheiro Neto?
01:14:33Para mim, João Pinheiro Neto continua sendo,
01:14:37porque ele está sempre muito próximo de mim.
01:14:40Muito, muito, muito.
01:14:41Eu ouço ele sempre.
01:14:43E eu tenho certeza que ele vai adorar esse documentário.
01:15:28A CIDADE NO BRASIL
01:15:55A CIDADE NO BRASIL
01:16:04A CIDADE NO BRASIL
01:16:04A CIDADE NO BRASIL
01:16:04A CIDADE NO BRASIL
01:16:05A CIDADE NO BRASIL
01:16:06A CIDADE NO BRASIL
01:16:07A CIDADE NO BRASIL
01:16:10A CIDADE NO BRASIL
01:16:11A CIDADE NO BRASIL
01:16:11A CIDADE NO BRASIL
01:16:13A CIDADE NO BRASIL
01:16:14Legenda Adriana Zanotto
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