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  • há 17 horas
Em 1978, jovens negros reunidos no CECAN, em São Paulo, criaram os Cadernos Negros. A publicação já reuniu mais de 300 autores. Em 1980, o grupo formou o coletivo Quilombhoje. Desde então, a série alterna poesia e contos, ampliando a visibilidade da literatura negro-brasileira.
Transcrição
00:00:28Minha avó,
00:00:30minha mãe
00:00:31e a minha irmã mais velha
00:00:35são
00:00:37verdadeiras contadoras de história.
00:00:39Foi com minha avó, por exemplo,
00:00:41que eu aprendi o que é suspense.
00:00:45Minha avó
00:00:46ia contando a história e, de repente,
00:00:49ela dava uma parada,
00:00:51em geral, no clímax da história,
00:00:54puxava uma baforada
00:00:56e soltava a fumaça
00:00:59e eu dizia,
00:01:00e aí, vó, e aí, vó, e aí, vó.
00:01:11Aquilo era suspense.
00:01:14Minha avó me levava
00:01:16até o clímax e, depois,
00:01:18ela me mantinha ali.
00:01:21Aí, depois que a fumaça
00:01:23ia embora,
00:01:25aí ela retomava a história
00:01:27e me apresentava, então,
00:01:30a conclusão e o final da história.
00:01:38eu me lembro que a minha tia contava
00:01:40uma história
00:01:41de um escravizado
00:01:44que tinha apanhado
00:01:46e, então, ele tinha
00:01:47o quelóide nas costas, né,
00:01:49com a marca da chibata.
00:01:53E, depois,
00:01:54alguém da família desse,
00:01:56do senhor,
00:01:56adoece.
00:01:57e aí perguntam
00:01:59para o preto velho
00:02:01quando que ele iria sarar.
00:02:04E aí, o preto velho dizia,
00:02:06ele vai sarar
00:02:08quando isso aqui
00:02:09desaparecer.
00:02:10E aí, a minha tia,
00:02:12praticamente,
00:02:13ela se despia
00:02:14para poder mostrar
00:02:15as costas.
00:02:17Tal era a incorporação
00:02:18que ela fazia
00:02:19do personagem.
00:02:22Então, foi isso, né,
00:02:24foi essa força
00:02:25da oralidade
00:02:26que me marcou,
00:02:28que me deu
00:02:29o exercício
00:02:29da escuta,
00:02:32o encantamento
00:02:33pelas palavras,
00:02:34porque havia também
00:02:35na linguagem dela,
00:02:37não só o gestual,
00:02:39mas algumas palavras
00:02:41que hoje,
00:02:41já depois de adulta,
00:02:43pesquisando,
00:02:43eu fui ver
00:02:44que é de origem banto, né.
00:02:48E, então,
00:02:49eu conheço primeiro
00:02:50a potência
00:02:51da literatura oral
00:02:52para depois,
00:02:54quando eu chego
00:02:54na escola,
00:02:56é que eu vou conhecer
00:02:57também a potência
00:02:59da literatura escrita.
00:03:01Qual a influência
00:03:03que o escritor negro recebe?
00:03:05Em geral,
00:03:07do ponto de vista
00:03:08da academia,
00:03:08se pensa em influência
00:03:10de outros autores.
00:03:12Esquece-se,
00:03:14por exemplo,
00:03:15a influência
00:03:15que eu citei
00:03:16na minha formação.
00:03:18Quer dizer,
00:03:18um Cruze e Souza
00:03:19não apenas lia
00:03:21livros
00:03:22de autores brasileiros
00:03:24e estrangeiros,
00:03:25assim como
00:03:26Lima Barreto,
00:03:28eles ouviam
00:03:29também
00:03:30a literatura oral.
00:03:33Então,
00:03:33é fundamental
00:03:34a gente não esquecer
00:03:35este ponto de vista
00:03:38da influência.
00:04:00A literatura negra
00:04:02no Brasil,
00:04:03eu tenho falado
00:04:05com muita vaidade,
00:04:06que vai começar
00:04:07praticamente
00:04:08com Luiz Gama
00:04:09no 90º verso
00:04:12do poema
00:04:13Quem Sou Eu,
00:04:15ou comumente
00:04:16chamado de
00:04:17Buda Rada.
00:04:19O verso dele é este.
00:04:20Se negro sou,
00:04:22ou sou bode,
00:04:24ou quem importa,
00:04:25ou que isso pode?
00:04:31é com Luiz Gama
00:04:32que a gente tem
00:04:33o primeiro
00:04:36eu negro
00:04:37na literatura.
00:04:39Quer dizer,
00:04:40é ele que diz
00:04:41que é negro
00:04:43enquanto este eu
00:04:45da literatura,
00:04:46que não é o eu
00:04:48do autor,
00:04:49é o eu criado,
00:04:51é o eu inventado.
00:04:52Ele está criando
00:04:53um eu lírico
00:04:55negro
00:04:56dentro da poesia
00:04:58brasileira.
00:04:59Então,
00:05:00já havia
00:05:01alguns autores mulatos,
00:05:03note bem,
00:05:03o mulato
00:05:04não era visto
00:05:05como negro,
00:05:05exatamente,
00:05:06havia uma diferença
00:05:07entre mulato e negro,
00:05:09negro era o escravo.
00:05:11Então,
00:05:11eu considero
00:05:12que o nascimento
00:05:13da literatura negra,
00:05:14com tudo que vai haver
00:05:15depois,
00:05:17é com Luiz Gama,
00:05:19o pré-abolicionista.
00:05:25E aí
00:05:27Amém.
00:05:57Amém.
00:06:27Amém.
00:06:57São os textos, bastante dos textos, que estão aparecendo hoje nos cadernos negros.
00:07:29Amém.
00:07:36Amém.
00:07:36Achei.
00:07:39Albarra.
00:07:39Ao afirmar um outro lugar de produzir, de pensar, de criar literatura, e que é um lugar negro.
00:07:47Porque é a partir das nossas experiências, né?
00:07:50É a partir da nossa concepção de mundo, né?
00:07:54É a partir da nossa cultura, seja ela consciente ou inconsciente,
00:08:03mas é a partir de nossas marcas, como sujeitos de criação,
00:08:07de nossas marcas negras, que esse texto aparece.
00:08:12Então não tem nenhuma dificuldade de dizer que existe uma literatura negra assim.
00:08:17Sem nenhum mistério, seguir o mais velho, viver o momento sem dor, sofrimento.
00:08:23Aprender sem prender, ou perder o gingado.
00:08:26Junto com os parceiros, irmãs e aliados, ninguém inventou, já está inventado.
00:08:32Procure o legado que alguém já plantou, que alguém já colheu, sorriu ou chorou.
00:08:38Em todos os cantos, com simplicidade, levanta a poeira, a de capoeira.
00:08:43Tem samba, tem bamba, um grande quilombo, a roda ancestral, sem começo ou final.
00:08:50Eu gostaria de fazer um cotejo entre esse número modestíssimo,
00:08:58poesia número um, com este caderno agora.
00:09:04Olha a caminhada que houve até na apresentação dos cadernos.
00:09:10Quem podia supor há 45 anos que os cadernos chegariam a isso?
00:09:18A poesia é como o negro, como o negro, ocupa o negro, e o negro, como o negro, ocupa o
00:09:25branco.
00:09:26Quando o negro olha dentro de si mesmo e percebe que ele está em um país
00:09:32que o diferencia em muitos aspectos, ele começa a escrever, ele terá muitas experiências.
00:09:42Eu, por exemplo, nasci em Bragança Paulista, então a minha cidade vai me marcar.
00:09:48Eu sou católico, eu sou filho de apanhadores de café.
00:09:53Então, todas essas experiências são importantes.
00:09:57Mas há uma importância que eu vou dar primordialmente quando eu escrever,
00:10:03é o fato de eu ser negro e, por ser negro, ser um homem diferenciado,
00:10:09secularmente, no meu próprio país.
00:10:38Volta
00:10:39Para os brancos
00:10:42Uma empatia profunda
00:10:47Necessária
00:10:49Para você
00:10:51Conseguir
00:10:52Assumir
00:10:53O ponto de vista
00:10:55Do outro
00:10:56O branco
00:10:58Tem muita dificuldade
00:11:00De
00:11:03Experenciar
00:11:05As nossas vivências
00:11:07O branco até tenta
00:11:09Mas, quando você lê o texto, você vê que não conseguiu
00:11:17Uma literatura branca
00:11:20É uma literatura branca, cresceu no Brasil, né?
00:11:50E também ficcionalizar o outro.
00:11:52Para mim, a literatura negra, necessariamente, tem de ter o eu negro
00:11:58Aos que contestam
00:11:59Aos que contestam isto
00:11:59Então, aos que contestam, eu digo o seguinte
00:12:03Os que não têm isto, eu chamo de literatura negrista
00:12:08As pessoas
00:12:09Como fez
00:12:09Como fez Coelho Neto
00:12:10Como fez Jorge Amado
00:12:14Com seus livros
00:12:15Eu jamais direi que o Jorge Amado faz uma literatura negra
00:12:19Na minha opinião, ele faz uma literatura que se pode chamar de negrista
00:12:25Assim como houve na semana de 22
00:12:27O moderno é o modernista
00:12:29A intenção é falar sobre o negro, mas ele não tem a experiência do negro.
00:12:36E essa empatia profunda que o autor branco tem dificuldade de assumir,
00:12:46ela está ligada ao próprio racismo brasileiro.
00:12:51Que é um racismo, que eu vivo repetindo, que não nos atravessa,
00:12:57mas sim nos habita.
00:13:02Ou seja, é um racismo que está em nós, brancos e negros, o tempo todo.
00:13:09O que modifica é como que a gente se relaciona com ele.
00:13:38O que modifica é como que a gente se relaciona com ele.
00:13:57Em 1937, antes de publicarmos os padernos negros, eu já tinha contato com Oswaldo.
00:14:07Me apresentou Colina, me apresentou Abelardo.
00:14:20Nós passamos a nos reunir nos bares.
00:14:24Esse é o quilomboge informal.
00:14:26É o embrião do que vai ser depois o quilomboge.
00:14:32E junto a isso, em 1978, eu me encontro no SECAM com um advogado chamado Hugo Ferreira.
00:14:46Eu, em conversa com o Hugo, a gente inicia essa ideia de publicar conjuntamente.
00:14:58E o Hugo propôs cadernos negros.
00:15:05Eu achei a ideia excelente.
00:15:08Cadernos Negros nasceu em 1978.
00:15:13Foi criado pelo CUT, pelo Hugo Ferreira.
00:15:16E o nome faz uma referência aos cadernos em que Carolina de Jesus escrevia.
00:15:20Escrevia os cadernos que ela achava no lixo e que usava para escrever.
00:15:38Para mim, pessoalmente, não tinha nada a ver com os cadernos da Carolina Maria de Jesus.
00:15:45Mas para o Hugo, sim.
00:15:46E eu fui saber disso depois.
00:15:48Porque, para mim, a palavra cadernos era o seguinte.
00:15:52Eu queria liberdade de criação.
00:15:56Eu queria liberdade de expressão.
00:16:01Então, cadernos é aquilo que a gente rasura, que a gente tira a página.
00:16:06Enfim, que a gente é livre.
00:16:15Então, aí está ali também uma figura fundamental, que é o Jamu.
00:16:25Conversa com o Jamu, o Jamu topa.
00:16:27Está ali também Oswaldo de Camargo circulando.
00:16:30Oswaldo topa também.
00:16:32E está ali também Eduardo de Oliveira.
00:16:35Essas duas figuras, Eduardo e Oswaldo,
00:16:39são fundamentais nesse momento.
00:16:41Por quê?
00:16:42Porque são os mais velhos e eles já têm livros publicados.
00:16:48Então, a gente já está fazendo aquilo que até hoje existe no caderno dos negros.
00:16:57Ou seja, encontro de gerações.
00:17:12Cumpriu a mim, então, a missão de organizar, de pedir os textos,
00:17:19de recolher a contribuição em dinheiro de cada autor
00:17:25e tocar a edição.
00:17:32Nós fizemos um prefácio
00:17:35de uma página
00:17:38do caderno dos negros número um
00:17:40a várias mãos.
00:17:43E ali tem uma frase que, inclusive, me parece que foi uma opinião do Jamu Minka,
00:17:53que é o seguinte.
00:17:54A África está se libertando.
00:17:58Já dizia Bélsiva, um dos nossos velhos poetas,
00:18:03e nós, brasileiros de origem africana,
00:18:07como estamos?
00:18:10Estamos no limiar de um novo tempo.
00:18:14Tempo de África, vida nova, mais justa e mais livre
00:18:18e, inspirados por ela,
00:18:22renascemos arrancando as máscaras brancas,
00:18:26pondo fim à imitação.
00:18:31Descobrimos a lavagem cerebral
00:18:34que nos poluía
00:18:35e estamos assumindo
00:18:37nossa negrura bela e forte.
00:18:40Estamos limpando
00:18:42o nosso espírito
00:18:43das ideias que nos enfraquecem
00:18:46e que só querem
00:18:47nos dominar.
00:18:52A gente toca a edição
00:18:54já anunciando
00:18:57no final do Cadernos Negros
00:18:59Número 1,
00:19:01Cadernos Negros Número 2,
00:19:03Contos,
00:19:05a próxima.
00:19:06O Cadernos Negros Número 1
00:19:08e o Número 2
00:19:09já saem
00:19:10em tipografia
00:19:12na gráfica do Jari Fernandes,
00:19:14que era um gráfico negro também.
00:19:24Agora, é preciso dizer, então,
00:19:26que as discussões
00:19:28entre o quilomboge informal,
00:19:33este núcleo
00:19:35é o embrião
00:19:39do que vai ser depois o quilomboge.
00:19:42continua.
00:19:43Nos bares, eu, Colina,
00:19:46Abelardo e Oswaldo,
00:19:48continuamos nos encontrando
00:19:49nos bares e discutindo literatura.
00:19:53E, de vez em quando,
00:19:54passa um ou outro
00:19:55poeta por ali e tal.
00:20:04A gente começou a criar junto, né?
00:20:07Certa vez, nós estávamos em minha casa,
00:20:10eu morava no Bixiga,
00:20:12conversando,
00:20:14dizendo poesia,
00:20:15e, de repente,
00:20:16o Paulo Colina começou a cantar
00:20:18entre uma poesia e outra.
00:20:22e a gente percebeu
00:20:24que a gente estava
00:20:26inaugurando uma forma
00:20:28de dizer poesia.
00:20:29Roda, poema, ei!
00:20:32Neste dia nasce, então,
00:20:34Roda, poema!
00:20:36A roda de poemas.
00:20:38Nessa roda de poemas
00:20:40quero ver quem vai entrar
00:20:42e vai entrar a um índice
00:20:43e um verso.
00:20:44Eu nunca esqueço o verso que...
00:20:47Nossa!
00:20:48Eu falo da Assunção o tempo todo.
00:20:51Foi no verso dele
00:20:52que eu descobri
00:20:54que aquilo que falavam pra mim
00:20:56que o meu poema não prestava,
00:20:58que tinha muita pele,
00:20:59aí eu descobri qual pele
00:21:00que tinha no meu poema.
00:21:01Mesmo que voltem às costas
00:21:04as minhas palavras de fogo,
00:21:07não pararei de gritar,
00:21:09não pararei,
00:21:10não pararei de gritar.
00:21:13Senhores, eu vim ao mundo
00:21:14para protestar.
00:21:16Mentiras europeias.
00:21:19Não me falem a calar.
00:21:20E aí vai poema
00:21:21duas páginas dentro.
00:21:24O Carlos de Assunção
00:21:25tem esse clássico
00:21:27que é protesto.
00:21:29Então, é uma literatura
00:21:31que mostra
00:21:33uma face do Brasil
00:21:36que dificilmente seria vista
00:21:39e reparada
00:21:40se não houvesse essa literatura.
00:21:42Quem lê os autores negros
00:21:44vai ter uma visão
00:21:46que ele nunca imaginou
00:21:48sobre a realidade
00:21:49do negro brasileiro
00:21:51em várias camadas sociais.
00:21:55O negro era inteligente
00:21:57e o branco não.
00:21:59O negro era culto
00:22:02e o branco não.
00:22:03O negro era educado
00:22:05e o branco não.
00:22:07O negro era capaz
00:22:09e o branco não.
00:22:11Foram juntos
00:22:12pedir emprego
00:22:13a uma mesma repartição.
00:22:17Umas três vagas havia
00:22:19fizeram-se com a inscrição.
00:22:21Decisão.
00:22:22O branco foi contratado.
00:22:24O negro não.
00:22:31Meu primeiro contato
00:22:33foi uma roda de poemas
00:22:34que foi feita
00:22:35na Casa do Cout.
00:22:36E no primeiro momento
00:22:38eu chorei muito
00:22:40porque eu acho que
00:22:41essa coisa
00:22:42de não ter
00:22:43desse distanciamento
00:22:44que eu tinha
00:22:45da questão racial
00:22:46porque
00:22:46por questão de vida mesmo,
00:22:49e tinha que batalhar
00:22:51outras coisas
00:22:52e também
00:22:52entraram na faculdade.
00:22:54Conhecer os cadernos,
00:22:56fazer o poema e prosa
00:22:57foi uma virada
00:22:58na minha vida.
00:22:59Foi uma outra etapa.
00:23:01Eu tinha 18 anos,
00:23:02então foi uma outra etapa
00:23:04da minha vida.
00:23:05A estrada literária
00:23:07é uma linha reta.
00:23:09Os sons nas esquinas
00:23:10devem ser escutados
00:23:12com cuidado.
00:23:13Sigo e só dou ouvidos
00:23:15àqueles que dão ritmo
00:23:17a meus passos.
00:23:28quando eu entrei
00:23:29na faculdade,
00:23:30eu tinha uns 20 e poucos anos,
00:23:33a coisa era intensa em mim,
00:23:35sabe?
00:23:35A escrita nunca saiu de mim.
00:23:39Para, assim,
00:23:41uma escritora de gaveta
00:23:43para uma escritora publicada
00:23:44é que já não dava mais
00:23:47para mostrar
00:23:47para as colegas,
00:23:49para declamar
00:23:50os seus poemas
00:23:51naquelas rodinhas
00:23:52que tinha de violão
00:23:54e essas coisas todas.
00:23:56E parar de ser uma pessoa chata,
00:23:59né?
00:23:59todo mundo,
00:23:59o barquinho vai,
00:24:01a tardinha cai,
00:24:03a minha...
00:24:03minha carne queimou
00:24:05na panela,
00:24:06sabe?
00:24:06Então,
00:24:07alguém falou,
00:24:08opa!
00:24:08Tchau!
00:24:17Tchau!
00:24:18Tchau!
00:24:21Tchau!
00:24:45A década de 70
00:24:48era um ambiente
00:24:49de muita ebulição
00:24:51de ideias
00:24:52e eu e o Hugo,
00:24:55assim como outros autores,
00:24:56Jamu,
00:24:57que trabalhava no Jor Negro,
00:24:59nós estamos nesse ambiente
00:25:00e ali estão os militantes
00:25:04que vão estar à frente
00:25:05do MNU.
00:25:08Hamilton,
00:25:10Cardoso,
00:25:11Milton Barbosa,
00:25:14são figuras
00:25:15que vão estar à frente
00:25:17do movimento negro.
00:25:19Ali é que surge a ideia
00:25:21do lançamento
00:25:22do MNU
00:25:24nas escadarias
00:25:26do municipal.
00:25:33Eu estava muito receoso
00:25:35que nesse momento
00:25:36eu estava sendo perseguido
00:25:38por uma figura branca,
00:25:40um cara que
00:25:41mostrava o revólver
00:25:44que ele tinha na cintura.
00:25:45esse indivíduo
00:25:46me perseguia
00:25:47na universidade,
00:25:49esse indivíduo
00:25:49me perseguia
00:25:50em bailes,
00:25:52esse indivíduo
00:25:53me perseguia
00:25:53na porta
00:25:54do meu trabalho.
00:25:56Eu trabalhava
00:25:56na biblioteca
00:25:58Mário de Andrade.
00:26:01Enfim,
00:26:02eu fiquei muito receoso
00:26:04do que poderia acontecer
00:26:05ali nas escadarias.
00:26:19na década de 70,
00:26:21a gente ainda vivia
00:26:22o final da ditadura militar.
00:26:25Então,
00:26:26ainda a gente tinha
00:26:27a questão dos esquadrões
00:26:28da morte
00:26:29e os jovens negros
00:26:30eram vitimados
00:26:31naquela época,
00:26:32assim como são vitimados
00:26:33até hoje.
00:26:34Havia uma lógica
00:26:36do extermínio
00:26:37de jovens negros
00:26:38que até hoje
00:26:39existe ainda.
00:26:46Molecote aliado,
00:26:47pelo amor,
00:26:48não fique a cegas.
00:26:49É quase que uma regra
00:26:51verem teu corpo tombado.
00:26:53O teu coração é sagrado,
00:26:55não estraga,
00:26:55não entrega.
00:26:57A solidão nos pega
00:26:58quando teu riso
00:26:59é adiado.
00:27:00As armadilhas
00:27:01estão postas,
00:27:02aqui tudo se segrega.
00:27:04Tudo é hostil,
00:27:05não vire as costas.
00:27:06Eles te odeiam
00:27:07e te negam.
00:27:08Das duas,
00:27:09uma,
00:27:09o te veis
00:27:09ou respeito
00:27:10ou tá ligado.
00:27:12Defenda a sua tez
00:27:13que é o seu nobre legado.
00:27:16Molecote aliado,
00:27:17pelo amor,
00:27:18não fique a cegas.
00:27:20Compre o caderno
00:27:21Os Nego 45,
00:27:22colecione,
00:27:22tenham todos.
00:27:23Isso vale tesouro,
00:27:24pode pá.
00:27:26Obrigado.
00:27:56os Nego 41,
00:28:00Mano, vamos dar um nome, a gente precisa de uma identidade grupal.
00:28:06Aí bora lá, vamos sugerir nomes.
00:28:07Fizemos uma listinha de nomes e aí bora escolher.
00:28:12Aí tinha lá Pilão, Malungro, outros nomes que botamos nessa tira de papel.
00:28:18E aí eu propus o nome de Quilomboge, juntando a palavra Quilombo e a palavra hoje.
00:28:24O Quilomboge nasceu em 1980, mas os cadernos, como publicação, eram independentes do Quilomboge.
00:28:34De 1980 a 1982, o Quilomboge não organizava os cadernos.
00:28:39Era apenas um grupo que se reunia para resgatar os autores negros do passado,
00:28:44reavaliar o papel deles e dar visibilidade a esses autores, resgatar essa história.
00:28:50E também, para mim, pessoalmente, surgiu aí a palavra bojo.
00:29:01Aqui na minha concepção pessoal, eu senti o seguinte, nós estamos no bojo de algo maior.
00:29:11É um movimento negro.
00:29:28A primeira autora desse depoimento, eu queria passar a palavra para a Ismael Alvaro Carribeiro.
00:29:35Rompendo os estereótipos, que somos bons somente para cantar, sambar, pôr de cama, na praça,
00:29:43estamos brigando pela nossa cota de participação na literatura brasileira.
00:29:49Essa ação afirmativa também aparece quando nos reunimos anualmente para evitar a ontologia cadernos negros.
00:30:06A ideia de fazer os cadernos negros, na minha opinião, foi do CUT.
00:30:10Foi o Luiz Silva que teve a ideia de fazer os cadernos.
00:30:15E há um fato importante também.
00:30:17Diante dessa gente toda, eu estou 15 anos já à frente em idade.
00:30:23Quando nós entramos, que éramos jovens, eram 18 anos, 17, 18, 19, e na verdade a geração do Quilomboge que
00:30:33estava,
00:30:34ela tinha, lógico, muito mais tempo que nós.
00:30:36Quem são eles? O Oswaldo, o Paulo Colina, o Abelardo, o CUT.
00:30:44Eram esses quatro que eu me lembro.
00:30:46Então, eu já tinha tido uma vivência, um viver literário que eles não tinham.
00:30:51Então, era necessário que no meio deles houvesse alguém, pelo menos 15 anos mais antigo.
00:30:58Ocorre que surgiu, pela primeira vez, uma mulher, que foi a Miriam Alves.
00:31:06Caramba, é aqui que eu fico, aqui que eu amarro o meu burro.
00:31:10E aí eu fiquei perseguindo eles, entendeu?
00:31:15E Miriam surgiu, e eu percebi nitidamente um estranhamento, pela forma como ela surgiu.
00:31:25Quer dizer, Miriam, nesse momento, já apresentava um comportamento de uma mulher liberada.
00:31:31Eu virei uma espécie de mascote, né?
00:31:34Eu era a única mulher, uma espécie de mascote.
00:31:37E quando eles iam...
00:31:40O convite, mais os contatos do Oswaldo de Camargo,
00:31:44que eles iam declamar, e eu lembro uma vez eles falaram,
00:31:48não, você vem com a gente.
00:31:49Eu fui.
00:31:51Aí, era uma livraria com brancos, né?
00:31:54E eles declamando os seus poemas, sol, primavera e tal, poeiriscos,
00:32:01como o Oswaldo disse depois, os poemas poeiriscos.
00:32:05E eu saí, comia a carne, queimou na favela.
00:32:10E aí, de repente, esvaziou o negócio.
00:32:13Uma mulher que fumava, bebia cerveja, falava alto, discutia, peitava a discussão, enfim.
00:32:21Eu percebi um estranhamento nos companheiros, né?
00:32:24E eu nunca esqueço uma frase do Oswaldo que eu levo para a minha vida,
00:32:29que é o seguinte.
00:32:33Eles podem ter tempo de fazer poemas poeiris.
00:32:38Nossos poemas, nesse momento, são outros, né?
00:32:41Que ele também não declamou coisas leves.
00:32:44Não, para nós, onde está a tua liberdade, aquele poemas lindo e tal.
00:33:01Mas antes da míria, tinha surgido também, na roda de bares, o Oubi.
00:33:07O Oubi na Equiboku, que na época não tinha esse nome, né?
00:33:13Ele surgiu e ele também causou um estranhamento.
00:33:16Porque ele vinha com uma outra postura, né?
00:33:23Ele vinha com uma postura mesmo de cara periférico, da zona leste.
00:33:50Mas há uma coisa fundamental.
00:33:53Então, haverá uma cisão posterior, lá pelo quinto caderno, o sexto,
00:34:00por pessoas que estavam exigindo não apenas a presença em cadernos,
00:34:04mas que essa literatura tivesse as qualidades que garantem uma literatura negra.
00:34:12Na verdade, eles queriam uma juventude que já viesse pronta, né?
00:34:17Já viesse com seus textos amadurecidos.
00:34:20Eles levaram bastante tempo, mas a gente tinha que estar com o texto amadurecido.
00:34:24Então, esse racha deu por conta de nós internos.
00:34:28Fulano de tal não é poeta.
00:34:30Você viu esse verso? Isso não é verso.
00:34:32Enfim, começou ali um clima de crítica ao conteúdo dos cadernos negros.
00:34:43Que eles participavam.
00:34:47Oswaldo participou no número um.
00:34:49Abelardo e Colina no número dois.
00:34:53E os três participaram no número três.
00:35:00Que tem uma capa expressiva, que bota o movimento negro na capa do livro.
00:35:07Enfim, nesse momento, os três, eles se tornaram muito mais severos
00:35:14com relação a essa questão que os preocupava da qualidade literária do caderno negros.
00:35:20Aí veio a cisão, porque um pouco de...
00:35:29Ah, vocês são vaidosos.
00:35:31Vocês querem os loidos da literatura.
00:35:34Eu mesmo fui acusado, muitas vezes, de estar fazendo...
00:35:37Se é um puxa-saco do branco.
00:35:39Eu consegui fazer o caderno quatro.
00:35:45No cinco, eles não participaram.
00:35:49Então, até que chegou um momento que se percebeu que, de fato,
00:35:55não dava mais para...
00:35:58Não dava mais para...
00:36:01Permanecer sem um filtro.
00:36:04Eu mesmo fui chamado uma vez para fazer seleção.
00:36:08Já estava longe dos cadernos.
00:36:10A partir de certo número, a partir do número quarto ou quinto,
00:36:13eu deixei de colaborar com os cadernos.
00:36:17Porque aí eles já estavam muito irritados,
00:36:21não só com os textos, que eles achavam que não eram textos dignos de serem publicados,
00:36:30como também da presença dessas outras pessoas que estavam chegando para a discussão nos bares.
00:36:38Eu ainda peguei essa formação antiga do Quilomboge.
00:36:41Acho que em umas duas ou três reuniões ainda havia essa formação com esse pessoal,
00:36:45que saiu aí depois.
00:36:47Devido às brigas, às discussões,
00:36:49esse pessoal acabou saindo, que eu acho extremamente válido.
00:36:53Eu acho que eles tinham e têm um trabalho extremamente significativo,
00:36:59importante, mas era outra concepção.
00:37:01A mesma exigência que eu tenho até hoje para comigo, com meus textos,
00:37:05eu tinha para os cadernos.
00:37:07Pode ter sido um equívoco no começo.
00:37:10Eu estava exigindo de alguns autores que jamais tinham publicado,
00:37:14tinham poucas leituras,
00:37:17uma dimensão literária que eu achava ideal.
00:37:21Ou seja, me deram um checkmate.
00:37:26Ou fica com eles, ou fica com a gente.
00:37:32Então, os cadernos não foi apenas uma questão de literatura
00:37:36que chegue a ser, de fato, uma literatura.
00:37:41Foi também um desencontro entre alguns autores.
00:37:46Esse desencontro, eu, por ser mais velho,
00:37:49naturalmente, eu era um dos responsáveis por isso.
00:37:54E eu, então, fui ficar com os mais novos,
00:37:59que estavam com muita vontade de fazer o Cadernos Negros,
00:38:04a tal ponto de assumir, no Cadernos Negros número 6,
00:38:11o grupo, a organização, a feitura, a elaboração
00:38:18do Cadernos Negros a partir daí.
00:38:24Deixo de ser o único coordenador,
00:38:28aquele que recolhe textos, aquele que recolhe dinheiro,
00:38:31sempre com o auxílio de uma pessoa importantíssima
00:38:34que foi a Sônia Fátima da Conceição,
00:38:36que me ajudava muito a organizar essa questão do dinheiro
00:38:40que eu recebia, etc.
00:38:42Tínhamos até, num período, uma conta conjunta,
00:38:45num banco para administrar.
00:38:48E aí
00:38:52Tchau, tchau.
00:39:26Tchau, tchau.
00:39:51Tchau.
00:40:46Tchau, tchau.
00:41:49Tchau.
00:42:31Tchau.
00:42:42Tchau, tchau.
00:42:44Tchau, tchau.
00:42:46Tchau.
00:42:48Tchau.
00:43:03Tchau.
00:43:11Tchau.
00:43:41Tchau.
00:43:46Tchau.
00:44:17Tchau.
00:44:19Tchau.
00:44:19Tchau.
00:44:50Tchau.
00:45:18Tchau.
00:45:32Tchau.
00:45:44Tchau.
00:45:55Tchau.
00:45:59Tchau.
00:46:01Tchau.
00:46:03Tchau.
00:46:14Tchau.
00:46:18Tchau.
00:46:19Tchau.
00:46:19Tchau.
00:46:19Tchau.
00:46:19Tchau.
00:46:21Tchau.
00:46:22Tchau.
00:46:24Tchau.
00:46:26Tchau.
00:46:26Tchau.
00:46:34Tchau.
00:46:39Tchau.
00:46:51Tchau.
00:47:10Tchau.
00:47:14Tchau.
00:47:16Tchau.
00:47:16Tchau.
00:47:28Tchau.
00:47:30Tchau.
00:47:30Tchau.
00:47:31Tchau.
00:47:32Tchau.
00:47:33Tchau.
00:47:34Tchau.
00:47:34Tchau.
00:47:38Tchau.
00:47:43Tchau.
00:47:46Tchau.
00:47:46ali, vivendo e vivenciando a abertura política, enfim, e essa dinâmica da população negra,
00:47:58do grupo militante dessa população, que estava acontecendo não em São Paulo apenas,
00:48:04mas no Rio, em Salvador, Rio Grande do Sul, enfim.
00:48:27Eu conheci cadernos negros de uma maneira, não diria inusitada, claro que não era inusitada,
00:48:38porque eu participava daqui do Rio, no Rio de Janeiro, de um coletivo de escritores negros,
00:48:44que, na verdade, era um desejo de renovar, do grupo Negrícia.
00:48:50E aí, nesse momento, eu entro para esse grupo em 89.
00:48:56Eu se encontrava no IPCN e aí um dia eu conversava e a gente tentando publicar,
00:49:02o Delay me falou do grupo Quilomboge e passou o meu contato para Miriam Alves.
00:49:09e foi meses antes, quando eles fazem o processo de seleção.
00:49:16Aí, mandei os poemas sem esperança alguma, né, sem esperança alguma, porque eu não conhecia o grupo.
00:49:23E aí, os poemas foram selecionados e, a partir daí, eu saio pela primeira vez em 1990.
00:49:32Então, vem aí, Conceição Evaristo, como vocês.
00:49:42Boa noite. Eu fiquei até com uma vergonha agora, porque muito mineiramente, agora que eu acabei de chegar.
00:49:51Então, eu ainda estou chegando. Eu só deixo aqui. O meu abraço para todo mundo.
00:49:55Muito obrigado pela presença.
00:49:57É isso. Muita força.
00:50:26Muita força.
00:50:51Eu tenho dito que Quilomboge para muitos de nós se tornou, né, o rito de passar.
00:51:02Então, através disso, eu publico em vários cadernos, até que um dia vem dos Estados Unidos uma professora brasileira, mineira,
00:51:13e ela perguntou para mim por que eu não publicava individualmente.
00:51:18Aí, foi que eu publiquei Conceição Evaristo, mas eu me lembro que uma vez, até falando que cadernos negras eram
00:51:26um rito de passagem,
00:51:27aí Esmeralda Ribeiro ainda falou comigo, mas seria bom se ele fosse um rito de permanência.
00:51:34Essa potencialidade dela conseguir transitar em vários locais, em outros locais que nós não transitamos,
00:51:41eu acho que também é uma valorização.
00:51:44A pessoa toma coragem e publica, às vezes, seus textos até autorais, vai em editora, vai em cadernos.
00:51:54Hoje preciso de mim, da vazão à dor profunda, acolher minhas angústias e deixar no travesseiro os apelos de existir.
00:52:06Hoje preciso de mim, do abraço dos meus braços, do afago do meu toque, do aperto das minhas mãos, do
00:52:17meu corpo sobre o colchão.
00:52:19Hoje, eu só preciso de mim.
00:52:22Porque essa coisa de você também se ver como escritor ou escritora, para nós é desafiante.
00:52:27Eu acho que para nós, mulheres, é mais desafiante ainda, porque fica aquela desconfiança.
00:52:32Porque o homem, o escritor, ele nunca ficou desconfiado.
00:52:35Você fala escritor, ponto. Ai, que legal, que maravilha, ai, que lindo.
00:52:38Ai, você é escritor, né? O tapete vermelho.
00:52:41Agora, quando nós falamos, ah, somos escritoras, você é mesmo escritora?
00:52:47Eu já tive casos de uma leitora, uma senhora, falar que eu, se eu tinha copiado, né?
00:52:53Que se eu copio os meus textos, que se eu copio de onde eu copiava.
00:52:56Porque era para cima contra a sentona e a esmeralda no sentido assim, não, você não pode, você está nesse
00:53:02lugar, não é seu.
00:53:04Esse lugar teria que ser eu estar dando autógrafo para você, não você dar autógrafo para mim.
00:53:15Poucas mulheres participavam dos cadernos.
00:53:17O Caderno dos Negros 1, por exemplo, tiveram duas mulheres só.
00:53:22Lá no Caderno 5, eu acredito que a gente tinha cinco ou seis mulheres, né?
00:53:27Isso multiplicou muito a participação feminina nos cadernos, né?
00:53:32Em termos de textualidade, há uma diferença do discurso masculino para o discurso feminino.
00:53:44O discurso masculino, tanto em poesia quanto em contos, é um discurso que demonstra um certo receio das questões emocionais.
00:54:02A morte do corpo preto, uma crônica.
00:54:07Homem é encontrado morto na vala do rio Camurugipe, dizia a manchete.
00:54:13Que manchete? Homem preto tem direito a manchete?
00:54:17Um corpo preto boiando, muita gente olhando, xeretes.
00:54:23Nenhuma notícia.
00:54:25Ancas largas, corpo de gente preta.
00:54:28Aquele corpo preto era o amor de alguém?
00:54:31Moço, moça, foi você que perdeu aquele corpo preto?
00:54:36Enquete.
00:54:38A Esmeralda também tem feito um trabalho bastante intenso, né?
00:54:41De estimular as mulheres a escrever nos cadernos.
00:54:45Acho que nesse caderno a gente está em 33 mulheres e 23 homens.
00:54:50São 56 autores.
00:54:53Eu sou Margarete, brasiliense, morando atualmente no Rio de Janeiro.
00:54:58Primeira vez nessa antologia.
00:55:02E eu vou falar de uma mulher preta especial.
00:55:05Eu.
00:55:06Eu resolvi escrever um poema para mim.
00:55:08Por quê?
00:55:11Obrigada.
00:55:14Marrom dourado, cor da escuridão.
00:55:19Desmacia, feito flor de balbá.
00:55:22Corpo perfurado por pingentes dourados.
00:55:25Enfeites de rainha.
00:55:27Corpo magro de linhas imprecisas.
00:55:30Fujo do padrão, mas ganho na beleza.
00:55:33Deito no chão para virar semente.
00:55:36Rompi em fruto e me fiz múltipla.
00:55:39Eclodo em palavras e derrubo silêncio.
00:55:43Denego falsas verdades.
00:55:45Meus ditos descortinam, desvendam, desmentem.
00:55:50Fazem refletir, transformam, emocionam.
00:55:55Sou poesia, sem ponto final.
00:55:58Página 230, Margarete dos Anjos, Cadernos Negros, 45.
00:56:03Obrigada pela noite.
00:56:08Sônia, Fátima da Conceição, Esmeralda Ribeiro e Miriam Alves
00:56:15são as três escrituras que insistem
00:56:21que precisamos ter mais escritoras publicando nos cadernos.
00:56:39Foi o melhor momento da minha vida mesmo, gente.
00:56:44Eu digo assim, é um...
00:56:46Ah, me conta um pouco da tua vida,
00:56:48depois conta do Quilombojo.
00:56:49Não, o Quilombojo é minha vida.
00:56:51Foi minha vida.
00:56:52Tanto que eu quase morri quando eu saí.
00:56:54Você vê que eu tenho um problema aqui, né?
00:56:56Eu sei dali.
00:56:57Esse caderno negro, no total dos poemas,
00:57:00acho que é um resumo do que está acontecendo.
00:57:04Quando eu chego e vejo o Levi,
00:57:08vendo o manifesto que vai acontecer no lar do Pai Sandu,
00:57:12eu lembrei, vou ler Pai Sandu.
00:57:15E ali no mais tem...
00:57:16Eram meninos menores, errantes na terra dos homens.
00:57:23Eram meninos, abonizantes, sedentos, nus.
00:57:28Eram meninos menores.
00:57:31Agora, não eram meninos.
00:57:38Questão de afetividade,
00:57:41questão de maternidade,
00:57:43sabe?
00:57:44Isso é muito forte,
00:57:48muito visceral
00:57:49no discurso feminino.
00:57:53Ou seja, o discurso feminino,
00:57:55ele é muito mais,
00:57:57eu diria, muito mais completo
00:57:59em termos de juntar
00:58:01a dimensão racional
00:58:04e a dimensão emocional.
00:58:07Quando toco no corpo de quem amo,
00:58:10o pensamento do gozo é dele.
00:58:13A palavra dita é verdadeira.
00:58:15Dizer eu te amo
00:58:16é tão frágil e puro
00:58:17que me deixa envergonhada
00:58:19da tamanha nudez
00:58:20e decido fazê-lo ver.
00:58:22Ele disse que há um oceano
00:58:24separando nós dois.
00:58:26Quantas vezes eu não tenho atravessado
00:58:27desde aquele dia em Recife
00:58:30e muito antes.
00:58:31Nossos ancestrais quiseram nosso encontro
00:58:34e o fazem ser refeito.
00:58:36Ele repete que me ama como mantra,
00:58:38fala em saudade, tempo
00:58:40e questiona o destino.
00:58:41Eu aceito saber que não fomos.
00:58:44Te amo tanto que te liberto
00:58:45e sou feliz ao ver
00:58:47que a tua vida ao lado dela deu certo.
00:58:50É isso. Obrigada.
00:58:54se acabar a luz
00:58:56acendo a vela
00:58:58se apagar a vela
00:59:00somos candeeiro
00:59:02a energia da capoeira
00:59:04vem do passado
00:59:05da raiz ancestral
00:59:06presente nos terreiros
00:59:08palmares é panteão
00:59:10é a verdade presente
00:59:11é a volta que o mundo dá
00:59:13é a volta que o mundo deu
00:59:14o camarada
00:59:15axé
00:59:16oxalá
00:59:18oxalá
00:59:19oxalá
00:59:20oxalufã
00:59:21oxalá
00:59:22oxalá
00:59:24oxalufã
00:59:25obatala
00:59:26oxalufã
00:59:28sabedoria
00:59:30ontem
00:59:31hoje
00:59:31amanhã
00:59:33cadência de luz
00:59:34fortaleza de amor
00:59:36a tabaque de carinho
00:59:38orixá
00:59:39de essência flor
00:59:40cadência de luz
00:59:41emanada de paz
00:59:43escurece minha vida
00:59:45e me traz muito mais
00:59:48cadência de luz
00:59:50toda sexta-feira
00:59:51de branco
00:59:52black power
00:59:53e manto
00:59:54acabando meu banzo
00:59:56oxalá
00:59:58oxalá
00:59:59oxalufã
01:00:00obatala
01:00:02oxalufã
01:00:04sabedoria
01:00:05ontem
01:00:06hoje
01:00:07amanhã
01:00:08axé
01:00:08obrigada
01:00:14a clara e salgada
01:00:16desceu
01:00:17vida machuca
01:00:18diz Djonga
01:00:19profeta
01:00:20do apocalipse
01:00:21breu
01:00:21porque o menino
01:00:23queria ser Deus
01:00:24onde todo menino
01:00:25é um rei
01:00:26divina realeza
01:00:28na genealogia
01:00:29dos meus
01:00:29bantos
01:00:30bandos
01:00:31pandos
01:00:32organismos
01:00:32vivos
01:00:33interligados
01:00:34na oralidade
01:00:35de ritos
01:00:36e cantos
01:00:37laroema
01:00:38jubá
01:00:38nossa semente
01:00:40nunca irá faltar
01:00:41de maat
01:00:42a xangô
01:00:43caiu
01:00:44cabecilha
01:00:45nossa justiça
01:00:46não irá tardar
01:00:47gratidão
01:00:59nesses 45 anos
01:01:02de cadernos negros
01:01:03passaram
01:01:04pelas páginas
01:01:05dos cadernos negros
01:01:06mais de 300
01:01:08pessoas negras
01:01:09com textos
01:01:13então
01:01:14então essas pessoas
01:01:15puderam
01:01:16muitas delas
01:01:17pela primeira vez
01:01:19ter a experiência
01:01:20de publicar
01:01:22e muitas
01:01:23depois
01:01:24passaram a publicar
01:01:26os seus textos
01:01:27fazer seus livros
01:01:28individuais
01:01:34então o caderno
01:01:36nos negros
01:01:37tem essa função
01:01:38uma dinâmica
01:01:40que estimula
01:01:41a criação literária
01:01:43no seio
01:01:44da população
01:01:57vossa luta
01:02:00e doce
01:02:00nossa fé
01:02:04e nosso axé
01:02:06o banzo
01:02:08invadiu
01:02:08meu povo
01:02:09mas ainda
01:02:12estou de pé
01:02:13jogar sal grosso
01:02:16pra curar
01:02:17o aço
01:02:19e te viu
01:02:20o desejo
01:02:22de todo preto
01:02:23é retornar
01:02:24pro solo
01:02:26que lhe pariu
01:02:40esse livro
01:02:42ele é uma
01:02:44embarcação
01:02:45não como
01:02:46os navios
01:02:47negreiros
01:02:48que trouxeram
01:02:50nossos ancestrais
01:02:51pra cá
01:02:51onde foram
01:02:53escravizados
01:02:54desumanizados
01:02:56silenciados
01:02:57invisibilizados
01:02:59invisibilizados
01:03:01cadernos negros
01:03:03nos leva
01:03:03para a liberdade
01:03:04ancorando
01:03:05os nossos corpos
01:03:08a nossa poética
01:03:10a nossa palavra
01:03:11toda a primeira vez
01:03:13participando
01:03:13no cadernos negros
01:03:14primeira vez que eu colei
01:03:15foi no 23
01:03:16na minha segunda participação
01:03:18é a minha décima terceira
01:03:19participação
01:03:20eu participo
01:03:21do cadernos negros
01:03:22desde a edição 41
01:03:23pela terceira vez
01:03:24publico
01:03:25nessa antologia
01:03:26histórica
01:03:27da literatura brasileira
01:03:28e vida longa
01:03:29o cadernos negros
01:03:52o caderno negro
01:03:54não é apenas
01:03:54o caderno negro
01:03:55os cadernos negros
01:03:57tiveram o dom
01:03:59tiveram a força
01:04:00de aproximar
01:04:02as pessoas
01:04:02foi um elo
01:04:03também de amizade
01:04:04não apenas literária
01:04:06mas um elo
01:04:08também
01:04:08de
01:04:09vida social
01:04:12vida literária
01:04:18o reconhecimento
01:04:21hoje
01:04:22de alguns
01:04:23escritores
01:04:25negros
01:04:26de alguns
01:04:28é um reconhecimento
01:04:30ainda muito pequeno
01:04:31não é
01:04:33porque há muitos talentos
01:04:35não reconhecidos
01:04:37inclusive talentos
01:04:39jovens
01:04:40não é
01:04:41esse reconhecimento
01:04:43nada mais é do que
01:04:45o reconhecimento
01:04:46de que
01:04:47há uma produção
01:04:49importante
01:04:50importante
01:04:51e que também
01:04:53está dando
01:04:55resultado
01:04:56em termos de mercado
01:04:59
01:05:00porque
01:05:01porque o debate racial
01:05:03ele se ampliou
01:05:15e eu canto
01:05:18aos palmares
01:05:19porque
01:05:20eu sei
01:05:21se o cabelo
01:05:23é duro
01:05:23cabe ao pente
01:05:25ser suave
01:05:26feito uma serpente
01:05:27o fundamental
01:05:29da beleza
01:05:31a quem não tem preconceito
01:05:34e conhece
01:05:35todos
01:05:36mas todos
01:05:37os segredos
01:05:39mas conhece
01:05:41todos os segredos
01:05:42da crescitude
01:05:50e com a lei
01:05:53
01:05:54é
01:05:55das cotas
01:05:58nós tivemos
01:06:00o que
01:06:01o ingresso
01:06:03de muitos
01:06:05jovens negros
01:06:07na universidade
01:06:09muitos deles
01:06:13conscientes
01:06:15da questão racial
01:06:17e aí você tem
01:06:19uma produção
01:06:20teórica
01:06:21com relação
01:06:22ao racismo
01:06:23com relação
01:06:23a produção
01:06:24cultural
01:06:24negra
01:06:26e com relação
01:06:27a literatura
01:06:28você tem aí
01:06:30é
01:06:30realmente
01:06:31não apenas
01:06:33um público
01:06:34mas
01:06:35um público
01:06:38entusiasmado
01:06:38e disseminador
01:06:40da informação
01:06:49não tem ninguém
01:06:50que vai patrocinar
01:06:51o próximo volume
01:06:52o próximo volume
01:06:53só vai nascer
01:06:54se a gente colocar
01:06:55a mão na massa
01:06:55e fizer
01:06:56
01:06:57não há nem nada
01:06:59que garanta
01:06:59e sempre foi assim
01:07:00até hoje
01:07:01estrutura financeira
01:07:02inclusive
01:07:03não tem
01:07:03é nós por nós
01:07:04entendeu
01:07:05próximo livro
01:07:07lógico
01:07:08a gente
01:07:08tem um dinheirinho
01:07:09guardado
01:07:10por conta
01:07:11de venda
01:07:11de livros
01:07:12
01:07:12então facilita
01:07:13da gente
01:07:13fazer o próximo
01:07:15livro
01:07:15mas é do zero
01:07:17agora
01:07:17praticamente do zero
01:07:18que a gente vai começar
01:07:18a fazer o 46
01:07:20entendeu
01:07:21quilomboge
01:07:22serviu de paradigma
01:07:23para publicações
01:07:24negras
01:07:25e além
01:07:26de servir
01:07:27de paradigma
01:07:28quilomboge
01:07:29despertou desejos
01:07:31sem o coletivo
01:07:33sem o conjunto
01:07:34e a Conceição Ivaís
01:07:36fala a mesma coisa
01:07:36sem o conjunto
01:07:37sem ali
01:07:38eu não estou aqui
01:07:41ninguém é sozinho
01:07:43
01:07:43e quilomboge
01:07:44também eu acho
01:07:45que deu a grande lição
01:07:47de uma práxis quilombola
01:07:49quer dizer
01:07:50o próprio nome
01:07:51quilomboge
01:07:53já é
01:07:54já é
01:07:55muito simbólico
01:07:57
01:07:57eu penso assim
01:07:59são duas
01:08:00vertentes de pensamento
01:08:01eu sou o melhor
01:08:03isso aqui
01:08:04é sistema capitalista
01:08:05o que a gente fez
01:08:06foi quilombo
01:08:07quilombo hoje
01:08:08nós somos
01:08:09e levamos o outro
01:08:11também
01:08:12tá certo
01:08:13que tem uma história
01:08:14assim
01:08:15toda escritor
01:08:15é vaidoso
01:08:16
01:08:16nós somos vaidosos
01:08:18o artista é vaidoso
01:08:19mas
01:08:19a sua política
01:08:21de levar o outro
01:08:25é diferente
01:08:26sabe
01:08:27eu acredito até
01:08:28que o culto reconhece isso
01:08:29que o meu mérito
01:08:30foi permanecer
01:08:32nesse ambiente
01:08:32desde o começo
01:08:34até hoje
01:08:35não dá mais
01:08:35pra manter
01:08:36as ilusões
01:08:37que Gilberto Freire
01:08:40criou
01:08:41para a mentalidade
01:08:44brasileira
01:08:46não dá mais
01:08:47pra acreditar
01:08:48no brasileiro cordial
01:08:50e pessoas
01:08:52são fundamentais
01:08:53na história
01:08:55da literatura
01:08:56brasileira
01:08:56e da literatura
01:08:59negro brasileira
01:09:01você não estuda
01:09:02literatura
01:09:02negro brasileira
01:09:03sem passar
01:09:04por quilombo hoje
01:09:05e por cadernos negros
01:09:18há duzentos mil anos atrás
01:09:25surgiu no coração
01:09:27uma espécie muito esquisita
01:09:32essa espécie
01:09:36ganhou
01:09:37todo o planeta
01:09:39e hoje
01:09:41e hoje
01:09:43conta
01:09:43com oito bilhões
01:09:49de pessoas
01:09:50e essa espécie
01:09:53está quase
01:09:55destruindo a sua própria casa
01:09:59essa espécie
01:10:01essa espécie
01:10:02está quase
01:10:03se matando
01:10:05uns aos outros
01:10:06de uma forma
01:10:08a exterminar
01:10:09todo mundo
01:10:11e inclusive
01:10:12as outras espécies
01:10:14mas
01:10:16essa espécie
01:10:17tem algo
01:10:18muito especial
01:10:20essa espécie
01:10:22chegou até aqui
01:10:23porque
01:10:25ela
01:10:27é aquela espécie
01:10:30onde
01:10:32os indivíduos
01:10:34colaboram
01:10:36uns
01:10:37com os outros
01:10:38cadernos negros
01:10:42é
01:10:43colaboração
01:10:44e colaboração
01:10:46para
01:10:48a melhoria
01:10:49da nossa espécie
01:10:53eeey
01:10:54essa é
01:10:57pros negros
01:10:57das antigas
01:10:58hein
01:10:58época do
01:11:02black power
01:11:03época das
01:11:05calça
01:11:05boca de sino
01:11:06época da
01:11:08função né
01:11:08anos 90
01:11:10anos 80
01:11:11maravilha
01:11:12
01:11:13pitil
01:11:13ó
01:11:14é som de preto
01:11:15do gueto
01:11:16de milianos
01:11:17e os negros
01:11:18velhos que ouvem
01:11:19já sai dançando
01:11:20arrasca o pé
01:11:21igual lá nos anos 70
01:11:22se depender de nós
01:11:24a moda vai voltar
01:11:25um, dois, três, quatro
01:11:27volta faz o passo
01:11:28só no sapatinho
01:11:29e ninguém
01:11:30sai do compasso
01:11:31funk original
01:11:32tem um significado
01:11:33é quando os negros
01:11:35deixam aí
01:11:35ficar suado
01:11:36essa é pros irmãos
01:11:38do punk show
01:11:39essa é pros irmãos
01:11:41de milianos
01:11:42essa é pros irmãos
01:11:43black power
01:11:45essa é pros irmãos
01:11:46são os brothers
01:11:47um, dois, três, quatro
01:11:49volta faz o passo
01:11:50todo mundo
01:11:51junto e ninguém
01:11:52sai do compasso
01:11:53um, dois, três, quatro
01:11:54volta faz o passo
01:11:56todo mundo
01:11:57junto e ninguém
01:11:57sai do compasso
01:11:58DJ1
01:11:59lida o pé
01:12:00a um mix
01:12:00sério
01:12:00toca disco
01:12:01aumenta o volume
01:12:03porque os pretos
01:12:03gostam disso
01:12:04sente a energia
01:12:05do balanço
01:12:06que vem das carnes
01:12:07dança do jeito
01:12:08levanta e depois
01:12:09abaixa
01:12:10flashback
01:12:11floreado
01:12:12melodia
01:12:12só se ouve hoje
01:12:14nos bailes de nostalgia
01:12:15cantar pra espalhar o axé
01:12:21DJ1
01:12:22cantar pra espalhar o axé
01:12:39DJ1
01:12:40cantar pra espalhar o axé
01:12:42vem todo mundo
01:12:43comigo
01:12:43cantar pra espalhar o axé
01:12:45
01:12:45
01:12:47cantar pra espalhar o axé
01:12:49vamos lá pro hall
01:12:50pessoal
01:12:50cantar pra espalhar o axé
01:12:52
01:12:53
01:12:54cantar pra espalhar o axé
01:12:57canta pra espalhar o axé
01:12:59
01:13:00
01:13:01cantar pra espalhar o axé
01:13:03vamos devagarinho
01:13:04ô cunhê
01:13:05cantar pra espalhar o axé
01:13:06
01:13:07
01:13:08cantar pra espalhar o axé
01:13:10Até o Tóbalo Aê
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