- há 17 horas
O documentário A Última Abolição aborda a escravidão no Brasil com especial enfoque no período da abolição, destacando os movimentos abolicionistas, a resistência escrava, o papel das mulheres negras na resistência, as discussões da elite do país no período, culminando com a assinatura da Lei Áurea e suas consequências para a população negra do Brasil pós-abolição aos dias de hoje.
Categoria
📚
AprendizadoTranscrição
00:00:25Legenda Adriana Zanotto
00:00:59Legenda Adriana Zanotto
00:01:25Legenda Adriana Zanotto
00:01:34A escravidão não é o lugar de origem das pessoas negras.
00:01:41A gente precisa exercitar a capacidade de imaginar o passado
00:01:47também a partir do sentimento da experiência da liberdade.
00:01:52Essa segue sendo uma pauta para a população negra ainda hoje.
00:01:56Como a gente constrói sentidos de liberdade que representem as nossas agências, os nossos desejos, os nossos projetos.
00:02:04Isso estava lá no 14 de maio de 1888 e isso pode ser pensado a partir de várias perguntas.
00:02:15Por exemplo, o que aconteceu com a população negra após a assinatura da Lei Áurea?
00:02:21Para onde essas pessoas tantas foram? O que fizeram? Como se organizaram?
00:02:27Como criaram sentidos para essa ideia de liberdade sob um ponto de vista negro?
00:02:35O estado de anomia em que nós fomos lançados com o processo de abolição é a lei de está extinta
00:02:45a abolição, ponto e vocês que se virem.
00:03:06Esses escravos que desembarcaram eram também guerreiros.
00:03:11O escravo vindo depois de uma viagem de dois, dois meses e meio no porão de um navio, enfraquecido, esquálido.
00:03:20Enfraquecido pela falta de água, pela falta de comida, pelas condições higiênicas as piores possíveis.
00:03:26Convivendo ali com o vômito, com o sangue, com a urina, com a merda.
00:03:31Com pessoas que morriam e ficavam lá dentro.
00:03:34Era um negócio absolutamente dantesco.
00:03:39Entendeu? Era uma coisa indescritível.
00:03:43Tanto que os que sobreviveram eram os mais fortes.
00:03:45E você desembarca e...
00:03:48Eu não diria que imediatamente, mas pouco depois estavam envolvidos numa revolta.
00:03:53Isso diz muito do tratamento que eles recebiam.
00:03:56Sobretudo os que chegavam, porque eles tinham que ser domados para serem bons escravos.
00:04:12Também era um tempo onde as penas cruéis estavam, as penas de tortura mesmo.
00:04:18A pessoa não era condenada à sua morte, podia não ser escravizada.
00:04:21Ela era condenada a ter todos os braços quebrados, depois as pernas, tinha que morrer em quatro horas.
00:04:27Mas essa era a pena.
00:04:28Então é uma sociedade onde o castigo exemplar, a crueldade, tinha um outro lugar do que ele vai ter para
00:04:37a gente hoje em dia.
00:04:37Então essa primeira polêmica é se essa crueldade e essa desumanização do escravo o aniquilava psicologicamente.
00:04:45O escravo ficaria tão destruído psicologicamente que ele perderia a capacidade de agir.
00:04:54Então você tem todo um estudo sobre esse escravo que resiste, age.
00:05:01E aí é uma outra discussão se ele só resiste quando ele foge, quando ele faz um levante, quando ele
00:05:07faz uma insurreição,
00:05:08quando mata o senhor ou mata ou faz uma rebelião na Vila Negreira.
00:05:12Se ele resiste também quando ele se apropria da cultura senhorial, recria a sua religião de matriz africana,
00:05:19forma novos afetos, cria novas relações familiares, imprime suas heranças culturais.
00:05:27Pensar a subjetividade desse ser escravizado, mesmo numa sociedade colonial,
00:05:33mesmo numa sociedade onde a violência era naturalizada, mas sempre naturalizada para o outro.
00:05:38O castigo exemplar é isso, é algo que você foge de todas as maneiras.
00:05:42A historiografia dos últimos 20 anos tem mostrado outras formas de resistir.
00:05:48Por exemplo, mulheres que vão acumular dinheiro e ao invés de comprar a alforria delas,
00:05:54compram a alforria dos filhos mais novos, principalmente das meninas.
00:05:58Porque se a escravidão é reproduzida pelo ventre, o vento mais novo, livre, vai produzir menos escravos.
00:06:05Então é melhor libertar uma menina do que uma mulher já mais velha, que de repente já passou da fase
00:06:11produtiva.
00:06:12Então essa mulher só vai libertar ela, libertar uma menina, libertar menina e todas as gerações posteriores.
00:06:19Quer dizer, o africano tinha essa visão do mundo da escravidão, conseguia fazer essas leituras.
00:06:26E com essas leituras, eles iam protagonizando perspectivas bastante engenhosas para resistir a esse modelo cruel que foi a escravidão.
00:06:38Tem muitos estudos que mostram que o sentido da liberdade era, muitas vezes, você se mudar para longe das propriedades,
00:06:50de onde você tinha sido escravo, justamente para você poder romper esses laços de dependência que foram profundamente construídos durante
00:07:02a escravidão.
00:07:03Então você rompe com os laços de dependência senhorial e migra.
00:07:07Muitos escravos migraram logo após a abolição.
00:07:11E para outros também, muitas vezes, o sentido da liberdade era poder manter a propriedade, poder manter a roça, poder
00:07:21manter a criação, poder manter essas relações que foram estabelecidas ali,
00:07:30que ele tenha algum ganho, algum benefício e conseguir manter esses benefícios.
00:07:34A abolição aqui aconteceu em doses homeopáticas.
00:07:37Ao longo da história da escravidão no Brasil, muito mais gente, muito mais escravos foram alforreados, através de negociações com
00:07:49seus senhores,
00:07:51do que os setecentos e tantos mil que foram os chamados libertos do 13 de mar.
00:08:00As vésperas da abolição, por exemplo, houve um movimento em todo o Brasil de senhores libertando, alforreando seus escravos,
00:08:12porque já sabiam que a abolição iria acontecer.
00:08:17Então, alforreavam em troca desses escravos permanecerem nas fazendas, nos engenhos, sobretudo nas fazendas do sul, de café,
00:08:26para pelo menos garantirem o trabalho, a mão de obra da próxima alforração.
00:08:30Então, houve muitas alforrias desse tipo.
00:08:33Essas alforrias aconteceram porque os senhores viram que o movimento dos próprios escravos estava crescendo.
00:08:45Fugas, por exemplo, em massa aconteceram às vésperas da abolição.
00:09:04O movimento abolicionista que vem da senzala, ele se perde no tempo, no recuo do tempo.
00:09:21Mas não com esse discurso de liberdade moderno.
00:09:33Palmares, vamos pegar Palmares, ou todos os quilombos.
00:09:37Muitos quilombos, aliás, eram temporários e nem existia, na ideia dos quilombolas,
00:09:44uma perspectiva de abolição ou mesmo até de liberdade deles próprios.
00:09:50Muitas vezes o escravo fugia para o quilombo, ficava lá algum tempo e depois voltava para o senhor.
00:09:55Porque a vida no quilombo não era um mar de rosas também.
00:09:59Mas pegamos assim, o quilombo emblemático, modelo Palmares.
00:10:06Foi um quilombo que durou quase 100 anos.
00:10:09Lá existia uma sociedade estabelecida com hierarquias de poder, hierarquias sociais, etc.,
00:10:20onde a escravidão tinha sido basicamente abolida.
00:10:26É anacrônico, na verdade, dizer que Palmares foi abolicionista,
00:10:32porque a ideia do abolicionismo é a ideia do final do século XVIII,
00:10:38que vem em etapas.
00:10:41Começa, por exemplo, com a campanha contra a abolição do tráfico,
00:10:46capitaneada pela Inglaterra, ou por abolicionistas ingleses,
00:10:50que acreditavam no trabalho livre,
00:10:53mas sabiam que se teria que, primeiramente, vencer a etapa do tráfico.
00:11:00Os abolicionistas se concentraram em competições ao parlamento,
00:11:06com fazer a cabeça da população inglesa,
00:11:10com a penetração nos movimentos dos trabalhadores e de mulheres.
00:11:17Muito importante o papel das mulheres abolicionistas inglesas também nisso.
00:11:22E a ideia de abolir o tráfico veio quando a Inglaterra era o maior país traficante.
00:12:06Os estudos mostram que, quando vai chegando perto dos anos da abolição,
00:12:12mesmo desde a década de 80,
00:12:15começa a haver um acirramento muito grande
00:12:17das lutas escravas pela abolição da escravidão.
00:12:22Então, é um momento que é muito tenso,
00:12:23é um momento de muita pressão social,
00:12:25é um momento de muita reação do governo imperial a essa pressão social.
00:12:31A gente tem uma reação muito conservadora na década de 80,
00:12:36então, isso acirra as tensões daquele período.
00:12:43O grande marco do abolicionismo no século XVIII foi a Revolução do Haiti,
00:12:51a única abolição do sistema escravista que resultou de uma revolução escrava,
00:12:59que começou em 1791 e foi até 1804,
00:13:04quando o Haiti, que era a colônia europeia nas Américas,
00:13:10mais rica, que mais produzia, que mais vendia açúcar,
00:13:16também tinha café, muito importante, algum algodão.
00:13:22E quando houve a Revolução em 1791, bum, caiu.
00:13:27Entendeu?
00:13:28Os franceses perderam a colônia mais rica que tinham.
00:13:32E é por isso, aliás, que o açúcar volta a crescer no Brasil,
00:13:37porque vivia um século de crise, mais ou menos.
00:13:41Tem um jogo que é assim, os abolicionistas, os escravistas dizem,
00:13:47se a gente fizer uma libertação em massa dos escravos,
00:13:50ou deixar os abolicionistas fazerem o que eles quiserem,
00:13:52nós vamos ter aqui o Haiti, uma revolução que deu em anarquia.
00:13:57É um país que depois não funciona, além de ter derramamento de sangue, etc.,
00:14:01é um país que não deu certo.
00:14:03E os abolicionistas, por seu lado, rebatem fazendo o raciocínio inverso.
00:14:09Eles dizem assim, bom, se nada for feito,
00:14:14a gente vai chegar ou a uma situação como a do Haiti,
00:14:18de uma revolta, ou a uma situação como a dos Estados Unidos,
00:14:22uma guerra civil na qual o país se divide em duas partes e guerreia entre si.
00:14:27O medo das elites a respeito da revolução do Haiti
00:14:32não é simplesmente pela possibilidade de um levante de escravizados.
00:14:37Há um medo, inclusive, de uma articulação entre livres e escravizados,
00:14:42pautado numa identidade racial, uma identidade étnica ou de origem,
00:14:47que poderia pôr a perder vários projetos de sociedades escravistas,
00:14:55inclusive projetos de nação que não incorporavam essa população.
00:14:59E isso vai sendo, de certa forma,
00:15:03incorporado como um repertório dessas experiências negras
00:15:09que estariam, então, alimentando essa chama,
00:15:14que foi o modo como a luta abolicionista no Brasil se tornou,
00:15:20como dizem alguns, o primeiro movimento social de caráter popular no Brasil.
00:15:38Em 1857, aconteceu uma greve,
00:15:43que foi a primeira greve geral de um setor da economia urbana
00:15:49acontecida no Brasil.
00:15:52uma greve de ganhadores,
00:15:54que eram principalmente aqueles que carregavam mercadorias,
00:16:00que carregavam pessoas em cadeirinhas,
00:16:03de arruar chamadas.
00:16:05Esses ganhadores entraram em greve por causa de uma lei da Câmara,
00:16:08que obrigava eles a se registrar e a pagar um imposto.
00:16:12Para eles terem uma licença, eles teriam que carregar
00:16:14uma placa de metal com o número do registro.
00:16:17Os senhores foram contra,
00:16:19que era mais uma intervenção governamental nas relações
00:16:22e, naturalmente, os escravos também.
00:16:26E os libertos,
00:16:28porque escravos libertos trabalhavam ombro a ombro,
00:16:31juntos, como negros de ganho.
00:16:34A diferença era que um ficava com tudo o que ganhava
00:16:37e o outro tinha que dividir com o senhor.
00:16:40Os ganhadores se recusaram a usar,
00:16:42porque diziam,
00:16:44eles não eram bestas de carga para andarem com uma plaquinha.
00:16:48já buscavam as marcas de chicote e outras marcas,
00:16:54das doenças, das varíolas da vida,
00:16:57coisas que eles vieram adquirir aqui em seu corpo,
00:17:00cheio de significações étnicas também,
00:17:03mas aquilo era uma intervenção sobre o corpo africano,
00:17:07que era considerado um espaço sagrado também,
00:17:10que eram muitas vezes invadidos,
00:17:13porque eles eram escravos,
00:17:14ou pela polícia,
00:17:16mas no que eles pudessem, eles resistiam.
00:17:20Aquilo ia ser colocado, aquela placa,
00:17:22ao lado dos escolares que identificavam
00:17:25aqui ao que orixá o fulano pertencia.
00:17:28Então eles resistiram.
00:17:30Foi uma greve que durou uma semana.
00:17:45Me vem a história da Revolta do Vintém,
00:17:49na virada do ano de 1879 para 80,
00:17:53que, para além de um acréscimo aparentemente pequeno
00:17:59no preço da passagem do bonde,
00:18:02havia um cenário em que o governo imperial
00:18:05estava fechando escolas noturnas,
00:18:08aumento do preço dos alimentos,
00:18:10havia um acirramento do controle policial
00:18:14da população na rua,
00:18:16e isso era algo que não só a elite vivenciava,
00:18:21a elite tida como aqueles que têm acesso
00:18:24aos meios de transporte na época e tudo,
00:18:26mas também uma parcela da sociedade
00:18:28formada por trabalhadores.
00:18:31E numa cidade como o Rio de Janeiro,
00:18:33em boa parte, trabalhadores negros.
00:18:36Então essas pessoas vão entrar numa agitação popular
00:18:42que vai ser decisiva para que se molde
00:18:45uma experiência de luta política popular
00:18:50pelo fim da escravidão ao longo da década de 80.
00:18:53A revolta do Vintém é vista como uma espécie de laboratório
00:18:59dessas agitações populares da década de 80
00:19:02na cidade do Rio de Janeiro.
00:19:07Eu acho que a gente precisa pensar sobre as memórias
00:19:10que foram construídas sobre a abolição.
00:19:12E se a gente vai analisar essas memórias bem de pertinho,
00:19:17a gente vai ver que muitas dessas memórias
00:19:20resguardou algum lugar para alguns abolicionistas negros,
00:19:23como José do Patrocínio, como Luiz Gama,
00:19:28mas invisibilizou um monte de gente
00:19:30que estava patalhando pelo fim da escravidão
00:19:32de uma maneira muito distante, às vezes,
00:19:37da grande política, digamos assim.
00:19:40Então eu acho que o cara que está ali
00:19:42distribuindo jornais,
00:19:44o cara que reunia gente numa tenda de sapateiro,
00:19:49gente que escondia escravos fugidos,
00:19:53eles ainda são muito anônimos
00:19:56na história do Brasil e na própria história da abolição.
00:19:59E eu acho que esse anonimato é perverso,
00:20:03não só comemora desses sujeitos,
00:20:05mas ele tira da gente a possibilidade de pensar
00:20:09como a mobilização de gente comum,
00:20:12como a mobilização de pessoas como nós,
00:20:17ela é fundamental para a mudança,
00:20:19para a transformação das sociedades.
00:20:27Há uma narrativa oficial
00:20:30que coloca o movimento abolicionista no singular
00:20:35como uma ação da elite para a elite com a elite.
00:20:41A observação da luta abolicionista
00:20:44a partir vista de baixo,
00:20:47ela vai nos ajudar a perceber
00:20:50que existiram vários projetos abolicionistas.
00:20:53E o que isso significa?
00:20:55Significa perceber que a luta pela liberdade,
00:20:59ela foi vivenciada a partir não só dos projetos de uma elite
00:21:05para controlar e até, se possível fosse,
00:21:09eliminar essa presença africana,
00:21:12essa presença dos descendentes de africanos no Brasil.
00:21:15Essas pessoas, elas tanto se entendiam como parte
00:21:19e participantes desse país,
00:21:22que elas se lançaram na luta contra a escravidão
00:21:25e até pelo respeito aos direitos,
00:21:28de formas que são ainda negligenciadas.
00:21:38Nós falamos do genocídio nazista,
00:21:41do extermínio de 6 milhões de judeus
00:21:45e devemos falar sempre,
00:21:47porque isso não pode ser esquecido,
00:21:50o holocausto não pode,
00:21:52mas nós não falamos tanto do holocausto africano,
00:21:56do holocausto dos negros,
00:21:58o que nós sofremos nesses 350 anos.
00:22:03Então, existem os crimes praticados por eles,
00:22:05que foram crimes contra a humanidade,
00:22:07e existem os crimes praticados pelos escravos,
00:22:10que, em verdade, foram atos de legítima defesa
00:22:12da sua própria vida, da sua própria honra,
00:22:15da sua própria dignidade.
00:22:17Muitos, portanto, que foram levados aos tribunais
00:22:21deveriam ser absolvidos por legítima defesa,
00:22:24estados de necessidade,
00:22:26mas não foram.
00:22:27Foram punidos severamente em processos sumários
00:22:31que duravam semanas, às vezes um mês,
00:22:36e levados à forca.
00:22:38Isso também não pode ser esquecido.
00:22:40Por isso que Rui Barbosa,
00:22:42eu faço sempre um tributo a Rui Barbosa,
00:22:44porque ele foi acusado de queimar a história da escravidão
00:22:49quando era ministro da Fazenda e Negócios Interiores.
00:22:52Mas, errado, ele não queimou a história da escravidão.
00:22:57Ele queimou as notas fiscais de compra e venda de escravos
00:23:03para que o barão de Cotegipe, o José Vanderlei,
00:23:07que era um senador pelo Estado da Bahia,
00:23:09num discurso emocionado do Senado,
00:23:13ele queria que o Estado brasileiro
00:23:15indenizasse os senhores de engenho.
00:23:18O barão de Cotegipe queria.
00:23:19E Rui Barbosa perguntou,
00:23:21mas como o senhor vai fazer isso?
00:23:23Nós temos as notas fiscais de compra e venda
00:23:27e vamos provar que fomos lesados,
00:23:29porque eu comprei uma coisa, o escravo,
00:23:31o Estado vende e diz,
00:23:33isso não é mais possível, a escravidão.
00:23:35E eu perdi essa coisa, então tem que ser indenizado.
00:23:38Rui Barbosa pegou as notas fiscais e queimou.
00:23:41Ele não queimou a história,
00:23:42a história está aí nos museus,
00:23:44nas bibliotecas, enfim.
00:23:46Ele queimou as notas fiscais
00:23:48para impedir que as pessoas,
00:23:51no caso o barão de Cotegipe,
00:23:53iria fazer um grande movimento nesse sentido,
00:23:55entrassem com ações de indenização contra o Estado.
00:23:58E disse,
00:23:59se alguém tem que ser indenizado,
00:24:02esse alguém são os escravos.
00:24:06Os primeiros bancos,
00:24:08as primeiras instituições financeiras do Brasil,
00:24:11Banco do Brasil,
00:24:13Caixa Econômica Federal,
00:24:14são instituições financeiras que surgem
00:24:17neste período por conta,
00:24:19digamos, da ociosidade
00:24:21e da necessidade de aplicação desse capital,
00:24:24que não seria mais utilizado
00:24:26no comércio e no tráfego de mão de obra escrava.
00:24:29Então, a escravidão era altamente lucrativa.
00:24:32Podia-se, os senhores de escravos,
00:24:35os donos dos navios negreiros,
00:24:37se davam ao luxo, por exemplo,
00:24:39de jogar a carga ao mar
00:24:41toda vez que avistassem a polícia britânica,
00:24:45os navios britânicos que estavam vigiando os mares.
00:24:49Então, era lucrativo jogar toda a carga ao mar
00:24:52do que receber as multas impostas pela Inglaterra.
00:24:56A primeira falência do Banco do Brasil
00:24:58foi exatamente por isso,
00:25:00com a libertação dos escravos.
00:25:03Toda a garantia pignoratista,
00:25:07a garantia de bens,
00:25:08a garantia das coisas que garantiam
00:25:11os contratos que o banco fazia,
00:25:14eram os negros que foram libertados.
00:25:16E o Rui Barbosa queimou uma parte dos contratos.
00:25:20Então, o Banco do Brasil faliu.
00:25:28É uma população que viveu um dos mais difíceis,
00:25:34mais duros processos históricos
00:25:36dos mundos do trabalho já existentes.
00:25:38Após 350 anos,
00:25:41em que tudo que você faz,
00:25:43tudo, você contrata, compra ou aluga um escravo.
00:25:48As casas, as casas de famílias pobres que tinham escravos,
00:25:52uma vez essa família, quem trabalhava,
00:25:54a única pessoa, era uma senhora velha,
00:25:56uma mulher com filho,
00:25:58a única pessoa que ia para a rua trabalhar era o escravo.
00:26:01Vender vassoura, vender não sei o quê,
00:26:03escravo ou escravo.
00:26:04E, em 1950, vem a notícia de que realmente vai acabar o tráfego.
00:26:08Vai acabar?
00:26:09Vai, porque os caras agora estão mais duros.
00:26:12A marinha está aí, correndo atrás,
00:26:14os ingleses também, correndo atrás de navios.
00:26:16Vai acabar.
00:26:17A galera, vai acabar, o que a gente vai fazer?
00:26:19Quem é que a gente vai contratar?
00:26:21Quem vai substituir?
00:26:23Está se criando formas diversas de relações de trabalho.
00:26:28Está se libertando escravo para ser uma liberdade condicionada.
00:26:32Ó, você está livre.
00:26:35Você, a partir de hoje, vai no cartório, você está livre.
00:26:38Sob a condição de me servir até a morte.
00:26:43Muitas senhoras fazem isso,
00:26:45para não passarem a morrerem sóis.
00:26:48Então, depois que elas morrem,
00:26:49aí o escravo realmente não deve mais nada.
00:26:51A gente tem uma sequência de leis que acontecem.
00:26:55A primeira lei de tentativa de fim do tráfico,
00:26:57que é de 1831,
00:26:59que aí a gente tem o hábito de dizer
00:27:02que é a lei que não pegou,
00:27:03que é um pouco nossa, de brasileiro,
00:27:07de falar que uma lei pegou ou não pegou,
00:27:08a de 1831 seria o caso.
00:27:10Ela não pegou.
00:27:11A Inglaterra, por entender que essa lei não pegou,
00:27:14ela se dá o direito de, com a sua marinha,
00:27:17começar a interpelar os barcos
00:27:20que faziam esse tráfico
00:27:22para impedir, libertar esses negros
00:27:24e prender aqueles que estivessem fazendo esse tipo de transporte.
00:27:29E aí a gente tem um desenvolvimento de leis
00:27:32que vão nesse sentido
00:27:33até a gente chegar à Lei Eusébio de Queiroz,
00:27:35que é a lei que, enfim, vai proibir o tráfico.
00:27:45A e-mail que sou um pacto
00:28:08é a lei que está a metade.
00:28:17O Brasil se comprometia, enquanto ordem liberal,
00:28:22mantinha a escravidão como instituição histórica,
00:28:26mas ele se comprometia a terminar com o tráfico negreiro.
00:28:30Ora, se você termina com o tráfico negreiro,
00:28:32uma sociedade que tem um acesso relativo à alforria,
00:28:36um dia, ainda mais se você bastava fazer uma lei do ventre livre
00:28:40ou dar algum estímulo à alforria,
00:28:44que você colocaria um horizonte para a instituição desaparecer,
00:28:49um horizonte mesmo que recuado no tempo.
00:28:51Eles não vão cumprir, vai se montar toda uma economia.
00:28:55O Brasil é um país de contrabandistas, nasce assim.
00:28:59Isso também é uma memória que nunca foi cultuada,
00:29:02nunca foi... sempre se fez muito pouca pesquisa
00:29:06sobre a importância dessa estrutura,
00:29:08uma estrutura que é inventada da noite para o dia,
00:29:13mas pelo menos 750 mil pessoas vão chegar em menos de 20 anos
00:29:19e toda a economia cafeeira,
00:29:21que é a base da economia brasileira no Segundo Império,
00:29:27ela é montada em cima dessa ilegalidade.
00:29:43O Luís Gama começa a aparecer como uma pessoa pública
00:29:47no final de 1850.
00:29:49Em 59, ele vai publicar o livro
00:29:51Primeiras Trovas, Bulhescas e Getulina.
00:29:54Como é que surge um Luís Gama literato?
00:29:57Ele sai da escravidão através da educação.
00:30:02A educação, para mim, a instrução formal,
00:30:06aprender a ler e aprender a escrever,
00:30:08para mim foi fundamental para a gente entender quem é Luís Gama.
00:30:12Ele aprende a ler e a escrever com um estudante
00:30:17que está hospedado na casa do senhor dele.
00:30:20A partir disso, ele consegue provar na justiça
00:30:24que é filho de africana livre,
00:30:27portanto, ele é filho de ventre livre,
00:30:29ele seria um homem livre,
00:30:31teria sido injustamente escravizado,
00:30:33e vai e entra para a polícia,
00:30:36vai assentar a praça.
00:30:37O fato dele ser um homem alfabetizado,
00:30:41num ambiente onde o analfabetismo reinava,
00:30:47abre portas para ele dentro da própria polícia.
00:30:50ele vai se tornar um escrivão,
00:30:53na verdade, antes de se tornar um escrivão,
00:30:56ele vai se tornar um copista.
00:30:58Esse contato dele com as leis,
00:31:00com a delegacia, com os escravos,
00:31:03isso acaba levando o Luís Gama a entender
00:31:07que esse caminho do direito
00:31:10era um caminho possível,
00:31:13promissor, de luta pelos escravos.
00:31:16O Luís Gama disse que conseguiu libertar na justiça
00:31:19mais de 500 escravos.
00:31:23Pode parecer pouco, mas não é,
00:31:26porque a atuação dele foi de 1869,
00:31:31e ele morre em 1882.
00:31:53Esses abolicionistas negros,
00:31:55eles têm especificidades
00:31:58que ainda têm sido bastante negligenciadas.
00:32:01No início da década de 1880,
00:32:04para esse eixo Rio-São Paulo,
00:32:05havia duas pessoas muito importantes.
00:32:10No Rio de Janeiro,
00:32:12era o Ferreira de Menezes,
00:32:13e em São Paulo, era o Luís Gama.
00:32:16Nesse momento, o José do Patrocínio
00:32:18ainda não era a figura mais famosa,
00:32:22ainda que ele já estivesse ganhando
00:32:25popularidade, expressividade.
00:32:27Ferreira de Menezes,
00:32:28um jovem, filho de Liberto,
00:32:32depois de ter conseguido, inclusive,
00:32:34estudar numa escola alemã,
00:32:36ele consegue passar nos exames do Largo de São Francisco
00:32:42e vem para São Paulo fazer faculdade de Direito.
00:32:47Ao chegar nessa cidade, que era um ovinho,
00:32:50ele encontra várias pessoas,
00:32:53e entre essas pessoas que ele conhece
00:32:55está o Luís Gama.
00:32:58Alguém que já nesse momento
00:33:00estava desenvolvendo um discurso
00:33:03de bastante radicalidade contra a escravidão.
00:33:06o Joaquim Nabuco, de um lado,
00:33:09que era um nobre, basicamente,
00:33:12um homem branco, intelectual,
00:33:14que advogou a causa da abolição
00:33:17e foi muito importante no parlamento para isso.
00:33:20Foi muito importante tudo o que ele escreveu
00:33:22sobre a questão da abolição.
00:33:25E o patrocínio, de um lado,
00:33:26que era um homem do povo.
00:33:29Era um empresário, um jornalista,
00:33:32um cara que veio dessa condição da escravidão,
00:33:35porque a mãe, Justina, era escrava,
00:33:40em Campos, que é a cidade natal dele.
00:33:44Então, eles conseguiam fazer essa coligação
00:33:49do que era popular e do que era,
00:33:52vamos dizer assim, o extrato da política.
00:33:56Mas há um elo entre esses dois
00:33:58que fica muito fora,
00:34:01que é o André Rebouças.
00:34:03André Rebouças era o pensador.
00:34:07Ele, se a abolição fosse conduzida
00:34:10pelo André Rebouças,
00:34:11ela não seria o que é hoje
00:34:14toda essa situação do negro brasileiro hoje.
00:34:17Porque ele fez projetos de escola,
00:34:21de reforma agrária.
00:34:23Então, André Rebouças,
00:34:24quando sentavam esses homens,
00:34:28e André Rebouças foi quem sensibilizou
00:34:30a princesa Isabel, a família imperial,
00:34:32pela causa da abolição.
00:34:34É um engenheiro com cabeça de empresário
00:34:37que vai levar isso mais para frente
00:34:39e depois para o movimento abolicionista.
00:34:41Essa sua capacidade de articulação
00:34:43é alguém que está no meio
00:34:44de grandes personalidades,
00:34:48grandes vultos da elite nacional e carioca.
00:34:51Com esse projeto ambicioso,
00:34:52o André vai ser atacado.
00:34:59Como é que eu entendo o André Rebouças
00:35:01da reforma agrária,
00:35:03o André Rebouças da educação?
00:35:05Diante desse panorama,
00:35:07de uma escravidão,
00:35:09de um tráfico que vai acabando gradativamente,
00:35:11o André Rebouças, primeiro,
00:35:12ele está pensando numa reforma agrária
00:35:15justamente para que não se encerre esse processo
00:35:17simplesmente com abolição,
00:35:19é necessário.
00:35:20Era uma frase do André Rebouças,
00:35:22quem possui a terra possui o homem.
00:35:24E aí, se eu não realizar
00:35:26uma distribuição de terras
00:35:28em pequenas propriedades,
00:35:29que é o que ele previa
00:35:30numa obra chamada Agricultura Nacional,
00:35:32eu não vou conseguir
00:35:33dar chances a esses escravos
00:35:36que foram libertos.
00:35:37E eles vão ser libertos
00:35:40de um determinado estatuto de escravidão,
00:35:42mas vão ser inseridos
00:35:44em outros mecanismos de controle
00:35:45que não permitem
00:35:47que eles
00:35:51adquiram cidadania,
00:35:52que eles sejam inseridos nessa sociedade.
00:36:05Onde foram parar esses homens
00:36:08depois que a escravidão acabou?
00:36:11E você encontra que o Joaquim Nabuco
00:36:13foi virar embaixador,
00:36:14o Rui Barbosa se tornou
00:36:15um dos principais homens da República,
00:36:18mas o José do Patrocínio
00:36:20começou a ser visto
00:36:21como um cara excêntrico,
00:36:24meio doido,
00:36:25o Luiz Gama morreu bem antes,
00:36:27e vários outros abolicionistas negros
00:36:30que não tinham tanta visibilidade
00:36:31na imprensa da época
00:36:33simplesmente somem de cena.
00:36:34Eu achei umas cartas trocadas
00:36:40entre o José do Patrocínio
00:36:42e o Rui Barbosa,
00:36:43e o José do Patrocínio
00:36:45pede proteção ao Rui Barbosa
00:36:46depois da abolição,
00:36:48porque ele diz que está sendo perseguido,
00:36:50ele não consegue trabalhar direito.
00:36:52Como assim o José do Patrocínio
00:36:54precisar de algum tipo de proteção
00:36:55depois da abolição?
00:36:56Ele tinha sido um dos maiores protagonistas
00:36:59da arena abolicionista,
00:37:01era uma liderança abolicionista.
00:37:03Então, a condição dele
00:37:05de ter sido alijado,
00:37:09e ele, inclusive, diz isso,
00:37:10que foi alijado depois da abolição,
00:37:12que foi marginalizado
00:37:13depois do 13 de maio,
00:37:16conta muito sobre esses planos
00:37:18para o depois da escravidão.
00:37:21Conta muito para os projetos
00:37:22que foram construídos
00:37:23por pós-abolição.
00:37:25A maioria desses projetos
00:37:26não defendiam a igualdade racial.
00:37:29E quando você vai ver, por exemplo,
00:37:30para os textos do Joaquim Nabuco.
00:37:33O que o Joaquim Nabuco está falando
00:37:35e da saudade que ele tem
00:37:37do tempo da escravidão
00:37:38é de que a escravidão
00:37:40deveria acabar,
00:37:42mas alguns lugares sociais,
00:37:45sócio-raciais,
00:37:46precisavam ser preservados.
00:37:48Por outro lado,
00:37:49você também vai ter projetos
00:37:51abolicionistas
00:37:52em que se imagina
00:37:55ou se planeja
00:37:56uma sociedade mais igualitária.
00:38:16Eu acho que se fala muito
00:38:18sobre essas mulheres
00:38:18porque elas são muitas
00:38:19quando a gente vai pesquisar.
00:38:21Elas pulam dos documentos,
00:38:22elas sambam em cima das palavras
00:38:24quando a gente vai ver.
00:38:26Você consegue enxergá-las assim.
00:38:28Eu chego a...
00:38:28Gente, eu estou muito delirante
00:38:30às vezes
00:38:30porque eu consigo ver
00:38:31essas mulheres se movimentando
00:38:33pela cidade
00:38:33e fazendo seus próprios planos
00:38:36de liberdade.
00:38:38Isso é tão vivo
00:38:41quando você estuda a história
00:38:43que a gente fica sempre
00:38:45tendo essa sensação
00:38:46de que há um descompasso
00:38:47entre essa participação
00:38:49dessas mulheres
00:38:49na vida pública
00:38:50porque a documentação
00:38:52que fala sobre os abolicionistas
00:38:55é uma documentação
00:38:56que tem a ver
00:38:56com a vida pública.
00:38:57Então, são os jornais,
00:38:59são os processos-crimes,
00:39:01é uma documentação
00:39:03de espaços dominados
00:39:05pelos homens.
00:39:06Entretanto,
00:39:07quando você vai olhar
00:39:08o cotidiano da cidade,
00:39:09são as mulheres
00:39:10que estão arquitetando
00:39:11e planejando
00:39:13sobre a liberdade.
00:39:15Isso por quê?
00:39:16Quando a gente olha
00:39:17a documentação policial.
00:39:18Então, as mulheres
00:39:19são muitas
00:39:20na documentação policial,
00:39:22dos registros policiais.
00:39:24Quando a gente olha
00:39:25as ações de liberdade,
00:39:26que era um tipo de ação
00:39:27de processo
00:39:28em que se requeria
00:39:30a alforria.
00:39:32Tem muitas mulheres
00:39:33que procuram um procurador,
00:39:35estabelecem um procurador
00:39:36e procuram,
00:39:38na justiça,
00:39:38garantir sua alforria.
00:39:40Encontram vários documentos
00:39:41de mulheres presas
00:39:42em samba
00:39:43comemorando a abolição.
00:39:45Imagina o que é isso?
00:39:46Quer dizer,
00:39:48há uma população feminina
00:39:49que celebrou
00:39:51dançando e bebendo
00:39:52a abolição
00:39:53e a polícia achou
00:39:54aquilo descabido.
00:39:57Tem um documento
00:39:58que eu encontrei
00:39:58que é muito engraçado.
00:39:59Toda vez que eu via,
00:40:00eu ria,
00:40:01que era um delegado
00:40:02de polícia
00:40:03que dizia assim,
00:40:04agora que são todos libertos,
00:40:06ele pedia informação
00:40:06ao chefe de polícia,
00:40:08ele dizia,
00:40:09agora que são todos libertos,
00:40:11que tipo de coisa
00:40:12eles podem fazer?
00:40:13O que é possível
00:40:14e permitido a eles?
00:40:15Ou seja,
00:40:16ele estava perguntando,
00:40:17até onde vai
00:40:18a liberdade dessa gente?
00:40:21Maria de Lourdes,
00:40:22Maria Isabel
00:40:23e tantas outras mulheres,
00:40:25a Maria Firmina dos Reis,
00:40:27autora do primeiro romance
00:40:28abolicionista
00:40:29da nossa história
00:40:30e que não é lembrada
00:40:31dessa forma,
00:40:32são mulheres que,
00:40:33independente do nosso querer,
00:40:34já possuíam
00:40:35suas próprias vozes.
00:40:37Então a discussão
00:40:38mais importante hoje,
00:40:39eu acho que não é
00:40:41o dar voz,
00:40:41mas é o conferir visibilidade.
00:40:43Há vozes que estão
00:40:46submersas,
00:40:46que estão no subterrâneo
00:40:47da história.
00:40:48E quando a gente
00:40:49confere visibilidade
00:40:50a essas vozes,
00:40:52incomoda.
00:40:53E por isso que
00:40:56as pessoas usam camisas,
00:40:58né,
00:40:59de
00:40:59a casa grande
00:41:00pira quando a senzala
00:41:02aprende a ler.
00:41:04Porque é trazer
00:41:04essas vozes
00:41:05para a superfície.
00:41:06E ao trazer
00:41:07essas vozes
00:41:08para a superfície,
00:41:09a cultura dos privilégios,
00:41:11ela não é
00:41:12automaticamente destruída,
00:41:14porque isso não é simples,
00:41:15mas ela é desestabilizada
00:41:16como única possibilidade.
00:41:18Eu sempre lembro
00:41:19da Beatriz Nascimento,
00:41:21que foi uma
00:41:23historiadora negra
00:41:24importante,
00:41:24que também não faz parte
00:41:26dos currículos oficiais
00:41:28de história do Brasil,
00:41:30não é uma mulher
00:41:30que a gente lê
00:41:31num curso de
00:41:32história do Brasil-República,
00:41:34isso não é por acaso,
00:41:36mas ela tem uma frase
00:41:38que para mim
00:41:38é canônica,
00:41:39de que a favela
00:41:40é o nosso grande quilombo.
00:41:42Então, pensar que a nossa
00:41:43história é feita
00:41:45de casa grande
00:41:47e quilombo
00:41:48é, em outras palavras,
00:41:49dizer que a gente,
00:41:50independente dos lugares
00:41:52que nos colocam,
00:41:54nós temos
00:41:55autonomia
00:41:56e intelecto
00:41:57o suficiente
00:41:57para criar
00:41:58os nossos próprios sentidos
00:42:00para os espaços
00:42:01que a gente ocupa.
00:42:03Então, a casa grande,
00:42:04por exemplo,
00:42:04ela não era só
00:42:05o lugar do servir,
00:42:07da subalternidade,
00:42:08da passividade,
00:42:09ela podia ser o lugar
00:42:10também do envenenamento
00:42:11dos senhores.
00:42:13E foi mesmo,
00:42:14em muitos casos.
00:42:16Porque existe
00:42:17todo um saber,
00:42:18para quem está
00:42:19circulando na cozinha,
00:42:21por exemplo,
00:42:21que é um saber específico
00:42:22de quem está
00:42:23na cozinha
00:42:24e que domina
00:42:25todos aqueles códigos
00:42:26de quantidade,
00:42:27do que pode ser combinado,
00:42:29do que não pode.
00:42:30Agora, o problema
00:42:31é que num país
00:42:32que naturaliza
00:42:33uma cultura de servidão,
00:42:35estar na cozinha
00:42:36não é pensado
00:42:37como um saber.
00:43:06Música
00:43:17Eu me lembro
00:43:18quando era criança,
00:43:19talvez tenha sido ali
00:43:20que eu resolvi
00:43:21pesquisar a abolição.
00:43:22Eu olhava
00:43:23para aquela única imagem
00:43:24colorida do meu livro
00:43:25de história,
00:43:26era aquela imagem
00:43:27da princesa Isabel
00:43:28com aquela pena de ouro.
00:43:30Eu adorava
00:43:30aquele negócio douradinho,
00:43:31eu ficava pensando,
00:43:32nossa,
00:43:33mas o que é que tinha sido isso?
00:43:34Era a única imagem
00:43:37colorida que eu tinha
00:43:37no meu livro,
00:43:38era aquela,
00:43:39né?
00:43:40E essa memória
00:43:42como algo que se deu,
00:43:43como algo que foi
00:43:46concedido,
00:43:47como algo que foi
00:43:49colocado,
00:43:50ou pelos abolicionistas,
00:43:51ou pela princesa Isabel,
00:43:53ou por quem quer que seja,
00:43:55é uma imagem
00:43:56tão poderosa,
00:43:57constitui de tal maneira
00:43:58a nossa memória
00:43:59que ela paga
00:44:01as possibilidades
00:44:02de mobilização,
00:44:03de transformação
00:44:04da sua própria vida
00:44:05para a população negra hoje.
00:44:07A população negra
00:44:08nunca teve algo
00:44:09que foi dado,
00:44:10concedido,
00:44:11entregue.
00:44:13Tudo que se tem,
00:44:14tudo que a gente tem
00:44:15é resultado
00:44:16de muita conquista,
00:44:17é resultado de luta.
00:44:19É por isso
00:44:19que não é possível
00:44:20parar de lutar.
00:44:21Não vai chegar nada dado.
00:44:23Nunca chegou
00:44:23nada dado.
00:44:24Falar da princesa Isabel,
00:44:26para quem foi formada
00:44:27pelo movimento negro.
00:44:29e dedicou
00:44:30sua vida
00:44:32a investigar
00:44:34outras pessoas
00:44:35que foram negadas
00:44:37pela historiografia,
00:44:39é até
00:44:41uma chateação.
00:44:43Porque o que a gente
00:44:44está adiante
00:44:44de um caso
00:44:47de roubo
00:44:48da nossa história,
00:44:49em que
00:44:50a princesa Isabel
00:44:51seria
00:44:52uma
00:44:54entre tantos
00:44:55outros
00:44:56personagens
00:44:57dessa história.
00:44:58eu não consigo
00:45:02enxergá-la
00:45:03como alguém
00:45:04de mais destaque
00:45:05do que toda
00:45:07essa população negra
00:45:08que resistiu
00:45:09e se articulou
00:45:10e que fez
00:45:13o fim
00:45:14da escravidão
00:45:15acontecer.
00:45:15Eu não sou
00:45:16daqueles
00:45:16do movimento negro
00:45:18que desconhece
00:45:19a importância
00:45:20do 13 de maio.
00:45:22Acho importante
00:45:23e participei
00:45:24da luta
00:45:24pela construção
00:45:25do 20 de novembro,
00:45:28que é uma luta
00:45:28que se inicia
00:45:29no final da década
00:45:30de 1970,
00:45:32que resgata
00:45:33a figura
00:45:33de zumbi
00:45:34dos palmares.
00:45:35Eu fui
00:45:36daqueles que
00:45:37pisou e queimou
00:45:38a imagem
00:45:39da princesa Isabel,
00:45:41mas,
00:45:42entretanto,
00:45:42isso nesse período,
00:45:43quando o movimento negro
00:45:45queria
00:45:47instituir
00:45:47um herói
00:45:49negro
00:45:49no país,
00:45:50porque até então
00:45:51a heroína
00:45:52era a princesa Isabel.
00:45:53Mas não podemos,
00:45:55de forma alguma,
00:45:55esse é o meu sentimento,
00:45:57essa é a minha opinião,
00:45:59diminuir
00:45:59a importância
00:46:00que foi
00:46:01por 13 de maio,
00:46:02que, na verdade,
00:46:04digamos assim,
00:46:05é uma data
00:46:05que culmina
00:46:06toda uma luta
00:46:07anterior
00:46:09pela abolição
00:46:10da escravidão
00:46:11no Brasil.
00:46:12Quer dizer,
00:46:12foram
00:46:13mais de 50 anos
00:46:15de medidas,
00:46:17de idas e vindas,
00:46:18de leis,
00:46:20de pressões externas.
00:46:23Nós sabemos
00:46:23que o Reino Unido,
00:46:25a Grã-Bretanha,
00:46:26pressionou bastante
00:46:27por conta
00:46:28dos seus interesses
00:46:28econômicos,
00:46:29o fim
00:46:30do trabalho serviu.
00:46:33Então,
00:46:33nós sabemos disso,
00:46:34mas a data culminante
00:46:35é o 13 de maio.
00:46:53O momento da abolição
00:46:55foi uma festa
00:46:56em todo o país,
00:46:56uma explosão
00:46:57com grandes concentrações,
00:47:00caminhadas,
00:47:01passeatas,
00:47:04missas campais,
00:47:06um clímax,
00:47:07uma apoteose
00:47:08de celebrações,
00:47:10acompanhadas,
00:47:11no dia seguinte,
00:47:11por muito medo
00:47:13por parte dos senhores
00:47:14e das autoridades.
00:47:16O medo
00:47:17de que
00:47:17a festa
00:47:18virasse revolta,
00:47:20que os escravos,
00:47:21além da liberdade,
00:47:22quisessem mais.
00:47:24Quisessem
00:47:25terra,
00:47:25por exemplo,
00:47:26quisessem
00:47:26propriedade,
00:47:27quisessem,
00:47:28sem dizer a palavra,
00:47:30indenização.
00:47:32Quisessem
00:47:32reparação
00:47:33de não apenas
00:47:36deles,
00:47:37aquela geração
00:47:38que foi libertada,
00:47:40mas também
00:47:40pela reparação,
00:47:43pelo acúmulo
00:47:44de exploração
00:47:45ao longo dos séculos.
00:47:47Então,
00:47:48houve muito medo
00:47:48e as autoridades
00:47:49se prepararam para isso.
00:47:51Na Bahia,
00:47:52houve,
00:47:53inclusive,
00:47:54casos de senhores
00:47:55que se viram
00:47:56tão destituídos,
00:47:58senhores grandes,
00:47:59que cometeram suicídio.
00:48:01é uma coisa
00:48:03que não é muito
00:48:04falada,
00:48:05não é muito
00:48:06mais,
00:48:08porque
00:48:09não
00:48:09não
00:48:09não
00:48:10concebiam viver
00:48:12num outro mundo.
00:48:13Nós partimos
00:48:14para o término
00:48:17da abolição,
00:48:19mas quando chega
00:48:20em 1888,
00:48:2214 de maio,
00:48:24um dia depois,
00:48:26nós continuamos
00:48:26escravos.
00:48:28Estamos escravos
00:48:29até hoje
00:48:30com uma outra
00:48:32roupagem,
00:48:34com uma outra
00:48:35ideia.
00:48:36E o que fazer
00:48:37com essa massa
00:48:38de 800 mil pessoas
00:48:40sem trabalho,
00:48:42sem educação,
00:48:43sem saúde,
00:48:45sem o mínimo
00:48:47necessário
00:48:48para que você
00:48:48possa ter
00:48:49uma vida digna?
00:48:51O correto
00:48:52seria você
00:48:53dar
00:48:54a essas pessoas
00:48:55tudo aquilo
00:48:57que sempre
00:48:58se negou.
00:48:58Então,
00:48:59vamos dar educação,
00:48:59trabalho,
00:49:01saneamento,
00:49:02moradia,
00:49:02etc.
00:49:03Mas não foi isso
00:49:05que foi feito.
00:49:06Eles fazem uma coisa
00:49:07chamada
00:49:08Código Penal
00:49:09de 1890.
00:49:12E o que
00:49:13que este Código Penal
00:49:14diz
00:49:14que reflete
00:49:16sobre nós,
00:49:17ex-escravos?
00:49:18Código Penal
00:49:20Curanderismo
00:49:21é crime,
00:49:23Código Penal
00:49:23Código Penal
00:49:25é delito,
00:49:27mendicância
00:49:28é delito,
00:49:29capoeira
00:49:30é delito.
00:49:31e todos
00:49:33e todos
00:49:33e todos aqueles
00:49:33de até
00:49:3414 anos
00:49:35de idade
00:49:36que forem
00:49:38pegos
00:49:39cometendo
00:49:40ilícitos
00:49:41delitos,
00:49:42crimes
00:49:42poderão
00:49:43ser presos.
00:49:44o Código
00:49:46então
00:49:46vem legitimar
00:49:48a exclusão
00:49:50que até então
00:49:52nós sempre tivemos.
00:49:53É como se o Estado
00:49:54dissesse assim,
00:49:55vocês estão livres,
00:49:57acabou a escravidão,
00:49:59mas vocês estão presos,
00:50:01continuarão presos,
00:50:02porque tudo aquilo
00:50:03que vocês
00:50:04sempre fizeram
00:50:05vai ser crime.
00:50:07E quem é que tem
00:50:0814 anos
00:50:12em diante
00:50:13e que está
00:50:13cometendo
00:50:14pequenos ilícitos?
00:50:16Os ex-escravos
00:50:17desta idade
00:50:18que foram
00:50:19negociados
00:50:20aqui neste mercado
00:50:21do Valongo
00:50:22com 9,
00:50:2410 anos de idade.
00:50:25Na medida
00:50:26em que você
00:50:26negocia
00:50:27essas pessoas
00:50:27aqui como se
00:50:28mercadorias fossem,
00:50:30escraviza elas
00:50:31e lá na frente
00:50:33você agora
00:50:34diz que elas
00:50:34estão libertas,
00:50:36a pergunta que se faz é
00:50:38e qual a profissão
00:50:39dessas pessoas?
00:50:40O que que elas vão
00:50:41fazer
00:50:42para sobreviver?
00:50:44A república
00:50:45que
00:50:47que emerge
00:50:48com a queda
00:50:50do império
00:50:50e com a abolição
00:50:53da escravidão,
00:50:55ela tem
00:50:56claramente
00:50:57um projeto
00:50:57de exclusão
00:51:00da nossa
00:51:01nossa população,
00:51:02ela claramente
00:51:03mostra que
00:51:04terminada
00:51:05a escravidão
00:51:07termina também
00:51:07a função
00:51:08do negro
00:51:09na sociedade
00:51:10brasileira
00:51:10e acho que
00:51:12é por isso
00:51:12que
00:51:12o abandono
00:51:15se constituiu
00:51:17numa política
00:51:17de genocídio
00:51:18mesmo
00:51:19e que vigora
00:51:21até hoje
00:51:21ao final
00:51:23do império
00:51:23principalmente
00:51:24no início
00:51:24da república
00:51:26é um
00:51:27é feito
00:51:27é realizado
00:51:28um esforço
00:51:29muito grande
00:51:30pelo estado
00:51:30brasileiro
00:51:31nos sucessivos
00:51:31governos
00:51:32no sentido
00:51:33de trazer
00:51:34um grande
00:51:34contingente
00:51:35populacional
00:51:36de imigrantes
00:51:38italianos
00:51:39portugueses
00:51:40espanhóis
00:51:40principalmente
00:51:41latinos
00:51:42na Europa
00:51:43para transformar
00:51:44a sociedade
00:51:45brasileira
00:51:45que no final
00:51:46do século XIX
00:51:47era majoritariamente
00:51:47negra
00:51:49mas que se via
00:51:50essa identidade
00:51:52nacional
00:51:52que se constituía
00:51:53naquele momento
00:51:54negligenciava
00:51:55a população negra
00:51:56em vários aspectos
00:51:58então uma forma
00:52:00inclusive
00:52:00era
00:52:01como vários
00:52:03pensadores
00:52:04vários intelectuais
00:52:05na época
00:52:06diziam
00:52:07que a população negra
00:52:08desapareceria
00:52:09na medida
00:52:09em que
00:52:10o estado brasileiro
00:52:11investia
00:52:12maciçamente
00:52:13na importação
00:52:14inclusive
00:52:14subsidiando
00:52:16a vinda
00:52:16de milhões
00:52:17de imigrantes
00:52:19europeus
00:52:20principalmente italianos
00:52:21para transformar
00:52:23inclusive
00:52:23o fenótipo
00:52:24a aparência
00:52:24da sociedade brasileira
00:52:26tem um livro
00:52:27muito importante
00:52:28de um outro
00:52:29historiador
00:52:29chamado
00:52:30Jerry Dávila
00:52:31o título é
00:52:32O Diploma de Brancura
00:52:33ele vai mostrando
00:52:35como os intelectuais
00:52:36responsáveis
00:52:37pela montagem
00:52:38do sistema educacional
00:52:39no início da república
00:52:40aqui no Brasil
00:52:41no início do século XX
00:52:42como eles viam
00:52:43o sistema de educação
00:52:44como
00:52:45uma espécie
00:52:47de hospital
00:52:48de clínica
00:52:49para embranquecer
00:52:50culturalmente
00:52:50a sociedade brasileira
00:52:52isso
00:52:53ele pega os textos
00:52:54as fontes
00:52:54os documentos
00:52:55desses intelectuais
00:52:56Fernando de Azevedo
00:52:57e tantos outros
00:52:58e ele vai mostrando
00:52:59como o projeto
00:53:00era de fato
00:53:01estabelecer
00:53:02um sistema educacional
00:53:03eurocêntrico
00:53:04numa sociedade brasileira
00:53:06cuja maioria
00:53:06da população
00:53:07era negra
00:53:09de origem africana
00:53:10ou indígena
00:53:10olha que absurdo
00:53:11e por que
00:53:12que isso existe
00:53:13não só pela história
00:53:15que nós conhecemos
00:53:17da escravidão
00:53:17que persiste
00:53:18até os dias de hoje
00:53:19mas
00:53:20pela colaboração
00:53:22nociva
00:53:23de determinados
00:53:24estudiosos
00:53:25da sociologia
00:53:26um deles
00:53:27Gilberto Freire
00:53:28através da sua obra
00:53:30Casa Grande
00:53:31Sem Zala
00:53:31escrita em 1933
00:53:33ele é o homem
00:53:35que através
00:53:36da sociologia
00:53:38vem vender
00:53:39aquela imagem
00:53:40falsa
00:53:41da democracia racial
00:53:43o Brasil
00:53:44é uma grande
00:53:45democracia racial
00:53:46é um país
00:53:47formado por negros
00:53:49brancos e índios
00:53:50etc
00:53:51e portanto
00:53:52nós não temos
00:53:52esses conflitos
00:53:53ele vende
00:53:55essa imagem
00:53:56e aí veja
00:53:57nós estamos em 1933
00:53:58em pleno governo Vargas
00:54:00em plena ditadura
00:54:02Vargas
00:54:03pega esse discurso
00:54:04dele
00:54:04e utiliza
00:54:07esse discurso
00:54:08para mostrar
00:54:08que o seu governo
00:54:09era um governo
00:54:10democrático
00:54:10era um governo
00:54:11que respeitava
00:54:12as diferenças
00:54:13tanto que ele pega
00:54:15um prato
00:54:16tipicamente africano
00:54:18e diz
00:54:19que aquele prato
00:54:20é o prato principal
00:54:21do povo brasileiro
00:54:22a feijoada
00:54:23então ele compara
00:54:25o feijão
00:54:26ao negro
00:54:27o arroz
00:54:28ao branco
00:54:29a couve
00:54:31a mata
00:54:31e a laranja
00:54:33ao ouro
00:54:34e diz
00:54:35vejam
00:54:35isso aqui é o Brasil
00:54:36o Brasil vive
00:54:38essa miscigenação
00:54:39só que isto
00:54:40não é real
00:54:40nós não somos
00:54:42uma democracia racial
00:54:43e aí nós temos
00:54:45que entender
00:54:45como é que isto
00:54:46funciona na prática
00:54:47né
00:54:49eu posso andar
00:54:50livremente
00:54:51pelas ruas
00:54:52do país
00:54:52diferente da
00:54:54sociedade americana
00:54:56que teve os seus momentos
00:54:57em que negros
00:54:58andavam de um lado
00:54:59da calçada
00:54:59e brancos de outros
00:55:01por quê?
00:55:02porque lá
00:55:03eles assumiram
00:55:04o seu racismo
00:55:05aqui nós fingimos
00:55:07que ele não existe
00:55:08eu pertenço
00:55:09a geração
00:55:10que se ocupou
00:55:11de desmistificar
00:55:12uma das ideologias
00:55:14mais importantes
00:55:15da sociedade brasileira
00:55:18que é o mito
00:55:18da democracia
00:55:19racial
00:55:20que nós
00:55:21compreendemos
00:55:22como uma falácia
00:55:23uma falácia
00:55:25e uma ideologia
00:55:27que se prestou
00:55:29a amortizar
00:55:30e a
00:55:31para impedir
00:55:33a explicitação
00:55:35de um conflito
00:55:35racial latente
00:55:36na sociedade brasileira
00:55:38então ela sempre foi
00:55:40amortizadora
00:55:41ela sempre foi
00:55:41domesticadora
00:55:43inclusive
00:55:43para nós
00:55:44negros
00:55:45é como se a branquitude
00:55:46dissesse através dela
00:55:48para nós
00:55:49o tempo todo
00:55:49o combinado
00:55:52é que nós somos
00:55:53uma democracia racial
00:55:55nós
00:55:56nós falamos
00:55:58isso
00:55:58e vocês
00:55:59fazem de conta
00:56:00que acreditam
00:56:01enquanto esse pacto
00:56:02existir
00:56:04tudo
00:56:05as coisas
00:56:06ficarão
00:56:07bem por aqui
00:56:08por quê?
00:56:09porque vocês saberão
00:56:11o lugar
00:56:11que eles cabem
00:56:12nessa estrutura
00:56:13porque
00:56:14se vivemos
00:56:15uma democracia racial
00:56:16o lugar
00:56:16que cada um de nós
00:56:17ocupa
00:56:18nesse contexto
00:56:19é devido
00:56:20exclusivamente
00:56:21a nossa responsabilidade
00:56:23a responsabilidade
00:56:24de cada um
00:56:25de cada grupo
00:56:26social
00:56:26portanto
00:56:27se a branquitude
00:56:28é hegemônica
00:56:29é porque ela é mais competente
00:56:31não é?
00:56:32porque ela é mais inteligente
00:56:33se a negritude
00:56:34está subalternizada
00:56:36é porque ela é inferior
00:56:38é porque ela é
00:56:39esse era o pacto racial
00:56:40que estava em vigor
00:56:41a minha geração
00:56:42se deu o trabalho
00:56:43de colocar em questão
00:56:44e é uma obra
00:56:46ainda
00:56:46que persiste
00:56:48para gerações atuais
00:56:49confrontar esse mito
00:56:51explicitar
00:56:52a que ele se presta
00:56:53e revelar
00:56:55toda
00:56:56a magnitude
00:56:58não é?
00:56:59que
00:56:59a questão racial
00:57:02põe em termos
00:57:04de desafios estruturais
00:57:06para essa sociedade
00:57:07não há uma dimensão
00:57:08da questão
00:57:10social
00:57:10desse país
00:57:11que não passe por nós
00:57:12são essas condições
00:57:13perversas
00:57:14decorrentes
00:57:16a violência
00:57:17a desigualdade
00:57:18decorrente
00:57:19do racismo
00:57:21e da discriminação
00:57:22racial
00:57:22que nos impulsiona
00:57:24a produzir
00:57:25conteúdos
00:57:26que nos impulsiona
00:57:28a produzir
00:57:29argumentos
00:57:30que nos impulsiona
00:57:32a contestar
00:57:33ideias
00:57:34que estão
00:57:35cristalizadas
00:57:36consolidadas
00:57:37que nos coloca
00:57:39em oposição
00:57:40a um imaginário
00:57:41que nos acomoda
00:57:42nessas hierarquias
00:57:44perversas
00:57:45e pervertidas
00:57:46que foram produzidas
00:57:47historicamente
00:57:49em relação
00:57:50às racialidades
00:57:51nesse país
00:57:54o movimento negro
00:57:56brasileiro
00:57:57no pós-abolição
00:57:59quando se organiza
00:58:00como tal
00:58:01e a historiografia
00:58:03é mais ou menos
00:58:04um acordo
00:58:05em que esse momento
00:58:06se dá
00:58:06no final dos anos
00:58:0720
00:58:07com 30
00:58:08com a formação
00:58:09da frente negra
00:58:09brasileira
00:58:10que talvez seja
00:58:11a primeira grande
00:58:12organização
00:58:13nos moldes
00:58:14que a gente conhece
00:58:14hoje
00:58:15passou
00:58:16esse tempo todo
00:58:17até o início
00:58:18da década
00:58:19de 90
00:58:19basicamente
00:58:20questionando
00:58:21o chamado
00:58:22mito
00:58:22da democracia
00:58:23racial
00:58:23e ao meu ver
00:58:24ele se consolida
00:58:25com a marcha
00:58:27contra o racismo
00:58:28pela vida
00:58:29e pela cidadania
00:58:30em 1995
00:58:32o documento
00:58:33dessa marcha
00:58:34apresenta
00:58:35uma série
00:58:35de propostas
00:58:36talvez ali
00:58:37uma guinada
00:58:38é o momento
00:58:38de uma guinada
00:58:39em que o conjunto
00:58:43das organizações
00:58:44do movimento negro
00:58:45passam
00:58:46por uma
00:58:46por uma fase
00:58:47digamos
00:58:48sem abandonar
00:58:49a fase anterior
00:58:50mas por uma fase
00:58:50mais propositiva
00:58:53apresentando sugestões
00:58:54apresentando propostas
00:58:55pautando
00:58:56uma agenda
00:58:57de promoção
00:58:59da igualdade
00:59:00racial
00:59:00esses termos
00:59:01eles começam
00:59:02a ser usados
00:59:03nesse momento
00:59:08fui fazer
00:59:09parte do meu
00:59:09doutorado
00:59:10nos Estados Unidos
00:59:11e lá
00:59:11encontrei matérias
00:59:13em jornais
00:59:13da imprensa negra
00:59:14nos Estados Unidos
00:59:14falando sobre
00:59:15como a frente negra
00:59:17serviu de inspiração
00:59:18para a constituição
00:59:19de organizações
00:59:20semelhantes
00:59:20em Porto Rico
00:59:21e lá nos Estados Unidos
00:59:23isso ainda
00:59:23durante a década
00:59:24de 1930
00:59:25portanto
00:59:26muito antes
00:59:27da criação
00:59:27do partido
00:59:28dos Panteras Negras
00:59:29muito antes
00:59:29da ação
00:59:30tão emblemática
00:59:31do Martin Luther King
00:59:32e Malcolm X
00:59:33etc
00:59:33então
00:59:34essas descobertas
00:59:35da minha tese
00:59:36de doutorado
00:59:37já ajudam
00:59:38a romper
00:59:39essa ideia
00:59:40que é tão conhecida
00:59:41tão divulgada
00:59:42aqui no Brasil
00:59:43de que o movimento
00:59:44negro brasileiro
00:59:45seria a mera cópia
00:59:46em menores proporções
00:59:47do que acontecia
00:59:48durante as décadas
00:59:49de 60, 70
00:59:50lá nos Estados Unidos
01:00:07a marcha contra a farsa
01:00:09da abolição
01:00:10que foi em 1988
01:00:12muito importante
01:00:14foi
01:00:14trouxe muita visibilidade
01:00:16para o movimento negro
01:00:17e colocou em xeque
01:00:18essa discussão
01:00:19sobre democracia racial
01:00:20no momento em que se celebrava
01:00:22a gente está falando
01:00:23de 1988
01:00:24centenário da abolição
01:00:25que começou o ano
01:00:27com vinhetas
01:00:28inclusive
01:00:28em redes de televisão
01:00:30celebrando
01:00:31a miscigenação
01:00:33celebrando essa ideia
01:00:34de democracia racial
01:00:35e o movimento negro
01:00:36colocou em xeque
01:00:37essa ideia
01:00:38a partir de uma série
01:00:40de eventos
01:00:42como a marcha
01:00:43contra a farsa
01:00:43da abolição
01:00:44que foi realizada
01:00:44aqui no Rio de Janeiro
01:00:45e que foi impedida
01:00:48por tanques do exército
01:00:50por barricadas
01:00:50do exército
01:00:51a marcha
01:00:52tinha o objetivo
01:00:53de chegar ao busto
01:00:55de zumbi dos palmares
01:00:56na praça 11
01:00:56então ela sairia
01:00:58da candelária
01:00:58mas ela foi barrada
01:00:59ali em frente
01:01:00ao comando militar do leste
01:01:01ali antes da central do Brasil
01:01:03foi proibida
01:01:04de passar
01:01:05e com baionetas
01:01:06os militares
01:01:07lá com baionetas
01:01:08tem um cartaz
01:01:09muito emblemático
01:01:11o cartaz foi feito
01:01:12a partir de uma foto
01:01:13que em 1987
01:01:14foi feita por um jornalista
01:01:16do jornal do Brasil
01:01:17se eu não me engano
01:01:18um policial
01:01:19tinha prendido
01:01:21vários homens negros
01:01:22e teria amarrado
01:01:23pelo pescoço
01:01:24com cordas
01:01:25esses homens negros
01:01:26e aí o cartaz
01:01:27da marcha
01:01:28contra a farsa
01:01:28da abolição
01:01:29é no primeiro plano
01:01:31homens negros
01:01:32nos grilhões
01:01:33durante a escravidão
01:01:34e em 1987
01:01:35homens negros
01:01:37amarrados
01:01:37pelo pescoço
01:01:38com cordas
01:01:39e a pergunta era
01:01:40nada mudou
01:01:41vamos mudar?
01:01:50então o movimento
01:01:52pelas reparações
01:01:53quando surgiu
01:01:54ele se pretendeu
01:01:55uma ruptura
01:01:56com o discurso
01:01:57culturalista
01:01:58e fez um discurso
01:01:59extremamente limitado
01:02:01à questão econômica
01:02:03ou seja
01:02:03economicista
01:02:04o nosso interesse
01:02:05não era
01:02:07dizer que o Brasil
01:02:09é racista
01:02:09simplesmente
01:02:11o nosso interesse
01:02:12era dizer o seguinte
01:02:12qual foi o grau
01:02:14de participação
01:02:15dos nossos ancestrais
01:02:16para a formação
01:02:17econômica do Brasil
01:02:19calcular
01:02:20o trabalho escravo
01:02:22ou seja
01:02:23quantificar o valor
01:02:24do trabalho escravo
01:02:25chegar a uma cifra
01:02:27ingressamos
01:02:28na justiça federal
01:02:30responsabilizando
01:02:31a união
01:02:31e solicitando
01:02:33o pagamento
01:02:35desse valor
01:02:35aos descendentes
01:02:37esse debate
01:02:38sobre reparações
01:02:39não é um debate
01:02:40novo
01:02:41nós não inauguramos
01:02:43nada
01:02:43é um debate
01:02:45antigo
01:02:45a ideia
01:02:47de que
01:02:48extratos sociais
01:02:50que sofreram
01:02:51em algum momento
01:02:52histórico
01:02:55penalidades
01:02:56discriminações
01:02:57perseguições
01:02:58tem o direito
01:02:59legal
01:03:00a ser indenizado
01:03:01a ser reparado
01:03:02isso
01:03:03no século XX
01:03:05é muito forte
01:03:06depois
01:03:06da segunda guerra
01:03:08o nazismo
01:03:10a Alemanha
01:03:12até hoje
01:03:13indeniza
01:03:13os judeus
01:03:17daqueles judeus
01:03:18que foram
01:03:19perseguidos
01:03:20nos Estados Unidos
01:03:21os indígenas
01:03:23também foram
01:03:24indenizados
01:03:24então
01:03:25a ideia
01:03:25de reparações
01:03:26não é uma ideia
01:03:27original
01:03:28que surgiu
01:03:29no Brasil
01:03:29nós
01:03:31simplesmente
01:03:31estudamos
01:03:32a história
01:03:34do movimento
01:03:36de reparações
01:03:36e resolvemos
01:03:37criar aqui
01:03:39no Brasil
01:03:39a nossa própria
01:03:40plataforma
01:04:00eu vou dizer uma coisa
01:04:02que pode ser chocante
01:04:04os escravos
01:04:05estavam muito mais
01:04:06protegidos
01:04:06do que os nossos
01:04:07jovens negros
01:04:08porque eles eram
01:04:10propriedade
01:04:11eles tinham
01:04:12que ser
01:04:12preservados
01:04:13eles precisavam
01:04:14ser alimentados
01:04:15os senhores
01:04:17brigavam
01:04:18com a polícia
01:04:19quando a polícia
01:04:21batia
01:04:22nos seus escravos
01:04:23porque era deles
01:04:24os senhores
01:04:25a prerrogativa
01:04:25de puni-los
01:04:26queriam intervenção
01:04:28eles queriam
01:04:29o estado mínimo
01:04:30na escravidão
01:04:31não queriam
01:04:32a intervenção
01:04:34do governo
01:04:35nas relações
01:04:36escravistas
01:04:39hoje
01:04:39os jovens negros
01:04:40não tem senhores
01:04:41para protegê-los
01:04:43entendeu
01:04:44por isso que eles são
01:04:45quer dizer
01:04:46não é por isso
01:04:46não estou aqui
01:04:47pregando o retorno
01:04:48da escravidão
01:04:49que fique bem claro
01:04:50mas o que eu estou
01:04:51dizendo aqui
01:04:52é que
01:04:53o que acontece
01:04:55hoje
01:04:56é uma
01:04:57tragédia
01:04:59tão grande
01:05:00que nos permite
01:05:01fazer esse tipo
01:05:02de comparação
01:05:04esdrúxula
01:05:04como eu estou fazendo
01:05:05é uma calamidade
01:05:08se houvesse
01:05:10se houvesse
01:05:11algum tipo
01:05:12de sensibilidade
01:05:13em relação
01:05:15a isso
01:05:16a se denunciar
01:05:18a se levar
01:05:19para fóruns
01:05:20internacionais
01:05:21o resultado
01:05:22seria o Brasil
01:05:23ser colocado
01:05:24numa lista
01:05:26eu vou dizer
01:05:27agora
01:05:27branca
01:05:28de países
01:05:29que desrespeitam
01:05:30de maneira muito profunda
01:05:31os direitos humanos
01:05:35porque o que está
01:05:36acontecendo
01:05:36no Brasil
01:05:37é como você disse
01:05:38é um massacre
01:05:39é um extermínio
01:05:42os jovens
01:05:43não conseguem
01:05:43chegar aos 30 anos
01:05:44no Brasil
01:05:45os jovens negros
01:05:47aliás
01:05:47se você quiser
01:05:49saber
01:05:50sobre
01:05:51discriminação
01:05:52racial
01:05:52vá à polícia
01:05:53porque ele sabe
01:05:53muito bem
01:05:54quem é que ele prende
01:05:55ele vai logo direto
01:05:57no indivíduo negro
01:06:00então se quiser saber
01:06:01existe racismo no Brasil
01:06:03pergunte à polícia
01:06:04e não interessa
01:06:05que a polícia
01:06:06seja também negra
01:06:07não interessa
01:06:09porque ela foi ensinada
01:06:10àquilo
01:06:12isso é uma coisa
01:06:13conhecida
01:06:42o estado brasileiro
01:06:44sempre criminalizou
01:06:45a sua maior população
01:06:47que é a população negra
01:06:49e o exemplo clássico
01:06:51é o código penal
01:06:52de 1890
01:06:53de lá pra cá
01:06:54toda a legislação
01:06:56vai levando em consideração
01:06:58exatamente
01:06:58determinado
01:06:59tipo
01:07:00de autor
01:07:01do crime
01:07:02quando o legislador
01:07:03deveria se preocupar
01:07:04com o fato
01:07:05não com o autor
01:07:07é o fato praticado
01:07:08pelo homem
01:07:09que deve ser punido
01:07:10e não
01:07:11o homem
01:07:13em si
01:07:14que deve ser
01:07:15escrito na lei
01:07:17e quem é essa pessoa?
01:07:18é a maioria
01:07:18que está
01:07:19no sistema carcerário brasileiro
01:07:21quem é a maioria?
01:07:2270%
01:07:23são de negros
01:07:2670%
01:07:27são de negros
01:07:28hoje
01:07:29você está vendo
01:07:31determinadas pessoas
01:07:32de políticas
01:07:34de alto nível
01:07:34empresários
01:07:35sendo presas
01:07:36hoje
01:07:37mas nós estamos falando
01:07:39do perfazimento
01:07:41da legislação penal
01:07:42ao longo
01:07:43da história
01:07:44do Brasil
01:07:44ela sempre foi
01:07:46uma lei de exclusão
01:07:47porque ela sempre foi
01:07:49uma lei
01:07:49que visa proteger
01:07:50o patrimônio
01:07:52quem tem patrimônio?
01:07:53a burguesia
01:07:54não é o proletariado
01:07:55por isso que os crimes
01:07:57no código penal
01:07:58que agridem o patrimônio
01:08:00são crimes mais graves
01:08:01do que os crimes
01:08:02que atingem a pessoa
01:08:03mas como que eu vou
01:08:05punir mais grave
01:08:06um crime
01:08:06contra o meu carro
01:08:08do que um crime
01:08:09contra uma criança?
01:08:12se levarem o meu carro
01:08:13a pena é maior
01:08:14do que quem
01:08:15abandona uma criança
01:08:16na lixeira
01:08:17e a criança morre
01:08:18isso é absurdo
01:08:20não
01:08:20é absurdo
01:08:21se você raciocinar
01:08:22logicamente
01:08:23como um ser humano
01:08:24normal
01:08:24mas se você raciocinar
01:08:26como um sistema
01:08:27montado
01:08:28para a exclusão
01:08:29social
01:08:30e proteção
01:08:30de um determinado
01:08:31grupo de pessoas
01:08:32você vai entender
01:08:33que o código penal
01:08:35é um instrumento
01:08:36de controle social
01:08:36algo que eu acho
01:08:38que é fundamental
01:08:40isso pra mim
01:08:42é importante
01:08:43são os professores
01:08:47a sociedade
01:08:48como um todo
01:08:49os pais
01:08:50mães
01:08:51brancos
01:08:53negros
01:08:54indígenas
01:08:54terem a consciência
01:08:56do mal
01:08:57que faz
01:08:58não ter
01:09:00a consciência
01:09:01do racismo
01:09:02no Brasil
01:09:03dos malefícios
01:09:05que ele provoca
01:09:06a lei 10.339
01:09:08ela foi criada
01:09:09para diminuir
01:09:10o racismo
01:09:11no Brasil
01:09:11para impactar
01:09:13para fazer alguma coisa
01:09:15contra o racismo
01:09:16né
01:09:17mas se as pessoas
01:09:19não adianta uma lei
01:09:21depende das pessoas
01:09:24e não é só
01:09:25dos professores
01:09:26os professores
01:09:26não estão aqui
01:09:27para educar
01:09:28né
01:09:29coisas
01:09:29a tudo
01:09:30os pais também
01:09:32precisam se reeducar
01:09:33quando eles são racistas
01:09:34nós estamos aqui
01:09:36há quase 500 anos
01:09:40queremos respeito
01:09:43porque nos refalta pouco
01:09:44porque a vida
01:09:45dos nossos garotos
01:09:46não vale nada
01:09:48não vale nada
01:09:50são garotos de 15 a 29 anos
01:09:53sendo assassinados
01:09:54todos os dias
01:09:54aí vem o outro e diz
01:09:55ah
01:09:55era bandido
01:09:57era
01:09:57e se fosse amigo
01:09:59por que se tornou bandido
01:10:02que escola que você fez
01:10:04que tratamento você deu
01:10:07as duas políticas
01:10:10mais contundentes
01:10:12que a gente chama
01:10:13de ação afirmativa
01:10:14que conseguimos fazer
01:10:15consolidar
01:10:16no Brasil
01:10:18foram justamente
01:10:19as políticas de cota
01:10:21com toda a polêmica
01:10:23que esse debate gerou
01:10:25quer dizer
01:10:26as primeiras propostas
01:10:27de política de cota
01:10:28na década de 90
01:10:29são lá de
01:10:30do meado da década de 90
01:10:33para cá
01:10:33e elas só foram
01:10:34se consolidar
01:10:35como lei federal
01:10:36em 2012
01:10:38então foram aí
01:10:4020 anos
01:10:41isso para dizer
01:10:42só no momento
01:10:43pós
01:10:45pós
01:10:46marcha
01:10:47esse momento
01:10:48década de 90
01:10:49para cá
01:10:49porque propostas
01:10:50anteriores
01:10:50já foram feitas
01:10:52inclusive
01:10:52por abdia de nascimento
01:10:54quando parlamentar
01:10:55então a lei
01:10:5610.639
01:10:57eu diria até
01:10:58que
01:10:58numa escala
01:11:00de importância
01:11:00ela é mais importante
01:11:02do que as leis de cota
01:11:03porque
01:11:04a lei 10.639
01:11:06significa a possibilidade
01:11:07de trabalhar
01:11:08a oficialização
01:11:10não a possibilidade
01:11:11mas a oficialização
01:11:12de que
01:11:13nós temos que trabalhar
01:11:14numa perspectiva
01:11:15de superação
01:11:16do racismo
01:11:17e de promoção
01:11:18da igualdade racial
01:11:19ou seja
01:11:20trabalhar
01:11:20um imaginário
01:11:22trabalhar culturalmente
01:11:23então é um processo
01:11:24longo
01:11:24lento
01:11:26que demanda
01:11:27muitas coisas
01:11:28a gente ainda
01:11:29está numa fase
01:11:30de
01:11:31de cobrar
01:11:33infelizmente
01:11:34de cobrar
01:11:34a implementação
01:11:35da lei
01:11:36eu acho que
01:11:37o estado brasileiro
01:11:38cria políticas
01:11:40de marginalização
01:11:41eu acho que
01:11:42estar à margem
01:11:44é estar dentro
01:11:45da estrutura
01:11:46porque a ideia
01:11:47de excluir
01:11:48parece que
01:11:48a estrutura
01:11:49está funcionando
01:11:50aqui
01:11:50e a gente está aqui
01:11:52do lado de fora
01:11:52querendo entrar
01:11:53só que não
01:11:54a gente está dentro
01:11:55da estrutura
01:11:56inclusive
01:11:56o centro
01:11:57dessa estrutura
01:11:58só funciona
01:11:58porque
01:11:59a gente está
01:12:00na margem
01:12:01e o estar à margem
01:12:02para a população
01:12:03negra
01:12:04está muito ligado
01:12:05também
01:12:05a produção
01:12:06de imagens
01:12:07que nos confinam
01:12:08ao lugar
01:12:09de servir
01:12:09a sombra
01:12:10da servidão
01:12:11é algo
01:12:11que nos acompanha
01:12:12independente
01:12:13dos espaços
01:12:13que a gente atua
01:12:14há sempre
01:12:15uma expectativa
01:12:15que aquele corpo
01:12:17preto
01:12:17do passado
01:12:18e do presente
01:12:18está num determinado
01:12:19lugar para servir
01:12:20a quem está
01:12:21no centro
01:12:22da estrutura
01:12:22mas ainda assim
01:12:24ocupar essa margem
01:12:26e ser tão difícil
01:12:28sair dela
01:12:29se deslocar dela
01:12:30tem sido
01:12:31um projeto político
01:12:32intencional
01:12:33de 1888
01:12:35para cá
01:12:36a gente tem
01:12:37exemplos
01:12:38mais contemporâneos
01:12:40a gente pensar
01:12:41que apenas
01:12:43há quatro anos
01:12:46o trabalho doméstico
01:12:47foi reconhecido
01:12:48como um trabalho formal
01:12:50isso é uma forma
01:12:52isso é uma política
01:12:53institucional
01:12:54de naturalizar
01:12:55a margem
01:12:56como a única possibilidade
01:12:57para sujeitos negros
01:13:00e aí você
01:13:01você percebe isso
01:13:03de maneiras
01:13:03muito perversas
01:13:04se você circula
01:13:06por exemplo
01:13:07por escolas públicas
01:13:09em comunidades
01:13:10periféricas
01:13:11você vai ouvir
01:13:12de meninas
01:13:13de cinco
01:13:13seis anos
01:13:14que o sonho
01:13:14delas
01:13:15é serem
01:13:15empregadas
01:13:15domésticas
01:13:17essas são
01:13:20lógicas
01:13:21naturalizadas
01:13:22pelas políticas
01:13:23do Estado
01:13:25brasileiro
01:13:26que são feitas
01:13:26na sua grande maioria
01:13:27por homens
01:13:29brancos
01:13:30e aí a gente vive
01:13:31num estado
01:13:32do patriarcado
01:13:34e que repercutem
01:13:36e que dão sentido
01:13:37também ao que a gente
01:13:38discute na historiografia
01:13:39do passado presente
01:13:40do pós-abolição
01:13:42o quanto que esse passado
01:13:44de escravidão
01:13:46de uma servidão
01:13:47institucionalizada
01:13:49foi sendo recriado
01:13:50no tempo da liberdade
01:13:52o que que significa
01:13:54pensar
01:13:55e colocar
01:13:57em prática
01:13:58possibilidades
01:13:59de sujeitos
01:14:00historicamente
01:14:00pensados
01:14:01como
01:14:01como coisas
01:14:03como bens
01:14:04semoventes
01:14:05como escravizados
01:14:06pensar esses sujeitos
01:14:08como livres
01:14:09e incorporá-los
01:14:10a essa estrutura
01:14:11como iguais
01:14:12quais foram as estratégias
01:14:14que nós mesmos
01:14:15criamos
01:14:16e seguimos criando
01:14:17ao longo da história
01:14:19em busca dessa
01:14:20dessa igualdade
01:14:22de um sentido
01:14:22de liberdade
01:14:23que nos
01:14:24que nos incorporem
01:14:25que nos incorporem
01:14:26não na margem
01:14:27mas no centro
01:14:28dessa estrutura
01:14:31se foi possível
01:14:32ter uma frente
01:14:34negra brasileira
01:14:35que articulou
01:14:36várias experiências
01:14:38que estavam ali
01:14:38que tempos depois
01:14:40foi possível
01:14:41ter um movimento
01:14:42negro unificado
01:14:43que articulou
01:14:45várias experiências
01:14:46que existiam
01:14:47é porque
01:14:49a despeito
01:14:50desse projeto
01:14:51a gente não aceitou
01:14:53e isso
01:14:55me dá
01:14:56uma sensação
01:14:57de felicidade
01:14:58que é aquela tal
01:14:59felicidade guerreira
01:15:00como canta Lazo Matumbe
01:15:02apesar de tantos nãos
01:15:04tanta dor
01:15:05que nos invade
01:15:06somos nós
01:15:07a alegria da cidade
01:15:08nós tornamos
01:15:09esse país possível
01:15:10e descobrir
01:15:12como que nós
01:15:12tornamos esse país
01:15:14possível
01:15:14não só
01:15:16trabalhando
01:15:17erguendo
01:15:18essas paredes
01:15:19de uma escola
01:15:19como essa
01:15:20feita para imigrantes
01:15:22outros monumentos
01:15:24desse país
01:15:25nós não só
01:15:26trabalhamos
01:15:27para que ele
01:15:28se levantasse
01:15:30mas nós
01:15:31sobretudo
01:15:32lutamos
01:15:33para que esse país
01:15:34não ruísse
01:15:35isso me alimenta
01:15:49uma geração
01:15:50de homens
01:15:51e mulheres negras
01:15:52que conseguem alcançar
01:15:54alguns lugares
01:15:54de destaque
01:15:55e se constrói
01:15:57toda uma ideia
01:15:58de meritocracia
01:15:59em torno
01:15:59dessas pessoas
01:16:00e de
01:16:01olha que incrível
01:16:02como que você conseguiu
01:16:03romper
01:16:04como é possível
01:16:06para essa pessoa
01:16:07ter conseguido
01:16:08tudo isso
01:16:09saindo da favela
01:16:10eu acho isso
01:16:11extremamente
01:16:12pernicioso
01:16:13e perigoso
01:16:14para o que a gente
01:16:15quer de igualdade
01:16:16racial agora
01:16:17os casos individuais
01:16:19não nos importam
01:16:21os casos individuais
01:16:22não nos importam
01:16:24o fato de ter saído
01:16:26da favela
01:16:26e conseguido
01:16:27ser professora
01:16:28universitária
01:16:28só faz sentido
01:16:30se isso
01:16:31ajuda
01:16:32a transformar
01:16:33a vida
01:16:33de outras pessoas
01:16:34se isso
01:16:34significa dizer
01:16:35que receber
01:16:36os meus alunos
01:16:37na escola
01:16:38receber os meus alunos
01:16:39na faculdade
01:16:40sejam eles
01:16:41principalmente negros
01:16:42mas também brancos
01:16:43significa dizer
01:16:44que esse país
01:16:46ganha
01:16:47quanto essa população
01:16:49acessa
01:16:49esses lugares
01:16:50de poder
01:16:51e isso não é
01:16:52nenhum tipo
01:16:53de concessão
01:16:54é você considerar
01:16:55que uma sociedade
01:16:55equalitária
01:16:56é algo que faz
01:16:57com que toda
01:16:58ela ganhe
01:16:59com isso
01:17:01viver a diversidade
01:17:02não é
01:17:03não é algo
01:17:04que se faz
01:17:05por
01:17:07por concessão
01:17:08não é algo
01:17:08que se faz
01:17:08porque
01:17:09é uma frase
01:17:10bonita
01:17:11que está sendo colocada
01:17:12é porque você
01:17:13pretende
01:17:13um mundo melhor
01:17:14um mundo igual
01:17:16um mundo homogêneo
01:17:17é um mundo
01:17:17muito pobre
01:17:20só isso
01:17:21o que a gente
01:17:21quer que esse mundo
01:17:22seja cada vez
01:17:23mais de riquezas
01:17:50é um mundo
01:17:53o que a gente
01:17:53não se diz
01:17:53só
01:17:53que a gente
01:17:55A dureza da nossa luta, a gravidade do problema que nós temos que enfrentar, sobretudo no futuro,
01:18:08se o meu triste prognóstico for verdadeiro e que está se acerrando o conflito racial na sociedade brasileira,
01:18:16vai exigir rapidez para encontrar caminhos de luta, caminhos de organização política,
01:18:26caminhos de enfrentamento dessa realidade hostil, porque nós temos um cenário em que ideologias conservadoras reacionárias
01:18:41ou neofascistas estão no imaginário, né, cooptando cada vez mais corações e mentes.
01:18:52E é preciso urgentemente encontrar um tido para essas coisas, porque o fim dessa história a gente conhece.
01:19:00É mais genocídio, é mais extermínio, é mais exclusão, é mais discriminação.
01:19:04Se em algum momento essa sociedade quiser escolher um outro caminho, um caminho generoso, integrador,
01:19:14ela vai ter que se valer de um princípio, do reconhecimento de um princípio.
01:19:21Como colocado por aquele pensador que eu já falei, Charles Mills, ele diz o seguinte,
01:19:28Toda pessoa branca, queira ou não, é beneficiária do racismo, independe da sua vontade.
01:19:37Mas, nem toda pessoa branca é necessariamente signatário do racismo e do contrato racial que ele impõe.
01:19:47Se nem toda pessoa branca é signatária, está aberta a possibilidade de alianças em prol da construção de um outro
01:19:59tipo de sociedade,
01:20:01em que um outro tipo de contrato seja possível, em que possamos, como já disse, caber todos,
01:20:09e que possamos desfrutar igualitariamente das oportunidades coletivamente gestadas.
01:20:17Eu acredito nisso e convoco os brancos não signatários a se engajarem nesse projeto.
01:20:23ComENTRO
01:20:24Comentro
01:20:24Comentro
01:20:51Comentro
01:20:54Fossem filhos dos meus sinais
01:21:11Sigo o chamado altivo
01:21:17Sobrevivo aos temporais
01:21:33Maré que volta
01:21:36Pra cuidar de um inalá
01:21:49Curva dos astros
01:21:54Pois não sou linear
01:22:05E a vida
01:22:08É um cheiro em que só viverá
01:22:23O que morrer
01:22:49Maré que volta
01:22:53Pra cuidar de um inalá
01:23:06Curva dos astros
01:23:09Pois não sou linear
01:23:22Minha vida
01:23:26É um cheiro em que só viverá
01:23:39O que morrer
01:23:52Música
01:24:21Legenda Adriana Zanotto
01:24:52Legenda Adriana Zanotto
01:25:12Legenda Adriana Zanotto
Comentários