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00:00Serpentes nos rios que trançam o coração do Brasil
00:04Levando a água da vida, do fundo da terra, ao coração do Brasil
00:10Gente que entende, que fala a língua das bandas dos bichos
00:17Gente que sabe o caminho das águas das terras do céu
00:23Velho mistério guardado no seio das mudas sem fim
00:29Tesouro perfeito de nós, distante do bem e do mal
00:35Vida do bem e do mal
01:01E quando eu dei pra você o nome dele, em homenagem ao homem que ele era
01:09A tua mãe brigou comigo, disse que aquilo era nome de peão, nome de gente bronca, essas coisas
01:18Ela nunca me chamou de juventino
01:21Na casa eles sempre me chamam de jovem, só, jovem
01:24Eu tô sabendo
01:27Um dia a tua tia Irma esteve aqui
01:30Trouxe umas fotografias tuas
01:33Ela me contou isso
01:36Aliás, é uma bela pessoa a tua tia Irma
01:41Eu tinha muita admiração por ela
01:44E ela também pelo senhor
01:48É
01:51Às vezes o homem escolhe errado na vida
01:55E a mulher também
02:00Ora, meu filho
02:02Eu não sei que histórias que a tua mãe andou lhe contando a meu respeito
02:07Além da história que eu tava morto
02:11Mas uma coisa eu quero dizer com toda sinceridade
02:16Ela foi a mulher mais perfumosa
02:20Mais bonita
02:22E mais farsa que eu conheci na minha vida
02:27Mas apesar disso tudo
02:30Eu gostava dela
02:41O pai dele deve estar dizendo coisas horríveis a meu respeito
02:45Pare com isso, Madeleine
02:47Você parece neurótica
02:48Mas eu tô
02:49Eu tô ficando completamente neurótica
02:50Neurótica
02:52O pai dele é envolvente
02:54Deve estar convencendo o jovem a ficar lá
02:56Não voltar mais pra casa
02:57Eu acho que seu filho já tem idade suficiente
03:00Pra decidir sobre a vida dele
03:02Você diz isso porque ele não é teu filho
03:09Se fosse meu filho
03:10Não teria sido criado longe do pai
03:13O pai dele nunca fez falta pra ele
03:15Muito pelo contrário
03:16Mas faz pra você, não é?
03:18O que você tá falando, sua louca?
03:22Madeleine, você nunca se acertou com o Gustavo
03:25Porque ele não tem o cheiro do José Leôncio
03:28E nenhum homem
03:30Nenhum homem dos que você já teve
03:33Lhe deu o que ele te deu
03:38Sabe do que eu tô falando?
03:40Das coisas que você não confessa
03:43Do seu amor pelo seu ex-marido
03:52Faz horas
03:53Faz horas
03:54Faz horas que eles estão
03:54Enfiados conversando lá dentro
03:56E eu não fui lá pra atrapalhar
03:58Acho bom vocês fazerem o mesmo
04:00A senhora tá certa, mãe
04:02E só vou servir a janta
04:04A hora que ele mandar
04:05A gente espera, dona Filó
04:07Deixa o mal
04:11Um dia veio o sujeito aqui
04:13Há de muito tempo
04:16Me propôs pra assinar um desquite
04:19Aí eu disse pra ele que eu
04:22Aceitava qualquer coisa
04:23Que eu assinava qualquer coisa
04:26Desde que sua mãe me entregasse você
04:28Sem briga, sem discussão
04:30Quer dizer, foi assim, está
04:33É
04:35Mas aí o sujeito botou pro Rio de Janeiro
04:37Dizendo que ia conversar com ela
04:38E nunca mais eu resposta
04:41Eu também deixei tudo como tava
04:44Então, o senhor e minha mãe
04:47São legalmente casados
04:49É
04:51E o que adianta isso?
04:53Nunca tinha pensado assim
04:54Porque eu imaginava que
04:57Vocês eram definitivamente separados
04:59Eles somos
05:00Pra mim, tua mãe tá morta
05:03Hum
05:07Hum
06:00A CIDADE NO BRASIL
06:06Quem tá aí?
06:11Fala!
06:13É de parte?
06:18Meu irmão, é o velho vivo.
06:25Entra.
06:29O senhor sumiu?
06:32Entra.
06:36É ela que é a muda.
06:40É.
06:42Tá vivendo aqui comigo.
06:45Tá bom.
06:54Tem medo não, muda.
06:56Ele é o velho do rio.
06:59Diz que ele é o pai de todas as sucuri daqui e que é a maior de todas elas.
07:06A mãe disse que viu ele virar uma e que era grande a bicha.
07:14Ele é a sucuri gigante.
07:16E eu vi a mãe dela virar uma ossa pintada em noite.
07:19O que eu achei?
07:22O que eu achei?
07:23Virava mesmo.
07:24E morreu que nem uma ossa.
07:28Por que o senhor tá falando com isso?
07:31Quem me contou foi a sucuri que engoliu o sujeito que teve aqui e que matou ela.
07:44Me conta mais, velho.
07:46Como é que ela morreu?
07:48A minha mãe?
07:49Ela lhe disse, lutando.
07:53Feito uma onça de verdade.
07:57O sujeito que é a sucurinha, viu?
08:00Tava todo mortido, todo arranhado.
08:03Só que ele tinha uma arma quando encontrou com ela.
08:08A sua mãe não morreu, Juna.
08:11Ela virou onça pintada de vez.
08:14E a maior delas todas.
08:18O que você enterrou aqui foi só o corpo da Maria Maruá.
08:23É verdade.
08:25Ter um ouve ela miar em volta da casa em noite de lua cheia.
08:34Mas então você não tem que ter medo.
08:38É a sua mãe.
08:49Quer comer, velho?
08:59Ela tá assustada.
09:02Eu sei.
09:11O que você enterrou aqui foi só o corpo da Maria Maruá.
09:41Deixa de ser medrosa, amor.
09:44Ele é amigo.
09:47Uma vez salvou a minha mãe de uma mordida de cobra.
09:54Agora, dente e dorme.
09:57Agora, dente e dorme.
10:22Você tá morrendo de medo, né, muda?
10:27Quer se deitar aqui comigo?
10:31Então vem.
10:39Mano, não me rela que eu não gosto.
10:48O velho disse que viu a mãe virar onça.
11:04E aí, ela?
11:07E aí, ela?
11:30E os que eu já tô partindo
11:32Vou pousar noutra cidade
11:35Depois de amanhã vencer
11:38Quero estar em piedade
11:41Deus me deu esse destino
11:44E muita felicidade
11:47Quando eu passo com o meu pingo
11:50Deixo um rastro de saudade
12:07Aliás, toda moda que falava de cavalo, ele gostava
12:10Não conheço nenhuma
12:11Lá no Rio a gente nunca escuta esse tipo de música
12:14E a que vocês escutam por lá?
12:16Música americana
12:17Rock and roll
12:19Rock pauleira
12:21Punk, funk
12:24Tecnopop
12:24New Age
12:26Deixa eu ver o que mais
12:28Samba
12:29Pagode
12:30Um pouquinho de música romântica
12:32Dizem que São Paulo é a mesma coisa, se não é pior
12:34Não, não
12:35São Paulo eu vou muito
12:37Porque eu tenho lá meus negócios
12:38E se ouve no rádio música sertaneja
12:41Quer dizer, de madrugada, né?
12:43No hotel, sem sono
12:44E é tão bonita
12:45E é coisa nossa, viu, patrão?
12:48Tá aí, Tibério
12:48Acho que agora você falou uma verdade
12:50A única coisa nossa, realmente
12:52Acho que é essa música que você acabou de cantar
12:54Do resto, acho que
12:56A gente não tem mais nada nesse país
12:59O que é que você disse, filho?
13:01Nada não, pai
13:02Toca outra, Tibério
13:03Qual é que você quer ouvir agora?
13:05Sei lá, não conheço nenhuma
13:08Canta uma que meu avô gostava
13:09Ó, eu nunca cantei pro seu avô
13:12Seu pai deve conhecer alguma
13:14Ah, Cavalo Preto
13:16Outra vez, senhor
13:17Acabei de cantar agora
13:20Cavalozano
13:20Canta Cavalozano
13:21Essa é bonita
13:22Pode ser o Cavalozano
13:23Vamos lá
13:34Eu tenho um Cavalozano
13:38Que na raia é corredor
13:44Já correu quinze carreiras
13:48Todas quinze ele ganhou
13:54Eu sorto na quadra e meia
13:59Meu zaino vem no galope
14:05Chega três corpos na frente
14:09Nunca precisa chicó
14:13Comigo, Japão
14:14Vamos lá
14:15Ô, que cavalo bom
14:21Ô, que cavalo bom
14:35O que eu posso lhe dizer, novinha
14:47É que ele foi pro Pantanal do Mato Grosso
14:49Mas sem me falar nada
14:52Provavelmente porque ele não queria levar você com ele
14:54Isso é justo, dona Mariana
14:56Eu não sei se é justo ou não
14:58O que eu sei é que ele embarcou pro Mato Grosso
15:01O que que ele foi fazer lá?
15:04Não sei
15:04Não me pergunte que eu não sei
15:07Mas eu posso lhe assegurar que ele foi sozinho
15:10E até alguém esperando por ele lá, dona Mariana
15:14Que eu saiba ninguém
15:15Ele nunca esteve no Mato Grosso antes
15:17Se arranjou alguém por lá
15:19Foi em pensamento
15:20Mas então por que que ele foi?
15:23Novinha, para com tanta pergunta
15:25Ele foi porque tem duas pernas
15:27E é dono do nariz dele
15:28Mas e eu?
15:31Você o quê?
15:34Eu tô grávida dele
15:47O pai dele tem uma fortuna em gado
15:49Só nesse espaço aqui na fazenda do Pantanal
15:52Mas tem outras fazendas espalhadas por aí
15:55Pois ele não aparenta ter todo esse dinheiro que o senhor tá falando
15:58Porque deve ser um homem simples
16:00É, um cabocrão
16:03Não tem nada a ver com o filho
16:04O filho é quem não tem nada a ver com o pai
16:07É um florzinha
16:08Que nódio
16:10Não faz mais juízo do rapaz
16:12Tu nem conhece direito
16:13Mas não sou cego, né Maria?
16:15Eu se eu tivesse um filho assim, afogava
16:18Não fala bobagem, papai
16:21Pra mim, homem tem que ser homem
16:22E mulher tem que ser mulher
16:25Ah é?
16:27E se eu fosse sapatona?
16:29O senhor me afogava também?
16:32O que é isso?
16:33Ih, eu sei lá
16:34O que é que você tá falando?
16:36Da mulher homossexual, papai
16:40Você quer me trocar isso aí, miúdo?
16:43Mulher que gosta de mulher
16:46Ah, minha nossa
16:49Como é que você pode ter certeza disso?
16:52Porque eu dormi com ele
16:54Quando?
16:56Ah, quando eu fiz as fotos nua
16:58Nua?
17:00Não, de que jeito?
17:02É pelada, né Dona Mariana?
17:04Pelada
17:05Você não está inventando toda essa história não, novinha?
17:08Cuidado com o que você tá falando
17:09E quando foi, novinha?
17:11Você ainda não respondeu
17:12Ótima pergunta
17:13Quando é que foi?
17:14Eu não estou acreditando nessa história
17:16Mamãe
17:17Deixa ela responder
17:19Fala, novinha
17:21Foi...
17:22Foi mais ou menos umas duas semanas
17:23Eu não queria tirar as fotos nua aqui
17:26Então o Jovi me levou lá pro motel da barra
17:29Ah
17:31E você...
17:32Você era virgem?
17:34Totalmente
17:35E você tem certeza que você tá grávida só com duas semanas?
17:39Tenho, tenho certeza sim
17:41Essa não
17:42Olha aqui, novinha
17:44Você vai agora mesmo pra sua casa que já está ficando tarde
17:47Amanhã de manhã, bem cedo, você fala pro seu pai vir aqui e falar com ele
17:49Não
17:49Não, meu pai não, Dona Mariana, por favor
17:52Eu não quero que ele saiba
17:53Ah, mas vai ter que saber
17:55A senhora está certa
17:58Certíssima
18:01O Jovi foi o único amor da minha vida
18:03Um único
18:05Eu morro por causa dele
18:07E eu sei que ele tá fugindo de mim
18:09Mas eu vou dizer uma coisa pra vocês
18:11Se o Jovi não voltar do Pantanal
18:13Eu juro que eu me mato
18:30Nossa viagem não é ligeira
18:33Ninguém tem pressa de chegar
18:35A nossa estrada é boiadeira
18:38Não interessa onde vai dar
18:41Onde a cor me tive esperança
18:45Chega já
18:46Começa a festança
18:48Através do rio negro
18:50É volante aí vai a casa
18:53Vai descendo o piquiri
18:56O São Lourenço e o Paraguai
19:09Minha intenção é te levar pra conhecer as outras fazendas
19:13O escritório de São Paulo
19:15Eu não tenho o menor interesse
19:19Como eu não tenho
19:21Aqui tá muito bom
19:22Claro, mas tem que conhecer o que é teu
19:27Por enquanto eu não tenho nada de meu
19:29Mas um dia vai ter
19:30Você é meu filho de rosto
19:31Eu não vim aqui atrás de nenhuma iraça
19:33Ah, eu também não tô falando isso
19:40Eu não queria fotografar nenhum
19:41Será que o senhor não pode me levar lá?
19:43Numa outra hora é melhor
19:44Manhã tem cedinho
19:46Outro tardinho
19:47Olha que assunto
19:47É uma coisa
19:51A última vez que eu estive lá
19:53Foi com teu avô joventinho
19:58Nunca mais voltei lá de vez
20:02Conta essa história
20:07Foi na véspera
20:08Quando a gente partiu
20:09Com a minha ousada
20:12Com a minha comitiva
20:12Levando a primeira boiada
20:14Que a gente conseguiu juntar
20:15Aí eu tava distraído
20:19Olhando os negros do Rio
20:21É, tem que ter uma sucurinha enorme
20:24Eu ia atirar nela
20:25Que o avô me segurou
20:26Eu disse não
20:28Ela
20:30Tá aí
20:30Nós é que somos intrusos
20:35Ele tinha dessa
20:36Em barulho
20:39Aí o senhor não matou a sucurinha
20:41Eu tava lá só de boca aberta
20:45Esperando os fiotes
20:46Daí
20:47Turugas, garça
20:49Garça
20:50Turugas, garça branca
20:52Garça rosada
20:55É uma coisa bonita de se ver
20:57O que ele tá fazendo?
20:59Tirando uma foto sua
21:01Para com isso
21:02Se guardar de lembrança
21:04Lembrança
21:05Você vai precisar disso?
21:07Não vou deixar você embora não
21:11Escuta aqui meu pai
21:14A gente mal se conhece
21:15É melhor você não falar comigo
21:16Nessa autoridade toda não, tá?
21:17O que é que eu vou deixar?
21:27Vamos lá
21:46Eu vou deixar você ir
22:01Ela me pareceu tão bobinha, tão sonsa.
22:05Aí vem aquela novidade que era virgem, que Jovem foi o primeiro homem que transou com ela.
22:10E que tá grávida dele.
22:12Pois é, que absurdo.
22:13Não, absurdo não. Se eles de fato transaram, não é possível que ela tenha ficado grávida.
22:18E se isso aconteceu de fato, se prepara que você vai ser vovó, Madalene.
22:26Eu tô falando sério, Gustavo.
22:28Tá nada, você tá esquentando a cabeça à toa.
22:31Eles são maiores de idade, eles que se entendam.
22:34Pra você sempre é tudo fácil.
22:35É isso, Madalene.
22:37Se ela tá fazendo chantagem com o Jovem, você tá entrando na dela.
22:41Certo.
22:43Mas eu, o que que eu faço, então?
22:47Nós não vamos fazer nada.
22:50É.
22:52Mamãe, eu não consigo entender como é que você pode ser tão fria diante de uma situação dessa.
22:57Mas por que que eu haveria de me apavorar?
22:59Ora, filha, eu não nasci ontem.
23:02A Nalvinha é louca por causa do Jovem.
23:04Louca demais, meu Deus.
23:06Só quero ver o que vai acontecer quando ele voltar.
23:08Só isso.
23:10Não vai acontecer nada.
23:11Você não conhece o seu sobrinho.
23:19Ah, meu menino.
23:23A única coisa que me preocupa é essa história dela estar grávida.
23:28Duvido muito.
23:29Mas e se for verdade?
23:32Ah, então eu vou me preocupar com essa história.
23:34Mas agora, por favor, deixa eu terminar as minhas contas.
23:39A Nalvinha é louca.
23:44Amém.
24:24Amém.
24:43Quem?
24:44A Maria, minha mulher.
24:46Por um arcanho modo de falar.
24:48Ah, sim, sim. Eu já tive o prazer de conhecê-lo.
24:51Uma companheirona.
24:53Não turge nem mude.
24:54Tá sempre disposta a tudo.
24:56Não reclama de nada dessa vida.
25:00Me serve mais um gole dessa pinga.
25:03Essa é especial mesmo, hein?
25:05É reserva particular, como se diz.
25:08Se eu fabricasse uma pinga dessa,
25:10já tinha botado no mercado.
25:13Ia ganhar dinheiro feito água.
25:15É por isso que eu não boto no mercado,
25:18porque eu não gosto de explorar o visto de ninguém.
25:22Nesse ponto, o amigo tem razão.
25:26Por falar nisso,
25:29ainda que má pergunte,
25:31o amigo lida com o quê?
25:34Com terras.
25:35Sempre foi esse o meu negócio.
25:37Comprar e vender terra.
25:39Bem de mocinho.
25:40Eu comecei lá no norte do Paraná,
25:43muitos anos atrás,
25:44como caçador de jacu.
25:47Não tô lhe entendendo.
25:49Corretor. Eu era corretor de terras.
25:53Mas o jacu?
25:57A gente chamava de jacu os trouxas que comprava as terras sem examinar direito os documentos, as escrituras.
26:05E a maioria era lá de São Paulo.
26:07Pequenos sitiantes que tinham juntado um dinheirinho.
26:12Qual é o nome desse tal que vendeu as terras com ele?
26:15O nome dele é Tenório.
26:17É um corretor de terras.
26:18É Tenório.
26:19Não é um espertalhão, né?
26:21O senhor disse certo.
26:23Não vai acontecer nada com ele?
26:24Mas isso era negócio ou era safadeza?
26:28Bem, o amigo pode chamar o que quiser.
26:31A verdade é que se ganhou muito dinheiro lá naqueles tempos.
26:36Veja bem, na região do Sarandi, eu vim de terra adoidado.
26:41Tá certo?
26:42Tivemos lá com os entreveiros, inclusive com morte, com isabraba.
26:52E um coitado que perdeu todo o dinheiro, matou um grilheiro.
26:58Tiro certeiro.
27:01Merecido.
27:02Pode ser.
27:04Mas eu já tinha saído de lá.
27:07Fiquei sabendo pelo jornal.
27:12Esse nome não vou me esquecer.
27:16Nunca.
27:18E o amigo não tinha culpa do cartório, não?
27:21De jeito maneiro.
27:23Eu era só intermediário.
27:44Eu era só com você.
27:46Eu era só.
27:56Eu era só demoração.
28:00Eu era só que eu lembreu o campo mundial.
28:02Que era um que você se amizou.
28:02E o que você fazia?
28:04Não, eu era só.
28:05Eles foram separados, mas nem lutados.
28:08Aí você tem pra onde eu me esquecer.
28:09Meu Deus, eu era só eu.
28:10Mas, cuidado...
28:13Eu era só para você.
28:14Eu era só um exemplo de vida.
28:14Eu era só para você!
28:23É a primeira vez que eu venho aqui sozinha.
28:25Você vai voltar?
28:27Espero que sim.
28:32Teu peão, Alcides.
28:35Tive que dar uma dura nele.
28:38Tava muito folgado.
28:40Pelo que eu vou perceber, ele morre de ciúme de você, vai.
28:43Morre?
28:43Não sei porquê.
28:45Não sei porquê.
28:47Como eu vi a cara dele quando vocês chegaram, Gota?
28:50É, ele queria vir junto.
28:53Falou que a gente pode se perder.
28:56Ele não está certo?
28:58Você está com medo?
29:01Não, nem um pouco, não.
29:05Então, faz as tuas fotos que depois a gente vai para o Ninhau.
29:08Para o Ninhau a gente pode já.
29:10Você é um cara legal, Jove.
29:11Tá, obrigadão, Gota.
29:13Você é super legal também.
29:15Engraçado, né?
29:17Como às vezes a gente fica sem palavras.
29:22É.
29:23É.
29:36Vamos lá.
29:56Oi.
29:59Oi.
30:07Eu me sinto uma formiguinha aqui, sabia?
30:10É, eu também me sinto assim.
30:17Que que é a natureza, hein?
30:19É, que importância a gente tem no meio disso aqui, tudo.
30:22Olha, dá uma olhada.
30:23Que Deus.
30:24Eu tô me sentindo um cocô de capivada.
30:27Ah, também não exagera.
30:31Nunca tive essa sensação na minha vida.
30:34De como eu sou inútil, como ela, dessa cadeia aqui.
30:39Sou menos importante que um jacaré?
30:42Pra jacarô, certamente.
30:48Jovem, faz uma foto minha.
30:49Pelo amor de Deus, pra já.
30:51Faz uma pose.
30:53Faz uma pose pra mim.
30:55Ai, ai, ai, segura.
30:58Que coisa.
30:59Ó, tá.
30:59A árvore, abraçar.
31:01Tá.
31:03Olha, linda.
31:05Oi.
31:07Tá, meu jeito, sabia?
31:09Ah, agora você encabulou.
31:10Bom, então faz um peixinho.
31:13Ai, ai, ai, ai.
31:14Segura-os e venha, meu.
31:17Lindo preto, tentações, mudores
31:21Parece uma índia pantaneira
31:24Uma índia vestida?
31:28Eu não me atreveria a pedir pra você tirar a roupa, né?
31:33É, assim de cara ia ser meio difícil
31:40Quem sabe mais tarde
31:43Vamos pro Linhão?
31:44Não sei que nada
31:46Só trocar o fim da máquina, tá?
31:50Índia pantaneira
31:51Você é um cara muito legal, João
32:09Estrela natureza
32:11Precisamos de mais
32:13Te ter sempre por perto
32:16Na calma e santa paz
32:20Nos movos e nos campos
32:22No sol e no sereno
32:53Zelando por florestas
32:54Não sei mais
32:56No sol e no sereno
33:13e nos campos
33:23Não sei mais
33:24A gente subiu o rio. Navegamos contra a correnteza.
33:29Quer dizer, agora a gente está descendo o rio, a gente está navegando a favor da correnteza, né?
33:34Isso.
33:39Onde é que eu entro agora para voltar para casa?
33:42Contença, Diego.
33:52Essa é a história do Sem Terra. Ela sempre existiu, José Leão. Isso é coisa antiga.
33:57A diferença é que agora os jornais falam, o rádio, a televisão e por qualquer coisa eles fazem o escândalo
34:03dos diabos.
34:03Ah, com justa razão, o amigo não acha?
34:07Afinal, de que lado que o amigo está?
34:10Ah, eu não vivo de vender terra. Eu vivo de lidar com ela.
34:23Bom dia, Flor.
34:24Oi, Flor.
34:25Bom dia.
34:26Está morrendo de sede.
34:27É.
34:28Também com esse calor, né?
34:30Onde é que vocês andaram?
34:32Eu levei o jovem para conhecer o ninhal.
34:34Nunca vi lugar mais lindo na minha vida, Flor.
34:36Se as fotos que eu tirei ficaram e como estão imaginando...
34:39É, mas lá precisa tomar muito cuidado com as cobras.
34:42A gente não viu nenhuma, né?
34:43Não.
34:44É só a gente olhar bem onde está pisando, né, Flor?
34:46Oh, menina, é bom você não se afiar muito nisso não, hein?
34:50Cadê meu pai?
34:51Está lá na sala conversando com o pai dela.
34:53Vocês almoçam aqui?
34:55Para mim está ótimo.
34:56De repente.
34:58Por quê?
34:58Se você fez aquele arrozinho carreteiro que prometeu...
35:04Obrigada.
35:06Está vendo que vocês dois estão se dando bem, né?
35:09Muito bem.
35:11O jovem é uma gracinha, Flor.
35:13Esse menino é um encanto.
35:15Ai.
35:16Sabe, Guti, ele veio ao mundo pelos meus braços.
35:20É mesmo, Flor?
35:22Oi.
35:23Ele nasceu aqui, nessa casa.
35:26Você já vivia aqui?
35:28Já, já vivia.
35:47Mulher e mãe de todos
35:49O que será de nós
35:52Se a força do inimigo
35:54Calar a tua voz
35:57E sai dos passarinhos
36:00Dos mares e dos rios
36:04Dos vales preguiçosos
36:06Dos velhos pantanais
36:37Bem-vindos
36:42A minha filha é uma moça estudada, fez a faculdade e disse que vai continuar estudando.
36:48Daqui de férias comigo, mas a mãe dela, daqui uns dias é capaz de bater as asas e ir embora.
36:54Sei, sei.
36:56Eu, na verdade, não gosto muito disso. Eu preferia que ela ficasse aqui do lado da gente.
37:01Mas também não sei pra que tanto estudo, né?
37:03Bom, eu não estudo, nunca mais.
37:05É, mas ela não sabe nem fritar um ovo. Amanhã se casa e como é que fica?
37:10Marido frita. Ou então ela arranja uma empregada.
37:35Com moda lenta que faz sonhar.
37:42Onde a cor me divisteu, não chega já.
37:47Minhas almas transam através do rio.
37:50É por onde a empaia quase vai descendo o pique.
37:56O São Lourenço e o Paraguai.
38:21Eu gosto quando vem a chalana, muda.
38:27É bonita, chalana.
38:32Só não gosto do jeito que os homens me olham.
38:38Uma vez um veio atrás de mim e eu mordi ele.
38:46Nem contei pra mãe pra ela não ficar assustada.
38:50Mas eu mordi ele.
38:53Com toda a força.
38:57Fiquei até com gosto de sangue na boca.
39:04Eu não gosto de homem, não, muda.
39:06Ele só traz desgraça.
39:10Né mesmo, muda?
39:18Eu acho que nunca vou ter um na minha vida.
39:23Nunca.
39:27Eles almoçaram com a gente e foram embora.
39:30Por que vocês não apareceram lá pra comer?
39:33A gente comeu aqui mesmo.
39:37Tô achando a guta super legal, sabia?
39:40Tá gostando da moça, joitinha?
39:42Um bom papo.
39:45Ué.
39:46Um bom papo?
39:47Eu quando lido com as mulheres não vou atrás de conversa não, viu?
39:52Eu achei legal ela ter me levado no União.
39:54Eu fiz cada foto ótima.
39:56E não aconteceu nada lá, não?
39:58Tive lá no União, no meio daquele marco todo.
40:02O que você queria que tivesse acontecido, Tibete?
40:04Eu?
40:06Eu?
40:06Ah, nada de acho.
40:08O que é que podia ter acontecido, não é mesmo, Tadeu?
40:13Cara, não faz meu tipo.
40:16De qualquer jeito é perigoso vocês dois sozinhos por aí nesse mundão d'água.
40:20Ela é mulher.
40:21Que isso, Tadeu?
40:22Que bobagem.
40:22A gente ficou e voltou, não aconteceu nada.
40:24Tem algum problema?
40:26Da próxima vez eu vou junto.
40:28Tá gostando da guta, joitinha?
40:30Para com isso, Tibete.
40:32Hum, tem bom gosto, Tadeu.
40:37Eu não gostei dessa história de você andar sozinha com esse moço por esses matos.
40:41Não é, o senhor não falou que ele é florzinha?
40:43Pois então.
40:44E não é?
40:45Ainda não tive tempo de testar.
40:47Que seja a primeira e última vez.
40:49Que besteira, papai.
40:50Não fica bem para uma moça andar sozinha com um moço por esses rios.
40:54Ridícula a sua preocupação.
40:55Pode dar falação.
40:56Tô me lixando.
40:58Depois eu não vou com o Alcides.
41:00Com o Alcides é diferente.
41:02O Alcides é um pau de diabo.
41:16Ô, Filó.
41:17Hum?
41:18O que que a Tardaguta disse dos dois, hein?
41:21É, eles foram lá para o Ninhard.
41:25Junto.
41:26Gente, ele tirou um monte de retrato.
41:28Tudo que ele via pela frente, ele tirava o retrato.
41:31Só isso?
41:33Ué, o que que você queria mais?
41:36Não, nada, nada.
41:38Que os dois deitassem na areia?
41:39Cara, eu não falei isso.
41:41Ah, mas é bem que gostaria de ouvir, né?
41:44Eita, já tá falando demais.
41:48Ficou bravo, mas sabe por que que ficou bravo.
41:51Para.
41:53Ninh, conta essa história direito, Tadeu.
41:56Que negócio é esse de mulher-homem?
41:58Por causa que ninguém chega nela.
42:01Ela é pior que a mãe.
42:03Conta pra ele a história da onça.
42:05O que onça?
42:07Que onça?
42:07A mãe dela, a Maria Marroa,
42:10virava onça pintada nas noites de lua cheia.
42:13Ah, Tadeu.
42:14Você acredita nisso?
42:15Tadeu, conta outra, vai?
42:17Ah, é verdade, Júlio.
42:19É, e mesmo que pode chegar lá,
42:21tem que ser pra mais de macho.
42:24E ela é bonita?
42:26É linda de doê o zóio.
42:31Tadeu?
42:32Fala.
42:34Amanhã eu quero conhecer essa Júlio.
42:40Eu só posso ir daqui uma semana,
42:42que meu filho tá aqui.
42:44Câmbio.
42:45Ok, patrão positivo, hein?
42:47E o moço aí,
42:48o Zé já perdeu o medo do cavalo?
42:51Eu não posso ser palavrão pelo rádio,
42:54mas você já sabe qual é a minha resposta.
42:56Câmbio e desligo.
43:04Tava falando pro escritório Cuiabá?
43:07Eu sei.
43:10Esse Ari, ele às vezes toma mais liberdade.
43:13É, deu pra perceber.
43:16Mas ele é um bom sujeito e eu preciso dele.
43:19Eu entendo, meu pai.
43:21Eu entendo também que pegou super mal aqui
43:24o fato de eu não montar a cavalo.
43:26Bom, isso também é verdade.
43:29Mas eu vou tentar aprender.
43:32Eu me ensino, meu filho.
43:33Que nem meu pai me ensinou.
43:35Pode deixar, pode deixar.
43:37O Tibério vai me dar umas aulas de montaria.
43:38Eu acabei de combinar com ele agora.
43:40Não é pra quem, o Tibério?
43:41Eu prefiro.
43:43O que você quiser.
43:47Eu já tentei montar outras vezes.
43:51E aí?
43:53A tia Irma...
43:56Ela queria a todo custo que eu aprendesse a montar.
43:58Mas eu ficava apavorado.
44:00Bobagem, filho.
44:01Não tem que apavorar.
44:02Mas eu ficava apavorado, pô.
44:04Ah, tá.
44:05Calma, calma.
44:06Não tô criticando nada.
44:07Se você quer montar, você monta.
44:08Se você não quiser montar, você não monta.
44:10Pra mim é a mesma coisa.
44:12O importante é você estar aqui, meu filho.
44:14Sabe, pro teu pai...
44:15O mais importante de tudo é você estar aqui.
44:24Eu não fui criado no lombo de um cavalo.
44:27Mas eu fui.
44:30E quando eu nasci, minha mãe morreu.
44:32Meu pai não tinha com quem me deixar.
44:34E aí o senhor começou a fazer parte da comitiva dele.
44:38É.
44:39Como é que você sabe?
44:40A tia Irma?
44:42Ah, é.
44:43É, eu acho que eu já contei essa história pra ela.
44:46Ela conhece várias histórias suas.
44:49É.
44:50A gente conversava muito, né?
44:52Tem frases suas, assim...
44:54Como, por exemplo...
44:57Eu tenho mais boi no pasto do que existem estrelas no céu.
45:02Achei barato.
45:03É, mas claro que isso é um baita exagero.
45:07O senhor chegou no Rio de Janeiro como o rei do gado.
45:10Isso aí quem inventou foi um sófato.
45:13Dofé de praça, maluco, pá.
45:16Aliás, ele tentou me roubar.
45:19Mas eu nunca fui rei de coisa nenhuma.
45:22Meu avô falou...
45:23Que o senhor chegou com aquela...
45:25Como é que ficou o nome daquilo?
45:27Alforge.
45:28Alforge.
45:28Meu avô falou que o senhor chegou com alforge...
45:30Estufado de dinheiro.
45:33É que eu tinha ido lá pro Rio...
45:35Atrás de um safado que tinha tentado me passar a perna.
45:38Isso.
45:39E o senhor vendeu os bois pra ele...
45:41Que ele pagou o senhor com cheque sem fundo.
45:44Isso.
45:44Como é que você sabe?
45:46Tia e irmã.
45:50E a tua mãe?
45:52Ela nunca te falava nada?
45:56Falava que o senhor cheirava a bosta de vaca.
46:00E a tua mãe?