- há 5 horas
O documentário segue os passos do linguista afro-americano Lorenzo Turner (1890-1972) em suas pesquisas conduzidas na Bahia no início da década de 1940.
Dirigido por Gabriela Barreto
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AprendizadoTranscrição
00:00:28A CIDADE NO BRASIL
00:00:57A CIDADE NO BRASIL
00:01:26A CIDADE NO BRASIL
00:01:29A CIDADE NO BRASIL
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00:04:13A CIDADE NO BRASIL
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00:06:50A CIDADE NO BRASIL
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00:07:01A CIDADE NO BRASIL
00:07:17A CIDADE NO BRASIL
00:07:20CIDADE NO BRASIL
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00:08:43CIDADE NO BRASIL
00:08:58A CIDADE NO BRASIL
00:09:03É lindo isso, não é?
00:09:05Adoro.
00:09:32E esse daqui, você reconhece?
00:09:36Esse é o amorzinho, ele é de Xangu, ele é o marido de Zezé.
00:09:42Olha o Zezé aqui, a esposa dele, olha aí os dois.
00:09:46Ele e o Zezé, aqui era a esposa dele também, a filha de santo daquele, ele está todo engalanado.
00:09:56Ele é de Ançã e ele é de Xangu.
00:09:58Está todo mundo com Deus, batendo tabaque lá no céu.
00:10:06Todos me viram nascer, crescer, mas é o mundo, é isso mesmo, é a vida.
00:10:14O mais impressionante é ver mãe menininha, que nunca puse os pés na África, falar fluentemente Yorubá.
00:10:22É uma coisa assim, extremamente emocionante e linda.
00:10:25Da mesma forma, a gente tem o Manuel Falefá, que era da nação Jeje, e que fala Fon, que faz
00:10:32um discurso para o professor Turner, em língua Fon.
00:10:35É uma língua do antigo Dalmé, do atual Benin, que tinha um repertório de cantigas, de rezes absolutamente extraordinário.
00:10:43Que dominava as cantigas da sua nação, Jeje, mas que também contava nas outras nações, com outras línguas.
00:10:51Ou seja, era um verdadeiro poliglota de línguas africanas.
00:10:55O Babalorixá Manoel Falefá diz, em Jeje, a alegria de vencer a guerra por cantigas.
00:11:25É mais ou menos assim, que eu não me lembro toda a letra não.
00:11:27Só quando eu começo a cantar, que aí a gente vai se lembrando, entendeu?
00:11:31Qual era o vodum do seu pai?
00:11:34Meu pai era de Xangô, com Nanã.
00:11:37Meu avô iniciou lá no Calabá, onde lá ele iniciou três a quatro filhas de santo.
00:11:46Depois ele foi para São Caetano, onde comprou aquele terreno grande e fez a roça.
00:11:54E recolheu várias, muita gente, muita gente, criou muita gente.
00:12:00E ele continuou se desenvolvendo, iniciando muitas pessoas, iniciou muitos filhos de santo.
00:12:06Meu pai chegou a ter trezentas e poucas filhos de santo.
00:12:09Ele foi o primeiro presidente da Federação Baiana do Culto Afro-Brasileiro.
00:12:12O primeiro presidente, o fundador da federação, foi ele.
00:12:16Na época que o candomblé era regido pela polícia.
00:12:22A polícia que determinava o que o candomblé ia fazer, quando ia fazer, que hora ia fazer.
00:12:27Quando ele ficou viúvo, né, aí um ano depois do Achechei da final da Minha Dama,
00:12:36Nanã desceu e disse que ali não seria mais terreiro.
00:12:41Ele ia construir outra família, tudo diferente, e que ali ela não queria mais terreiro.
00:12:48Aí ele se acomodou e ficou com minha mãe.
00:12:52Aí minha mãe veio pra aqui, abriu aqui, o dono praticamente era ele.
00:12:58É que era o pai, mandava em tudo.
00:13:01Aqui a gente é gizmina popô.
00:13:04Como ele foi feito na nação que ele foi feito, quando ele iniciou na religião.
00:13:09E essa nação ele continuou.
00:13:12Só que ele aprendia de tudo.
00:13:14Funcionou aqui de 1929 até 1958.
00:13:2558.
00:13:28Depois o meu pai fechou o terreiro, com determinação dos orixás.
00:13:35E aí ele transformou isso aqui numa escola, uma escola comunitária.
00:13:40A escola Manuel Falefar, que levou o nome e a denominação de Educandário Manuel Vitorino.
00:13:47Vinha muita gente, o número de pessoas era enorme.
00:13:50Então aqui, essas casas aí funcionavam como dormitório.
00:13:55E essas pessoas que vinham, seu Manuel Falefar, ele era visitado por pessoas de toda parte do país.
00:14:03É, é verdade, em todo o país.
00:14:05Posso betar, falefar, canta, raponze, banguela, angola.
00:14:12Ele é maionguêndoque, ele é maionguêndoque, maionguê, ele é maionguêndoque, maionguê, ele é maionguêndoque, maionguê, ele é maionguêndoque, maionguê.
00:14:27Ele é maionguêndoque, maionguêndoque, maionguêndoque, maionguêndoque, maionguêndoque, maionguêndoque, maionguêndoque.
00:14:40Então ele gostava muito do Angola, é isso?
00:14:42Segunda-feira, quando terminava as obrigações da casa, aí ele mudava, virava, terminava as obrigações, ele virava para Angola, que
00:14:53era para as meninas, eu, inclusive, também, aprender a dançar mais fácil.
00:14:58Porque no Angola ensina mais rápido para a pessoa dançar o condombré.
00:15:03Aí ele tocava, a gente dançava e aprendia a cantar também.
00:15:35O Angola ensina mais rápido para a pessoa dançar o condombré.
00:15:45Quando, em 1960, quando veio o primeiro professor de Yorubá para o Brasil, Lachebican, ele ficou alegre.
00:15:53Depois ficou triste, decepcionado, porque ele esperava que o povo do candomblé fosse para o Seal, para aprender a traduzir
00:16:03o que estava cantando, o que estava dizendo.
00:16:05Porque até então, certo? O povo do candomblé era papagaio de porta de venda, como diz a história.
00:16:11Falava o que ouvia os outros falar, mas não sabia o significado.
00:16:15Não sabia o que estava dizendo.
00:16:17Certo?
00:16:17Então, foram poucos dos povos do candomblé que foram lá para o Seal fazer o curso de Yorubá.
00:16:25Pessoas importantes, influentes no candomblé.
00:16:28Foram poucos.
00:16:28Aqueles que estavam, aqueles terreiros que estavam no auge, não foram.
00:16:34Porque se acharam, certo, que já sabiam de tudo, certo, que indo para lá iria se diminuir.
00:16:40O que realmente sustenta e suporta o candomblé é a língua, o aspecto sagrado da língua e, aliás, tem um
00:16:49capítulo dedicado a isso.
00:16:51Então, a língua, em termos religiosos, ela sacraliza o objeto e ela é que marca as diferentes identidades étnico-culturais
00:17:02dos candomblés.
00:17:03Então, se você diz, por exemplo, ori, você está sabendo que esta palavra é uma palavra de Yorubá, então pertence
00:17:14às religiões de tradição esqueto, dito nago.
00:17:18Se você diz mutuê, então você está sabendo que é uma palavra tiangola, então isso aí vai pertencer, então, às
00:17:25religiões que culturam traços congongola.
00:17:30Congangola. Não é banto, não. Congangola. Porque existe um erro muito grande no Brasil atualmente de achar que o candomblé
00:17:38é banto.
00:17:39Candomblé não é banto. O candomblé não é yorubá. Yorubá e banto são termos linguísticos que foram criados no século
00:17:48XVIII,
00:17:48um na Nigéria e o outro na África do Sul, para exatamente denominar como um único termo uma série de
00:17:59línguas aparentadas ou tipologicamente parecidas.
00:18:03No caso da Nigéria, foram todos os dialetos de fala yorubá junto com o nago de queto, que ficou denominado
00:18:11tudo de yorubá.
00:18:12E no caso da África do Sul, todas as línguas tipologicamente parecidas do mundo banto, que foi chamado então de
00:18:18banto, que é um termo genérico.
00:18:20Então, não existe candomblé banto, nem candomblé yorubá. Porque existe, sim, o candomblé congongola ou angola, se quiserem, e o
00:18:30candomblé queto, nagoqueto ou jexá.
00:18:33Exatamente essas línguas é que sustentam o segredo, inclusive, do candomblé. Quanto mais acesso você tem à língua, mais o
00:18:42segredo você vai saber daquela religião.
00:18:46Acontece, porém, que com o passar do tempo, essas línguas, como línguas correntes, se perderam e ficaram apenas nos candomblés
00:18:56marcados como uma língua de aspecto simbólico,
00:19:01e não mais de competência linguística, é competência simbólica.
00:19:05Então, você sabe perfeitamente que quando Oxum entra num terreiro, você diz, o elereu. Agora, o que é que quer
00:19:13dizer o elereu?
00:19:14Ninguém não quer saber e não interessa. Sabe-se que tem de dizer aquela expressão e pronto, fica mantido o
00:19:21segredo daquela frase.
00:19:24Tem uma cantiga que o senhor gostaria de contar em homenagem ao Farifá?
00:19:51Ele gostava muito dessa música.
00:20:17Nós temos sim algumas fotos do meu pai,
00:20:19quando ele estava dando aula aqui de língua e orubá.
00:20:23Com os alunos dele.
00:20:25E essa foto é uma foto linda do meu pai.
00:20:29E ele só se vestia assim, né?
00:20:32Interessante, né?
00:20:35Ele gostava de usar sempre sapato.
00:20:38Esse gorfo aí veio de Lagos.
00:20:41Ele trouxe...
00:20:42A última vez que ele esteve lá, ele trouxe oito gorfos desses.
00:20:45Aqui está escrita a palavra kekó.
00:20:47Akekó é aluno em orubá. Significa aluno.
00:20:53Ele estava dando aula de orubá nesse dia aí.
00:20:56Agora, ele era muito rígido.
00:20:59E quando ele ensinava, ele queria que aprendesse.
00:21:04Não era para não aprender.
00:21:05A gente aprendia a fazer mariô, a gente aprendia a fazer conta,
00:21:09trabalhar com palha da costa.
00:21:10A gente não comprava a conta pronta.
00:21:12A gente aprendia com ele, ensinava que ele lê.
00:21:17E tudo isso ele deixou, né?
00:21:19Até porque eu aprendi, passei para outros e estou levando.
00:21:23Mas ele era uma pessoa...
00:21:24Meu avô era uma pessoa muito boa, porque ele ensinava mesmo.
00:21:28E hoje eu lhe digo a você, se eu sair daqui de joelho no Bonfim,
00:21:32eu não agradeço nem a Nanã, nem o Molu e nem o espírito dele.
00:21:36Meu pai era mais presente do que minha mãe.
00:21:39É.
00:21:40Na minha vida.
00:21:42É verdade.
00:21:43Aí eu tenho lembrança forte do meu pai.
00:21:47Entendeu?
00:21:48Muito forte.
00:21:49Ele era muito amoroso.
00:21:52Muito dócil comigo.
00:21:54Entendeu?
00:21:55Até a forma de reclamar, de brigar.
00:21:58Meu pai, ele tinha maneiras.
00:22:02Era com todos assim.
00:22:04Era com todos.
00:22:05Ele era rígido.
00:22:05Ele era rígido.
00:22:06Na educação, ele era rígido.
00:22:07Tudo ele era rígido.
00:22:08Mas era muito amoroso, meu pai era muito amoroso.
00:22:10Ele era amoroso com a gente.
00:22:11Todos nós tínhamos os apelidos que ele botava.
00:22:13Ali é Teta, eu sou tamoio, ela é Taninha.
00:22:16Ele era Taninha.
00:22:17Ele botava apelido em todos.
00:22:20Ele botava apelido em todos.
00:22:20Uma forma amorosa de gente, tratava a gente.
00:22:23Em mim, eu sempre tive.
00:22:24Meu pai não morreu.
00:22:25Meu pai sempre esteve vivo dentro de mim.
00:22:29E com vocês aqui, entendeu?
00:22:33Isso, para mim, está me mostrando que ele está mais vivo do que nunca.
00:22:38Então, a Falifá, por exemplo, justamente canta em Kikongo, em Kimbondo, em Língua Fon.
00:22:45Ou seja, em determinadas línguas que a gente encontra em determinadas regiões do continente africano.
00:22:50E que mostra que, nessa época, havia uma integração muito grande entre as nações de Canomblé.
00:22:57Havia um respeito mútuo entre sacerdotes e sacerdotisas na Bahia, na cidade de Salvador e aqui também no Recúncavo.
00:23:05Havia um trânsito dessas pessoas de um terreiro para o outro.
00:23:09Um verdadeiro Canomblé internacional.
00:23:12As nações se encontravam, se mesclavam de uma forma harmoniosa.
00:23:26Música
00:23:29Música
00:23:49Sinto saudade daquela época.
00:23:52Porque a gente vivia muito mais unidos e todo mundo sabe que unidos somos mais fortes.
00:24:02Então, a intenção é exatamente separar.
00:24:04Até porque, quando nós viemos para cá, reis e rainhas vieram para cá, seres humanos, para serem escravizados.
00:24:13E se fazia a questão, no próprio discurso do seu benzinho, ele dizia, se jamais eles poderiam trazer as suas
00:24:22crentices, seus objetos de sagrados,
00:24:25porque eles eram pegos a dente de cachorro, conforme ele colocava.
00:24:30E você fazia a questão de mandar para cada lado uma clã.
00:24:36Você jamais ia aglutinar do mesmo clã aquelas mesmas pessoas.
00:24:41A tendência era separar. E esse separar enfraquece muito.
00:24:46E sobre o fotógrafo, o Lourenço, ele me deixou muita surpresa na época que foi lançado o trabalho dele.
00:24:56Porque eu vivia numa cobrança com meu pai sobre esse material dele deixar alguma coisa para o futuro.
00:25:05Eu tinha certeza absoluta de que, apesar do nosso aprendizado ser um aprendizado oral,
00:25:11mas se a gente não registrasse nada, a gente teria um risco muito grande de haver distorção naquilo que se
00:25:19pratica.
00:25:20Eu fazia essa cobrança porque ele era muito sério e ele dificilmente permitia se gravar.
00:25:27E, de repente, eu vejo uma gravação de 1940, onde uma pessoa perguntou, é a voz de seu pai?
00:25:33Eu disse, com certeza absoluta, é a voz do meu pai.
00:25:35E isso me inspirou bastante, me tirou muita dúvida.
00:25:40Inclusive, há um cântico nessa gravação que não é cantado por ele.
00:25:47Era pelo Manuel Falefá, que não era também da tradição banto, mas que cantava muito bem.
00:25:55Angola, Queto, Jeje e Jeixá.
00:25:58E ele traz um cântico, que era um cântico que fazia muita discussão aqui no terreiro,
00:26:04de que as pessoas entendiam que esse cântico era Pambamburucema.
00:26:08E esse cântico não é Pambamburucema, de uma entidade que era pouco cultuada aqui, praticamente, no Brasil, que é Panzu.
00:26:18E aí, eu fiquei feliz com isso, porque eu vi uma gravação de 1940, eu não era nem nascido, e
00:26:24alguém já cantava para Panzu.
00:26:26Eu digo, tá vendo o que eu falei? E isso foi um aprendizado com o meu pai.
00:26:34Lalaivande, oiamamandolê, lalaivande, oiampanzaindoque, e depois ele canta.
00:26:45Lempanzaindoque, lempanzaindoque, mas o que lê?
00:26:48Lempanzaindoque.
00:26:49E tem muitas pessoas que fazem um trocadilho e entendem que esse cântico é de Bamburucena, e ele é de
00:26:54Panzu.
00:26:55Que é, que vem já nas vibrações de Catendê, Mutalambo.
00:27:02Ele foi em vários terreiros de várias nações diferentes de Candomblé, na cidade de Salvador, coisas que ninguém tinha feito
00:27:08antes dele.
00:27:10Coletar esse acervo sonoro foi uma coisa extraordinária.
00:27:13E o que o trouxe para cá?
00:27:15Porque, afinal de contas, esse homem negro, linguista já reconhecido, lá nos Estados Unidos, em 1940, chega à Bahia.
00:27:22Ele chega aqui na Bahia porque ele tinha se deparado com uma língua, um povo do sul dos Estados Unidos,
00:27:31da Carolina do Sul e da Geórgia, chamado Os Gala.
00:27:34Os Gala são descendentes de escravos que viveram basicamente nas condições dos quilombolas.
00:27:40O que o princípio é que há pessoas nunca me dão a contar o Loretto da Alterna.
00:27:47E fazer isso que os livros foram reprintados.
00:27:51Os livros foram feitos aqui novamente, foram feitos em escravos, foram feitos em livros.
00:27:56E, porque o trabalho de minha organização, o Gala Geachia-Sea-Allen Coelho,
00:28:00mais, como eu diria, popularizando o Gala Geachia-Culture,
00:28:03então, fazem outrosvedores desejam saber o que isso é, além linguistas e atlas musicologists.
00:28:09E agora, eles têm batido a hobricas,
00:28:13como uma das pessoas faladas de Porto da Aleutia.
00:28:16Como você vivemos com a língua?
00:28:17O reasons da Porto da Caribbean são vocês?
00:28:20Ninguém é da portão da Carribe, mas eles são iglesas de doidos.
00:28:24Sim, nós temos de doidos, mas eles são iglesas de doidos.
00:28:26E então, pessoas perguntam, o que? Eu nunca ouvi disso ouviu.
00:28:29Então, quando você estava falando sobre o idioma,
00:28:32o material they find if they look up the language
00:28:35will be Dr. Turner's work
00:28:37and so fortunately
00:28:39especially with digitization and everything else now
00:28:42people get to access that
00:28:44and give the credit where the credit is really
00:28:46really due
00:28:47I mean because there have been so many linguists
00:28:49I got inundated with linguists
00:28:52wanting to talk to me
00:28:53they're doing their thesis paper
00:28:55but my thing is
00:28:58we'll just stop talking about our language
00:29:00disappearing because we're not disappearing
00:29:02stop talking about our culture
00:29:04is gone because obviously if you could find
00:29:06me and my whole family
00:29:08we're not gone
00:29:09it's just that people again hid
00:29:12our traditions
00:29:13and we started to isolate it
00:29:16and insulate it I always tell people
00:29:18all the more as academics
00:29:20kept coming looking for it
00:29:21and I think that what he did
00:29:23was cause people to look
00:29:26to even say there is a group of African
00:29:28people that feel something
00:29:30that sense something
00:29:31that live something
00:29:33that reconnects them
00:29:34to their motherland
00:29:35that they never left it behind
00:29:37that they weren't fully assimilated
00:29:39they definitely weren't annihilated
00:29:42but they are still
00:29:44the keepers of culture
00:29:46they are the keepers of intellect
00:29:48because when we talk about language
00:29:50I don't know people who talk about language
00:29:52and don't think of it as somewhat of an intellectual topic
00:29:54but then at the same time
00:29:56you try to diminish it by saying things
00:29:58like baby talk
00:29:59and broken something
00:30:01and we've never been broken in any way
00:30:04and that's the problem
00:30:05his work stood as a pillar
00:30:08to the living legacy of the Galagichi nation
00:30:11to say
00:30:12we do binyang, we do binyang, we do binyang, we do binyang, we do binyang
00:30:14So, the motivation of his arrival
00:30:17of his arrival for him
00:30:17was just to prove
00:30:19his theory of that the Galagichi
00:30:22is a Spanish language
00:30:23a language that has
00:30:25in its configuration
00:30:26a léxico,
00:30:28or African words
00:30:29africanas. E ele
00:30:31repertoriou mais de 5 mil palavras
00:30:33africanas nessa língua
00:30:35falada nos Estados Unidos. Então ele
00:30:37consegue esse financiamento
00:30:39a muitos custos, sai
00:30:41de Nashville, vai para Nova York,
00:30:44adquire o equipamento necessário
00:30:45para fazer as gravações, vem para
00:30:47o Rio de Janeiro, grava o Mário de Andrade,
00:30:50fica umas semanas no Rio
00:30:51e vem para a Bahia, chega em Salvador
00:30:53no dia 7 de setembro de 1940.
00:31:25Ele tem um percurso extraordinário
00:31:28e pensar que
00:31:29a obra desse homem, que foi
00:31:31ao Brasil depois de muita luta,
00:31:34uma década para
00:31:35conseguir financiamentos e chegar aqui em
00:31:371940, que 10 anos depois
00:31:39vai à África e também
00:31:41acumula um acervo extraordinário.
00:31:43E essa obra até hoje não foi
00:31:46reunida,
00:31:47como acontece em outros casos.
00:32:05Sissi, obrigado, viu, por
00:32:07bater um papo comigo.
00:32:10Para mim também é muita emoção estar aqui,
00:32:12nessa casa, com você.
00:32:15E o que eu queria
00:32:16são olhar com você
00:32:19algumas fotos
00:32:21que foram tiradas há quase 80 anos,
00:32:24pelo professor Lorenzo Terna,
00:32:26e começar com uma figura,
00:32:29que foi uma figura muito polêmica,
00:32:32e talvez o pai de São, até hoje,
00:32:34mais famoso da história do Brasil.
00:32:36Vamos começar com uma fotografia
00:32:38que eu acho interessante também,
00:32:41porque ela aparece um pouco com fotografias
00:32:43que a Verge tirou
00:32:44seis anos depois, né?
00:32:45Aqui a gente está em 1940,
00:32:47e vou deixar você apresentar essa figura.
00:32:49Todo mundo sabe que seu João,
00:32:51o finado João,
00:32:53ele era chamado Angola.
00:32:56Porém, ele estava numa área
00:32:58que era onde tinha muita reminiscência
00:33:01do povo Jeje.
00:33:03Por isso, chamava Gomé, Gomé.
00:33:07A Gomé era a antiga capital do Dahomé.
00:33:11Realmente, eu conheci muito ele.
00:33:14Ele tinha muita influência Jeje.
00:33:19Ele diz que ele, em 38,
00:33:21parece que ele já estava envolvido
00:33:23com o candomblé.
00:33:2438.
00:33:2540, 46, eu já tenho sete anos.
00:33:30É quando meu pai Fatumbi chega.
00:33:33Meu pai chega,
00:33:34aí ele começa a fotografar.
00:33:37E, antes, eu tinha dois tios
00:33:39que eram filhos do mesmo pai de santo,
00:33:42que diz que era o pai de santo
00:33:44de seu João,
00:33:45que era quem?
00:33:45Eu acho que eu já até comentei
00:33:46certa fita com você,
00:33:47que era seu Severiano Jubiabá.
00:33:50Eu já conheci ele, assim,
00:33:52num salão de beleza.
00:33:54porque ele era uma figura muito vaidosa,
00:33:58um homem de Oxóssi muito vaidoso.
00:34:01Ele era muito moderno para aquele tempo.
00:34:05E, então, ele começou a ter muitas inimizades.
00:34:09A partir daí,
00:34:10a primeira polêmica com ele
00:34:13é porque ele sai da tradição antiga,
00:34:17porque só botava pano que tivesse brilho
00:34:20quem fosse de Oxum ou Iemanjá.
00:34:25Aí começa a polêmica,
00:34:27porque dizem que ele começava
00:34:29a enfeitar muito a roupa.
00:34:32Aqui você vê que é a cobra.
00:34:34Uma cabeça para cá, outra para lá.
00:34:36Está vendo?
00:34:37Isso não era qualquer pessoa que podia usar.
00:34:40Pior ainda, para tirar a foto.
00:34:42Porque tinha coisas que você não botava assim.
00:34:46Aqui ele tirou foto,
00:34:47mas ele bota,
00:34:49para a época e para o meu olhar,
00:34:52ele bota fundamentos.
00:34:54Bastante fundamentos.
00:34:56Seu Pedra Preta é um rei
00:34:59Que nas matas mora
00:35:02Seu Pedra Preta é um rei
00:35:05Que nas matas mora
00:35:08Vem a ver seus filhos
00:35:12Que tanto lhe adora
00:35:15Vem a ver seus filhos
00:35:18Que tanto lhe adora
00:35:21Seu Pedra Preta é um rei
00:35:24Que nas matas mora
00:35:27Seu Pedra Preta é um rei
00:35:30Que nas matas mora
00:35:33Seu Pedra Preta é um rei
00:35:43A energia mais falada
00:35:47Na época dele
00:35:48Que se edita nos livros
00:35:50Nas histórias e tudo
00:35:51O Caboclo Pedra Preta
00:35:52Que hoje está aqui no terreiro
00:35:55Somos nós que cultuamos
00:35:56Somos nós que tomamos conta
00:35:58Então esse legado
00:35:59É um legado que vem de seu João
00:36:00Mãe Mirinha foi iniciada
00:36:02Por seu João da Goméia
00:36:03No tal lendário comentado e dito
00:36:05Barco das 18 Iaô
00:36:07Na Goméia aqui de São Caetano
00:36:10Ela se iniciou
00:36:12Ela tinha 7 anos de idade
00:36:14O inquice dela
00:36:15Era um dos mesmos inquices
00:36:17De seu João da Goméia
00:36:18De Gongombira
00:36:20De Oxosse com Inhansã
00:36:22De Gongombira e Bamburcema
00:36:23A gente se sente verdadeiramente
00:36:26Honrado de fazer parte
00:36:29Dessa história
00:36:29Fazer parte desse legado
00:36:31De uma pessoa que foi considerada
00:36:33Como o rei do candomblé
00:36:34Um título que é dado
00:36:36A poucas pessoas
00:36:37Um pai de santo
00:36:39Um ser humano
00:36:39Uma pessoa que estava
00:36:40À frente do seu tempo
00:36:41Que abriu assim
00:36:43Muitas portas
00:36:44Para inovação
00:36:45E uma nova forma
00:36:47De estar também
00:36:48Na religião de matriz africana
00:36:50E não candomblé
00:36:51Quer queira quer não
00:36:52Na época era dito
00:36:53Como uma coisa
00:36:54Talvez até ruim
00:36:56Porque ele estava fazendo
00:36:57Coisas que não se fazia
00:36:58Mas hoje a gente vê
00:36:59Que ele ter feito isso
00:37:01Abriu espaço
00:37:02E portas
00:37:03Para muitas outras coisas
00:37:04Para muitas outras pessoas
00:37:06Também fazer
00:37:07Sair de um lugar para o outro
00:37:08Se deslocar
00:37:09E difundir
00:37:11De uma certa forma
00:37:12Mais e melhor
00:37:13O candomblé
00:37:15A religião
00:37:15A fala
00:37:16Esse legado
00:37:17Que a gente tem
00:37:19Com tanto amor
00:37:20E com tanto carinho
00:37:20Joãozinho
00:37:21Que quando foi gravado
00:37:23E registrado
00:37:24E fotografado
00:37:25Polonês do Turner
00:37:26Tem apenas 26 anos
00:37:27É um menino
00:37:28Nascido em Iambupe
00:37:30Aqui no
00:37:31Grande Recôncavo da Bahia
00:37:32Que vai muito cedo
00:37:34Novo
00:37:34Para a capital
00:37:35Para Salvador
00:37:36Por problemas de saúde
00:37:37E vai ser iniciado
00:37:39Por Jubiabá
00:37:39Um pai de santo
00:37:41Mítico
00:37:41A gente não sabe
00:37:42Até que ponto
00:37:43O Jubiabá do Jorge Amado
00:37:45É o Jubiabá
00:37:45Da realidade histórica
00:37:47Mas o fato é que
00:37:48Joãozinho da Gomeia
00:37:50Era um goleiro
00:37:51Era da nação Angola
00:37:52Congo Angola
00:37:53E essas cantigas
00:37:55Essas gravações
00:37:57Que o professor
00:37:57Lourenço Tano
00:37:58Fez
00:37:59Mostram o domínio
00:38:00Do Joãozinho da Gomeia
00:38:03Desse patrimônio musical
00:38:05Com Angola
00:38:06Uma reza de Oxóssi em Angola
00:38:09Com o Joãozinho da Gomeia Bahia
00:38:12O Dunda Curacura
00:38:16Eu e o e
00:38:20O Dunda Curacura
00:38:23Eu e
00:38:27O Cambrão
00:38:28Eu e
00:38:29Eu e
00:38:33O Dunda Curacura
00:38:39Eu i
00:38:40Eu e
00:38:41Aí é uma reza, não é uma cantiga que a gente cante no salão.
00:38:46É uma reza.
00:38:47Nós continuamos cantando desse mesmo jeito, nesse mesmo tom,
00:38:52mas é justamente quando a gente está rezando,
00:38:56quando a gente faz uma oferenda, quando arreia uma comida nas obrigações.
00:38:59No quarto dele.
00:39:00Isso, é.
00:39:01Pode cantar essa?
00:39:02Essas cantigas a gente, quando canta, naturalmente,
00:39:06são invocadas algumas energias.
00:39:07Deixa elas quietam.
00:39:11A melhor Serenidade
00:39:31Amém.
00:40:03Amém.
00:40:07Que bom ir, velho. Quanto tempo.
00:40:09Quanto tempo, hein, Xavier?
00:40:10Eu queria bater um papo. Vamos?
00:40:12Pronto, vamos.
00:40:17A antiga de Exu, em Angola,
00:40:19para o Joãozinho da Gomé, a Bahia.
00:40:21Quando se começa o Canomblé,
00:40:23canta primeiro para Exu
00:40:24para poder abrir os caminhos,
00:40:27abrir as estradas,
00:40:28levar o que é ruim,
00:40:30traz o que for de bom.
00:41:11A letra mudou um pouquinho.
00:41:27Você pode cantar novamente para ver?
00:42:08A gente aprendeu dessa forma e aí a gente passa dessa forma, mas é uma questão de nações mesmo, é
00:42:16questão de que eu sou angola e canto de uma forma,
00:42:20é Nagô canta de outra, o Jeji canta de outra, então é essa diferença de nações que as músicas são
00:42:29cantadas diferentes.
00:42:31As línguas mais faladas aqui é o Kikongo, Kimbundo ou Chikwe.
00:42:37Nós sabemos perfeitamente que há muito mais do que 100 de todas elas.
00:42:41Existe alguma linguagem dos caboclos, que aí já não são mais de se unir à tradição banto, mas essa linguagem
00:42:53dos caboclos já vem de uma tradição ameríndia.
00:42:56A gente sabe perfeitamente que tem caboclos que falam alguma coisa que você não consegue entender, é tupi, guaraní, ninguém
00:43:03sabe.
00:43:04Mas ela se confunde porque eles conviveram muito com o povo de tradição banto.
00:43:11Nós temos aí vários cânticos de caboclo que ele alerta as pessoas daquilo que ele quer, ele não vai diretamente
00:43:18dizer o ponto.
00:43:19Cabe a você refletir e ver qual é realmente a mensagem.
00:43:24São pouquíssimas pessoas que se dedicam a estudar a língua africana no Brasil.
00:43:29Essa é a grande importância do trabalho de termos, mostrar que essas línguas foram faladas,
00:43:37que essas línguas sobreviveram até determinado momento e que as pessoas não se interessam,
00:43:44o brasileiro não se interessa por estudar línguas africanas,
00:43:48simplesmente porque são línguas de oralidade e o que não é escrito em letras, em letras,
00:43:58não tem legitimidade, não é legitima.
00:44:03Três cantigas em Angola seguidas por Joãozinho da Goméia Bahia, em Santos de Verso.
00:44:26Aí é uma reza pra caboclo, né?
00:44:30É de Jambaraê, se eu aqui ficar, é de Jambaraê, se eu aqui ficar.
00:44:59Essa é uma reza pra caboclo e na qual a gente reza também aqui, né?
00:45:04A primeira nação, a primeira nação é a nação de Angola, né?
00:45:10É importante que as pessoas saibam disso, né?
00:45:12Que da Angola surgiu o Nagô e aí foi trazendo as outras nações, né?
00:45:17E hoje a Angola, ela é uma religião, é uma nação que fica um pouco mais pra trás, né?
00:45:24Ela não é muito vista assim, não.
00:45:26Mas a gente tá aqui pra gente realmente fazer esse trabalho, pra que a gente possa divulgar a nossa nação,
00:45:33que é muito linda, né?
00:45:35A nação de Angola, a nação de caboclo, e que as pessoas comecem a mudar a expectativa dessas coisas, né?
00:45:44De não querer fazer festa de caboclo em casa, que é muito importante, né?
00:45:49Que seria da gente se não fosse os caboclo, né?
00:46:08Irmão, vamos embora, que o vapor já suviou
00:46:12Na terra de seu pai tá tocando o Agogô
00:46:16Irmão, vamos embora, que o vapor já suviou
00:46:21A terra de seu pai tá tocando o Agogô
00:46:28Na terra de seu pai tá tocando o Agogô
00:46:32Que o vapor já suviou
00:46:35Tá tocando o Agogô
00:46:37Joãozinho da Gomea foi um revolucionário
00:46:40Foi alguém que revolucionou o Canomblé
00:46:42E eu digo, na minha opinião, de uma forma extremamente positiva
00:46:46Dentro do leg das religiões que existem no Brasil
00:46:49A única religião que abraça a comunidade LGBT
00:46:53Que abraça homossexuais é o Canomblé
00:46:57E isso se deve ao protagonismo, ao pioneirismo do Joãozinho da Gomea
00:47:02Se o Joãozinho da Gomea não tivesse dançado no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
00:47:07Com a sua Ianção
00:47:08Se ele não tivesse sido o rei do Canomblé, como ele foi chamado
00:47:12Se ele não tivesse migrado para o Rio de Janeiro
00:47:15E tornado o Canomblé algo de extrema importância na cultura nacional
00:47:20Se ele não tivesse assumido a sua homossexualidade de uma forma patente
00:47:24E a gente tá falando dos anos 30, dos anos 40
00:47:26Com certeza o Canomblé não seria hoje esse lugar onde as pessoas podem abertamente vivenciar sua orientação sexual
00:47:35Então é alguém que eu acho que ainda deve ser reverenciado
00:47:39Nós sabemos quem seu João era e a opção dele
00:47:44E isso não nos diminui
00:47:45Isso nos engrandece em todos os sentidos
00:47:49Porque em sabedoria, em evolução espiritual
00:47:56De todas as energias, os inquisos que ele carregava, de tudo que ele fez
00:48:00Só fez engrandecer a cultura, o Canomblé
00:48:05E até mesmo pra gente questionar, pra gente falar, pra gente tá sempre mexendo
00:48:13Faz parte também do convívio e da existência
00:48:24Faz parte também do convívio e da existência
00:48:58O professor Turner, quando veio pra Bahia em 1940
00:49:01Ele ficou sete meses em Salvador
00:49:04Mas além disso, há registros de que ele veio aqui no Recôncavo
00:49:08Ele veio pra Cachoeira, pra Muritiba, pra São Félix, passando por São Tamar da Purificação
00:49:17E nesses registros que ele fez
00:49:19E a gente não tem muita história de como ele veio pra cá
00:49:23Mas eu acho incrível que ele tenha vindo com todo esse equipamento dele
00:49:26Pra fazer gravações e fotografias
00:49:29Ele, por exemplo, aqui em Cachoeira
00:49:33Registrou o seu Misael de Oiá
00:49:35Foi meu vizinho
00:49:37Que você conheceu?
00:49:38Vizinho
00:49:40Imagina, assim, uma coisa de 1940, né?
00:49:43Que você teve a oportunidade de alcançar
00:49:45Já, eu nasci em 65 e eu conheci o Misael nos sinais da década de 70
00:49:51Então, eu, dessas fotografias, tem algumas que eu queria lhe mostrar
00:49:55Porque ele não, em muitos casos, não anotou o nome das pessoas, né?
00:50:00Então, a gente tem o local
00:50:01A gente tem alguma indicação sobre a língua africana
00:50:05Que cada uma dessas pessoas falavam
00:50:06Porque ele, sendo linguista
00:50:08O grande interesse dele era justamente saber quais línguas africanas
00:50:13Essas pessoas ainda falavam na época
00:50:15Então, a primeira foto que eu queria lhe mostrar
00:50:18Que é daqui de Cachoeira
00:50:20É desse senhor
00:50:23Que foi tirado, então, em 1940
00:50:25E eu queria saber se você pode falar um pouco sobre essa fotografia
00:50:30É
00:50:33Uma figura, talvez, não do registro dele
00:50:37Como um pai de santo, como algo do tipo
00:50:39Mas, da forma como está vestido aqui
00:50:42Vai lembrar muito os negros do Partido Alto
00:50:45Os negros de partido, os negros livres, né?
00:50:47E da forma como está desgastada
00:50:49A roupa dele aqui, mais do lado, né?
00:50:52Do lado direito
00:50:55Talvez ele fosse um sapateiro
00:50:57Que era uma profissão também muito aceita na época
00:51:00Porque, pós-escravidão, a forma de sobreviver
00:51:02Era procurar um ofício
00:51:04Uma prática, talvez, até vindo já da própria África
00:51:07E está fumando charuto
00:51:09E com o chapéu do lado
00:51:11E o acesso ao charuto não era de todos, né?
00:51:13Era de alguns, né?
00:51:16Aí, a única indicação que tem por trás
00:51:18A fotografia original do professor Turner
00:51:20É que o senhor falava fluentemente Yorubá
00:51:24Talvez uma pista, assim, para que um dia possa identificar a pessoa
00:51:28Na época, tínhamos muitos negros aqui da Nigéria
00:51:30Dessas agências da África
00:51:32Que, por isso, hoje
00:51:33O legado do candomblé
00:51:35Por isso, hoje, o legado da capoeira
00:51:37Da culinária, da gastronomia
00:51:39É justamente acervo deixado por essas pessoas, né?
00:51:42Tem uma outra que eu acho que vai tocar na sua história
00:51:47Uma fotografia de um senhor que fazia a travessia
00:51:51Aqui no Rio Paraguaçu, entre Cachoeira e São Félix
00:51:54Até o início da década de 90, era o transporte, né?
00:51:57Muitas pessoas não passavam na ponte
00:51:59Porque tinham medo
00:52:00E quando passavam com o carro pesado
00:52:02O trem, a ponte tremia um pouco
00:52:03E muita gente não atravessava com ele
00:52:05Por causa disso, né?
00:52:06Então usava o transporte
00:52:08Dos canoeiros
00:52:10E a figura do canoeiro
00:52:12Era como é hoje
00:52:12As pessoas dos táxis, né?
00:52:14Tinha um valor
00:52:15Todo mundo comprava o mesmo valor
00:52:16Tinha um traquete
00:52:17Que é chamado de vela hoje
00:52:19Esse transporte, ele só era interrompido
00:52:23Quando descia muitas águas da região do sertão
00:52:25Que não tinha barragem na época
00:52:26Então o rio ficava muito corrente
00:52:28Aí as canoas davam uma segurada
00:52:30Mas a figura do pescador
00:52:32Sempre foi uma figura lendária pra gente, né?
00:52:34Até porque o Rio Paraguaçu
00:52:36Ele me transporta, né?
00:52:38Essa forma de sobrevivência
00:52:39Da manutenção da minha família
00:52:41Meus irmãos partes foram pescadores
00:52:43Outros foram embarcadistas tirando areia
00:52:45Eu fui um catador do Rio Paraguaçu
00:52:47Que são chamadas hoje para construir o meu pai
00:52:56Música
00:53:17Há uma intimidade muito grande
00:53:19Entre o Lourenço Terna
00:53:22Que se depara com uma cultura
00:53:25Onde há uma familiaridade
00:53:26Ele se encanta com algo
00:53:29Que obviamente tem um parentesco muito grande
00:53:31Com a realidade de onde ele vem
00:53:33Mas ele nota uma diferença muito significativa
00:53:35Ele escreve muitas vezes
00:53:38Para colegas deles
00:53:39Como o famoso Melvi Rescovitz
00:53:41Que os negros baianos
00:53:44Do povo de santo
00:53:45Têm consciência da sua africanidade
00:53:48E se orgulha da sua africanidade
00:53:50Então a gente tem que lembrar
00:53:51Que ele se refere ao povo de santo
00:53:53Ou seja, as pessoas de Canomblé
00:53:55Que têm a noção simbólica
00:53:57Da herança ancestral que eles carregam
00:54:00E a gente tem em 1940
00:54:01Eu acho que é muito importante
00:54:03Lembrar que nessa época
00:54:05Não havia ainda registro
00:54:07Tão rico, formal
00:54:09Disso
00:54:10Das tradições musicais
00:54:12Do Canomblé
00:54:13Então ele é um pioneiro
00:54:14Ele é talvez o maior pioneiro
00:54:17Do ponto de vista da fotografia
00:54:18Do ponto de vista das gravações sonoras
00:54:20E o que a gente há de estranhar
00:54:23É como a obra dele
00:54:25Ficou mais de 70 anos desconhecida
00:54:26Não houve reconhecimento
00:54:28Não houve uma junção
00:54:32E uma reunião desse acervo dele até hoje
00:54:34Então assim foram 5, 6 mil quilômetros
00:54:37Na estrada nos Estados Unidos
00:54:38Para reunir os pedaços
00:54:40De manuscritos deles
00:54:43De gravações linguísticas que ele fez
00:54:45Das gravações sonoras
00:54:47Espalhadas entre a Indiana University
00:54:49Chicago
00:54:49Esse sul dos Estados Unidos
00:54:51Onde ele fez 10 anos de pesquisa
00:54:53Em Washington também
00:54:54Na Smithsonian
00:54:56Em suma
00:54:57Foi um trabalho de formiga
00:54:59Para poder reunir essas peças
00:55:01Que basicamente
00:55:02O mais importante
00:55:04São as gravações sonoras
00:55:05E as fotografias
00:55:06Com um olhar peculiar
00:55:08Não um olhar exótico
00:55:11Em busca de exotismo
00:55:13Como, querendo ou não
00:55:15Tem sido o olhar
00:55:16De pessoas que vieram da Europa
00:55:18Por exemplo
00:55:19Eu sou absolutamente admirador
00:55:22Da obra de Pia Verger
00:55:23Com quem eu convivi
00:55:24Eu sou admirador
00:55:25Da obra de Roger Baci
00:55:27De outros que vieram
00:55:28Por exemplo
00:55:29Da minha terra natal
00:55:30Mas o que eu vejo
00:55:32No olhar de Lorenzo Terna
00:55:34No povo de Santos
00:55:35Sobre o povo de Santos
00:55:36É um olhar de irmandade
00:55:38Um olhar de irmão de barco
00:55:41De alguém que atravessou
00:55:43Cujos ancestrais atravessaram
00:55:45Também essa calunga grande
00:55:46O homem branco
00:55:47Ele era olhado com desconfiança
00:55:51Com desconfiança
00:55:52Então
00:55:54Não, o homem branco
00:55:55Não era bem-vindo
00:55:56Numa roça de candomblé
00:55:58Por causa de toda a história
00:56:01Da diáspora
00:56:02Você pode até
00:56:03Um grupo afro contemporâneo
00:56:06Para te atender
00:56:08Mas as pessoas antigas
00:56:09São muito fechadas até hoje
00:56:11Precisa ter uma grande amizade
00:56:13Então você olha bem
00:56:14Quando você pega essa foto aqui
00:56:16Claro
00:56:17Você vê
00:56:18Você sente
00:56:19Você se põe no lugar dela
00:56:21Não fala a mesma língua
00:56:23Mas existe um que a gente chama
00:56:25Um elã
00:56:26O DNA entre eles
00:56:28O mesmo que eu senti
00:56:30Quando eu cheguei no Benã
00:56:32Eu senti
00:56:33Que eu estava no interior da Bahia
00:56:35Com pessoas menos burocráticas
00:56:37Que estão na cidade
00:56:38Essas fotos aqui
00:56:39São demais para mim
00:56:40Vocês não têm nem ideia
00:56:41São demais
00:56:43Aonde ela está
00:56:44A casa que ela está
00:56:46A casa que ele está
00:56:48Está vendo?
00:56:50Aqui é uma coisa mais simples
00:56:51Aqui é uma coisa mais sofisticada
00:56:53Para mim
00:56:54A minha sensação
00:56:55É que eu volto no tempo
00:56:58Volto no tempo
00:57:00Onde eu ainda não tinha nem nascido
00:57:02Mas o meu DNA
00:57:03Já estava no universo
00:57:06Entendeu?
00:57:07E faz com que eu sou
00:57:08Quase contemporânea
00:57:10De muitos deles
00:57:11Em pontos diferentes da vida
00:57:15Eu quero chegar a uma foto
00:57:17Assim que
00:57:19Desde que eu reencontrei
00:57:20Esses arquivos em 2012
00:57:21Lá nos Estados Unidos
00:57:23Em Bloomington
00:57:24Que ficaram 75 anos esquecidos
00:57:26Uma foto assim
00:57:28Que me chamou a atenção
00:57:29Porque
00:57:29Uma das ambições do projeto
00:57:33Seria reencontrar pessoas vivas
00:57:35Que teriam sido registradas
00:57:37Através de fotografias
00:57:38Ou de gravações
00:57:39A única por enquanto
00:57:40Que eu reencontrei em Salvador
00:57:42É mãe Carmen
00:57:43A mãe de santo
00:57:46Do Gantuar
00:57:48A filha de menininha
00:57:50Que está nas fotografias
00:57:51Junto com a mãe
00:57:52Mas nessa fotografia
00:57:54Tem uma menina
00:57:56Essa fotografia foi tirada também aqui
00:57:58Quer dizer
00:58:00Em frente
00:58:00Em São Félix
00:58:01E tem essa criança
00:58:02De talvez 4 ou 5 anos
00:58:04Com essa senhora
00:58:05E tudo me leva a pensar
00:58:07E eu queria
00:58:08Obter uma confirmação sua
00:58:10Que talvez
00:58:11Essa senhora
00:58:12Tivesse uma ligação
00:58:13Com a Irmandade da Boa Morte
00:58:15É quando nós discutimos
00:58:16Naquele livro
00:58:17Que você lançou
00:58:21Com muito bril
00:58:24Muita força
00:58:25Um acervo maravilhoso
00:58:26Eu te disse
00:58:27Que essa seria
00:58:28A mãe Marculina
00:58:30E que a menina
00:58:31Que é ao lado
00:58:32Hoje
00:58:32Se estiver viva
00:58:34Teria hoje
00:58:35Seu 80
00:58:3585 anos
00:58:37Sim
00:58:38E a mãe Marculina
00:58:39Foi uma figura também
00:58:41Que
00:58:44Transitou
00:58:45Em todas as nações
00:58:46De Candomblé
00:58:47Diz que ela era uma pessoa
00:58:48Que ela contribuía muito
00:58:50Nas feituras
00:58:51Dos filhos de santo
00:58:53Em outras
00:58:54Em outros terreiros
00:58:56E a gente acredita
00:58:57Que ela foi
00:58:57Membro da Irmandade da Boa Morte
00:58:59Porque normalmente
00:59:00Quem usava
00:59:00Esse correntão
00:59:01Que ela está usando
00:59:03Ali, né
00:59:04E esse pano da costa
00:59:06Né
00:59:07Essa forma
00:59:08De colocar o tecido
00:59:10Jogado
00:59:10E cruzar
00:59:11É as irmãs da Boa Morte
00:59:13Por isso eu identifiquei
00:59:14Quando eu levei ela
00:59:15Na casa de uma irmã
00:59:16Hoje com 103 anos
00:59:18Essa irmã
00:59:19Já quase que não enxerga direito
00:59:20A irmã colocou a mão
00:59:22Em cima da foto
00:59:22Sentiu
00:59:23Uma, sabe
00:59:24Uma reação muito forte
00:59:25E emocionou
00:59:26Todos que estavam ali na sala
00:59:28E disse
00:59:28É
00:59:29Nossa irmã Marculina
00:59:31Aí
00:59:31Todo mundo foi
00:59:33A ver
00:59:33Um negócio muito
00:59:35Muito forte
00:59:35E essa foto
00:59:37Segundo um amigo
00:59:38Meu historiador
00:59:38Ela foi tirada ali
00:59:39No terreiro do Cajá
00:59:40Em São Félix
00:59:41Do Capivari
00:59:42Então poderia ter sido
00:59:44Na roça lá
00:59:44Lá no terreiro mesmo
00:59:46No terreiro mesmo
00:59:47Na casa do terreiro
00:59:47Entendi
01:00:01Oi, meu amigo
01:00:02Tudo bom
01:00:03Tudo bem?
01:00:04Tudo bem?
01:00:05Tudo bem?
01:00:06Tudo bem?
01:00:07Tudo bem?
01:00:07Tudo bem?
01:00:07Tudo bem?
01:00:08Tudo bem?
01:00:08Tudo bem?
01:00:08Eu vim conversar com o senhor
01:00:09Certo
01:00:11Eu queria lhe mostrar
01:00:12Coisas antigas
01:00:13Mas primeiramente
01:00:14Eu quero dizer o seguinte
01:00:15Tem 20 anos
01:00:15Que eu passei nessa estrada
01:00:16É?
01:00:17Sempre que eu passo aqui
01:00:18Eu fico completamente
01:00:19Entusiasmado com esse pé
01:00:20Que está saindo aqui
01:00:22Do barracão
01:00:22É, muita história
01:00:23Esse pé de Cajá lindo
01:00:25Veio dos meus antepassados
01:00:27Sim
01:00:27Tio Anacreto
01:00:28A casa era de sapé
01:00:30De barro
01:00:31Sim
01:00:31Eu tenho uma antiga
01:00:32E aí ele já encontrou
01:00:34Esse pézinho de árvore
01:00:35E aí ele cultivou
01:00:37Ele é o cartão postal da casa
01:00:39É uma coisa que é sagrada
01:00:41Para a gente
01:00:42Eu trouxe uma fotografia
01:00:44É, que eu acho que talvez
01:00:47Alguma ligação com a casa
01:00:49É, a gente acredita
01:00:50Que seja uma senhora
01:00:52Que tinha uma relação
01:00:53Com a boa morte
01:00:54Mas ontem
01:00:55É, com o Valmir
01:00:56Ele me falou
01:00:57Que talvez
01:00:58Além disso
01:00:58Teria uma relação
01:00:59Com a casa aqui
01:01:00É, do terreiro do Capivari
01:01:02O senhor acha
01:01:03Que essa senhora
01:01:05Né, com essa criança
01:01:06Pode ter tido um vínculo
01:01:08Com a casa aqui
01:01:09Eu acredito
01:01:10Meu irmão
01:01:11Que sim
01:01:11Que é uma pessoa
01:01:12Que tem uma semelhança
01:01:13Muito
01:01:14Forte
01:01:15Sim
01:01:15E as ligações
01:01:16Né, sobre o lugar
01:01:18Sim
01:01:19As janelas
01:01:20A forma que ela está
01:01:21Aqui no terreiro, né
01:01:23É, possa que ser
01:01:24Que sim
01:01:25Eu fiquei sabendo
01:01:26Que era uma senhora
01:01:27Assim, que andava
01:01:28Em muitos terreiros
01:01:29E que ajudou
01:01:30A construir muitos terreiros
01:01:32Inclusive talvez
01:01:33A fazer alguns barcos
01:01:34Justo
01:01:35Então assim
01:01:35Veja
01:01:37Tem até uma semelhança
01:01:38Né, quando a gente
01:01:39Olha aqui esse quarto
01:01:40Que é justamente
01:01:41O quarto então
01:01:41Onde as pessoas vêm
01:01:43Vêm para dormir
01:01:44Sim
01:01:45Entendeu
01:01:45Fica aí
01:01:46Na hora que vai fazer
01:01:47Algum trabalho
01:01:49Alguns rituais
01:01:50As pessoas ficam aí
01:01:50Eu já ouvi falar
01:01:52Dessa senhora
01:01:54Mas
01:01:56Porque são muitas coisas
01:01:59Muitas pessoas
01:02:00Que falam comigo
01:02:01E explicar o seguinte
01:02:03Me falam a trajetória dela
01:02:06Aqui entre a área
01:02:08Das sete portas
01:02:10Até lá em cima
01:02:12No tamarineiro
01:02:15E falam que ela não tinha filhos
01:02:18É uma das coisas
01:02:19Que me falam
01:02:20E que era uma mulher
01:02:21De grande conhecimento
01:02:23Grande conhecimento
01:02:25Já me falaram sim
01:02:26E ela era
01:02:27É de Oxum
01:02:28E uma pessoa
01:02:29Que logo se vê
01:02:30Que ela era uma mulher
01:02:31Tradicional
01:02:32Mas ela tinha muitos poderes
01:02:34De sabedoria
01:02:36Muito, muito, muito
01:02:38Muito
01:02:39Me falam muito dela
01:02:40Mas infelizmente
01:02:41Nesse momento
01:02:42Eu não me lembro
01:02:44A pessoa
01:02:45Para poder lhe indicar
01:02:47De fato
01:02:48Ela é Nagô
01:02:49Sim
01:02:49E
01:02:50Essa joia dela
01:02:52Essa pulseira
01:02:53É de crioula
01:02:55E é uma pulseira temática
01:02:58Porque é de pilão
01:03:00É mão de pilão
01:03:01É uma das coisas
01:03:02Típicas da África
01:03:03É a mão de pilão
01:03:06Entendeu
01:03:06Identifica logo
01:03:08E a argola
01:03:09Ela tinha
01:03:10As argolas
01:03:11Que tá na orelha
01:03:12Que ela é uma mulher
01:03:13De status
01:03:14É importante
01:03:16Que você encontre
01:03:17Porque aí
01:03:18Tipo
01:03:18É um resgate
01:03:19Tanto pra parte
01:03:21Da gente
01:03:21Do Axé
01:03:23Sim
01:03:23Como pra você
01:03:24Que é um trabalho bonito
01:03:25Sim
01:03:25Procura saber as origens
01:03:27Procura saber
01:03:29Quem é quem
01:03:30Mas isso aí
01:03:31Sucesso
01:03:31Eu quero que volte
01:03:32Pra quem
01:03:33São os detentores
01:03:34É isso aí
01:03:35Com certeza
01:03:37Valeu
01:03:38Obrigado
01:03:38Agora
01:03:40O interessante
01:03:40É que se encontrasse
01:03:42Essa criança
01:03:44Ou alguém
01:03:45Parente dessa criança
01:03:46Pelo fato de
01:03:49Eu penso
01:03:51Esse povo antigo
01:03:52Eles
01:03:54Duram muito
01:03:55Você mesmo
01:03:56Viu a
01:03:56A boa morte
01:03:59Você sabe
01:03:59Com que idade
01:04:00Ela faleceu?
01:04:01Não
01:04:01Há quem diz
01:04:03Que ela faleceu
01:04:03Com cem anos
01:04:04Eu acredito
01:04:05Que ela tenha falecido
01:04:07Até com mais de cem anos
01:04:09Porque o pessoal
01:04:11Da boa morte
01:04:11É de cem pra cima
01:04:14Entendeu?
01:04:14É de cem pra cima
01:04:15E ela tá muito linda
01:04:17Muito linda
01:04:18E que o espírito dela
01:04:20Faça com que
01:04:21Você ache
01:04:22A criança
01:04:23A descendente
01:04:24Da criança
01:04:25É assim
01:04:26É assim
01:04:28Porque a gente vê
01:04:29A força dela
01:04:31Sim
01:04:32Eu queria lhe mostrar
01:04:33Essa foto
01:04:34Do próprio
01:04:35Lourenço Ternas
01:04:36Uma foto que foi tirada
01:04:38Dez anos depois
01:04:39Em 1951
01:04:40Ele tinha
01:04:41Secentos
01:04:42Sessenta e um anos
01:04:42E ele conseguiu
01:04:44Ir a África
01:04:45Em cinco
01:04:46Seis países
01:04:47Foi pra Serra Leoa
01:04:48Pro Benin
01:04:49Pra Nigéria
01:04:50Não se tem
01:04:51Conhecimento
01:04:52De que país
01:04:52Mas eu acho
01:04:54Que essa fotografia dele
01:04:55Assim
01:04:55Ouvindo essa gravação sonora
01:04:56Certamente
01:04:57Que ele tinha acabado
01:04:58De fazer
01:04:58Ouvindo mesmo ao vivo
01:04:59A gravação
01:05:00Diz muito
01:05:01Sobre o
01:05:02O que é que o trabalho
01:05:03De campo
01:05:03E a entrega
01:05:04Do pesquisador
01:05:06E a sua
01:05:07Sintonia
01:05:08Com as pessoas
01:05:10Aí ao redor
01:05:11É muito interessante
01:05:12Quando você olha
01:05:14O rosto dele
01:05:15Ele tem o prazer
01:05:18Ele demonstra
01:05:20Prazer
01:05:20De estar ouvindo
01:05:22E tentando
01:05:24Gravar mentalmente
01:05:25E ele tá no local
01:05:27Que tem muitas pessoas
01:05:29Curiosas à volta
01:05:30Porque eu sempre aprendi
01:05:33Que eram aparelhos
01:05:35Que eles não conheciam
01:05:36Então geralmente
01:05:38Quando eles faziam
01:05:40Uma gravação de voz
01:05:42Que ele ouvia
01:05:44Ele estudava
01:05:45Estudava
01:05:45Estudava
01:05:46Tudo aquilo
01:05:47Do princípio ao fim
01:05:49E depois eles tinham
01:05:51Um hábito
01:05:52De passar de novo
01:05:53E as pessoas
01:05:55Irem pra perto
01:05:57E ficar ouvindo
01:05:58A reprodução
01:06:00Porque isso causava
01:06:02Uma coisa neles
01:06:05Um frenesi
01:06:06Porque eles estavam
01:06:07Ouvindo
01:06:08A sua própria voz
01:06:10Ouvindo
01:06:39Esse legado
01:06:41A gente não pode
01:06:42Deixar
01:06:42Fluir por aí
01:06:44Isso tem
01:06:45Que ser gravado
01:06:46Minha intenção
01:06:47Exatamente
01:06:47Fazer a divulgação
01:06:48De tudo isso
01:06:49Mas tem que ter
01:06:50Muito cuidado
01:06:51Com o respeito
01:06:53Daquilo
01:06:53Porque nós estamos
01:06:54Falando do sagrado
01:06:56Uma certa vez
01:06:57Uma reza
01:06:58Ele gostava muito
01:07:00Dessa reza
01:07:00Que ele diz
01:07:01Vocês cantam
01:07:04Izolelele
01:07:04Izolelele
01:07:05Izolelele
01:07:06Izolelele
01:07:06Mas esse
01:07:07Izolelele
01:07:08Quando ele canta
01:07:09Ele diz
01:07:10Parece que
01:07:11A pessoa está
01:07:12Num pronunciado
01:07:15De palavras
01:07:15E a palavra
01:07:17Izolelele
01:07:17Izolelele
01:07:18Significa
01:07:19É um verbo
01:07:20Do verbo amar
01:07:22Como você dizer
01:07:23Uma pessoa que ama
01:07:25Dessa forma
01:07:26Se você canta
01:07:28Izolelele
01:07:30Izolele
01:07:31Jamacutala
01:07:33Jamanakuaku
01:07:37Intombensi
01:07:38Eilom
01:07:39Diriri
01:07:40Eilou
01:07:41Sica
01:07:42Enganga
01:07:42Eoberei
01:07:43Arroz
01:07:44Quer dizer
01:07:45Você coloca
01:07:45Sentimento
01:07:46Dizendo
01:07:47Intombensi
01:07:48Como uma
01:07:49Tradição
01:07:50Que é
01:07:51Os nossos
01:07:52Criadores
01:07:52Que nós
01:07:53Viemos
01:07:54Do Intombensi
01:07:55De Maria Nenê
01:07:57Dizendo
01:07:57Eu te amo
01:08:00Mais ou menos
01:08:01Assim que ele foi
01:08:01Me ensinando
01:08:03As rezas
01:08:04Os cânticos
01:08:05E a gente
01:08:06Tem que ter
01:08:07Esse cuidado
01:08:07E aí
01:08:08Esse conhecimento
01:08:10Esse ensinamento
01:08:11Que ele passava
01:08:12Eu disse pra ele
01:08:13Se o senhor
01:08:13Não passar tudo isso
01:08:15Pra alguém
01:08:16A tendência
01:08:18Vai se perder
01:08:18Aí ele começou
01:08:20A me explicar
01:08:21Existem umas rezas
01:08:23Muito longas
01:08:24Nós temos
01:08:25Um cântico
01:08:26De uma reza
01:08:27Que são
01:08:27Mais ou menos
01:08:2821 rezas
01:08:30Pra você
01:08:30Guardar isso
01:08:31Na mente
01:08:32Eu digo
01:08:32Mas não dá
01:08:33É muita coisa
01:08:34Pra você rezar
01:08:35E aí ele disse
01:08:37Não
01:08:37Se você pegar
01:08:38As primeiras estrofes
01:08:39For gravando
01:08:40Você vai entender
01:08:41As outras
01:08:42E aí quando ele
01:08:44Vai cantar
01:08:45É isso que me deixa
01:08:46Muito emocionado
01:08:47A forma
01:08:48De ele colocar
01:08:49Ele disse
01:08:50Não basta você rezar
01:08:52Você tem que colocar
01:08:53Sentimento
01:08:54Nessa reza
01:08:55Porque através
01:08:56Através do sentimento
01:08:57É que você realmente
01:08:58Transmite
01:08:59O que você quer
01:09:01Você pensa
01:09:02Que as entidades
01:09:03Não estão próximas
01:09:04De tudo isso
01:09:05É importante
01:09:06Que você reze
01:09:07Mas você reze
01:09:08Com a alma
01:09:09E jamais
01:09:10Eu vou partir
01:09:11Dessa vida
01:09:12Para uma outra
01:09:13Sem deixar
01:09:14Alguma pessoa
01:09:15Que possa seguir
01:09:16Exatamente
01:09:16O meu filho
01:09:18Mais novo
01:09:18Ele já se iniciou
01:09:21Aqui nessa casa
01:09:22E o meu propósito
01:09:23É exatamente
01:09:24Passar tudo
01:09:26Para ele
01:09:26Do conhecimento
01:09:28Porque eu tenho certeza
01:09:29Que ele vai preservar
01:09:30E eu acho
01:09:31Que está garantido
01:09:32Porque ele
01:09:33É muito emocionado
01:09:34Também
01:09:35Com o candomblé
01:09:37E ele dispensa
01:09:38Qualquer atividade
01:09:39Para assistir o candomblé
01:09:41E participar
01:09:41Do candomblé
01:09:42Então eu acho
01:09:43Que o material
01:09:45Está sendo entregue
01:09:46A pessoa correta
01:09:47Entendeu?
01:09:48Dentro de mim
01:09:49Eu me emociono
01:09:51Eu me emociono muito
01:09:54Acorda
01:09:55Dentro
01:09:56Quando você ouve
01:09:58Você
01:09:59Você ouve
01:10:01A sua memória
01:10:03Lembra
01:10:04E o seu corpo
01:10:06Registra
01:10:08A presença
01:10:10Viva
01:10:11Dessas pessoas
01:10:12Que não foi por acaso
01:10:15Que eles saem
01:10:16Um dia de lá
01:10:17E aqui chegou
01:10:18Para fazer esse trabalho
01:10:19Isso tudo
01:10:20Para se
01:10:21É coisa do
01:10:22Odu
01:10:23De cada um de nós
01:10:24É o destino
01:10:26Das pessoas
01:10:27O orixá
01:10:29Marca aquela pessoa
01:10:31Diz
01:10:31Você vai fazer isso
01:10:32E a pessoa
01:10:34Sem saber faz
01:10:35E faz muito bem
01:10:36Mas se nós
01:10:37Não mostrarmos
01:10:38A nossa própria cultura
01:10:40A nossa própria identidade
01:10:41Ficar tudo aí
01:10:42Camuflado
01:10:43Escondido
01:10:43Isso vai se acabar
01:10:44Porque ninguém vai registrar
01:10:46Olha aí o que o Lourenço fez
01:10:48Porque ele achou
01:10:49A oportunidade
01:10:49De pessoas
01:10:50Que já naquela época
01:10:51Já falavam
01:10:53Sobre a sua religião
01:10:54Já falavam
01:10:54Sobre o seu candomblé
01:10:56Já falavam
01:10:56Sobre a sua cultura
01:10:57Se ele não achasse
01:10:59As portas
01:11:00Dos terreiros de Salvador
01:11:01Dos terreiros do Recôncavo
01:11:02Para ele fazer esse trabalho
01:11:03Hoje a gente não teria essa memória
01:11:05Hoje a gente não teria esse trabalho
01:11:07Percebe?
01:11:08A importância é poder resgatar
01:11:10A memória
01:11:11Do povo de Santos
01:11:13É poder dizer
01:11:14Para a sociedade brasileira
01:11:15Temos uma história
01:11:17Uma história
01:11:18Que veio trazida
01:11:20Nos navios negreiros
01:11:21E que a gente lutou
01:11:23Durante décadas
01:11:24Durante gerações
01:11:25Para manter
01:11:26Para manter viva
01:11:27A língua é testemunha
01:11:29A língua é a forma
01:11:30Como a gente enxerga o mundo
01:11:31E a gente tem no Brasil
01:11:33225 línguas indígenas
01:11:35Faladas hoje
01:11:36Então o povo brasileiro
01:11:38As pessoas no Brasil
01:11:38Têm a impressão
01:11:39De que isso é uma língua
01:11:40Mas esquecemos
01:11:42Das culturas indígenas
01:11:43Da mesma forma
01:11:44Que esquecemos
01:11:44Das culturas africanas presentes
01:11:46Através dessa africanidade
01:11:48Ainda patente
01:11:49Então o candomblé
01:11:50Muito além de ser uma religião
01:11:53É um lugar de preservação
01:11:54De preservação de um patrimônio
01:11:56Que carrega a riqueza deste país
01:11:58Se eu pudesse
01:12:00Porque a igreja católica
01:12:02Ela de uma certa forma
01:12:04Ela caloniza
01:12:06Os seus
01:12:07E no candomblé
01:12:08A gente não tem como fazer isso
01:12:09Mas se eu tivesse esse poder
01:12:10Eu transformava esse povo
01:12:11Tudo em entidades
01:12:14Exatamente
01:12:14O que isso é uma hy CT
01:12:15Aê, aê, aê
01:12:17Vou do póanki
01:12:19Vou do póanki
01:12:22Vou do pó thirst
01:12:22Da caia
01:12:23Vou do pó se
01:12:24Tado
01:12:25Aê, aê
01:12:27Vou do pó uses
01:12:28Vou do pó ninth
01:12:29Vou do póballs
01:12:31Da romê
01:12:32Vou do ecśmy
01:12:33Tado
01:12:35Aê, aê
01:12:36Vou do imposto
01:12:38É inter âmbito
01:12:38Vou do pósti
01:12:40Da caia
01:12:41Vou do imposto
01:13:02O Vodum está aqui presente, entre todos nós.
01:13:17O Vodum está aqui.
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