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  • há 14 horas
Nação Zumbi, no Movimento das Marés, é uma série documental em 4 episódios que conta a trajetória da icônica banda pernambucana. A série traz entrevistas com integrantes e ex-integrantes, fãs, artistas, produtores, críticos e jornalistas, partindo da criação do Movimento Mangue, ainda com Chico Science, e chegando até os tempos atuais.
Transcrição
00:28Transcrição e Legendas Pedro Negri
00:58Legendas Pedro Negri
01:28Legendas Pedro Negri
01:30Meu nome é Samira, Samira Brandão, sou do sertão da Bahia, Guanambi.
01:36E eu escuto música de quando eu levanto até quando eu vou dormir.
01:39Escuto música pra tomar banho, escuto música pra ir pro trabalho, escuto música pra ir pra faculdade.
01:43Então a música tá assim na minha vida.
01:45Eu acho que um dia sem música pra mim é um dia que eu tô de luto por conta de
01:49alguma coisa,
01:50por um sentimento ruim, mas a música tá presente todo o tempo na minha vida.
01:53A primeira música que eu ouvi de Nação e de Chico foi um professor de história meu no nono ano
02:01que apresentou pra turma um monólogo ao pé do ouvido.
02:04E na hora que eu vi aquele homem gritar, viva zumbi, viva sapato, fiquei o que que é isso, véi?
02:11Foi muito intenso. Eu era muito nova, tinha uns 13 anos por aí.
02:15Foi muito forte, foi. Foi incrível. Foi a minha primeira música que eu ouvi.
02:18Mas bateu de verdade, mais ou menos, há uns dois anos atrás, quando eu ouvi da lama ao caos.
02:23Foi ensurdecedor. Eu falei, o quê? Como alguém escuta isso?
02:28Na cabeça toda hora.
02:30Depois que eu comecei a ouvir, vi como aquilo dá um gás pra mim gigantesco pra fazer as coisas.
02:36Dá vontade de estudar, dá vontade de treinar, dá vontade de viver.
02:39Eu me senti abraçada, assim. Foi muito, muito, muito, muito gostoso pra mim ouvir Nação Zumbi e Chico.
02:44Começou a fazer parte da minha vida.
03:00Liberado, liberado, aí.
03:03E aí
03:28E aí
03:42É a nação zumbi de Chico Sainz, embora separem as duas, em si de si, antes de Chico,
03:49depois de Chico.
03:51Vários de gente usar o nome eternamente nação zumbi, porque Deus não foi Chico, tá?
03:57Então, continua sendo a nação zumbi de Chico.
04:18Recife era campeã nacional de altos índices de desemprego, de mortalidade infantil,
04:27o custo de vida, a poluição, era algo aterrorizante, assim.
04:34E, de repente, a imprensa diz, ó, essa daqui é uma das piores cidades do mundo, né?
04:39A quarta pior cidade do mundo.
04:41Ou seja, alguma reação aquilo vai provocar em você, você vai acabar fazendo alguma coisa.
04:47Eu fui num show, meu irmão, na Católica, da realidade encoberta, num festival de inverno, cara.
04:53Quando eu cheguei lá, Turma da Lama cheirando cola de sapateiro em umas garrafinhas plásticas de água em daiá, cara.
05:00O som tosco, palco tosco, cara, aquilo me bateu uma crise, assim.
05:04Eu falei, cara, o que é que eu vim fazer aqui, nesse lugar, né?
05:07A saída pro Recife era pelo aeroporto, né?
05:10E aí, só que tinha uma galera que não tinha, ou não tinha condições de sair realmente, ou não tinha
05:16interesse, queria fazer as coisas aqui, né?
05:19Era uma cidade que ninguém prestava atenção, cara. Ninguém esperava que saísse nada do Recife.
05:25E aí a outra frase clássica lá, do Fellini até, mudar o lugar ou mudar de lugar, né?
05:30Eu tinha um cabelo gigante na época, era mago, uma ripa assim de lado.
05:35Era só cabelo, olho e nariz ali.
05:38E ia dançar break com a galera e já tinha uns grupinhos, eu não conhecia bem a galera.
05:43E conheci Sérgio Mofado depois, que me apresentou o Chico lá na Clínica Radiológica, na Rua Direita.
05:49Um birô numa sala vazinha lá no canto.
05:52Quando o Sérgio falou, tem um amigo meu que escreve umas músicas, faz uns raps aí e tal.
05:58Não imaginei um cara compositor já.
06:01Quando eu chego lá com o Mofado na sala, era Chico sentado nesse birô, na canta da sala.
06:06Mostrou algumas músicas batendo no birô também, mostrei umas coisas a ele.
06:10Dali selou-se uma amizade de fuçar disco de sebo e vinil ali e tal.
06:15E lembro de tirar livro da estante de casa pra vender de sebo e tocar por disco, né?
06:20A estante ficando menor, a coleçãozinha barça.
06:29Pô, eu lembro do Chico me ligar em casa e me chamar pra fazer uma outra banda com ele.
06:34Eu tô montando uma banda.
06:35Aí eu disse, é mesmo? E tu vai fazer o que na banda?
06:37Eu nem sabia o que ele fazia, cara.
06:39Porque ele só frequentava lá o ambiente.
06:42Ele disse, não, eu vou cantar.
06:44Ele disse, tá bom então.
06:45E aí começamos a fazer essa primeira banda que foi o Lost Town, que foi a gênese de tudo.
06:49Não foi o Orla Orbe.
06:50O Orla Orbe, desculpa. É verdade, é verdade.
06:53Se for pensar em algo que fez com que começasse mesmo, foi com a rádio.
06:58Foi com uma disciplina que Fred fez de rádio e TV, uma coisa dessa,
07:04que ele teve que fazer um programa de rádio mesmo.
07:07E aí ele fez o Décadas.
07:08Domingo, 5 horas da tarde, assim.
07:11Aí a gente ficava até dizendo, pô, quem é que ouve esse programa?
07:15E aí quem ouve esse programa e foi bater lá um dia foi Chico e Jorge, né?
07:21Com um disco do África Bambata embaixo do braço.
07:24E era muito difícil você ter acesso a informação aqui no Brasil.
07:27Informação em geral e, mais especificamente, informação musical.
07:31Tinha uma defasagem muito grande entre o que era lançado lá fora e o que saía aqui no Brasil.
07:37Recife, antes da cena manga, eu acho que ele era muito centralizado.
07:41Era muito no centro da cidade.
07:43A galera se encontrando ali, fazendo show por ali.
07:45Não tinha muita interação.
07:47Na época, era cada um no seu quadrado, fazendo os eventos que podia.
07:50O Abuso emprestava o amplificador de baixo, me emprestava o baixo dele.
07:53Eu conheci peixinhos inteiros, porque cada ensaio ia um cara diferente.
07:59Era eu e outro cara, saca?
08:01Toca mesmo.
08:02Ficou meses, seis meses sem aparecer, assim.
08:05Um belo dia ele apareceu de novo.
08:08Foi quando o Otto não foi e deixou as congas.
08:12E a gente olhou e, quem é que vai tocar a conga?
08:14E tocar eu toco.
08:16Eu sou o organ.
08:17Eu sou o organ de couro.
08:18Então, sou um tatacombono.
08:21Que é um organ.
08:22O que é o organ de couro?
08:24É o que bate.
08:25É o tabaque.
08:27Mas tem organ que corta.
08:29Organ que despacha.
08:31Organ das ervas.
08:33Que conhece toda na mata, cheia na mata.
08:37E dizer que planta aquela, ele vai saber qual é.
08:41Existe alguém que abre o terreiro.
08:44Alguém que fecha.
08:45Alguém que manda recado.
08:47Alguém que bate palmas.
08:48Alguém que é só pra cantar.
08:51Alguém que é mensageiro.
09:06Eu tinha assinado um contrato de locação de um apartamento na Rua da Aurora.
09:12Com Chico e Mabuse.
09:14Era um apartamento que, justamente, ia ser o quartel general.
09:18Centralizado, né?
09:19E aí, como eu era dos poucos que tinha carteira assinada,
09:23eu acabei assinando lá um contrato de seis meses.
09:27Mal assinei o contrato e fui demitido.
09:29Resolvi dar um tempo de jornalismo.
09:32E aí, quando a TV Viva soube,
09:35me convidou pra um projeto que eles estavam levando.
09:38Um documentário sobre os manguezais.
09:40Tava com aquilo ali na cabeça, velho.
09:42Vendo a riqueza imensa que era toda aquela história do genoma dos mangues e tal.
09:47E caiu a ficha que não tinha um release ainda.
09:50E aí, surgiu aquela linguagem ali que muita gente encarou como manifesto,
09:54até por essa característica, né?
09:57Era um release de uma cena.
09:58Nada disso foi muito bem planejado, não, sabe?
10:01Nada disso foi planejado.
10:02Foi acaso.
10:03Fred tava fazendo uma reportagem sobre mangue.
10:06Chico tava pensando num ritmo, sei lá o quê.
10:09E a gente associava isso diretamente à variedade,
10:12à diversidade cultural da cidade.
10:16Eu não lembro de Chico ter falado em minúcias
10:19de que ia fazer um som assim, assim, assado, não.
10:23Ele começou a falar que tinha ido fazer uma jam session
10:26no Daruê Malungo, com o Lamento Negro, né?
10:31Que na época era uma banda de samba reggae.
10:32Quando o Chico descer, ele não.
10:34A partir daqui vai nascer o Chico Sainz nação zumbi.
10:38Eu lembro do dia, demais, do dia que Chico chegou lá no ensaio,
10:43com o Jorge, que até outro dia eu perguntei a ele.
10:47Aquele lençol era da tua mãe?
10:49Tu roubou de Dona Ceci e pintou a...
10:51Era um lençol branco, grafitado, com o Jorge grafitou.
10:55Mangue.
11:02Mangue, Mangue, Mangue.
11:04Aquele momento, pra mim, era assim, caralho, cara,
11:07que momento é esse dessa cidade, né?
11:09O Manifesto Mangue havia sido lançado e...
11:12Vem a liga do Abril pro Rock, assim, tipo,
11:15eu preciso fazer um festival, né?
11:17Ninguém acreditava que 12 bandas locais
11:21e o Maracatu na São Pernambuco
11:22pudesse levar mais do que 300, 400 pessoas, né?
11:26E aí, juntando a galera que tocou com convidados, com...
11:30E mais os 1.100 e poucos pagantes,
11:33tinham 1.500 pessoas, cara.
11:35Aquilo era um milagre.
11:37O Paulo André, quando ele me convidou, ele falou,
11:38ah, não tem o cachê?
11:39Você aceita uns CDs lá da minha loja?
11:41Eu falei, meu, eu vou de qualquer jeito,
11:42que eu já gostava dessa...
11:43Tinha muita curiosidade em ver outros cenários.
11:45Me explica aí melhor.
11:46Ah, um dia, Circo Malauco Beleza, várias bandas.
11:49Tô nessa.
11:50Parece que o Miranda também vai ser convidado.
11:51foi melhor ainda.
11:52A gente foi junto, inclusive, né?
11:53Conheci várias capitais naquela época
11:55e Recife foi, de longe, a mais fértil,
11:57que tinha o melhor resultado musical.
12:00Aquela efervescência toda,
12:01aquilo tomou conta de todo mundo, né?
12:03Não só de nós, de todas as bandas da cidade.
12:07Todo mundo.
12:07Aí, pô, Remitivi.
12:08De repente, a gente via lá Gastão, Miranda.
12:23Aí, logo depois do Abril Pujol, o que acontece?
12:25A Sony colocou na mão de Chico uma carta de intenção
12:30pra o primeiro disco.
12:31Depois que a gente fez esses shows aí, pra fazer a viagem,
12:35que a gente chamou de A Caravana da Coragem,
12:37Chico Saia, Estação Zumbi,
12:39um número de BCA juntos, ônibus de linha.
12:42Foi um perrengue do cacete.
12:43A gente comia só sanduíche,
12:45porque não tinha grana pra comer,
12:46não tinha restaurante por perto, tinha nada.
12:48Era, tipo, no meio do mato, assim, a gente ficou.
12:50Então, descemos no dia do show, fizemos o show.
12:54Foi incrível, a casa tava cheia.
12:55A MTV fez um barulho da porra desse show na época.
12:59Tava todo mundo da MTV lá,
13:00produtores, Miranda, gente de banda e tal.
13:03E o pessoal de gravadora também foi.
13:06Tinha várias pessoas de gravadora lá.
13:08Tava a Warner, tava a Sony, tava a Yemai,
13:10tava a Tinitos, que era o Penny Smith.
13:13Enfim, foi um negócio glorioso pra gente.
13:16A gente achou que ia ficar rico.
13:23Chico Saia, Ensinação Zumbi.
13:25Que banda é essa?
13:26Eles são oito jovens.
13:28O mais velho tem 27 anos,
13:30o mais novo, 16.
13:32O que importa é que eles agradaram as gravadoras
13:35e, depois de várias ofertas,
13:37assinaram um contrato de três anos com uma delas
13:40para a gravação de três discos.
13:42Mostrar pro Brasil uma coisa nova
13:44que tá acontecendo em Recife
13:45e que a gente pode dar outra linguagem
13:49à música pop nacional e universal.
13:54Francisco de Assis, França.
13:56Chico Saiense.
14:00O Jorge Dayson era diretor artístico da Sony.
14:05E aí ele me falou,
14:05olha, cara, tem uma banda incrível lá em Recife
14:09que eu gostaria muito que você ouvisse,
14:12se você gostar,
14:14eu gostaria muito que você produzisse.
14:16ele me mandou um cassete.
14:19Eu ouvi e o cassete era muito mal gravado,
14:23devia ser uma gravação de ensaio.
14:27Mas eu senti que ali tinha um conceito, sabe?
14:32Tinha uma coisa totalmente diferente
14:34de tudo que eu tinha ouvido até então, né?
14:38Eu falei, opa, esse negócio aí é legal.
14:40Tinha um lado lúdico, tinha um lado curioso, né?
14:42Tinha um lado brasileiro que a gente também não conhecia
14:45que se fazia desse jeito.
14:46E quando eles foram contratados,
14:48a gente ficou muito feliz,
14:49porque a gente falou, poxa, eles vão ser nossos, né?
14:51Você tem aquela coisa meio de apadrinhar.
14:53E comecei a conviver com os meninos.
14:55Eles eram muito tímidos,
14:57fora o Chico e o do Peixe,
14:58que era com quem falava mais,
15:00e o Lúcio também,
15:01os outros bastante tímidos,
15:02como estou aqui com vocês agora.
15:05Vou gravar num estúdio que era de Gilberto Gil,
15:08tendo o baixista do Mutantes como sócio
15:10que estava produzindo o disco.
15:13Louco, né, cara?
15:14Foi impactante pra caralho.
15:16Classe A, né?
15:17E a gente, ruim.
15:19Nós éramos péssimos.
15:21Péssimos mesmo.
15:23Nós nos tornamos músicos naquele disco.
15:27E de repente foi muito rápido.
15:28Tudo foi muito rápido.
15:45E eles não tinham prática de estúdio.
15:47Não tinham nenhuma prática de estúdio.
15:49Então, quando começou a gravar,
15:52a gente tocava uma música e eu falava,
15:54vamos fazer de novo.
15:56Aí, vamos fazer de novo.
15:57Os caras falavam, peraí,
15:59vamos ficar repetindo esse negócio até quando, né?
16:03Liminha é um cara que, em primeira instância,
16:04foi muito solícito.
16:07Olha, o cara era atencioso.
16:08Tinha uns embates, né?
16:09Era genioso também.
16:10Liminha sempre foi tido como um cara difícil.
16:12Sempre foi tido como um cara exigente.
16:16Puxou muito.
16:17Teve muita dificuldade em microfonar os tambores.
16:20Até então, ninguém tinha lidado com o tambor de pele animal
16:23pra microfonar.
16:24Era difícil.
16:25Muita gente fala do som dos tambores.
16:27Foi a primeira vez que o cara pegou.
16:29E eu acho que ele fez bonito, cara.
16:31E eu me lembro que eles falavam,
16:33porra, mas, cara, precisava mais peso.
16:36Eu falava, cara, vou, sabe, equalizar aqui,
16:40vou fazer tudo o que eu puder.
16:42Era complexo.
16:43Era bem difícil, né?
16:45De gravar.
16:45Mas os garotos, pô, eles foram mestres, assim, sabe?
16:50De buscar, de fazer junto a coisa.
16:53Foi bem legal.
16:54Acho que até hoje, cara, quem ouve o Dalla Malcaut
16:56mas que porra é essa, né, cara? Foda.
17:00Atemporal.
17:00Esse disco é atemporal.
17:02Ele foi feito no começo dos anos 90,
17:04sai em 94,
17:06mas ele vai resistir como obra,
17:11como uma polaroide na música brasileira, pra sempre, né?
17:15Eu fiquei, assim, totalmente estupefato, assim.
17:21Eu não acreditava naquilo acontecendo na minha frente.
17:24Quando eu vi a primeira vez na Nação Zumbi,
17:27os caras tocando aquela música, o Chico tava com um visual
17:31meio maracatu, meio suicidal tennis,
17:34um meião até aqui, mano.
17:36Cara, eu achei aquilo incrível, mano.
17:37Vem aí, com a Nação Zumbi, Chico Saez!
17:42Aqui no Domingão!
17:43Aí, garoto!
17:44Quem sabe faz ao vivo!
17:46Dane Chicão!
17:47Domingão do Chicão!
17:48Esse é um ritmo novo?
17:50É um ritmo tipicamente do Pernambuco?
17:51Como é que é?
17:52É isso aí.
17:53Isso é um resgate de ritmos regionais.
17:55Ritmos como maracatu,
17:56aciranda,
17:57caboclinho,
17:58coco,
17:59samba de roda e outras coisas mais ligadas a ritmos universais.
18:03Toda bagagem pop que a banda tem,
18:05que nós temos, fizemos toda essa mistura.
18:08E vocês estão há quatro anos juntos?
18:09Isso.
18:10E batizamos de mangue.
18:11Essa aqui, da lama ao caos,
18:13foi gravada em Brasília?
18:14Não, isso foi gravado nas nuvens,
18:17com produção de Liminha, né?
18:19O engenheiro foi Victor Farias.
18:21Ora meu, Liminha já?
18:22É isso aí.
18:23E assim, resultado muito legal,
18:26muito bom e estamos satisfeitos.
18:28Era uma coisa de se esperar, assim,
18:30tudo isso que aconteceu,
18:31um disco legal,
18:33uma turnê pela Europa,
18:34ou melhor,
18:35uma turnê mundial no primeiro disco.
18:37Brickson Academy, em Londres, agora em abril,
18:40fazer o Sphinx Festival,
18:42também na Bélgica,
18:44o Central Park Summer Stage,
18:46que é lá na América,
18:49e outros festivais na Europa.
18:51Então, são coisas que
18:53a gente tem mais é que, sei lá...
18:57Sair de casa, olhar o mundo,
18:58para qualquer pessoa,
19:00isso é muito importante.
19:01Para um cara que mexe com arte,
19:04mais ainda,
19:04porque a gente vai, de certo modo,
19:06captar essa informação e vai transformar isso.
19:09Conhecer pessoas, sabe,
19:11africanos, japoneses, alemães.
19:14Eu aprendi muito e aprendo, cara.
19:16Eu conheci muitos lugares, assim,
19:18a Turquia.
19:20Nossa, o debate.
19:21Nossa, como é que está com esse negócio?
19:23Se eu não estivesse lá,
19:25mas tinha escutado.
19:27Melhor ainda, eu estive lá.
19:28e comprei, exprimitei.
19:32Nasci no Japão, já?
19:35A gente tinha viajado para a Alemanha,
19:38e a gente tinha entrado em umas lojas lá,
19:40comprado CDs da época.
19:41A gente se ampliou.
19:43Se ampliou prodigy, tricky.
19:45Começamos a compor.
19:47Começamos a fazer outras músicas,
19:49aí a gente viu que já não estava mais
19:50naquele esquema do Dalão ao calço.
19:52Chega Chico e Paulo André
19:54me convidando para já ir ensaiar,
19:58porque tinha um show marcado,
19:59ia começar a fazer a pré-produção
20:01do que seria o Afrociberdelia.
20:03tinha uma apresentação também no primeiro VMB,
20:09Video Music Brasil, da MTV.
20:11Eu estava ensaiando nesse dia,
20:13desmontei tudo, todo mundo olhando.
20:16Pilo entrou tocando caixa ainda,
20:19e em estúdio que ele aumentou afoitamente,
20:22se espalhou com um setup maior,
20:25um setup maior.
20:26E o Afrociberdelia,
20:27a gente fez uma pré-produção em Recife
20:30e depois partimos para o Rio
20:32para fazer também no Nas Nuvens.
20:35Eu lembro que a gente estava na soparia,
20:36cara,
20:38alguma coisa lá e tal,
20:39a gente saindo ali,
20:40e a galera dizia
20:41quero ver o segundo disco.
20:43Chico inchava assim,
20:45é véi, vamos ouvir isso até chegar.
20:48Eu dava um foro assim,
20:49eu ficava, deixe meu irmão,
20:52deixe, vamos trabalhar,
20:54vamos fazer o disco.
20:55A gente quando entrou no estúdio,
20:57que ele se desligou daquela questão do show,
21:00a gente pôde criar,
21:02velho, a gente fez o Afrociberdelia.
21:04Tem muita psicodelia futurista na Afrociberdelia,
21:07é outra ideia, né?
21:10E claro que o outro viria totalmente diferente,
21:12as pessoas ficam nessa,
21:13não.
21:14Seria o Dallamal Carlos?
21:16De jeito nenhum,
21:16porque o Chico estava em outro estágio.
21:18se fosse eu entrar no que ele estava ouvindo em casa,
21:21no carroceu que ele deixou lá,
21:23era Vicente Celestino,
21:25Kraftwerk,
21:26Jackson do Pandeiro,
21:28Beatles, Pixies.
21:30Então,
21:32o que vinha depois,
21:33ele fez.
21:46O rapaz que tomou a coisa e toca,
21:48ligou a sapatua,
21:49eu fui atender,
21:50era Paulo André,
21:51me dando notícias.
21:52olha,
21:53o que foi?
21:54Chico,
21:55aí eu pronto.
21:55O que?
21:57Pra mim,
21:58ali,
21:59vem pra que agora?
22:00Nesta oração?
22:02Pra mim,
22:02eu,
22:03mais perna,
22:04meu outro cara,
22:05não.
22:06Aí,
22:07na época,
22:07a minha esposa disse,
22:09o que foi?
22:10Chico,
22:12morreu.
22:15e aí,
22:16quando chegou lá,
22:16na recepção do hospital,
22:17eles disseram que Chico tinha falecido.
22:18Foi ali que eu,
22:19que eu entendi o que que tava rolando.
22:21A gente ficou se olhando,
22:23sem saber o que,
22:25tava acontecendo.
22:26A casa cai na hora, né, cara?
22:30Aí,
22:34sabe,
22:35o chão sumiu.
22:37Da lama ao carro.
22:39Quem viu a banda ao vivo,
22:41com a sua energia,
22:42seus figurinos,
22:44e sua potência sonora,
22:46sabe que viu e ouviu
22:48o que só pode ser registrado
22:50na memória de cada um.
22:52Eu só agradeço, né,
22:55a Deus,
22:55os orixás de Kiss,
22:56e as irmãs sagradas,
22:57por quê?
22:58Por ter dividido o quarto com ele.
23:00Ele dormia até armado.
23:02E eu vi ele dormindo assim,
23:04quando parecia o caranguejo.
23:06Tá caindo.
23:09Caramba,
23:09o cara parece um homem caranguejo.
23:12porque todos os cantos é velho Chico,
23:14todos os cantos apresentam a minha vida.
23:20Tchau.
23:21Tchau.
23:41Tchau.
23:53Tchau.
23:55Tchau.
23:59Tchau.
24:07Tchau.
24:10Tchau.
24:15Tchau.
24:17Tchau.
24:19Tchau.
24:21Tchau.
24:26Tchau.
24:28Tchau.
24:28Tchau.
24:39Tchau.
24:43Tchau.
25:13Tchau.
25:14Tchau.
25:18Tchau.
25:19Tchau.
25:23Tchau.
25:25Tchau.
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