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O filme traz o depoimento de Cláudio Guerra, assassino que esteve a serviço da ditadura militar. Pastor Cláudio foi responsável por mortes, desaparecimentos e ocultação de cadáveres de militantes.​
Transcrição
00:00:26Obrigado.
00:00:35Antes de mais nada, eu queria que a gente pudesse definir como eu devo me dirigir ao senhor, né?
00:00:41O senhor foi um delegado da polícia, né?
00:00:44O senhor foi um agente do estado e o senhor é um pastor.
00:00:49Como é que, Cláudio, você gostaria que me dirigisse a você?
00:00:53Hoje eu tenho o orgulho de ser um pastor.
00:00:57Sim.
00:00:57Eu gostaria de ser...
00:00:59Chamado de pastor?
00:01:00Pastor.
00:01:01Perfeitamente.
00:01:34Queria começar, lógico, agradecendo a sua presença, especialmente nesse dia de hoje, dia 1º de abril de 2015.
00:01:46Completamos hoje, então, 51 anos do golpe de 64, né?
00:01:53Que iniciou um período muito sombrio da história recente brasileira.
00:01:59Então, é acerca desse tema, esse tema que é um tema doloroso, é um tema que ainda nos deixa marcas
00:02:06muito profundas,
00:02:07que nós gostaríamos de estar conversando com o senhor e pedindo que o senhor nos ajude a fazer esse trabalho
00:02:14de memória,
00:02:15de recuperação da memória e de esclarecimento desses eventos.
00:02:44Nós temos muitos que foram atingidos pela vida de nós.
00:02:49violência de Estado. O senhor identifica essas pessoas?
00:02:59Eu conheço o Agamaleu, o Veras, o Veras foi executado por mim.
00:03:05Nestor Veras.
00:03:09A fotografia tal, esse daqui foi, não estou lembrando o nome, mas foi
00:03:16estinerado em Campos, por mim. Foi morto na Casa da Morte, em Petrópolis, e o corpo dele
00:03:26eu já o recebi, ele morto já, e foi estinerado em Campos. Esse aqui também, também foi
00:03:35em Campos. Agora, as fotografias estão, assim, um pouco diferentes, eu não estou reconhecendo.
00:03:42Mas o que eles têm em comum?
00:03:45Ó, esses que eu mostrei aqui, que eu não estou lembrando bem o nome, não está fugindo
00:03:52a memória, estou com a memória meio cansada, por causa da idade, né? Mas eram líderes
00:04:00do Partido Comunista, né?
00:04:0319 integrantes do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro, perfeitamente, né? E
00:04:09que foram mortos entre 73 e 76. 75, 75. O Veras foi em 75, aqui em 73, 74.
00:04:19Se foram estinerados, foi por aí. E esse conjunto de mortes caracteriza, então,
00:04:27uma operação, né? Que é a Operação Radar, né?
00:04:30Exato.
00:04:31O senhor sabe se só foram eles, se houve outros?
00:04:35Não. Lá em Campos, né, eu narro isso num livro, só lá eu levei 12 corpos pra ser
00:04:44incinerados ali, na usila de Campos, né?
00:04:52Havia, dentro das Forças Armadas, né, dentro do governo, havia uma tensão, né?
00:04:58entre aqueles que defendiam e estavam querendo uma abertura, né, Geisel e Goberi, e aqueles
00:05:07que estavam fazendo esforços pra que essa abertura não acontecesse, né?
00:05:12Não tivesse abertura, tinha certo.
00:05:15O senhor conhece o Aldir Santos Maciel, esse coronel do DOICOD, o chamado Doutor Silva?
00:05:25Doutor Silva eu conheci.
00:05:28Por que que chamava Doutor?
00:05:30Isso era um hábito, né, de chamar de Doutor?
00:05:32Era Doutor, era assim, porque os oficiais eram chamados de Doutor pra poder tirar da opinião
00:05:39pública que era um coronel que estava lá, e o civil era chamado de capitão, a maioria
00:05:46era capitão.
00:05:48Os civis eram chamados de capitães, tá aí os militares de Doutor, né?
00:05:53Doutor.
00:05:53Mas o então Doutor Silva, ele que comandava o DOICOD entre 74 e 76, né, então no período
00:06:02em que houve essa operação, que é a operação Radar, né?
00:06:07Radar.
00:06:08Certamente, então, ele era o responsável, assim, pelo comando, né, dessa operação,
00:06:16né?
00:06:17E, pastor, qual era, então, a sua relação com essa corrente, né?
00:06:22Qual era o seu papel, o que o senhor fazia?
00:06:25Olha, inicialmente, eu era um simples delegado aqui, né, eu já tinha um passado, quando
00:06:34ele era oficial de justiça em Minas, que, por uma situação do destino, um coronel ajudou,
00:06:42na época, capitão, chefe de captura de Minas, me ajudou, eu ia vingar a morte de um primo
00:06:48meu, que eles tinham matado ali no meu lugar, eu, aí depois teve um pedido, né, veio a cobrança
00:06:56do favor entre as que tinham feito, né?
00:06:58Aí, a partir dali, eu passei a ter um serviço de outra maneira.
00:07:06Comando de Minas, o governador, na época de Minas, determinou à polícia que acabasse...
00:07:12Tinha uma zona de contestado em Minas, em Minas Espírito Santo, e tava tendo muita invasão
00:07:18de terra e tinha uma pistolagem, um crime de mando, né, que tinha que acabar com isso na
00:07:24região, que tava passando o limite.
00:07:26Então, veio essa captura pra lá, comandado pelo capitão Pedro, coronel Pedro, falecido,
00:07:32mas tem um filho que é delegado lá em Minas, né, e nessa época, nós limpamos a região,
00:07:39foram mortos bastante pessoas que eram ligadas à invasão, à invasão de terra, né, e mais
00:07:46os pistoleiros.
00:07:47Agora, final de 72, início de 73, o procurador-geral da República, Geraldo Abreu, que tá vivo,
00:07:55mora em Nova Almeida, me chamou o gabinete dele e falou, olha, tem dois oficiais do Rio
00:08:02que quero conversar com você, era o doutor Flávio, que é o coronel Perdigão, e o comandante
00:08:06Vieira, que era do Senemar.
00:08:08Aí, os dois chegaram pra mim, dentro do gabinete do procurador da República, chegaram pra
00:08:13mim e disseram o seguinte, ó Guerra, você, eu já tinha servido do Exército, você é
00:08:19um, um, você vê que a esquerda, esses comunistas têm que morrer todo mundo, você eu sei que
00:08:25é um patriota, nós precisamos de você.
00:08:31Nessa época, sobre o comando do Perdigão, tinha dois grupos, dois grupos reservados, um
00:08:40grande militar, que depois eu tive uma sessão, lembra que no início eu era executor, depois
00:08:47eu comecei a ser, planejar, né, aí, porque ele viu a minha ação, achou que eu fiz as
00:08:57coisas certas e tal, eu sei que, e passou a ter amizade comigo.
00:09:00Sim.
00:09:00Uma amizade particular, ele, minha família toda conheceu ele.
00:09:05Você tinha quantos anos nesse momento?
00:09:07Conversei.
00:09:08Que o Perdigão lhe chamou.
00:09:09Hoje eu tenho, faço 75 em agosto, vamos lá, voltar lá pra 70, eu tava com 30 anos,
00:09:1760 e poucos anos, era jovem, né.
00:09:24Na Procuradoria recebia, ó, você vai pra tal estado.
00:09:28Chegava lá, tinha uma missão pra fazer, executar alguma pessoa.
00:09:32Houve execuções no Rio, em São Paulo e em Recife.
00:09:36E o senhor sabia quem eram essas pessoas que o senhor executava?
00:09:39Não, só chegava, não sabia, não sabia porquê, não sabia, era obedecendo a ordem,
00:09:45e também era feito de uma maneira, por que que era feito daquele jeito?
00:09:51Pra poder dificultar a elucidação.
00:09:53Bom, vamos supor, se acontecesse de algum dia eu, na época, resolvesse contar a história,
00:10:00eu ia contar uma coisa que eu não ia bater com a história verdadeira, com a história
00:10:05que eles tinham, né, não ia bater, porque, no caso mesmo que teve do Lago da Moema, onde
00:10:13eu fui executar dois que eles falavam que era guerrilheiro, que tinha vindo de Cuba, que
00:10:18era alta perucosidade e tal, aquela história toda.
00:10:21Quando eu cheguei, o filhinho, que era da equipe do Fleury, ele só me levou lá e falou,
00:10:26ó, não dá chance deles mexerem, porque eles são guerrilheiros treinados.
00:10:32Então, a gente chegava, aqueles dois, a gente já sacava e executava.
00:10:36Então, eu passei o período sendo executor.
00:10:39Quantas execuções?
00:10:41Ó, no Rio parece que não lembro, mas no livro eu estou narrando, não sei se é uma
00:10:46ou duas pessoas no Rio, né.
00:10:47E em São Paulo foram três.
00:10:51Dois lá no Moeba e um na Angélica, no ponto de ônibus.
00:10:56Um ponto de ônibus na Angélica.
00:10:58E o outro foi em Recife.
00:11:00E o Veras e em Belo Horizonte.
00:11:17O senhor lembra, poderia indicar os nomes das pessoas cujos corpos o senhor jogou na usina?
00:11:27Eu tenho aqui no livro, senhor.
00:11:29Eu vou passar para o senhor.
00:11:31João Batista Rita.
00:11:34Joaquim Pires de Cervera.
00:11:37Ana Rosa Cucisca.
00:11:39Davi Capistano.
00:11:41Tem um marido dela aqui que eu não coloquei, tá.
00:11:44Davi Capistano.
00:11:46João Marcela.
00:11:48Fernando Augusto Santa Cruz.
00:11:50Eduardo Collier Filho.
00:11:52José Romain.
00:11:54Luiz Inácio Maranhão.
00:11:57Armando Teixeira Furtuoso.
00:11:59E Tomás Antônio Meirelles.
00:12:04Quem apresentou o Soeli pra eles, fui eu que apresentei.
00:12:08O Eli já era íntimo meu.
00:12:11Eu falei, Soeli, aqui é o doutor Flávio, não falei qual era o Pernigal.
00:12:15Doutor Flávio, comandante Vieira.
00:12:17Aí expliquei a situação a ele e falei, olha, eles estão precisando de um lugar pra desaparecer corpo.
00:12:24Eu sugeri a eles que fossem na usina.
00:12:29Eu sei das tendências do senhor, que são homens que não aceitam o comunismo.
00:12:35E eles têm alguma coisa de benefício pra oferecer ao senhor.
00:12:39Aí foi conversado com eles, que não dinheiro na mão, mas que conseguia pra ele empréstimo pra ele poder movimentar.
00:12:47Quem falava mais toda vida foi o coronel.
00:12:50O Vieira era o pensador.
00:12:54Então dali a gente saltava, vinha com o carro de lá à noite, chegava aqui.
00:13:02Quando o carro meu pegou fogo, que eu tava trazendo justamente esse casal que foi ali,
00:13:09o Soeli mandou comprar um carro zero pra mim.
00:13:12E foi comprado na agência aqui, um Opala.
00:13:14O carro que queimou era meu, tava no meu nome.
00:13:17Era um Chevette.
00:13:19Queimou.
00:13:20Aí esse carro ficou carcaça.
00:13:23A carcaça ficou lá na agência e ele ligou um carro novo, pago com dinheiro da usina.
00:13:27Porque a gente usava mais essas primeiras aqui, tá?
00:13:31Essas primeiras que eram mais usadas.
00:13:32Se acender hoje daqui é seis meses só que é desligado.
00:13:37E aí as cinzas daqui eram jogadas num tanque ali de vinhodo.
00:13:41Olha o tamanho que é isso aí.
00:13:43E tipo, o senhor vinha com mais uma pessoa?
00:13:46Não, geralmente vinha duas pessoas, eu mesmo pegar aqui.
00:13:50Um dava o impulso e lançava.
00:13:52Isso aqui gera fogo alto aqui, obviamente.
00:13:55Fogo alto.
00:13:55E ainda tinha as coisas de empurrar ele.
00:13:57Itadagaret大家.
00:13:58Tinha aqui.
00:13:58Por mais aqui –
00:13:59Steueringis.
00:14:00Isso aqui, sei lá!
00:14:03A amen olha que é escolar à frente,
00:14:04tem um,
00:14:09realmente me ligou a peça.
00:14:27Bom, isso aí é a usina Cambaíba em Campos, a usina do senhor Eli Ribeiro, com quem o senhor diz
00:14:35então que tinha relações próximas e que conseguiu então o serviço dessa usina para essa tecnologia de desaparecimento dos corpos.
00:14:48O desaparecimento político está ligado a essa tecnologia, que é uma tecnologia de incineração daqueles que foram mortos pela ditadura.
00:14:59O procurador de São Paulo, eu estive com ele lá nessa usina fazendo uma reconstituição, ele filmou isso, não sei
00:15:07se está em algum lugar.
00:15:11Mostrando, levou bonecos do tamanho normal de um homem, mostrando que ali naquele lugar ele não cabia só ou não,
00:15:19dois, três, se quisesse colocar ao mesmo tempo.
00:15:22Porque uma das teses da filha do dono da usina, que era impossível, que não cabia em um corpo, ele
00:15:32filmou documentando que não cabia ou só ou não, cabia dois, três, se quisesse colocar de vez.
00:15:38E qual era a sua relação então com o senhor Eli Ribeiro?
00:15:42Era muito próxima, eu... vários fatos, eu tive internado uma época com o ministro do Esquemia, a usina que pagou
00:15:50tudo para mim na época,
00:15:52esse carro meu quando queimou lá, está documentado, foi comprado na agência, presente deles.
00:15:58Mas isso já é depois dessa ligação da usina com a linha dura?
00:16:03Mas a ligação o senhor que promoveu, o senhor já conhecia o Eli?
00:16:06Conhecia, conhecia o filho dele.
00:16:08Ah, o filho dele.
00:16:09Filho dele, João Lisandro, conhecido como João Bala. Eu conheci o filho dele.
00:16:15Mas como é que foi essa relação?
00:16:17Como que eu conheci o filho dele?
00:16:18É um delegado do DOPS aqui, eu regimentava muita gente para a informação.
00:16:25E o fazendeiro de lá, eu tenho nome, não estou lembrando o nome dele agora, ele me trouxe o João
00:16:34e um médico lá de Itaperuna,
00:16:38esse médico chegou até a operar minha esposa que está aí fora, e outros para poder credenciar eles como agente
00:16:47do serviço reservado do DOPS,
00:16:49para poder, eles poderem portarem armas. E em contrapartida me dar informação.
00:16:55Aí foi feita essa relação com o filho, inicialmente com o filho.
00:16:59Aí o filho trazia carneiro para mim aqui, um amizade que passou, eu visitava ele aí, ele me apresentou o
00:17:06pai.
00:17:06E houve um bom relacionamento entre a rede. Ele já era da certa idade, ele tinha uma regularidade, ele mais
00:17:14velho um pouco.
00:17:15Eu passava férias com ele lá.
00:17:18Aí quando surgiu, já tinha essa liberdade com ele de tocar nesse assunto, porque eu via que ele era um
00:17:24cara de extrema direita.
00:17:26Ele era da TFP, né?
00:17:27É.
00:17:28É, a tradicional família é um dos fundadores lá em Campos.
00:17:31Ele é um dos fundadores da TFP em Campos.
00:17:34E o senhor acha que ele tinha algum benefício com ele?
00:17:37É, eu sei que foi prometido ele empréstimos, né?
00:17:43Não lembro da época o órgão que ia sair para...
00:17:45E, em contrapartida, nós fazíamos tudo para ele também.
00:17:49Ele precisava, por exemplo, o que ele pedia lá?
00:17:56Antes de ter a safra, a cana dos outros plantados não estava na época de colher ainda.
00:18:03Nós sabotávamos, a pedido dele, a gente sabotava as outras usinas.
00:18:07Sabotava como?
00:18:08A gente fazia um estupim, coisa de fogo, queimava a cana, aquela cana não servia, que não era a época
00:18:15da colher ainda.
00:18:17Então, ele produzia, os outros não.
00:18:19Então, era um meio de beneficiar.
00:18:22Isso foi feito muito, né?
00:18:23E essa combinação, como é que era feita, pastor?
00:18:26Isso aí era entendimento dele com o perdigão, né?
00:18:30Aí eu mandava os policiais para lá, os pessoal que estavam sob o meu comando para lá para poder fazer,
00:18:36atendê-los, né?
00:18:37E isso acontecia com frequência?
00:18:39Com frequência.
00:18:39E teve um outro fato, assim, marcante também.
00:18:43A gente buscava armas do Rio, né?
00:18:45Lá para poder armar usina, eu trazia um pouco aqui para Vitória.
00:18:50Armar usina? Como assim?
00:18:53A usina tinha muita arma lá, entendeu?
00:18:56Com uma possível revolta, alguma coisa que se pensava na época.
00:19:01Não só a usina lá, como eu recebi várias metralhadoras, submetralhadoras portátil do Exército,
00:19:07para poder distribuir, fazer chegar a fazendeiros aqui, que fossem simpáticos à direita.
00:19:16Então, a ditadura também, ela armou a população civil?
00:19:20Armou.
00:19:21Eu trouxe, de uma vez, eu trouxe para aqui 25 submetralhadoras, tudo na caixa, zero.
00:19:26Exército Brasileiro, né?
00:19:29E...
00:19:29Sem registro?
00:19:30Não, não era, tudo de legal, era do Exército, não podia sair do quartel.
00:19:35Mas qual era o sentido, Pastor Cláudio, de armar a população civil?
00:19:40Era preparado, porque estava, não era sem terra o domínio, mas tinha já um movimento de invasão, de coisa aí.
00:19:49É para a defesa da propriedade contra as invasões.
00:19:51Na verdade, a UDR, a UDR por trás, né?
00:19:54Entendi.
00:19:55Na realidade, era...
00:20:11Muito, muito, com certeza.
00:20:13Nós podemos dizer, então, que essa ditadura foi uma ditadura militar, civil e empresarial?
00:20:18Com certeza.
00:20:22O desaparecido político, né?
00:20:24Esse fenômeno do desaparecimento político, que é diferente da morte, né?
00:20:28Porque não se encontra o cadáver, não é dado à família o direito de enterrar o seu morto, isso pressupõe
00:20:37o ocultamento.
00:20:38Toda uma tecnologia do Estado, naquele momento, de ocultar esses atos de violência, ocultar os corpos.
00:20:52Como é que era a relação sua com a operação?
00:20:56Era o senhor que levava os corpos, o senhor recebia os corpos lá?
00:21:00Eu só recebia, eu já recebia os corpos, já era cadáver.
00:21:05É igual eu falei para o senhor, eu nunca entrei dentro da... Eu nunca participei de tortura.
00:21:09Eles vinham de Petrópolis, os cadáveres?
00:21:11Vinha de Petrópolis e do próprio quartel. Eu peguei alguns no quartel da Barão de Mesquita também.
00:21:16Acho que dois, uns três, foi da Barão de Mesquita.
00:21:20O senhor ia buscar esses corpos?
00:21:22Ia buscar. Era me entregue pelo coronel Perdigão, em todos os lugares.
00:21:26No seu carro particular?
00:21:27Não, e algumas vezes foi viatura de lá, mas descaracterizada, do próprio SNI.
00:21:35A gente tinha muito carro descaracterizado.
00:21:38E como é que era essa operação? O senhor era designado para ir buscar o corpo?
00:21:42Eu buscava, a gente naquela época...
00:21:44E esse corpo saía como?
00:21:45Saía dentro de um saco preto.
00:21:49Um saco de plástico?
00:21:50Um saco de plástico preto.
00:21:51Entregava para o senhor no carro, botava no carro?
00:21:54Vinha a equipe civil lá do coronel, colocava ali, a gente não podia conversar entre a gente.
00:22:01E o senhor sabia quem estava no saco?
00:22:03Não, eu já esclareci também isso aí para não ter dúvida nenhuma.
00:22:08Eu não sabia.
00:22:09Um ou dois que, por causa das evidências, que eu fiquei sabendo na época.
00:22:14Um era o coronel Cervera, porque quando o Pérdiga Almir entregou, falou, isso aqui é um...
00:22:23Usou um palavrão, melancia, verde por fora, vermelho por dentro, traidor.
00:22:30Foi falando um monte de coisa dele.
00:22:32Aí eu sabia que era o coronel Cervera.
00:22:35Até eu tive com a filha dele, ela acha que ele não foi incinerado, que ele foi enterrado em Petrópolis.
00:22:41Eu falei, não, o senhor está enganado, o senhor recebeu a informação errada.
00:22:44Isso aí eu tenho certeza que ele foi incinerado em Campos.
00:22:47Então o senhor recebia esses corpos em sacos pretos e levava numa viatura até Campos.
00:22:52Até Campos.
00:22:53O senhor ia dirigindo?
00:22:54Não, não, tinha a Kep, que andava comigo.
00:22:57Era uma equipe, né?
00:22:57Era a Kep.
00:22:59O nome dele, o peço do livro está nominado.
00:23:02Isso é...
00:23:03E essa operação era realizada à noite, depois que a usina...
00:23:06À noite.
00:23:09A usina funcionava de noite, só que o Zé Clante, que era o gerente geral da usina, era o financeiro
00:23:17e tudo,
00:23:18ele tinha domínio sobre todos os operários.
00:23:22Nessa hora que a gente ia causar, ele desviava a atenção para o outro lado.
00:23:26A gente chegava, saía da casa, se você estiver na casa lá, você vai ver.
00:23:29A casa sai direto nas bocas do forno.
00:23:32Que casa é essa?
00:23:33É a casa do João, que é filho do dono.
00:23:57O senhor identifica essas pessoas?
00:24:01Toda.
00:24:10O Marcelo, o Maranhão, o Maranhão, o Maranhão, o Maranhão, o Maranhão, mas é isso mesmo.
00:24:15Porque eu não sabia o nome de nenhum deles.
00:24:19Sim.
00:24:19Como é que foi identificado?
00:24:21Pelas datas e pela aparência física que eu lembrava, mais ou menos.
00:24:26Aí foi...
00:24:26O senhor tirava, então, do saco preto para incinerar?
00:24:29Olhava, todos eles a gente olhava.
00:24:32Uma curiosidade, todos nós olhávamos.
00:24:34Mas eles eram lançados na fornalha fora do saco preto?
00:24:39Não, junto com o saco.
00:24:40Era junto com o saco, mas antes o senhor olhava?
00:24:42Olhava, a gente olhava.
00:24:44É tanto a Rosa Cursis que ela tinha sinais visíveis que tinha sido violada,
00:24:51que tinha sido violentada.
00:24:52É, né?
00:24:54Mas como é que era esse momento de abrir o saco?
00:25:00O que motivava?
00:25:02Era mais a curiosidade.
00:25:04Não só a minha, mas todos que estavam ali.
00:25:07Todos ficavam em torno do saco?
00:25:09Ficavam, mas era pouca gente.
00:25:11Geralmente a equipe nossa era eu mais dois,
00:25:14dois policiais, maioria policiais.
00:25:18Mas o pessoal da usina, que era dois ou três também.
00:25:21Era só a gente.
00:25:23E o senhor se lembra desse momento em que abria o saco,
00:25:28assim, como é que era a sensação?
00:25:32Eu não sei nem descrever para você.
00:25:33Era assim, pessoal.
00:25:35Porque eu não tinha visto aquelas pessoas vivas.
00:25:38Eu já percebi aquele corpo inerte ali,
00:25:40que não estava sentindo nada mais, não tinha nada.
00:25:42Eu ia só dar um destino àquele corpo.
00:25:45Mas queria vê-lo.
00:25:46Queria ver, para saber.
00:25:48Era mais do, sei, eu não sei nem te explicar.
00:25:50Era uma curiosidade mesmo.
00:25:51Não só minha, mas dos outros componentes.
00:25:53Queriam ver o corpo.
00:25:54É.
00:25:56E eram corpos mutilados.
00:25:58Muito, muito.
00:25:58Tinha um que não tinha o braço.
00:26:02É um do, acho que é esse aqui.
00:26:04Acho que é o Romão.
00:26:06Acho que é o Romão, que não tinha o braço.
00:26:09Acho que é ele bem.
00:26:13Bem machucado mesmo.
00:26:14Faltava pedaço dele.
00:26:25Mas a linha dura, pastor,
00:26:28o senhor diria que ela era uma ação clandestina
00:26:31ou uma ação oficial dentro do Estado nesse período?
00:26:35Ou ela era a ambas?
00:26:37Não.
00:26:37Na época, eu achava,
00:26:39eu achava, na época,
00:26:41que era um...
00:26:43que os coronéis que mandavam,
00:26:46estava mandando em todo...
00:26:48Porque os coronéis tinham a tropa na mão.
00:26:49Então, os coronéis que mandavam.
00:26:51Mas depois eu fui mudando a concepção disso aí.
00:26:54No meu entendimento hoje,
00:26:56era...
00:26:57Não era clandestino.
00:27:00Era oficial?
00:27:01Era oficial.
00:27:13E aí
00:27:24E aí
00:27:25E aí
00:27:27E aí
00:27:34E aí
00:27:37A CIDADE NO BRASIL
00:28:08A CIDADE NO BRASIL
00:28:42A CIDADE NO BRASIL
00:28:45A CIDADE NO BRASIL
00:28:47A CIDADE NO BRASIL
00:28:50acabou. Aonde?
00:28:53Eu queria saber aonde.
00:29:12Foi na
00:29:15rua
00:29:16da Tutóia.
00:29:17Era ali que era levado.
00:29:19É o Doi Códia.
00:29:21Doi Códia. Que é em São Paulo.
00:29:24Que é a
00:29:25de ser a sede
00:29:27da Operação Radar.
00:29:43O período em que eu estava no Doi
00:29:45e que tive a ocasião
00:29:47de conhecer,
00:29:48por informação,
00:29:51o centro de tortura
00:29:54começou no período
00:29:55Ustra,
00:29:57que é aquele centro de tortura
00:29:59lá da estrada de Itapevi.
00:30:00Para onde foram levados
00:30:02alguns ativistas da
00:30:04cúpula do PCB
00:30:06e de lá foram desaparecidos.
00:30:08pode lembrar os nomes?
00:30:12De alguns, pelo menos.
00:30:14Irã de Lima
00:30:14Pereira.
00:30:15Irã de Lima Pereira, sim.
00:30:17Luiz Inácio Maranhão Filho, sim.
00:30:21Orlando Bonfim.
00:30:23Orlando da Rosa Silva
00:30:24Bonfim, sim.
00:30:26João Massena Melo.
00:30:28João Massena Melo, sim.
00:30:31Elson Costa.
00:30:31Elson Costa, sim.
00:30:34Itaí José Veloso, sim.
00:30:37Porque as informações
00:30:38circulavam na hora do almoço,
00:30:40as informações circulavam
00:30:42nas conversas reservadas, etc, etc.
00:30:44Todos.
00:30:45Comentavam e todos ficavam sabendo
00:30:48que alguém morreu
00:30:49e que foi lançado no rio.
00:30:52Só não sabia quem fez isso.
00:30:55A gente tinha uma vaga noção
00:30:57de que a equipe que cumpria
00:30:59essa tarefa suja
00:31:02eram militares do exército.
00:31:04Restrito, quer dizer,
00:31:05eram tarefas restritas
00:31:07a militares do exército.
00:31:08Ou seja,
00:31:09essa equipe se reunia
00:31:12na calada da madrugada,
00:31:15realizava as operações
00:31:18e no dia seguinte
00:31:20estava trabalhando normalmente
00:31:22e diluída
00:31:24entre os participantes do DOI.
00:31:27Onde é que era feita a desova?
00:31:29Em que rio?
00:31:30Bom, eu fiz esse relato
00:31:32à revista Veja
00:31:33e ao que eu sei,
00:31:35por ouvir dizer,
00:31:36por informações que circularam
00:31:38no órgão,
00:31:40que a desova era feita
00:31:42no rio Avaré,
00:31:43numa ponte sobre o rio Avaré.
00:31:47O Sargento Marival,
00:31:49ele tem dado depoimentos
00:31:51e alguns dos seus depoimentos
00:31:53contradizem com o seu.
00:31:55Ele diz que o Luís Maranhão
00:31:57e o João Massena
00:31:58foram jogados no rio.
00:32:00Foi não, foi não, foi não.
00:32:01E não incinerados, né?
00:32:02Foi não, incinerados.
00:32:04O senhor diz então,
00:32:05porque o senhor diz em primeira pessoa
00:32:07como alguém que estava ali no ato.
00:32:08Eu, eu.
00:32:09Eles falam que ouviu dizer
00:32:11que foram jogados os corpos no rio tal,
00:32:14que chegou lá no serviço de formação,
00:32:17essa informação.
00:32:19agora, se ele tivesse,
00:32:21eu estive lá no rio,
00:32:23eu levei os corpos e joguei lá,
00:32:25aí tinha credibilidade.
00:32:27Eu falo na primeira pessoa,
00:32:28por isso que só, não sei se você viu,
00:32:30as coisas que foram outros que fez,
00:32:32eu falo,
00:32:32isso me formaram que foi assim,
00:32:34agora, os que eu fiz,
00:32:35foi desse jeito,
00:32:36assim, assim, assim, assim.
00:32:38Aí mostra os detalhes.
00:32:45Um outro atentado importante
00:32:47que acontece com a morte em 76
00:32:51do Zuanjo, né?
00:32:53O que eu sei, né?
00:32:54É que ela incomodava
00:32:56por causa do filho que tinha desaparecido
00:32:58e estava se tornando inconveniente mesmo.
00:33:01Aí, mas matá-la num atentado normal
00:33:06causaria um...
00:33:07Saberia que tudo era o SLI
00:33:09que tinha feito
00:33:10por causa do que ela estava fazendo.
00:33:12Então, bolou-se o acidente para ela.
00:33:14A história, a versão oficial
00:33:15da perícia forjada
00:33:17é que o carro tinha batido
00:33:19no meio-fio ali
00:33:21e que teria capotado, né?
00:33:23Agora, você vê, visivelmente,
00:33:25do lado esquerdo,
00:33:27do lado esquerdo do carro,
00:33:28se você...
00:33:29Tem outras fotos aí que você vai ver.
00:33:30Do lado esquerdo do carro,
00:33:32você vai ver o maçado
00:33:33do lado esquerdo do carro.
00:33:35Então, está caracterizado
00:33:37que um carro daqui
00:33:38bateu nela e jogou lá para lá.
00:33:41Entendeu?
00:33:42E esse é um atentado...
00:33:45Esse ali é o...
00:33:46Esse ali é o...
00:33:47Esse ali é o coronel Perdigon.
00:33:49É o Fred Perdigon.
00:33:55Esse aí não tem dúvida.
00:33:56E o coronel sempre falava comigo
00:33:58que ele tinha...
00:33:59Que ele tinha dado mole,
00:34:01que ele tinha se fotografado no local.
00:34:03Que ele, inclusive,
00:34:04pediu ao Augusto que tentasse achar...
00:34:07Que ele, inclusive,
00:34:08achava que era o pessoal da perícia
00:34:10que tinha fotografado ele.
00:34:12Mas foi o jornal que fotografou.
00:34:13Mas era comum nessas operações
00:34:16os agentes permanecerem no local?
00:34:19Não. O comum era o seguinte.
00:34:22Por exemplo, eu fazia a operação.
00:34:23Tinha o pessoal da cobertura
00:34:26que ia para o local
00:34:28soltar notícia diferente.
00:34:31Isso foi assim.
00:34:32Foi uma troca de tiro.
00:34:33Foi isso. Foi aquilo.
00:34:34Entendeu?
00:34:35Então, era comum
00:34:36esse apoio logístico aí.
00:34:41Pastor Cláudio,
00:34:41como é que chegava
00:34:42essa ordem de execução?
00:34:45Como é que ela era formulada?
00:34:47Como é que o senhor recebia essa ordem?
00:34:49Eu recebia aquilo...
00:34:50Olha como que era o sistema.
00:34:52Por exemplo, se tinha que morrer alguém
00:34:53no Espírito Santo,
00:34:55não era nós que fazíamos aquilo.
00:34:57Vinha pessoa de fora.
00:34:59Sim.
00:35:00Se era em São Paulo,
00:35:02aí mandava ou aqui de Minas,
00:35:04ou do Espírito Santo,
00:35:05ou de Minas,
00:35:05ia de outro estado fazer.
00:35:07Então, como que era?
00:35:08Você vai se deslocar...
00:35:10Por exemplo,
00:35:11quando fui para Recife.
00:35:12Você vai para Recife.
00:35:14Tem uma missão para fazer.
00:35:15Eu sabia que era matar alguém,
00:35:17mas não sabia quem,
00:35:17não sabia aonde,
00:35:18não sabia nada.
00:35:20Você vai...
00:35:20Mas quem ele dizia isso?
00:35:22O coronel Perdigão.
00:35:24Ele dizia?
00:35:25Ele que era o meu chefe imediato.
00:35:27Entendeu?
00:35:27Eu recebia a ordem dele.
00:35:29Muitas foram dentro da Procuradoria da República,
00:35:32aqui, na presença do procurador.
00:35:34E era uma ordem oral?
00:35:35Oral.
00:35:35Era escrita?
00:35:36Não, não tinha nada documentado.
00:35:39Nem, às vezes,
00:35:40nem você sabia,
00:35:41só que tinha que viajar para um lugar.
00:35:43Lá você...
00:35:44Sabia que você ia executar alguém.
00:35:45Lá você recebe o quê?
00:35:46A arma e alguém para te dar cobertura,
00:35:51para te levar até o lugar e apontar quem ia ser.
00:35:53Então, era um negócio...
00:35:54Era uma trama muito bem feita.
00:35:57Justamente para não ficar ponta para se descobrir.
00:36:15Eu recebi um telefonema.
00:36:18Eu estava na Academia de Polícia de Minas,
00:36:21fazendo curso de delegado.
00:36:24Eu recebi um telefonema do Perdigão,
00:36:27dizendo que tinha sido preso um cara
00:36:30que não podia aparecer
00:36:32e que era para eu poder resolver o problema.
00:36:36Aí, eu fui na furtos de veículos,
00:36:39na furtos de roubos,
00:36:40lá de Minas.
00:36:43Chego lá, está o Saraiva e o Metropol,
00:36:46Joãozinho Metropol,
00:36:47com ele lá no Pau de Arara,
00:36:49mas quebrado.
00:36:50Está mais morto que vivo mesmo.
00:36:53Aí, eu falei com ele,
00:36:54rapaz, vocês fizeram uma coisa errada.
00:36:57Esse cara não pode aparecer.
00:36:59Não, nós temos onde levar.
00:37:01Aí, eu fui com eles até o lugar.
00:37:03Eu mostrei esse local para a Polícia Federal.
00:37:07O senhor se lembra desse momento da execução do Dr. Vera?
00:37:10Esse momento me marcou muito.
00:37:12Até tem a história de Paulo, apóstolo Paulo,
00:37:15quando ele teve um encontro,
00:37:17deixou de fazer as coisas erradas e passou a mudar.
00:37:21Para mim, eu entendi que aquele momento ali
00:37:23foi o momento que mais me chocou.
00:37:26Porque, sei lá, o cara estava entregue,
00:37:30estava morto.
00:37:30Eu fiz aquele tiro ali e dei com pena.
00:37:35O senhor se incomodaria de fazer para nós agora
00:37:39uma simulação desse momento?
00:37:44Não, pode ser.
00:37:54Ele estava sentado,
00:37:57ou ajoelhado, eu não lembro, chorando.
00:37:59Assim, gemendo mesmo.
00:38:01Muitas dores, né?
00:38:02Perto de uma arvorezinha.
00:38:03Eu saquei e atirei na cabeça dele.
00:38:07Foi um gesto de misericórdia que foi feito ali.
00:38:11Qual a distância que o senhor estava dele?
00:38:14Olha, foi...
00:38:16É uma distância...
00:38:17Ele estava, o quê? Um metro, né? Um metro, sei lá.
00:38:21Ele percebeu que haveria um tiro de misericórdia?
00:38:24Não, ele nem...
00:38:25Ele não viu, né?
00:38:28Aliviou realmente o sofrimento dele.
00:38:30Ele não sabia.
00:38:31E, para o lugar que levou ele,
00:38:33acho que ele sabia que ia morrer.
00:38:34Ele já saberia, né?
00:38:35Porque tirou ele dentro de um...
00:38:39De um recinto oficial para levar para o meio do mato.
00:38:43Ele, se ele tivesse raciocinado,
00:38:45que eu não sei se estava ainda por causa do sofrimento dele, né?
00:38:55E na sequência?
00:38:58Na sequência, dali, nós retornamos para...
00:39:02Deixaram o corpo lá?
00:39:03O corpo não. O corpo foi enterrado ali, naquele local.
00:39:07E, segundo o Metropol, o João Metropol e o Saraiva,
00:39:11naquele local já haviam sido enterrado outras pessoas,
00:39:15mas não da esquerda, né?
00:39:17De trabalho policiais deles lá, que eles faziam, né?
00:39:20Eles pertenciam ao esquadrão, né? E...
00:39:24Que esquadrão?
00:39:25Era o Escuderi Lecoque, né?
00:39:28Eles eram das lideranças de Minas,
00:39:31ligado ao pessoal do Rio lá, o Sivuca, né?
00:39:35Que era o presidente nacional.
00:39:37O Escuderi Lecoque era um dos braços armados da ditadura.
00:39:44Um braço clandestino que era usado também.
00:39:49E...
00:39:50Foram feitas muitas execuções usando o pessoal do Escuderi Lecoque.
00:39:57Usando pelo coronel Perdigal, pelos outros comandantes todos, né?
00:40:13Na maior parte das vezes o senhor diz que matou a sangue frio, né?
00:40:17Era o pessoal, não tinha nada, não tinha emoção, não tinha nada.
00:40:19O senhor estava fazendo isso...
00:40:20Cumprindo uma ordem.
00:40:22No cumprimento da ordem, né?
00:40:23Isso.
00:40:24Eu queria saber...
00:40:26Mas nesse cumprimento da ordem o senhor recebia, né?
00:40:29O senhor recebia um salário e recebia também algumas benesses, né?
00:40:33Por exemplo, o Opala, que o...
00:40:35É isso aí.
00:40:36O senhor Eli lhe deu de presente, né?
00:40:39Sim, é verdade.
00:40:40Mas eu queria entender um pouco isso, né?
00:40:43Era uma relação profissional.
00:40:46Essa relação profissional que tinha a ver com essas execuções,
00:40:49ela também tinha a ver com a sua carreira, com o dinheiro que o senhor recebia...
00:40:55E também poder.
00:40:57Poder.
00:40:58Eu tinha...
00:40:58Aqui no estado, eu mandava no estado.
00:41:02Aqui em Vitória o senhor mandava?
00:41:04Mandava no estado.
00:41:05Eu tinha...
00:41:06O governador saia do gabinete dele pra tomar cafezinho comigo no meu gabinete.
00:41:10E o senhor agia no estado todo, no Espírito Santo todo?
00:41:12No estado todo.
00:41:12No país inteiro eu agia.
00:41:14Sim.
00:41:15O DOPS do Espírito Santo era tão conhecido quanto o DOPS de São Paulo.
00:41:19Não saia da imprensa, não, mas do submundo, da...
00:41:26Mas como é que era esse poder?
00:41:28Como é que era essa experiência de poder?
00:41:31O senhor era temido?
00:41:32Era a sensação de ser temido?
00:41:34Era...
00:41:34Era temido.
00:41:35Até hoje...
00:41:36Até hoje as pessoas...
00:41:38Algumas pessoas não acreditam na minha mudança.
00:41:41Tem medo ainda.
00:41:43Eles falam assim, bom era aquela época do guerra.
00:41:46Bandido no...
00:41:47A gente dormia com a janela aberta.
00:41:48Era verdade que o bandido local aqui, o cara que era aqui, a gente dava oportunidade.
00:41:53Você roubou uma vez, levava uma coisa.
00:41:56Roubou outra vez, era...
00:41:57Era pior.
00:41:59Na terceira vez ia pra vala.
00:42:01Mas naquele momento tinha uma paixão pelo poder?
00:42:04Tinha paixão.
00:42:05Era...
00:42:05Você tinha...
00:42:06É um ditado que tem que é muito sábio.
00:42:09Você quer conhecer o homem, dá poder pra ele.
00:42:12Eu...
00:42:12Eu não estava preparado pra poder.
00:42:15Porque essas operações elas geravam glória, né?
00:42:18É.
00:42:18É o que o senhor chamou então do poder, né?
00:42:21Uhum.
00:42:21Então tinha entre os agentes toda uma...
00:42:24Uma hierarquia de glória, né?
00:42:26Essa época.
00:42:27Como é que era a sua relação então com esses feitos?
00:42:31Olha, eu...
00:42:32O senhor se sentia com essas glórias?
00:42:35Eu, nessa época, eu não tenho problema de confessar minhas fraquezas da época.
00:42:40Porque aí eu me sentia...
00:42:43Dono da...
00:42:43Eu achava que era o bom, né?
00:42:46Era o bom.
00:42:47Tinha...
00:42:48Levava uma vida com dinheiro à vontade.
00:42:53Trocava de carro a hora que queria.
00:42:55Entendeu?
00:42:55Então tá...
00:42:56E como é que vinha esse dinheiro?
00:42:57Você estava explicando pra gente como é que vinha esse dinheiro.
00:42:59Eu...
00:42:59Inclusive eu dei o banco.
00:43:01Eu dei pras autoridades o banco que nos pagava.
00:43:04Todos os agentes do Rio, do SLE, principalmente do Serviço Reservado,
00:43:10Pertici...
00:43:11Era o banco mercantil do Estado de São Paulo.
00:43:14A agência que nós recebíamos era a Agência Copacabana.
00:43:19Que era um dinheiro não declarado, né?
00:43:21Esse dinheiro não vinha em folha de pagamento.
00:43:23Era...
00:43:23Era com nome...
00:43:24Era com cor de nome.
00:43:26Eu tinha...
00:43:27No mesmo banco, eu tinha meu nome, Cláudio Antônio Guerra, conta normal,
00:43:30e tinha...
00:43:31Eu recebia como Estanival Meirelles.
00:43:35Mas com que documentação o senhor tirava esse dinheiro?
00:43:38Tudo frio.
00:43:40Com conhecimento...
00:43:41O dono do banco foi o primeiro a doar,
00:43:44os que 100 ou 300 mil dólares pra Operação Bandeirante.
00:43:48O dono do banco.
00:43:50Que é o Gastão, falecido já.
00:43:55Então o senhor recebia através de uma conta fria do banco mercantil?
00:44:00Mercantil.
00:44:00Não só eu.
00:44:01Vários, os agentes, todos recebiam ali.
00:44:04Isso vinha na forma de prêmio, né?
00:44:06Prêmio.
00:44:06Tinha prêmios, mas tinha também o salário, né?
00:44:09É, o salário...
00:44:10Pelo banco mercantil era um salário que o senhor estava recebendo.
00:44:12São Paulo era o Bamerindos.
00:44:15Dois bancos que eram os financiadores.
00:44:19Banco mercantil do Estado de São Paulo e em São Paulo o Bamerindos.
00:44:42Bamerindos ou bíblos do Estado de São Paulo.
00:44:55Preparas-me uma mesa na presença dos meus adversários.
00:45:03Unges minha cabeça com óleo.
00:45:07O meu cálice transborda.
00:45:12Um momento de silêncio.
00:45:16A morte, então, dos integrantes do Partido Comunista Brasileiro
00:45:20foi já um momento de exacerbação da violência
00:45:26numa tentativa de frear a abertura.
00:45:30O senhor diria que a morte de Herzog foi um tiro do pé?
00:45:37Com certeza.
00:45:40Eles queriam trazer a simpatia da opinião pública,
00:45:43justamente trouxe o contrário.
00:45:46Trouxe antipatia.
00:45:48Antipatia trouxe realmente a violência que era praticada,
00:45:51clandestinamente, que não aparecia.
00:45:53Os órgãos de pressa abafavam tudo.
00:45:57Porque aquela imagem do suicídio, a população não conseguiu aceitar.
00:46:01Não pôde aceitar.
00:46:02Foi muito evidente.
00:46:06Pelo que eu sei dos comentários, eles não queriam matá-lo.
00:46:10Houve um excesso ali, na hora de não souberam interrogar e acederam,
00:46:16aí simularam o suicídio.
00:46:19O suicídio.
00:46:19Mas qual foi o erro?
00:46:21Era um cara da imprensa, respeitado,
00:46:25e ele não tinha nenhuma atividade violenta.
00:46:31Ele não era partidário de lutas violentas.
00:46:33O PCB como um todo, não era a favor da luta armada.
00:46:38Só que o que foi vendido para os órgãos de informações venderam para os comandos,
00:46:47é que o PC era Cuba.
00:46:52O PC era...
00:46:52Essa imagem acho que era muito assustadora, não é?
00:46:55Assustadora.
00:46:57E é curioso que esse inimigo da nação, ele era tido como horrível, como violador,
00:47:05mas a própria violação não era vista, não é?
00:47:07Era feita pelo Estado, não é?
00:47:13E, pastor Cláudio, qual é a relação que o senhor sabe ter havido
00:47:18entre essas operações violentas da linha dura da ditadura e a CIA americana?
00:47:25Olha, a CIA, ela funcionou aqui, dando dinheiro
00:47:30e funcionou dando ensinamentos também.
00:47:33Não só a CIA, mas como serviço de informação em inglês também.
00:47:38Tiveram aqui dando instrução, ensinando como métodos de torturas
00:47:43e de investigação, de fazer campanas.
00:47:47O senhor chegou a ter algum treinamento desse tipo?
00:47:49Eu fiz o treinamento de explosivos.
00:47:53Eu aprendi a usar, mas já foi com o Scala, que...
00:47:57Ele estava fazendo os efeitos especiais da Rede Globo há pouco tempo,
00:48:01mas parece que ele está em outra...
00:48:02Era um cara também que fez muita coisa.
00:48:05E eu dei o nome dele, mas acho que ninguém foi atrás dele até hoje.
00:48:12O senhor se refere a uma reunião importante internacional
00:48:17que aconteceu no Hotel Glória, né?
00:48:20Hotel Glória.
00:48:20O senhor podia nos falar um pouco dessa reunião?
00:48:22Essa reunião, a fachada era como se fosse uma reunião de segurança pública.
00:48:31E ali estavam todos os países da América do Sul
00:48:35e todos os estados representados lá.
00:48:39A fachada era realmente falando sobre segurança pública.
00:48:44Só que nos bastidores era a estratégia de praticar atentados,
00:48:50não só aqui do Brasil, mas os outros também que estavam lá,
00:48:53o pessoal do Paraguai, do Chile, da Argentina.
00:49:00Estava todo mundo lá.
00:49:01E agentes americanos.
00:49:02E o senhor estava nessa reunião, né?
00:49:04Eu estava.
00:49:04Como é que era?
00:49:05Como é que era, assim?
00:49:07Essa reunião, ela...
00:49:08Quem chefiava a reunião era o delegado Celso Tedes, de São Paulo,
00:49:14que era o diretor da polícia de São Paulo, né?
00:49:18Mas foi explicitada em algum momento nessa reunião
00:49:21a necessidade de operações do tipo dessas que aconteceram no Rio Centro?
00:49:26Foi daí que, você só pode ver,
00:49:28todos os atentados da bomba partiam depois, de 80,
00:49:32porque foi tramada ali.
00:49:33Nessa reunião no Hotel Glória?
00:49:35Nessa reunião no Hotel Glória.
00:49:38Reunia para fazer algumas ações,
00:49:41algumas ações, lá no Angulo de Gomes,
00:49:43e tinha vários coronéis que reuniam.
00:49:46Dentre eles, o José Brant, né?
00:49:49José Brant, tem aqueles do Cruzeiro também.
00:49:54E o senhor chegava para frequentar essas reuniões?
00:49:57O único civil que frequentava era eu.
00:49:59E como é que era essa reunião hoje?
00:50:01Como é que era?
00:50:02O dono do Angulo do Gomes, logo assim que eu sou,
00:50:06que o livro saiu, o livro Memórias de um Guerra Sul saiu,
00:50:11o pessoal da G1 foi lá entrevistá-lo, né?
00:50:14Aí ele falou, não, ele me chamava de Claudinho.
00:50:16Não, o Claudinho reunia aqui com os coronéis.
00:50:19Ele confirmou essa...
00:50:21Era no Angulo do Gomes que era a reunião?
00:50:22No Angulo do Gomes.
00:50:23Era o Angulo e na sauna.
00:50:25Porque o Angulo era do...
00:50:27O Angulo era ali perto do Ministério, né?
00:50:29É.
00:50:30E do lado do Angulo, embaixo, uma sauna,
00:50:33que também era coisa reservada,
00:50:36que era do irmão, do dono do Angulo,
00:50:39que era do Augusto.
00:50:41Uma sauna?
00:50:41Uma sauna.
00:50:42Nessa sauna, a maioria dos coronéis frequentava.
00:50:48Então, era uma das primeiras saunas do Rio.
00:50:50Mas era uma sauna de prostituição, é isso?
00:50:53Era, tinha mulheres lá.
00:50:55É?
00:50:56Fazia escraptiz, aquelas coisas todas, né?
00:50:58Essas reuniões na sauna,
00:51:00aconteciam com a sauna funcionando?
00:51:02Não, aí quando a sauna ficava...
00:51:04O dono era o Augusto,
00:51:06era um ex-policial federal,
00:51:08Augusto Pinto Moreira.
00:51:10Ele era fechado,
00:51:12aí só tinha o nós que ficava lá dentro.
00:51:16Entendi.
00:51:17E no restaurante do Angulo do Gomes também?
00:51:19Também.
00:51:20No restaurante, não.
00:51:21O restaurante não é que fosse reservado,
00:51:24mas tinha uma mesa que ele já reservava para a gente,
00:51:26mais afastado,
00:51:27ali sentava e conversava.
00:51:30Quando tinha alguma ação para poder falar o que ia fazer,
00:51:35a gente ia para a sauna.
00:51:36que lá na sauna tinha o lugar onde o salão fechava,
00:51:41a gente sentava ali,
00:51:42não tinha como ninguém escutar,
00:51:44ali que era...
00:51:45Os planos eram feitos.
00:51:46E nessas reuniões,
00:51:48como é que era a atmosfera?
00:51:50Não, era de lealdade um com o outro.
00:51:52Era lealdade?
00:51:53Irmandade mesmo.
00:51:54Irmandade?
00:51:56Irmandade.
00:51:57E era um ambiente como?
00:51:59Era um ambiente mais descontraído?
00:52:00Era mais tenso?
00:52:02Não, era normal,
00:52:04uma reunião como se fosse uma reunião de negócios.
00:52:06Uma reunião de negócios?
00:52:07É, era tranquilo.
00:52:10Tranquilo.
00:52:11E era explicitada as ações?
00:52:13Era dito com todas as letras o que era preciso fazer?
00:52:15Nesse grupo, sim.
00:52:23Essa é, então,
00:52:25as cenas do atentado à OAB, né?
00:52:28A dona Lida.
00:52:29Esse eu não participei,
00:52:31mas eu tenho conhecimento, como é que foi.
00:52:32Sei que foi quem fez a bomba
00:52:35foi o sargento...
00:52:40E quem está vivo,
00:52:41que levou a bomba,
00:52:43que entregou a LALCOA,
00:52:45foi o Guarani.
00:52:48Não era para ela a bomba, né?
00:52:50Não era.
00:52:52Não era para ela.
00:52:53Era para o presidente da OAB mesmo.
00:52:55Eu sei que foi por causa de um discurso que ele fez.
00:52:58Eu não sei do que o presidente da OAB fez.
00:53:01Eu não lembro o que é.
00:53:02Sei que foi feito uma coisa.
00:53:04e tinha essa represália
00:53:06para poder julgar a culpa na esquerda.
00:53:08Agora, eu não sei o que foi...
00:53:10O que é que veio daí?
00:53:16O senhor estava falando, então, de 81.
00:53:18É um momento, então,
00:53:20que as ações, as operações,
00:53:23eram menos a bala
00:53:24e mais a bomba.
00:53:26O senhor disse isso há pouco, né?
00:53:28Foi.
00:53:30O Fred Perdigão, ele sugeriu isso, né?
00:53:33Que não resolvesse a bala,
00:53:35mas resolvesse a bomba, né?
00:53:36E temos, então, casos que ficaram, né?
00:53:41Ficaram notabilizados na época,
00:53:43como o caso do Rio Centro, né?
00:53:45E o atentado à OAB, né?
00:53:48E a ideia era essa ideia sempre de estar incriminando a esquerda
00:53:54e justificando a existência de um terrorismo, né?
00:53:58De um terrorismo de esquerda.
00:53:59Quando, na verdade, o senhor está dizendo
00:54:01que era um terrorismo do Estado.
00:54:04Do Estado.
00:54:04Do Estado, né?
00:54:05Portanto, um terrorismo da direita, né?
00:54:07Qual era, qual foi, então, a sua função,
00:54:10Pastor Cláudio, na operação do Rio Centro?
00:54:13No Rio Centro, eu era encarregado,
00:54:16tinha várias equipes trabalhando, né?
00:54:18A equipe que estava sob o meu comando
00:54:20era encarregada de, acontecendo o fato,
00:54:23nós prendermos pessoas que iam ser indicadas
00:54:27pelo Perdigão, que era do...
00:54:31Inclusive, as placas foram pichadas antes
00:54:33com essa sigla lá,
00:54:36uma sigla do...
00:54:39do movimento de esquerda, do Toledo.
00:54:42VPR?
00:54:42Hein?
00:54:43VPR.
00:54:44Vanguarda Popular.
00:54:45É, isso aí, VPR.
00:54:46Revolucionária.
00:54:47Então, seria apreendido algumas pessoas
00:54:51que eram ligadas ao VPR ali no local,
00:54:53depois que acontecesse o fato.
00:54:56Vocês sabiam que eles estariam nesse show?
00:54:58É, estava lá, já está...
00:55:00Segundo o coronel, ele já estava monitorado.
00:55:04Aconteceram, ele já ia falar, segura ali.
00:55:06Eu já ia pregar as pessoas.
00:55:08Eu que era encarregado das prisões.
00:55:09A minha função ali era só essa, né?
00:55:12Sim.
00:55:13Nessas ações que foram executadas no Rio,
00:55:17no caso da operação do Rio Centro,
00:55:20quem...
00:55:20O comando imediato foi de quem?
00:55:24A elaboração do plano, toda ela está documentada.
00:55:28Foi do coronel Pertigão.
00:55:29Foi ele que realizou.
00:55:32O comandante da PM, que é o...
00:55:36Não sei o nome, sei.
00:55:37Que estava em Brasília, no dia.
00:55:40Ele ligou...
00:55:41Eu acho que era secretário de segurança ou...
00:55:44Não estou lembrando o nome.
00:55:45Hoje está ruim o nome.
00:55:46Ele ligou de Brasília para poder tirar
00:55:50todo o policiamento lá do Rio Centro.
00:55:51Foi feito isso.
00:55:54Uma mulher que também, não estou lembrando o nome,
00:55:56mas tem o nome dela...
00:55:57Essa ordem veio de Brasília.
00:55:59Não, ele estava em Brasília,
00:56:01no gabinete do chefe do SNH.
00:56:02O Brasília, o chefe do SNH, em Brasília.
00:56:05Generalmente, precisavam os generais.
00:56:06Tinha o Nilton Cruz, tinha um outro antes também.
00:56:13Foi ligado de lá, dando ordem para retirar
00:56:16todos os...
00:56:20O policiamento da região.
00:56:22Foi tirado.
00:56:23Uma mulher que foi...
00:56:24Que assumiu a direção...
00:56:26Tipo, a direção também lá do Rio Centro,
00:56:29também foi colocada pelo exército lá.
00:56:32Ela se encarregou de mandar fechar.
00:56:34Todas as saídas de segurança estavam fechadas.
00:56:37Então, ia ser...
00:56:38Se a bomba explode lá no palco,
00:56:40ia realmente ser...
00:56:42A bomba não tinha grande potência,
00:56:44mas o...
00:56:45O pânico, né?
00:56:46O pânico ia matar muita gente, né?
00:56:48Era um negócio terrorismo mesmo que ia ser feito, né?
00:56:53Mas, hoje eu dou graças a Deus que não deu certo, né?
00:56:57Por imperícia...
00:56:57Por imperícia...
00:56:57Sabe por que não deu certo?
00:56:59Por imperícia do capitão, hoje coronel,
00:57:01porque ele parou...
00:57:03O perito era o Rosário,
00:57:06que sabia mexer com um explosivo,
00:57:08sabia montar.
00:57:09Parou debaixo de uma alta tensão,
00:57:12a espoleta elétrica fechou o culto,
00:57:15explodiu no colo do Rosário.
00:57:23Isso tem notícia?
00:57:25Houve a formulação dessa operação
00:57:29que foi abortada pelo capitão Macaco, né?
00:57:33Que se recusou a fazer a explosão do gasônio.
00:57:37Eu sei de ouvir dizer, não sei nada...
00:57:39O senhor não participou,
00:57:39o senhor não tem notícia dela, né?
00:57:41Como é que é para o senhor
00:57:42essa experiência, então,
00:57:46de insubordinação e de recusa, né?
00:57:49De agentes que não realizaram
00:57:51operações que lhe foram designadas?
00:57:55Naquela época, nós considerávamos
00:57:57as pessoas traidoras, né?
00:57:58que não queriam cumprir a ordem.
00:57:59E o senhor tinha algum temor
00:58:03contra uma represália
00:58:05que o senhor pudesse sofrer,
00:58:06caso não cumprisse adequadamente uma ordem?
00:58:12Olha, teve várias...
00:58:14Igual eu falei com você,
00:58:15teve várias queimas de arquivo lá.
00:58:17A pessoa se incomodava,
00:58:20se eles viam que a pessoa não merecia confiança, né?
00:58:22que ia prejudicar os órgãos de formação mais tarde,
00:58:27eram queimados, eram eliminados, né?
00:58:32O senhor vivia esse medo?
00:58:34O senhor vivia esse medo?
00:58:36O senhor tinha esse medo?
00:58:37Na época?
00:58:37Não, porque eu era assim...
00:58:40É tanto que nunca tentaram nada contra mim no passado,
00:58:43porque eu fui leal, eu era leal.
00:58:45Era leal, né?
00:58:46É, e eu não tenho...
00:58:48O que eu falo sempre para ele,
00:58:50eu não tenho como...
00:58:52Estou traindo ninguém,
00:58:53nem trair ideologicamente ninguém.
00:58:57Primeiro, eu nunca fui isso ou daquilo.
00:59:00Eu sempre fui, eu seguia...
00:59:02Eu era uma pessoa que...
00:59:04Hoje eu tenho uma bandeira.
00:59:05Naquela época a minha bandeira era cumprir ordem,
00:59:09era uma mula, né?
00:59:13Não tinha visão, né?
00:59:15Enxergava.
00:59:16Obedecer é só obedecer, né?
00:59:18Eu morreria com os segredos que eu sei.
00:59:26Mas o senhor era leal, então, a uma causa.
00:59:30Essa causa era de extrema direita,
00:59:33ela estava ligada a um Estado terrorista, né?
00:59:37Um golpe de Estado.
00:59:40Mas no final da ditadura,
00:59:42vários benefícios e um poder que o senhor tinha, né?
00:59:47Acabou não.
00:59:48Ficou até 2005.
00:59:52O que mudou quando houve a abertura?
00:59:55A única coisa que mudou
00:59:56é que não tinha o aparato do Estado por trás da gente.
00:59:59Mas continuou.
01:00:01O que ele fazia, por exemplo,
01:00:02o Perdigão e vários outros comandantes,
01:00:05o que fazia para o Estado,
01:00:07eles começaram a fazer particular.
01:00:10Para contravenção?
01:00:11Não só contravenção,
01:00:13mas as empresas,
01:00:16se você pesquisar,
01:00:17você vai ver as grandes empresas
01:00:18de informação,
01:00:19encontro de informação,
01:00:24de comercial, industrial,
01:00:26que tem aqui,
01:00:28e de segurança,
01:00:30de empresários que vêm do exterior para aqui,
01:00:32é tudo feito por os interagantes lá no passado,
01:00:35que é a Irmandade que está ativa até hoje.
01:00:38Ah, isso aí é um trabalho da Irmandade.
01:00:40Parte dela.
01:00:42Quer dizer,
01:00:42o que fazia para o Estado,
01:00:44ganhando o que o Estado pagava,
01:00:46hoje recebe.
01:00:47Muito mais.
01:00:49Vê que as primeiras empresas de segurança do Rio,
01:00:51desse sistema que eu estou te falando,
01:00:54são de ex-generais.
01:00:56Entendi.
01:00:57São de generais lá no passado.
01:00:58Mas quando há, então,
01:00:59o fim da ditadura,
01:01:01o senhor vai trabalhar
01:01:02numa função que era
01:01:04do seu amigo,
01:01:05o coronel Fred Perdigão.
01:01:07Isso?
01:01:07Não, não só aí.
01:01:10Ele era o chefe da...
01:01:13Não, eu era delegado ainda.
01:01:15Eu, como delegado,
01:01:17ele era o chefe de segurança dos banqueiros,
01:01:20passou para mim,
01:01:20eu passei ser o chefe dos banqueiros de bicho.
01:01:24Passei ser o chefe de segurança dos banqueiros.
01:01:26Na época,
01:01:27o presidente era o Castor de Haddad.
01:01:30Foi uma época que eu tinha fazenda
01:01:32para todo lado
01:01:33e foi a época do apogeu.
01:01:35Ah, o senhor tinha muito dinheiro nessa época.
01:01:37O senhor recebeu bem essa época.
01:01:38Mas você vê...
01:01:40Isso aí, já estou te mostrando,
01:01:42depois da abertura,
01:01:45como continuou.
01:01:46Sim.
01:01:47No meu caso,
01:01:48só parou...
01:01:49Mas estava apontando para quem?
01:01:51Quem é que era o alvo
01:01:53nesse momento dessa...
01:01:54Não, não tinha...
01:01:56Era manter,
01:01:59igual eu creio,
01:02:00que está sendo mantido até hoje,
01:02:02o mesmo sistema.
01:02:03Entendeu?
01:02:05É manter o poder.
01:02:08Eu estava no poder.
01:02:10Continuei no poder.
01:02:11Continuei recebendo até mais
01:02:12do que eu recebia antes.
01:02:16Foi quando...
01:02:17Por isso que eu estou falando.
01:02:18Estava...
01:02:18Eu como delegado...
01:02:19Mas não tinha um inimigo,
01:02:20então, nesse momento, né?
01:02:21Não, eu...
01:02:22Não tinha a ordem contra...
01:02:24A ordem era ajudar
01:02:27os governos locais.
01:02:29Sem o inimigo localizado, então?
01:02:31Sem o inimigo localizado.
01:02:32O inimigo era a segurança pública.
01:02:34Ter a segurança.
01:02:35E a gente mantinha essa segurança.
01:02:38Eu como delegado do Góia,
01:02:40eu fazia...
01:02:41Mas tinha ainda as práticas de violência,
01:02:43de violação de direitos?
01:02:46Tinha mortes?
01:02:47Tinha tortura?
01:02:47Não, tortura.
01:02:49Tinha...
01:02:49Dentro do próprio gabinete secretário,
01:02:51montava pau de arara lá dentro.
01:02:53Ah, usava a tecnologia do pau de arara?
01:02:55Usava.
01:02:56Não eu, os policiais,
01:02:57usava lá.
01:02:59Mas usava,
01:03:00eu tinha conhecimento, né?
01:03:01Então, eu participava, né?
01:03:06A direita, quando ganhou,
01:03:08começou a me bater.
01:03:09Bater, bater, bater.
01:03:11Me arrumaram uma exoneração
01:03:13sem processo legal, sem nada.
01:03:15Mas você procura o processo
01:03:17para poder fazer uma revisão,
01:03:19para eu poder conseguir a aposentadoria,
01:03:21o Estado sumiu com o meu processo.
01:03:23Você disse que quando a direita ganhou?
01:03:25A direita ganhou o quê?
01:03:27E aí ela o perseguiu?
01:03:29Muito, né?
01:03:30Até hoje, eu não consigo achar.
01:03:32Por que a direita o perseguiu?
01:03:33Porque eu era o terror deles, né?
01:03:39Na época do DOPSA,
01:03:40o pessoal da direita me temia.
01:03:43Da direita?
01:03:44Ah.
01:03:46Então, mas hoje...
01:03:47Então, você era temido pela esquerda
01:03:49e pela direita?
01:03:51Não, aqui foi, perdão,
01:03:52a esquerda que ganhou aqui.
01:03:53Ah, perdão, eu confundi.
01:03:55A esquerda que ganhou aqui.
01:03:57Mas o senhor não sente, talvez,
01:03:58que a direita também o perseguiu?
01:04:00Será que o senhor não tem essa sensação também?
01:04:01Não, eu tenho que ir depois, né?
01:04:04Eu, inclusive, algumas pessoas da direita
01:04:08acham que eu os traí
01:04:10porque eu teria colocado no meu coração
01:04:12que eles me abandonaram.
01:04:14Mas não foi isso.
01:04:15Eu só resolvi contar a história
01:04:20que saiu naquele livro,
01:04:23coisa, porque eu mudei realmente.
01:04:25Hoje eu sou outra pessoa.
01:04:27Mas o senhor se sente perseguido pela direita?
01:04:30Muito, né?
01:04:31Todas as portas são fechadas para mim.
01:04:34Todas as portas.
01:04:35Que curioso destino, né?
01:04:37Tem muitas coisas que ajudam você a cair,
01:04:40você mudar seu rumo, né?
01:04:44Para melhor.
01:04:46Hoje eu tenho necessidades,
01:04:50muitas necessidades,
01:04:51porque tudo fechado para mim, né?
01:04:55E setenta e poucos anos de idade,
01:04:57uma aposentadoria ínfima.
01:04:58Eu teria que aposentar como delegado,
01:05:00é direito meu,
01:05:01mas é barrado esse direito, né?
01:05:05Mas eu sinto muito melhor
01:05:07que naquela época que tinha dinheiro,
01:05:08que tinha poder,
01:05:09que tinha tudo na vontade.
01:05:10O senhor agora é leal
01:05:11a uma outra causa, então?
01:05:12O senhor pode dizer...
01:05:14Hoje eu sou leal a Deus.
01:05:16Só que eu mexia com pessoas erradas, né?
01:05:19Aí você mexia com isso aí
01:05:20e é tudo errado, né?
01:05:22Como assim mexia com pessoas erradas?
01:05:23Porque é o poder, né?
01:05:25Se você investigar as coisas
01:05:27que envolvem a sociedade,
01:05:31é ruim, né?
01:05:32Eu estava no grampo.
01:05:33Eu não sabia.
01:05:35Quando eu vou para São Paulo,
01:05:37eu falo,
01:05:37ah, vou passar na casa do Guimarães,
01:05:39do capitão Guimarães.
01:05:41Resolvi lá a casa dele.
01:05:42Quando eu chego na porta da casa dele,
01:05:44tem umas viaturas,
01:05:45mas era costume ver viaturas lá,
01:05:47pegar grana.
01:05:49Olhei aquilo e falei,
01:05:50ah, deve ser alguém pegando dinheiro.
01:05:52Cheguei.
01:05:52Falei, eu queria falar com o capitão.
01:05:54Ele falou, pois não.
01:05:55Aí vem um capitão,
01:05:56mas o capitão da PM,
01:05:57não era o capitão Guimarães.
01:05:59Chega, fala assim,
01:06:00você é o delegado de guerra, né?
01:06:02Eu falei, sou.
01:06:03O Mandinho está querendo bater um papo com você.
01:06:04Dá para você passar lá?
01:06:05Eu falei, dá.
01:06:06Quem?
01:06:08Delegado Mandinho.
01:06:09Chego lá no Mandinho,
01:06:11ele estava autuando o Guimarães,
01:06:13crime contra a administração do trabalho,
01:06:15isso quer dizer,
01:06:16não pagar emolumentos do funcionário.
01:06:20Sim.
01:06:22Eu chego,
01:06:23ele falou assim,
01:06:24olha, estou autuando o capitão,
01:06:25você também está sendo autuado
01:06:27como coautor.
01:06:28Eu falei, mas de quê?
01:06:29Ele falou,
01:06:30eu falei, crime contra a administração do trabalho,
01:06:32não tem empregado,
01:06:33não tem firma aqui no Rio.
01:06:34Mas foi uma estratégia para poder me derrubar.
01:06:39Derrubou.
01:06:40Mas até aí,
01:06:41eu tinha ainda as benessas.
01:06:43Mesmo preso,
01:06:44tinha as benessas.
01:06:46O senhor é preso nessa...
01:06:47Ali eu fui autuado,
01:06:49não, mas...
01:06:50uma montagem,
01:06:51eu estou te perguntando como é que é...
01:06:52Mas chegou a ser preso?
01:06:53Fui preso.
01:06:54Nisso aí.
01:06:56Inclusive,
01:06:57a minha ação de me agredir,
01:06:59eu falei,
01:06:59ó, se encostar a mão,
01:07:00você pode me matar,
01:07:02porque senão eu vou te matar.
01:07:04Eu esqueço o nome do senhor.
01:07:06Eduardo.
01:07:06Eduardo,
01:07:07o...
01:07:08É só você pegar a estatística.
01:07:11Nós estávamos falando sobre desaparecimento.
01:07:15Vê quantos brasileiros desaparecem por ano.
01:07:19É milhares.
01:07:20Sim.
01:07:23Alguns não é nem por envolvimento,
01:07:28com nada errado,
01:07:29mas a maioria é a prática que aprendeu lá
01:07:33e continua até hoje.
01:07:34Você diria, então,
01:07:35que a tecnologia da violência...
01:07:37Continua.
01:07:38Desenvolvida pela ditadura...
01:07:40Por que a tortura continua?
01:07:41Por que a tortura não acaba?
01:07:42Não teve punição para ninguém.
01:07:47Hoje, as práticas de tortura
01:07:49estão dentro dos presídios,
01:07:51estão dentro dos quartéis,
01:07:53estão dentro das delegacias.
01:07:55Continua a mesma coisa.
01:07:56Mudou, talvez, o alvo,
01:07:58que agora é o pobre preto.
01:08:00O pobre preto é que vai ser torturado.
01:08:02É ele que vai ser torturado.
01:08:05E o senhor se refere a uma irmandade.
01:08:08Essa é a irmandade?
01:08:08Essa é a irmandade.
01:08:09Essa é a irmandade existe.
01:08:10Eu já falei isso.
01:08:11É um risco grande a gente falar sobre ela.
01:08:14mas existe e está ativa.
01:08:17Mas o que é essa irmandade?
01:08:19Não é o grupo secreto?
01:08:21Mas era o financiador do grupo secreto.
01:08:24Ah, é o financiador do grupo secreto?
01:08:26O grupo secreto.
01:08:27Então, são representantes da elite brasileira,
01:08:29é isso?
01:08:29Elite brasileira.
01:08:31São a elite brasileira.
01:08:32E o senhor acha que eles se reúnem,
01:08:34que eles existem ainda enquanto grupo?
01:08:37Reúne.
01:08:39E a irmandade?
01:08:41O senhor acha que ela é anterior ao golpe de 64?
01:08:49E ela persiste depois do fim da ditadura?
01:08:52Persiste.
01:08:53Era antes, depois.
01:08:56Tem um braço muito grande,
01:08:58eu vou falar de público aqui,
01:09:00mas é uma coisa que eu tive lá dentro, eu sei.
01:09:02Muito grande disso aí está por trás,
01:09:05uma entidade que, aos olhos nossos,
01:09:08comuns, parece uma coisa muito boa,
01:09:10chama-se maçonaria.
01:09:13Ah, essa é a irmandade maçom?
01:09:15Não, não é a irmandade maçom
01:09:17que está por trás de tudo, não.
01:09:18Mas grande parte
01:09:21são os chamados lá de dentro.
01:09:24Que compõem essa irmandade
01:09:26são representantes da maçonaria.
01:09:28Isso aí.
01:09:30E eles foram financiadores, então?
01:09:33São menos operadores e mais financiadores.
01:09:36Mais financiadores.
01:09:42É a extrema-direita mesmo, não é?
01:09:46E o senhor tem medo de dizer essas coisas?
01:09:50Olha,
01:09:51de mexer com a irmandade,
01:09:52só para você ver a dimensão que é.
01:09:56Eu percebo que,
01:09:57quando o senhor fala da irmandade,
01:09:58o senhor é mais reticente.
01:09:59Acho que o senhor tem mais medo, não é?
01:10:00Eu estive...
01:10:02O senhor tem medo dela, não é?
01:10:03Teve um delegado, tenho.
01:10:05Teve um delegado.
01:10:06Não tem medo de morrer, não.
01:10:07Tem medo de fazer mal.
01:10:08Meus filhos.
01:10:09Eu tenho nove filhos e doze netos.
01:10:11Dos outros agentes,
01:10:11o senhor não tem tanto medo, não é?
01:10:13Não.
01:10:13Da irmandade, o senhor tem medo?
01:10:14Tem.
01:10:16Porque eles agem.
01:10:17Se você incomodar...
01:10:19Porque eu estou falando,
01:10:20e muitos deles sabem
01:10:22que eu tenho muitos documentos deles.
01:10:24Ah, o senhor tem documentos da irmandade?
01:10:26Não tem como me garantir contra eles.
01:10:28Por isso que eu acho que nunca me aconteceu nada até agora.
01:10:30E quando o senhor pretende nos dizer isso?
01:10:33Deixa isso...
01:10:36Deixa...
01:10:36Eu tenho dado dados
01:10:38para poder se investigar.
01:10:40Se investigar, chegar...
01:10:42Porque eu não estou vendo...
01:10:44O senhor pretende um dia
01:10:44nos falar sobre a irmandade?
01:10:47Não, não falar.
01:10:48Isso vai ficar documentado.
01:10:50Se algum dia chegar nessa cidade,
01:10:53alguém vai falar.
01:10:54É?
01:10:55Eu tenho documentos com algumas pessoas, né?
01:10:57Tem, né?
01:10:58Tem.
01:10:58Tem, que é uma garantia.
01:11:00Aí, eu recebi ordem
01:11:04para poder...
01:11:05Tinha tudo para mim ter uma vida no exterior.
01:11:09Tudo pronto.
01:11:10Uma ordem o senhor recebeu?
01:11:12É, para mim ter uma vida no exterior.
01:11:13Como é que o senhor recebeu essa ordem?
01:11:14Eu vou me obter nessa aí, tá?
01:11:16Mas foi de viva voz?
01:11:18É, de viva voz.
01:11:19Viva voz?
01:11:20Viva voz, né?
01:11:21Por telefone, por...
01:11:22Não, não, reunião.
01:11:24Reunião pessoal?
01:11:25Na reunião no Rio,
01:11:26com vários empresários.
01:11:27Olha, nós estamos preparando.
01:11:28Você vai morar no exterior.
01:11:31Nós temos uma nova identidade para você.
01:11:35E eu falei, olha,
01:11:37eu tenho família.
01:11:39Eu respondi para eles.
01:11:40Eu tenho família.
01:11:41Não vou fazer isso.
01:11:43E não sou bandido.
01:11:45Eu não vou fugir.
01:11:46Isso é que ano, então?
01:11:472005.
01:11:49Aí, desse momento em diante,
01:11:51eu não recebi nada mais.
01:11:54E tudo que o meu perdeu.
01:11:56Perdi as propriedades,
01:11:57perdi tudo, tudo.
01:11:58Acabou tudo.
01:11:59É o sistema,
01:12:01faz isso.
01:12:01Se você abandonar,
01:12:02você é eliminado.
01:12:08Terminou?
01:12:09Eu acho que sim.
01:12:10Eu acho que...
01:12:10Deixa eu fazer uma pergunta.
01:12:12Esse trabalho é para...
01:12:14É um documentário.
01:12:15É um filme.
01:12:16É um filme que a gente está fazendo.
01:12:21Eu queria agradecer ao senhor.
01:12:22Nada.
01:12:23A gente fez o porcê.
01:12:25A Valéria vai dar uma autorização
01:12:27para a senhora assinar,
01:12:29porque senão a gente não pode...
01:12:30Eu sei.
01:12:31Seguir.
01:12:36Então, para passar o radar,
01:12:37sai pouca coisa.
01:12:38Só sei...
01:12:38Sai muita coisa.
01:12:40E não contou tudo.
01:13:02E não contou tudo.
01:13:40E não contou tudo.
01:13:44Não contou tudo.
01:13:46Não contou tudo.
01:13:55Não contou tudo.
01:14:40Legenda Adriana Zanotto
01:15:10Legenda Adriana Zanotto
01:15:40Legenda Adriana Zanotto
01:15:48Legenda Adriana Zanotto
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