00:00O dólar fechou em queda de 1,45%, cotado a R$ 5,20 e só agora em 2026, como
00:07eu disse para vocês, uma queda de 5,16%.
00:11E aí esse movimento global do dólar tem atingido o mundo todo e várias moedas têm se valorizado em relação
00:18à moeda americana.
00:20Os repórteres ontem, que acompanhavam a viagem do presidente Donald Trump ao estado de Iowa,
00:26onde ele participou de eventos, perguntaram ao presidente Donald Trump o que ele achava do dólar estar caindo tanto.
00:34Veja a resposta.
01:05Vou conversar com o Renan Pierre, que é professor de finanças, de economia da FGV. Seja bem-vindo, Renan. Bom
01:12dia.
01:13Bom dia, Velasca.
01:16Renan, por essa fala do Trump, muitos economistas, analistas de mercado, de política internacional,
01:24já diziam que esse movimento do Trump, todo na política, por conta dos aumentos das tarifas,
01:32tinha a ver com essa intenção de reduzir, de desvalorizar a moeda americana.
01:37Com essa fala dele hoje, citando o Japão, citando o China, que desvalorizam e não acontece nada,
01:43e ele dizendo que o dólar está num bom valor, a gente pode hoje bater o martelo que essa é
01:50uma política trumpista?
01:54Olha, Velasca, esse é um bom ponto, né?
01:57Quer dizer, é muito estranho você ver, é incomum, na verdade, você ver um presidente, né?
02:04Tentando, ou um governo, tentando desvalorizar a sua própria moeda sem os meios tradicionais, né?
02:12Que seria você ter um câmbio fixo e aí o Banco Central estabelece lá uma tarifa decidida tecnicamente.
02:20Aqui não, aqui é uma tentativa de desvalorização da moeda via...
02:25afastando, né? Os investidores, de certa forma.
02:28Quer dizer, é tornando o investimento em moeda americana um pouco menos seguro do que já foi.
02:34A gente não deve se enganar que o dólar ainda é a grande segurança, né?
02:39Uma das grandes seguranças dos investidores vindo afora,
02:42mas está menos seguro do que já foi e parece ser, no mínimo, né?
02:47Uma coisa que não preocupa o governo da Casa Branca.
02:52Agora, tem que ver os prós e contras disso, né?
02:55Quer dizer, essa tentativa de desvalorizar a moeda para aumentar o fluxo de comércio internacional, né?
03:01Melhorar a balança comercial, ela traz relativamente poucos benefícios em termos de bem-estar para a sociedade americana.
03:09Então, a gente tem que se perguntar até quando dá para montar uma política dessa,
03:14com esse tipo de estratégia, porque é um caminho negativo que o país está seguindo, né?
03:19É, até porque quando você reduz o valor do dólar, você aumenta as exportações americanas, ok?
03:24Mas você também aumenta as importações, porque fica mais barato importar, né?
03:28E aí você tem, você pode bater ali na inflação.
03:34É, você encarece, né, os importados.
03:38Como boa parte dos produtos importados, um país industrializado como os Estados Unidos,
03:43são produtos que a população realmente precisa, né?
03:47Tem essa demanda inelástica que a gente fala,
03:49mas provavelmente as pessoas continuam importando, né?
03:53E aí isso repassa para preço em algum ponto do tempo.
03:57Até se esperava, quando veio essa política do tarifácio,
04:00que se tivesse já um efeito de curto prazo visível, né?
04:04No índice de preços americano.
04:07Teve, tá?
04:08Teve, mas relativamente modesto.
04:10Isso porque uma parte da cadeia ali absorveu um pouco o impacto dessas tarifas.
04:16Mas é de se esperar, principalmente quando a gente está falando de comodity,
04:19importação de comodity, que no médio, no bobo prazo,
04:22isso torne a vida do americano um pouco mais cara, né?
04:26Então, quer dizer, é uma política que pode trazer benefícios para os americanos,
04:32para alguns setores específicos, principalmente setores que competem muito, né?
04:36Com a concorrência externa, mas o efeito global é negativo.
04:40Aí tem que ver, politicamente, o que vai ser viabilizado no final.
04:44É porque para compensar, né?
04:46Ele aumentou as tarifas para evitar tantos importados entrando nos Estados Unidos, né?
04:51Mas não é uma solução muito simplista para uma economia global tão complexa?
04:59Pois é, né?
05:00Quando a gente estuda a economia, tem lá as escolas de pensamento econômico,
05:04tem o mercantilismo, né?
05:05Que é essa ideia de exportar a todo custo, acumular ouro, né?
05:09Com divisas e importar o quanto menos.
05:12Com uma visão de que o comércio internacional é um jogo de soma zero,
05:16em que para alguém ganhar, o outro tem que perder.
05:19Mas está longe de ser a realidade de um país de economia tão desenvolvido e complexa
05:24como os Estados Unidos.
05:25Quer dizer, quando você importa, você importa equipamentos, componentes,
05:28uma série de tecnologias que, muitas vezes, o país não consegue desenvolver,
05:33e isso vai aumentar a produtividade da sua própria produção.
05:36Então, tem um ganha-ganha nessa relação, né?
05:39E essas restrições de comércio externo, quer dizer, importar muito,
05:44isso é um problema quando você não tem dólar para pagar, né?
05:48Dado que o comércio internacional é todo dolarizado.
05:50Isso já foi o problema do Brasil, por exemplo, ao longo da história, né?
05:53Nos obrigou a substituir importações.
05:56Mas, certamente, tem o problema dos Estados Unidos,
05:59que, literalmente, é uma máquina de imprimir dólar, né?
06:01Então, esse déficit comercial, ele pode ser, sim, corrigido,
06:05pode ser, sim, discutido,
06:07olhando para as vulnerabilidades que a economia americana pode ter,
06:11mas está longe de ser um grande problema,
06:14em termos de bem-estar, para os americanos.
06:16Talvez muito mais, se ele discutir a questão de por que algumas regiões americanas
06:21perderam tanto com a globalização, né?
06:24Em buscar novos mercados, novos caminhos para essas regiões seguidas.
06:29Agora, Renan, é o dólar, vamos, o reflexo desse dólar mais barato aqui no Brasil, né?
06:34É bom para alimentos, né?
06:36É bom para reduzir o preço, principalmente, dos alimentos,
06:39mas é ruim também para o exportador, né?
06:44É, eu acho que para o exportador, o bom, sempre, né?
06:48Idealmente, é ter um câmbio estável, né?
06:51Iprevisível, né?
06:52Quer dizer, você consegue, o Brasil, ele tem vantagens competitivas
06:57numa série de produtos, principalmente relacionados a commodities,
07:01a gente já teve, tem muita variação cambial aqui no Brasil, né?
07:06E, mesmo assim, o setor exportador, nos últimos 30 anos, tem crescido, né?
07:11Tem se desenvolvido e grado mais mercados.
07:14Então, eu acho que a questão do câmbio em si,
07:16talvez, se vai ser 5,20, se vai ser 5,40,
07:20talvez, até pode ter algum efeito bem localizado
07:23para alguns setores que passam a ser menos viáveis, né?
07:26Quando o câmbio se valoriza.
07:28Mas, acho que é mais a questão da previsibilidade mesmo.
07:30Quer dizer, essa valorização cambial vem para ficar,
07:34a gente pode contar com isso,
07:36até para a gente conseguir importar mais componentes,
07:40insumos que antes a gente não conseguia, né?
07:42Eu acho que, se eu tenho um problema que o Brasil tem,
07:45é de previsibilidade.
07:46A nossa economia é muito volátil.
07:49Quer dizer, explicando bem facilmente para a nossa audiência entender,
07:53é que, por exemplo, o exportador aqui no Brasil,
07:56ele compra insumo, vamos falar de um produtor,
07:58compra fertilizante, semente importada,
08:01paga na alta do dólar,
08:02e na hora de vender a produção, o dólar está lá embaixo.
08:05Quer dizer, aquilo que ele pagou,
08:07talvez ele nem venha ter de volta na venda, né?
08:13Exatamente, é toda uma questão de planejamento, né?
08:16Se você der azar, se você comprar com dólar caro os seus insumos,
08:20e for vender, e o valor em dólar for tão alto assim que você vai receber,
08:24você vai perder dinheiro.
08:25E como a gente está falando de grandes oscilações cambiais,
08:29isso pode significar ter dado errado o teu empreendimento, né?
08:34Claro, você tem uma série de instrumentos financeiros
08:36que os grandes produtores utilizam hoje,
08:38a gente pode fazer um mecanismo de hedge para se proteger da variação cambial,
08:42mas é sempre melhor ter uma economia um pouco mais estável, né?
08:48E a gente, obviamente, não é imune a essas oscilações internacionais,
08:53quer dizer, o que está acontecendo agora com o dólar,
08:55está acontecendo no mundo inteiro, não tem muito o que fazer.
08:57Mas a gente tem várias razões internas também
09:00para o dólar, para a moeda ser tão volátil assim.
09:02E aí sim, eu acho que esse é o nosso grande calcanhar de Aquiles,
09:06quer dizer, como é que a gente consegue gerar uma economia
09:09com contas públicas mais organizadas,
09:12com um rumo de política econômica um pouco mais previsível,
09:15para aí sim os produtores terem, pelo menos,
09:19um pouco mais de estabilidade para prever o quanto vão receber,
09:22o quanto vão pagar.
09:23Em ano de eleição, essa estabilidade que você está pregando
09:26fica mais difícil, né?
09:27E aí eu venho para a minha próxima pergunta.
09:29Onde vai parar o dólar agora em 2026?
09:36Essa é uma excelente pergunta, né?
09:39Porque você tem conflitos internacionais acontecendo, né?
09:43Você tem...
09:45Ninguém esperava que fosse ter uma ação na Venezuela,
09:48aí tem o Irã, aí tem a Rússia e a Ucrânia,
09:51então tem uma série de movimentos internacionais
09:53que são preocupantes, né?
09:56Que podem aumentar risco de carteira
09:58e, portanto, fazer com que o investidor leve o capital dele
10:01para locais mais seguros, né?
10:04Então, tradicionalmente, esse é o movimento, né?
10:06O investidor tira dinheiro de países de desenvolvimento
10:09e leva para países desenvolvidos.
10:13Curiosamente, né?
10:14O Estado do Índice sempre foi um seguro, né?
10:16Um lugar que os investidores procuravam
10:19para reduzir o risco de carteira.
10:21Agora, mudou um pouco.
10:23Mas a gente tem outros fatores também
10:24que vão afetar isso internamente, né?
10:27Acho que a principal questão aqui
10:29é o que vai acontecer com a política fiscal.
10:31A gente sabe que a gente tem um déficit público muito alto,
10:34uma dívida que vem aumentando rapidamente
10:36e temos eleições no radar, né?
10:39Então, essa discussão da política fiscal
10:41vai entrar nas eleições ou não?
10:42E o que vai acontecer no pós-eleitoral?
10:45O que a gente tem visto no mercado
10:47é que o mercado tem respondido a essas expectativas, né?
10:50Sai pesquisa de opinião, o mercado muda, né?
10:53Então, isso para mostrar que
10:56quanto esse assunto é sensível hoje no Brasil.
10:59Essa falta de previsibilidade
11:01sobre o que o próximo governo vai fazer,
11:05seja de qual lado for.
11:06Vai ter aumento de receita tributária,
11:08vai ter corte de gasto,
11:09porque alguma coisa vai precisar ser feita
11:11para estabilizar as contas públicas
11:14e segurar a expectativa de inflação.
11:17Isso vai afetar, com certeza,
11:19o ânimo do investidor e a confiança
11:21na economia brasileira.
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