Avançar para o leitorAvançar para o conteúdo principal
  • há 5 semanas
Nascido em Lisboa em 1979, é professor catedrático premiado e diretor do Instituto de Química Orgânica da Universidade de Viena.
Foi eleito Cientista do Ano em 2018.
Estudou Piano e Química em Lisboa, tendo realizado estadas de investigação nas Universidades de Lovaina, Paris e Stanford. Em 2009, assumiu o cargo de chefe de equipa no Instituto Max Planck para a Investigação sobre o Carvão, em Mülheim an der Ruhr.
Desde 2013, ocupa a cátedra de Síntese Orgânica na Universidade de Viena.

ISBN 9789895871940
Transcrição
00:00O cientista português Nuno Maulid acaba de lançar um novo livro em que explica como a química,
00:05essa química a que aprendemos na escola, está por toda a parte e tem um papel muito mais determinante
00:12do que a maioria das pessoas pode pensar.
00:14Nuno Maulid é diretor da Faculdade de Química Orgânica de Viena e tem uma notável capacidade de comunicação.
00:21O livro chama-se A Química das Emissões e a Sandra Felgueiras foi à capital austríaca
00:27para perceber com o próprio como a química explica o que sentimos e, em grande parte, como somos.
00:51Foi entre o piano e a química que Nuno Maulid descobriu que a ciência e a arte são duas
00:58fases da mesma moeda. Uma moeda que simplifica o entendimento sobre o que sentimos e o que fazemos.
01:05Por exemplo, quando tocamos bar, há uma certa estrutura e previsibilidade em alguma da música de bar.
01:24É quase como se o nosso cérebro encontrasse uma espécie de serenidade no facto disto ser tudo um bocadinho
01:30previsível e bem estruturado, com repetitividade, porque o cérebro humano, na verdade, detesta a incerteza.
01:37Começa assim, esta viagem à Química das Emissões, por entre dedos que contam uma história que todos sentimos,
01:45mas poucos vemos, na majestática capital da Áustria.
01:49A Química das Emissões, eu diria que é um livro que nasce da minha vontade de mostrar que as emoções
01:56não são algo de mal.
01:58Sabes que eu acho que vivemos numa sociedade em que se diz muito fulano é muito emotivo.
02:05Ou fulano de tal, não é nada racional, sai-lhe tudo assim espontaneamente, não tem filtro.
02:11E as pessoas quase que associam isso a um defeito.
02:15E eu, no fundo, pretendo mostrar que não é defeito, é feitivo.
02:18É o caso das pessoas que vivem ansiosas, ou seja, tensas.
02:22Voltemos ao piano.
02:24Um exemplo muito bom disso é um prelúdio de Chopin, porque é precisamente o oposto.
02:28É a exploração da incerteza, porque nunca conseguimos perceber bem, harmonicamente, para onde é que esta música vai.
02:46Aqui é quase o oposto.
02:48A tensão que é causada por estas harmonias que nunca se resolvem, que acumulam mais e mais e mais tensão,
02:56é quase como um defraudar de expectativas, que de certa forma também transmite a maior emoção que provavelmente tu sentes
03:05quando ouves esta música,
03:06que é uma certa tristeza e melancolia.
03:08Mas também há excessos emocionais.
03:10Também há excessos emocionais.
03:12São momentos em que a música quase que transborda para fora do piano.
03:15Um bom exemplo é um prelúdio de Rachmaninoff.
03:33Sentes que a música, uma sinfonia, é a demonstração plena da química das emoções?
03:42Acho interessante tu dar-te a palavra sinfonia, porque eu tenho a impressão que cada emoção, cada estado emocional, na
03:49verdade,
03:49é uma sinfonia de várias moléculas e de vários componentes químicos.
03:54Nunca há uma molécula para uma emoção.
03:57Há sempre uma cadeia, uma rede de moléculas que, num contexto certo e na forma certa,
04:03se orquestram todas umas com as outras para levar àquele estado emocional.
04:08Ao longo do seu último livro, o português que em 2018 sagrou o cientista do ano
04:13e que ainda hoje dirige a Faculdade de Química Orgânica de Viena,
04:17explica-nos como o cérebro se comporta,
04:20mediante a falta ou o excesso de várias substâncias,
04:23como a adrenalina, a dopamina, as endorfinas ou o cortisol,
04:28esse grande arquiteto do stress que atormenta quase todos,
04:31e, sobretudo, os pais, numa era em que ser humano já não é o que era.
04:38Nós vivemos numa era em que a inteligência artificial já tomou praticamente conta dos destinos de todos
04:43e todos aqueles que são pais estão preocupados com os seus filhos
04:47e com o pouco domínio de si próprios que acabam por deixar de ter porque se entregam às máquinas.
04:54Ah, sim.
04:54Não, não.
04:56Achas que não?
04:56Não. Não acho que nada que não.
04:58Aliás, já tive um bocadinho de medo, já passei por essa fase do medo da inteligência artificial
05:02e depois percebi que uma máquina pode simular tristeza,
05:08mas não vai passar a noite acordada por estar triste.
05:11Portanto, uma máquina nunca vai sentir.
05:16Não da forma que o ser humano sente, porque o livro mostra isso também.
05:20A química das emoções, podias estar à espera de abrir o livro e ver um reportório de
05:26esta molécula, esta emoção, esta molécula, esta emoção, e não é nada assim.
05:29O que é, é um sistema dinâmico em que cada molécula interage com uma outra molécula.
05:37A mesma molécula, por exemplo, pode estar associada ao amor, mas também à ansiedade.
05:41Tudo depende do contexto e da experiência pessoal de cada um.
05:44Mas também, sobretudo, esta ideia de que é tudo um sistema dinâmico.
05:50Não há pontos específicos para uma emoção e pontos específicos para outra emoção.
05:55E eu acho que as máquinas conseguem simular as coisas de maneira muito bem comportadinha,
06:02mas falta-lhes esta desordem.
06:06O que nos torna únicos, impossíveis de replicar, noutra ordem, noutra natureza, são as emoções.
06:16Em parte, sim, porque eu diria que as emoções nascem de química no cérebro, mas não se ficam por aí.
06:25Uma emoção é algo que tem um efeito completo em tudo aquilo que nós somos.
06:31Uma emoção pode fazer-te mudar de respiração, pode fazer-te mudar o teu ritmo cardíaco, pode modificar o teu
06:37estado de atenção.
06:38Portanto, nós somos emoções.
06:41Nós experimentamos as emoções e vivemos-las completamente em tudo aquilo que nós estamos dentro, em cada pontinha, em cada
06:47célula do nosso corpo.
06:48Ainda vivemos muito numa era em que a racionalidade é que é vista com bons olhos.
06:55Até que ponto é que as pessoas que se dizem mais racionais, na verdade, são aquelas que são menos livres?
07:05Talvez, à primeira vista, eu diria que há uma camada suplementar, que eu acho que as pessoas que se dizem
07:10ou que se sentem mais racionais,
07:11se calhar são aquelas que melhor conseguem dominar e quase manipular as próprias emoções.
07:22Manipular é uma palavra um bocadinho forte.
07:24Controlá-las.
07:25Controlá-las. As pessoas mais controladas. E eu acho que as pessoas que aparecem mais racionais são aquelas que têm
07:31mais consciência dos seus estados emocionais.
07:33Eu acho que essas pessoas acabam com muitos problemas down the road.
07:37Mas estar conscientes daquilo que nos está a acontecer, e é um bocadinho a tentativa do livro. O livro não
07:41é um livro de autoajuda.
07:42É um livro que permite, na minha opinião, às pessoas estarem mais conscientes do que é que está a acontecer,
07:48o que é que é o cocktail que está a acontecer dentro de mim, naquele momento em que eu sinto
07:52que queria era esganar a Sandra Belgueiras,
07:55e como é que eu posso, sabendo o que me está a acontecer, jogar com isso da melhor forma possível.
08:01Sentiste que há um caminho, se quisermos, químico, para melhor atingirmos a felicidade?
08:08Não há um. Eu acho que há muitos.
08:11Na verdade, eu acho que tu só te sentes realmente feliz quando sabes o que é que é o oposto.
08:17E se a vida não tiver altos e baixos, tu nunca valorizas os altos quando lá estás,
08:22e nunca sabes que os baixos são temporários, e que são apenas um caminho até chegar lá acima.
08:27Já pensaste, se estivesse todo o tempo sempre feliz, é uma felicidade artificial.
08:32Ninguém tem tudo.
08:33O que as pessoas têm é uma ilusão de ter feito aquele checkmark naquelas coisinhas que se calhar a sociedade
08:42decidiu
08:42que são aquelas coisinhas que nos fazem feliz, e com isso esqueceram-se de que cada um de nós tem
08:48o seu caminho
08:49para atingir, eu não diria a felicidade, eu diria a melhor versão de si próprio.
08:55Então isso é dizer às pessoas mais velhas, que podem sempre ser melhores do que eram mais jovens,
09:04e que até é o segredo da juventude, não é muito mais do que uma quimera.
09:10Uma quimera visual, estética, mas que por dentro podem evoluir muito, e mesmo até ao nível celular.
09:17Porque aquela ideia de que os neurônios vão morrendo ao longo da vida também não é verdade.
09:21Pois não.
09:23E também tocas nisso, porque de facto vivemos numa sociedade que glamouriza coisas que são a antítese da ciência.
09:30O envelhecimento não é nada de mal.
09:32Então o que é que tu dizes a uma pessoa que está profundamente triste, porque se sente a envelhecer?
09:38Eu diria que está a olhar para o seu envelhecimento de forma errada.
09:42Porquê?
09:43O envelhecimento físico é um processo de oxidação.
09:47Não há cá surpresas.
09:50Nós somos feitos de carbono e vivemos numa atmosfera que tem 26% de oxigênio.
09:55É inevitável esse carbono oxidar-se e transformar-se em CO2, que é a forma mais oxidada do carbono.
10:02E portanto, as rugas não são mais do que pedacinhos de carbono na nossa cara, que entretanto foram à vida.
10:09Se transformaram em CO2, eles já eram ali a marquinha.
10:11E aquela marquinha, no fundo, é um símbolo de que sim, eu já cá estou há tempo suficiente para uma
10:17parte de mim estar agora na atmosfera que nos rodeia sob forma de CO2.
10:20E isso deveria até ser motivo de orgulho, porque quer dizer que eu realmente já cá estive o tempo suficiente
10:25para viver.
10:25Mas internamente, essas pessoas estão a vivenciar uma série de coqueteles químicos que as podem tornar bastante mais interessantes, mais
10:36dinâmicas, do que algumas, alguma vez foram.
10:39A primeira é, sobretudo, o abraçar de algo que havíamos falado até anteriormente, o abraçar do risco, que, como enquanto
10:49criança, nós saltamos para tudo o que seja risco.
10:52E depois há ali uma idade, a partir dos 12, 13, em que, de repente, já não queremos correr riscos
10:57nenhumos.
10:58O que queremos é ser o mais conformes possível com o mundo que nos rodeia.
11:01E depois vamos deixando-nos formatar até uma idade adulta em que temos que fazer aquelas coisas todas que os
11:08adultos têm que fazer para serem bem-sucedidos, não é?
11:09Hoje em dia, ser bem-sucedido parece que é ganhar muito dinheiro.
11:12Não é mais nada?
11:13E não é.
11:14E não é.
11:14Mas as pessoas metem na cabeça que, quando eu ganhar muito dinheiro, é que me vou sentir feliz porque vou
11:19fazer aquele checkmark naquela caixinha que diz ganhar não sei quantos mil euros.
11:22Depois, quando tiverem um copo cheio, a sensação desta acabou porque, simplesmente, já lá está.
11:28E eu acho que quem chega à idade dos 40, dos 50 e, de repente, começa a fazer aquelas coisas
11:32que tu disseste, abraça o risco.
11:36Portanto, abraça as suas próprias fontes de dopamina, uma daquelas moléculas que eu acho que estão muito na...
11:42Que causa satisfação, não é?
11:43Que causa satisfação e que, sobretudo, também é a molécula da recompensa, é o prazer da recompensa, porque o nosso
11:49cérebro, em vez de ir à procura de dopamina nos estímulos externos,
11:54de repente, percebe que tem muito mais coisas interessantes para descobrir dentro de si do que lá fora.
12:00De mito em mito que vai rasgando, Nuno Maulido leva-nos a olhar de outra forma para dentro e a
12:06sentir que a frase, parar é morrer, é, afinal, uma das maiores verdades científicas de sempre.
12:13O exercício físico, sobre a investigação, tem cada vez mostrado mais isso, tem um impacto no cérebro que está, ainda
12:22na minha opinião, muito pouco compreendido e muito subapreciado.
12:24É muito importante para manter a dinâmica e a capacidade do cérebro de se adaptar àquilo que lhe está a
12:31acontecer, passar por estes períodos de...
12:34Portanto, os músculos e o exercício físico são como um dos melhores remédios para combater o Alzheimer.
12:41São, e, portanto, não são só para ficar com um bíceps maior ou para ficar com mais agilidade, mas são
12:47realmente a forma que o cérebro tem de não se permitir envelhecer,
12:53de não se permitir ficar rígido e ficar pouco flexível.
12:56Doer faz bem. Doer, o músculo faz bem, sim, mas doer e fazer sacrifício de, por exemplo, não comer, faz
13:07muito bem.
13:09Como é que convence alguém de que o jejum é, de facto, bom?
13:13Eu convenço usando a mesma analogia que uso no livro, que é, basta, a diferença entre o homem e a
13:19máquina.
13:20A máquina, o carro, quando de repente já não tem mais combustível, para, porque não consegue mesmo andar mais.
13:27É como a bateria de telemóvel.
13:28Chega ao zero, não há como resolver a coisa.
13:31Mas nós somos especiais.
13:32Mas nós somos especiais. Nós quase que começamos a ir à procura de outras formas de combustível dentro do nosso
13:38organismo,
13:39dentro do nosso corpo, e temos várias outras formas de combustível, e, sobretudo, o corpo começa a pensar,
13:43ok, agora que já não há mais combustível nenhum, vamos começar a queimar estas coisas diferentes,
13:48que estavam aqui um bocadinho, tipo mono, acumulados, o lixo, e vamos começar aqui um bocadinho a limpar o espaço
13:55e a arrumar,
13:56já que não há mais combustível.
13:56E primeiro limpamos o açúcar.
13:58E por aí vamos limpando o açúcar, depois vamos limpando as tais cetonas.
14:01Que são as gorduras.
14:03Que são a base das gorduras.
14:05E com isso começamos a permitir ao nosso corpo quase regenerar-se.
14:11Mas um gênio como o Nuno Maulide é o primeiro a dizer-nos que não é nem no ginásio, nem
14:17durante uma quaresma forçada,
14:19que a lâmpada mágica se liga.
14:21O télio, na minha opinião, é o momento em que se tem as melhores ideias, em que se toma as
14:27melhores decisões,
14:28em que realmente permitimos a nós próprios entrar dentro de nós e encontrar dentro de nós mais do que razões
14:38suficientes para não estarmos entediados.
14:41Daí o não fazer nada, às vezes, é o que nos torna mais produtivos.
14:46É mesmo.
14:46E era o que nós deveríamos fazer, e todas as pessoas deveriam perguntar quem nos está a ver.
14:50Por favor, hoje, se tiver possibilidade, e hoje está, a gente não tem possibilidade, é uma questão de possibilidade,
14:54sente-se, feche os olhos, desligue todas as máquinas, desligue todos os telamóveis,
15:00ponha-se até um bocadinho às escuras, sem som, sem televisão, sem nada,
15:06e deixe-se mergulhar dentro de si.
15:09Eu tenho uma amiga que me disse,
15:11ó Nuno, mas eu não posso fazer isso, se eu fizer isso, sabe-se lá o que é que me
15:14vai passar pela cabeça.
15:15E eu quase que lhe disse, mas é isso mesmo que se quer.
15:18É não saber o que é que vais encontrar, porque é uma viagem rumo ao desconhecido da criatividade.
15:25Só que a amiga de Nuno é uma amostra de milhões de pessoas a quem o silêncio assusta,
15:31sobretudo quando mergulham na profundeza do cérebro à procura de traumas.
15:37O que é que tu dirias a uma pessoa com depressão crónica? O que é que está a acontecer dentro
15:41do seu organismo?
15:42É sobretudo um coquetel químico que está associado à tristeza, como eu falo no livro,
15:49mas que é quase uma tristeza que se perpetua no tempo.
15:53Mas a experiência de ser humano, de um ponto de vista abstrato,
15:56é completamente a tua interpretação subjetiva do que te está a acontecer.
16:00Por exemplo, se passar uma aranha pela cara no meio de uma entrevista com a Sandra Felgueiras,
16:04que ficam em pânico e, meu Deus, o que é que vai acontecer?
16:07Já passaram várias a mim também. É sinal de dinheiro, acho eu.
16:09É sinal de dinheiro.
16:10Olha, Dama.
16:10Estamos a mexer daqui ricos.
16:12Riquíssimos.
16:13E há outras que olham para isso e dizem, como tu,
16:15ah, é sinal de dinheiro, vamos a mexer daqui riquíssimos.
16:17Tem muito a ver com a forma como tu explicas a ti próprio aquilo que te acontece.
16:22E isso é condicionado pela nossa educação, pela nossa infância, pelo ambiente em que crescemos.
16:28E, em termos químicos, esse percurso depois tem as suas repercussões, como disseste,
16:32na serotonina, na dopamina, na oxitocina, em todas estas moléculas,
16:35que acabam por se desregular um bocadinho, e se calhar desregulam-se de forma crónica e de forma continuada,
16:41e é aí que se atingem os estados de depressão.
16:43É mesmo preciso tomar medicamentos?
16:45Vou dar o exemplo, eu fui filho de médicos, não é?
16:49Minha mãe, infelizmente, já faleceu, o meu pai ainda é vivo,
16:51e eu lembro-me muito de, quando tinha dores de cabeça intensas,
16:54ou quando me doía a barriga, de ir a correr,
16:56oh, pai, dá-me alguma coisa.
16:58És médico, estás sempre a prescrever-me o que a mente da outra agente,
17:01dá-me uma coisinha qualquer, eu tome.
17:04Ele dizia, não, vai-te deitar, fecha os olhos, isso já passa.
17:08Mas que raio, então eu vivo em casa de um médico, de dois médicos,
17:11e nunca tomamos medicamentos nenhum.
17:13E mais tarde, meu pai explicou-me que podia ter dado o medicamento,
17:16mas o medicamento é sempre uma ação sobre o sintoma,
17:20e não sobre a causa.
17:22E de clichê em clichê.
17:25O que é que é isto quando nós dizemos,
17:27eu senti química com ele, ou senti química com ela?
17:31Vou-te responder com a provocação, que é,
17:34eu não queria escrever este capítulo.
17:36Porque os livros sobre emoções são a tristeza, a felicidade, o amor.
17:41E eu fui percebendo que estava deliberadamente a fugir desses clichês,
17:47do canon típico das emoções.
17:49E, portanto, foi a editora que fez muita pressão ao Nuno,
17:52mas não podendo escrever um livro sobre química de emoções,
17:54sem ter o amor.
17:55Mas eu não quero escrever um capítulo sobre química do amor.
17:57Porquê?
17:58Porque vou escrever as mesmas coisas que a gente escreveu.
18:01E para isso não...
18:02Mas não escreveste.
18:03Portanto, em vez de responder à tua pergunta,
18:05vou-te dizer que não faz sentido,
18:08do ponto de vista evolutivo,
18:12um ser vivo
18:15desarmar-se tanto perante outro ser vivo da mesma espécie,
18:19como nós fazemos quando amamos alguém.
18:22Não faz sentido.
18:24Só um ato de coragem é que se coloca...
18:26Muita coragem...
18:27Perante esse risco.
18:28Porque nós, como seres vivos,
18:32como entidades que procuram sobreviver e reproduzir-se,
18:35deveríamos ter como máximo objetivo a defesa...
18:39A autopreservação.
18:40A autopreservação.
18:41E o amor é tudo menos autopreservação.
18:44O amor é, deliberadamente,
18:47nós fazermos uma data de coisas que não são muito boas a nós próprios,
18:50por causa deste sentimento,
18:52por causa desta química,
18:53e agora entramos na resposta a tudo,
18:55por causa desta química que, de repente, aparece ali, naquele momento.
18:59E é isso que eu acho que é também muito bonito no livro,
19:01porque as pessoas às vezes perguntam,
19:02se cada vez é isso que queres perguntar,
19:04até que ponto é que nós somos controlados por esta química,
19:07a química vai acontecer,
19:08nós não podemos falar sobre isso.
19:10E eu diria que o amor é um daqueles momentos muito especiais,
19:14porque é possível amar e escolher não viver com aquela pessoa.
19:17Mas há um único amor que foge a todas as regras,
19:22e que mudou a vida deste cientista para sempre,
19:26apenas porque arriscou ser ele próprio.
19:29Qual foi a experiência mais transformadora nas tuas emoções?
19:36Certamente ser pai.
19:39Porque, e tu saberás como mãe,
19:41passam a vida toda a dizer-te,
19:43ah, e o momento a partir do qual é que és pai ou mãe,
19:45a tua vida muda.
19:46E tu internalizas isso de forma racional,
19:49como é óbvio, muda, claro,
19:50não podes ir à noite,
19:51não podes fazer isto, não podes fazer aquilo,
19:53tens de estar sempre muito focado naquela pessoa,
19:55tens de um ser humano que depende de ti,
19:57e tu pensas que é uma questão logística,
19:59quando, na verdade, nem sequer é logística,
20:02nem sequer é emocional,
20:03quando aquele ser humano nasce,
20:06tu naquele momento percebes
20:07que emocionalmente a tua vida deixa de ter
20:11o teu eu como prioridade 100%,
20:14e desfoca-se.
20:17E esse desfocar faz de ti um ser humano realmente diferente.
20:21Já dizia Camões, muda-se o ser,
20:24muda-se a confiança,
20:25o mundo é mesmo feito de mudança,
20:27desde, e agora digo eu,
20:30que nos deixemos mudar.
Comentários
Video Backup
Criador
" A Química das Emoções Uma Viagem Molecular pelo que Sentimos "

Recomendado