A futura transposição de "A Odisseia" para as telas por Christopher Nolan reacendeu uma das discussões mais complexas da indústria cultural.
Analisamos se o cinema moderno deve atuar como revisor crítico ou preservador de obras clássicas.
Papo Antagonista é o programa que explica e debate os principais acontecimentos do dia com análises críticas e aprofundadas sobre a política brasileira e seus bastidores.
Apresentado por Madeleine Lacsko, Duda Teixeira e Carlos Graieb o programa traz contexto e opinião sobre os temas mais quentes da atualidade. Com foco em jornalismo, eleições e debate, é um espaço essencial para quem busca informação de qualidade.
🕕 Ao vivo de segunda a sexta-feira às 18h.
Não perca nenhum episódio! Inscreva-se no canal e ative o sininho para receber as notificações.
#PapoAntagonista
Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e Crusoé com 10% via Pix ou Google Pay:
https://assine.oantagonista.com.br/
🎧Ouça O Antagonista nos principais aplicativos de áudio, como Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, TuneIn Rádio e muito mais.
Siga O Antagonista no X:
https://x.com/o_antagonista
Acompanhe O Antagonista no canal do WhatsApp. Boletins diários, conteúdos exclusivos em vídeo e muito mais.
https://whatsapp.com/channel/0029Va2SurQHLHQbI5yJN344
Inscreva-se no canal, ative as notificações e deixe sua opinião nos comentários!
Leia mais em www.oantagonista.com.br | www.crusoe.com.br
#ChristopherNolan #Homero #Cinema #ClassicosDoCinema #AdaptacaoCinematografica #Cultura #ArteEFilosofia #CriticaDeCinema #DebateCultural #Filmes #Roteiro #PodcastBrasil #YoutubeBrasil
Analisamos se o cinema moderno deve atuar como revisor crítico ou preservador de obras clássicas.
Papo Antagonista é o programa que explica e debate os principais acontecimentos do dia com análises críticas e aprofundadas sobre a política brasileira e seus bastidores.
Apresentado por Madeleine Lacsko, Duda Teixeira e Carlos Graieb o programa traz contexto e opinião sobre os temas mais quentes da atualidade. Com foco em jornalismo, eleições e debate, é um espaço essencial para quem busca informação de qualidade.
🕕 Ao vivo de segunda a sexta-feira às 18h.
Não perca nenhum episódio! Inscreva-se no canal e ative o sininho para receber as notificações.
#PapoAntagonista
Apoie o jornalismo independente. Assine O Antagonista e Crusoé com 10% via Pix ou Google Pay:
https://assine.oantagonista.com.br/
🎧Ouça O Antagonista nos principais aplicativos de áudio, como Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music, TuneIn Rádio e muito mais.
Siga O Antagonista no X:
https://x.com/o_antagonista
Acompanhe O Antagonista no canal do WhatsApp. Boletins diários, conteúdos exclusivos em vídeo e muito mais.
https://whatsapp.com/channel/0029Va2SurQHLHQbI5yJN344
Inscreva-se no canal, ative as notificações e deixe sua opinião nos comentários!
Leia mais em www.oantagonista.com.br | www.crusoe.com.br
#ChristopherNolan #Homero #Cinema #ClassicosDoCinema #AdaptacaoCinematografica #Cultura #ArteEFilosofia #CriticaDeCinema #DebateCultural #Filmes #Roteiro #PodcastBrasil #YoutubeBrasil
Categoria
🗞
NotíciasTranscrição
00:00Gente, então agora vamos para o próximo assunto, vamos falar de Odisseia, vamos falar de Grécia Antiga, vamos falar de
00:06filosofia.
00:07Nosso assunto agora, então, vamos falar do cinema também e do filme, então, do Christopher Nolan e, mais principalmente agora,
00:16da obra mesmo, a Odisseia do Homero.
00:21A estreia no filme trouxe de volta a um debate profundo, afinal de contas, nós devemos adaptar e corrigir os
00:30clássicos da antiguidade para que eles caibam nas pautas e no politicamente correto do século XXI,
00:38ou o grande valor de uma obra com quase 3 mil anos está justamente em nos confrontar com o desconforto
00:45e com o que é universal na natureza humana.
00:49Sobre esse assunto, a gente conversa com o escritor, tradutor e PHD em filosofia, Denis Xavier, do Instituto Sociedade da
00:58Lanterna.
00:59Denis, tudo bem? Boa noite.
01:00Oi, meus amigos, estava com saudade de vocês, que bom voltar a bater esse papo. Tudo bem?
01:07Tudo jóia. Denis, bom, você publicou um artigo na revista Cruzoé, aliás, esse está aberto para não assinantes.
01:15O título é Corrigir Homero à Odisseia, e você traz esse tema se...
01:23Bom, a obra de Homero já teve múltiplas interpretações, o que você discute ali é se esses clássicos precisam ser
01:34atualizados ou não.
01:38Você podia desenvolver um pouquinho melhor essa ideia do seu artigo?
01:41É, porque esse assunto, na verdade, ele surgiu já no momento em que o filme foi anunciado.
01:48Quando a realização do filme foi anunciada, já se começou essa especulação.
01:53Porque diversas obras clássicas que foram adaptadas para o cinema em anos recentes acabaram sofrendo transmutações bastante agressivas
02:06exatamente para acolher uma espécie de pauta progressista, de uma pauta politicamente correta,
02:13o que muitas vezes destrói a essência da mensagem do clássico.
02:18E o que eu proponho nesse artigo, na Cruzoé, é uma reflexão sobre o seguinte.
02:24Nós estamos diante de um texto que nem surge como texto.
02:28Ele surge dentro de uma tradição de oralidade, quando ainda não dispunhamos de um vocabulário silábico
02:37para fazer a consignação por escrito dessas mensagens, dessas histórias que eram narradas.
02:46Portanto, quando nós falamos de Ilíada, da Odisseia de Homero, nós estamos falando de textos que não nascem textos,
02:53mas nascem cantos, que eram preservados pela memória.
02:58Por isso que eles foram construídos de uma maneira que facilitasse a memorização e a tradição da transmissão dessas histórias.
03:10Então, nós estamos falando de uma tradição, de uma poesia muito, muito antiga.
03:17E ela atravessou quase 3 mil anos.
03:20Portanto, ao que parece, talvez ela tenha muito mais a nos dizer no modo como ela se coloca
03:27do que diante da nossa arrogância de tentarmos corrigir hoje algumas perspectivas históricas.
03:35Isso tem acontecido com uma incômoda frequência em relação a várias obras.
03:42Nós tivemos recentemente aqui no Brasil um movimento de tentativa de corrigir obras de grandes autores brasileiros.
03:52Monteiro Lobato, por exemplo.
03:54Houve uma grande discussão de dizer, olha, nós temos que apagar algumas linhas de Monteiro Lobato
03:58que não soam muito bem para os nossos ouvidos contemporâneos.
04:02Mas será que não seria mais inteligente deixar aquelas linhas ali e fazer um disclaimer contemporâneo do tipo
04:09atualmente não levamos mais em consideração como razoável esse tipo de postura
04:16seja com relação à raça, com relação a valores, etc, etc.
04:20Então, essa mania de higienizar a história.
04:23Essa era uma grande preocupação com relação à versão do Nolan.
04:27Mas, sem querer dar spoiler de uma obra de quase 3 mil anos,
04:33parece que essa versão não foi exatamente contaminada por uma perspectiva, vamos dizer,
04:41excessivamente progressista ou politicamente correta, ainda que, obviamente, se trate de uma adaptação.
04:50Denis, tudo bem?
04:51Como é que está, meu amigo? Tudo bem, Grêmio?
04:53Eu tenho uma tese contrária sobre essa história de adaptar.
04:58Eu acho que toda obra de ficção é uma oportunidade para o leitor se colocar na pele de outras pessoas,
05:06entender o jeito que um outro personagem, ele mergulha ali no jeito que um personagem vê o mundo,
05:12de um jeito que é impossível fazer no dia a dia.
05:14E essas obras clássicas, que são de 3 mil anos, 500 anos, seja lá quanto for,
05:19elas ainda nos dão a oportunidade de entender como um outro mundo,
05:23um outro jeito completamente diferente de ver a vida funcionava.
05:28E, assim, aproveitando a sua expertise aí,
05:32o que você diria que é o coração da diferença entre o herói grego
05:42e uma pessoa das nossas sociedades hoje em dia?
05:48O herói grego tinha em comum com o herói moderno contemporâneo,
05:56pelo menos no modo como nós vemos projetados na mídia, por exemplo,
06:01uma grande preocupação com a repercussão da sua obra,
06:05o modo como os seus trabalhos repercutiam junto ao olhar do outro.
06:12Quando nós observamos, por exemplo, o início da Ilíada,
06:16nós temos um Aquiles absolutamente irado,
06:21porque ele foi ultrajado pelo rei Agamemnon,
06:24e ele estava preocupado com o modo como as pessoas iriam se referir a ele,
06:30o modo como as pessoas o avaliariam em função do que estava acontecendo com ele.
06:36Então, esse é um ponto comum.
06:37De diferente, isso para mim é central,
06:40é que a exigência desse olhar de aprovação do outro
06:47derivava de uma grande realização,
06:50derivava da excelência da entrega.
06:52Então, não é vocês têm que me amar, vocês têm que me admirar,
06:56porque, vamos dizer, por uma pauta menos importante
07:01ou por uma empresa menos importante.
07:04Era exigido do herói um esforço, um empenho
07:08que provasse a sua areté.
07:11A areté no grego, que é mais bem traduzido,
07:15é um termo mais bem traduzido por excelência,
07:17bem melhor do que virtude.
07:19É a excelência do indivíduo.
07:21Portanto, a excelência em Homero é a excelência do guerreiro.
07:25A obra homérica é uma obra sobre como os aristocratas procedem,
07:30não é uma obra sobre o povo,
07:32é uma obra sobre como os grandes procedem,
07:35como aqueles que são os protagonistas de uma civilização devem agir.
07:39E essa obra denuncia a mesquinharia, a baixeza,
07:44e celebra o que então se considerava a excelência.
07:48Então, é claro, quando nós lemos a Odisseia hoje,
07:52quando nós lemos a Ilíada hoje,
07:53nós não estamos querendo reproduzir um ideal guerreiro
07:56da excelência da areté guerreira,
07:59que é a areté de Homero,
08:01mas é a mensagem que fica.
08:03Quer dizer, que você não exige o reconhecimento antes do trabalho.
08:08Esses homens eram muito testados
08:10exatamente antes de promover uma visão superior deles em sociedade.
08:16Denis, a viagem do Odisseu ou do Ulisses de volta para casa,
08:22essa viagem pode ser interpretada também pelo leitor ou pelo espectador
08:27como uma viagem individual, pessoal, que meio que todo mundo faz?
08:32Quer dizer, de certa maneira, nós somos todos um pouco Odisseu, um pouco Ulisses?
08:37Sim, é belíssimo.
08:39Os gregos utilizavam sempre, e isso acabou repercutindo na longa história da filosofia,
08:44essa ideia do homem como homo viator, o homem como um homem viajante.
08:51Nós todos somos seres viajantes.
08:55Nós estamos sempre em movimento, de alguma maneira.
08:58Nós estamos sempre buscando, diante de um desconforto, de incompletude,
09:03uma resposta superior, uma condição melhor.
09:06Mas o que é interessante, além de tudo, é perceber como nós vamos nos colocando
09:11diante desses grandes desafios da vida.
09:13O modo como nós vamos reagindo e aprendendo com esses grandes desafios.
09:18Vocês sabem que, no décimo livro da República de Platão,
09:22num confronto com Homero, Platão diz
09:25Homero educou a Élade.
09:29Homero educou a Grécia.
09:31Isso está no décimo livro da República.
09:33Mas não é um reconhecimento necessariamente positivo,
09:36porque Platão, por sua vez, estava propondo uma nova pedagogia,
09:39um novo modo de entender o homem na sua relação com o mundo.
09:43Mas veja, Platão entendia a riqueza de Homero
09:46como grande nutriz de valores, de princípios.
09:50Então, veja, um animal qualquer, quando nasce,
09:54ele já nasce apetrechado de valores, de valores não,
09:57mas de elementos biológicos que vão determinar o seu modo de ser.
10:02Então, ele responde quase que estritamente, ou estritamente,
10:05a estímulos biológicos.
10:07Nós não.
10:08Nós, seres humanos, nós temos uma dimensão biológica evidente,
10:12mas nós temos que discutir processo educacional.
10:15Ou seja, qual caminho formativo é melhor?
10:18Por que ele é melhor? Por que ele é pior?
10:20E essa é a força do clássico.
10:22Então, eu estou muito de acordo com a ideia de que nós devemos nos esforçar
10:26para atualizar dentro de nós esses conteúdos clássicos que chegam.
10:32O que eu não estou de acordo é você, a pretexto de adaptar uma pauta de lacração
10:37ou ideologicamente comprometida, distorcer a mensagem de um clássico.
10:43Queria te fazer outra pergunta sobre o jeito que os gregos viam o mundo e agiam.
10:50No filme, eu vi o filme e achei muito legal, vale a pena, foram três horas muito bem gastas.
10:58Vale o ingresso.
10:58E continuei pensando nele depois.
11:01Mas, enfim, o Ulisses, ou o Odisseu, ele sente culpa por aquilo que ele fez na guerra.
11:14Culpa era um sentimento que os gregos do Homero sentiam?
11:20Não.
11:21Não.
11:22Esse é um traço muito debatido já entre os estudiosos da obra,
11:27que foi uma espécie de apropriação, talvez, se não equivocada,
11:34mas de uma certa liberdade poética feita pelo diretor.
11:38Você não tem na obra de Homero aquele Odisseu, um lamentador profissional,
11:45puxa vida, carregando aquela culpa terrível por tudo o que aconteceu, em hipótese alguma.
11:51É basicamente um homem marcado por um destino.
11:55E diante do destino, não há exatamente culpa.
12:00Há uma percepção de uma certa miséria da condição humana.
12:05Nós somos esses seres meio joguetes também, em relação às coisas que acontecem conosco,
12:11e daí cabe muito mais analisar como nós podemos reagir a isso.
12:15Vocês sabem que, em algum momento, o Odisseu não queria ir para a guerra,
12:19em hipótese alguma, o Odisseu tentou escamotear, ele estava um filho para nascer,
12:26ele tinha um cachorrinho maravilhoso, que era um filhotinho, pelo qual ele tinha muito apreço,
12:31ele tinha uma esposa extraordinária, a ilha de Ítaca estava tudo bem, estava correndo impasse.
12:36Ele não queria ir para esse confronto com Troia, mas, de repente, ele se vê pressionado,
12:42ele se vê constrangido por conta dessa força, dessa liga grega, e não tinha muito o que fazer.
12:49E como reagir a isso?
12:50Então, é um homem provado pelo tempo, como tantos de nós somos,
12:54diante de situações que nós não temos controle.
12:57Mas aquela culpa que nós vimos no filme não é uma culpa do tipo homérica, não.
13:07Dennis, você escreveu, acho que foi semana passada, na Cruzvéia,
13:11um artigo que o título agora é Uma Nova Paideia.
13:15E você, olha aí, a gente tem imagem do texto do Dennis, então, quem ficar interessado,
13:20pode acessá-lo, a Cruzvéia, também esse está aberto para nós assinantes.
13:25E, Dennis, nesse texto você fala que as obras da Grécia Antiga não tinham só o objetivo
13:32de entreter os cidadãos, mas também tinha uma preocupação ali em formar os cidadãos,
13:39né, era quase que um manual ali de cidadania.
13:42O que que os gregos antigos aprendiam ouvindo a Odisseia?
13:50Essa é uma baita pergunta.
13:51Às vezes, aspectos até muito banais e cotidianos da vida.
13:55Então, Homero se tornou um, quando eu digo que ele se tornou uma grande nutriz de conhecimento
14:02e de formação, os gregos vão dizer que é exatamente a paideia.
14:06Paideia é um termo grego que, em geral, a gente traduz por formação,
14:10mas ela tem implicações mais complexas.
14:13Você vai encontrar nas páginas de Homero coisas do tipo,
14:17como receber um estrangeiro na sua casa,
14:19como você vai lavar o seu barco,
14:23que tipo de procedimento você faz antes de se alimentar,
14:27como fazer embaixada em reinos estrangeiros.
14:31Todos esses elementos de relações da vida cotidiana
14:36estavam trabalhados na obra de Homero.
14:39Portanto, quando você tinha na antiguidade,
14:41eu estou falando de sexto século antes de Cristo,
14:44quinto século antes de Cristo,
14:45você tinha competições de narração, de canto de Homero,
14:51que envolvia, muitas vezes, crianças.
14:53Por quê?
14:54Não era simplesmente entretenimento e festa,
14:56era mostrar que eu sou um indivíduo bem instruído,
15:00que eu não sou um bárbaro,
15:02que eu passei por um processo paideutico,
15:04um processo de formação.
15:06Por isso, então, das coisas mais altas,
15:08o que é ser um homem excelente,
15:11o que é ser um homem corajoso,
15:13porque todos nós estamos eventualmente de acordo
15:17sobre o fato de que a coragem é um elemento importante,
15:20mas defina a coragem.
15:22Que nós devemos ser piedosos, mas defina a piedade.
15:26Então, esses padrões do que era uma coisa ou outra
15:29estavam estabelecidos em Homero,
15:32espalhados na sua obra.
15:33Lembrando que Homero,
15:35existe a famosa questão homérica,
15:37é um indivíduo, é um autor
15:41cuja existência não é certa.
15:44As pesquisas, inclusive as mais recentes,
15:47ainda não estão de acordo
15:48sobre a existência histórica de Homero.
15:50Homero pode ter sido um conjunto de pequenos poetas,
15:54pode ter sido, sim, um homem,
15:56pode ter sido um homem que cantou a Elíada,
15:58mas não cantou a Odisseia.
16:00Há uma série de elementos envolvidos.
16:02Mas o fato é que essa obra era a grande referência,
16:06e aí vou usar um termo inadequado,
16:09enciclopédica a que o grego tinha acesso
16:11para se formar, para se mostrar bem educado.
16:15A ponto de, nesses eventuais eventos de recitação,
16:18e mesmo nas tragédias, etc.,
16:20quando eram pagos, o sujeito não podia pagar,
16:23a cidade pagava para ele.
16:25Porque não era uma questão do
16:26venha ao teatro, porque isso daqui é uma grande festa.
16:29Não. Ali há aprendizados que são importantes
16:33para a sua formação intelectual
16:35e para a sua formação como cidadão.
16:37Nesse artigo da Cruzoé, eu falo da nossa miséria,
16:40da nossa miséria contemporânea.
16:42Nós abandonamos o processo educacional
16:44como um elemento fundacional da civilização.
16:48E se nós não retomarmos isso
16:50como um elemento estruturante da sociedade,
16:53nós vamos discutir escândalos políticos,
16:55corrupção, escândalos econômicos aqui,
16:57o dia inteiro.
16:58Durante décadas.
17:00Mas a única coisa que pode resolver isso
17:02é um olhar mais cuidadoso,
17:05um olhar mais criterioso
17:07para o processo paideútico.
17:09Por isso ele já era tão discutido
17:10desde a antiguidade.
17:12Por isso ele era tão importante
17:13desde a antiguidade.
17:15Eu vou continuar na Grécia Antiga.
17:17Ah, eu não saio...
17:18Por mim, eu não saio de lá,
17:20porque para mim meio que está tudo lá.
17:22Eu sou do interior,
17:23sempre achei que era paidegua,
17:26essa foi horrível, mas eu gostei.
17:29Foi horrível, né?
17:30Eu estava aqui me mordendo
17:31para fazer esse daddy joke,
17:33mas eu fiz...
17:36Olha só...
17:40O Homero serviu como um...
17:45Era uma obra central, vai?
17:48Que servia para a educação de todos.
17:51Como é que...
17:52Daí você chega,
17:53400 anos depois,
17:55lá na Grécia Democrática,
17:57e você já começa a abrir
18:00o espaço público
18:03para diversas opiniões,
18:05para as opiniões de todos os cidadãos e tal.
18:07A democracia grega
18:11estilhaçou
18:12essas ideias centrais ali
18:16que estavam condensadas
18:17na educação homérica
18:20ou a Grécia conseguiu
18:22preservar aquilo?
18:23É óbvio, né?
18:25A gente pensa hoje
18:25nas nossas sociedades
18:26que são democráticas
18:28e mais plurais
18:29e mais fragmentadas ainda, né?
18:31Deixa eu só fazer um elogio
18:32que pergunta maravilhosa do Graé.
18:34É bem muito boa.
18:35Agora aguardamos.
18:36Me redimir do pai d'égua, né?
18:39Eu já ia fazer um disclaimer
18:41de falar assim.
18:41Olha, eu queria comentar primeiro
18:43o prazer que é ter uma conversa
18:44desse nível com vocês.
18:46Muito obrigado.
18:49É impressionante
18:50quando você começa a estudar
18:52a Grécia pré-clássica,
18:54a Grécia homérica
18:55e ainda pré-homérica,
18:57porque é interessante,
18:59os eventos que Homero descreve
19:01na Ilíada e na Odisseia
19:03são eventos que remontam
19:04ao 12º século antes de Cristo,
19:08aproximadamente,
19:09até o 8º século antes de Cristo.
19:12Então, quando nós fazemos
19:13um estudo arqueológico
19:15daqueles eventos,
19:16daquelas histórias,
19:18eles estão enquadrados
19:19em mais ou menos
19:20400, 500 anos de história
19:22até o 8º século antes de Cristo,
19:24que é o século de Homero.
19:26Portanto, é uma longa
19:28tradição histórica
19:29que foi condensada
19:30nessa obra homérica,
19:33notadamente na Ilíada
19:34e na Odisseia.
19:36E o que você nota ali
19:37é um processo inicial
19:39de forte centralização
19:42do poder,
19:44anterior ainda
19:46aos eventos narrados
19:48por Homero
19:49numa figura
19:50que era chamada
19:51de Anax
19:52e que representava
19:54ainda antes de Homero
19:55um poder centralizado,
19:56um poder que dominava tudo
19:59religiosamente,
20:00em termos administrativos.
20:02Isso pode ser visto,
20:03depois vocês podem dar
20:03um Google aí
20:04na cidade de Micenas.
20:06Vocês colocam lá
20:07Micenas,
20:08sítio arqueológico,
20:09eu estive lá recentemente,
20:10uma coisa extraordinária,
20:12você vê o poder do Anax
20:14dominando todas as coisas.
20:16Do 12º ao 8º século,
20:18antes de Cristo,
20:19nós temos ali um período
20:20que nós não sabemos
20:21tudo o que aconteceu
20:22a não ser por Homero
20:23em algum detalhe,
20:24em alguma informação.
20:26E quando nós reaparecemos
20:27no 8º, 7º antes de Cristo,
20:30nós já verificamos,
20:31eu gostei muito do termo
20:32que você utilizou, Grabe,
20:33que foi esse poder,
20:35ele meio que se estilhaçou,
20:38ele se espalhou.
20:40E isso só aconteceu na Grécia.
20:44Não existe um paralelo
20:46em outra civilização
20:48naquele momento histórico
20:49no qual isso tem acontecido.
20:51O poder que era centralizado
20:53do Anax,
20:54que continuou sendo
20:55o poder centralizado
20:56do faraó
20:57e de outras grandes figuras
20:59de poder extremo
21:00na Antiguidade,
21:02na Grécia,
21:03já ali por volta
21:04do 7º para o 6º século
21:07antes de Cristo,
21:08esse poder se espalha,
21:10esse poder começa.
21:11Tanto que acontece uma coisa
21:13na obra de Homero
21:14que não aconteceria nunca
21:16no período do Anax,
21:17que é,
21:17você tem um Aquiles
21:19que num determinado momento
21:21quer sacar a espada
21:22para avançar sobre a Damemnon,
21:24que era o rei dos gregos,
21:26fala assim,
21:26como um soldado mesmo,
21:28destacado,
21:29vai levantar uma espada,
21:30vai sacar uma espada,
21:32a deusa Atena desce
21:33e coloca a mão
21:34na bainha da espada
21:35e fala,
21:35não, não, não, não,
21:36pode xingar,
21:37mas atacar não pode.
21:38Inclusive a primeira grande defesa
21:40de liberdade de expressão
21:41de que nós temos registro.
21:43Pode xingar,
21:44pode falar à vontade,
21:44mas atacar não pode.
21:46E esse poder se espalha.
21:48A palavra,
21:50e eu concluo,
21:50porque eu sou professor
21:51e eu fico aqui falando,
21:52se deixar,
21:53é ver borrágico.
21:55A palavra se espalha,
21:56a palavra ganha
21:58a dimensão da peitó,
21:59que é da persuasão,
22:01agora conta a palavra
22:02da persuasão,
22:03por que você está me dizendo isso?
22:04Você tem que me persuadir.
22:05Não é porque veio do poeta,
22:06que é verdade,
22:07agora a palavra,
22:08ela foi laicizada
22:09e é por isso
22:10que nós temos um terreno
22:11muito propício
22:12para o nascimento da filosofia.
22:14Mas aconteceu exatamente isso,
22:16um espalhamento desse poder
22:17que vai desembocar na democracia.
22:20Agora,
22:20o exemplo que você deu,
22:22Denis,
22:22sobre liberdade de expressão
22:23também mostra
22:24que tinha ali
22:24um embriãozinho
22:27de democracia
22:28ainda nessa época
22:30que é narrada pelo Homero
22:31ou a época do Homero,
22:33que ele vai misturando
22:33também muita coisa,
22:34mas já tinha ali um pouco,
22:36às vezes uma discussão,
22:38essa coisa de que
22:39vamos agora nos juntar
22:40aqui e conversar
22:41sobre o que está acontecendo.
22:44E Platão dá meio que
22:46a pá de cal nisso,
22:47porque o grande problema
22:48do mito religioso,
22:50por exemplo,
22:51essas histórias,
22:52vocês podem pegar aí
22:53uma versão escrita
22:54da Ilíada ou da Odisseia,
22:56vocês vão ver que
22:57o primeiro verso
22:58é o poeta evocando a musa.
23:01canta,
23:02ó deusa,
23:03no caso lá,
23:04a ira funesta
23:05de Aquiles pelida,
23:06de Aquiles,
23:07filho de Peleu,
23:08é o primeiro verso
23:09da Ilíada,
23:11é sempre o poeta
23:13evocando a musa.
23:14O que significava isso?
23:15Que para os gregos,
23:16o que saía da boca
23:17do poeta
23:18não era resultado
23:19estrito
23:20da criatividade dele.
23:22O poeta
23:22era um mediador
23:24entre um conhecimento
23:25sagrado
23:25e um mundo profano.
23:27Isso,
23:27para um filósofo
23:28como Platão,
23:29é a morte.
23:29Platão chama isso
23:30de a divina mania,
23:32a divina loucura,
23:34mania em grego,
23:35loucura.
23:36Você entra
23:37num estado
23:37de torpor,
23:38de loucura,
23:41avança com uma série
23:42de conteúdos
23:43e eu tenho que aceitar
23:44porque isso é sagrado?
23:45Não.
23:46A palavra tem que ser
23:47a palavra do debate.
23:49A filosofia
23:50é filha da argumentação.
23:52Eu não acredito
23:53em você
23:54por algum tipo
23:55de concessão de fé.
23:57Você precisa
23:58me convencer
23:59de que esse seja
24:00racionalmente
24:01de fato
24:01o melhor argumento.
24:03Por isso que a filosofia
24:04nasce na Grécia.
24:05Ela tinha um terreno
24:07já preparado,
24:08hábiovo,
24:09ainda muito,
24:10muito no iniciozinho,
24:12mas já ali
24:12nesse mundo do mito,
24:14um terreno
24:14que começa a...
24:16Eu gostei muito,
24:17eu preciso escrever
24:17sobre isso,
24:18gostei muito
24:19desse termo,
24:19Grebis,
24:20essa coisa,
24:21essa implosão,
24:23desse espatifar
24:24do poder
24:25que joga
24:27uma responsabilidade
24:28extraordinária
24:29sobre nós,
24:29sobre o modo
24:30como nós vamos
24:30exercê-lo.
24:33Denis,
24:34vocês no Instituto
24:35Sociedade da Lanterna
24:36tiveram agora,
24:37a gente está quase
24:38terminando o programa,
24:39mas eu vi uma iniciativa
24:40de vocês que é
24:41a criação do programa
24:43Lanterna.
24:45A gente só tem mais
24:46quatro minutos de programa,
24:47mas eu queria que você
24:47explicasse primeiro
24:48o que é o Instituto
24:49Sociedade da Lanterna
24:50e depois o que é
24:52esse programa agora,
24:54pode ser?
24:55Claro,
24:55rapidamente,
24:57eu fundei
24:58o Instituto
24:59Sociedade da Lanterna,
25:00um instituto
25:00sem fins lucrativos
25:01que promove
25:03a frequentação
25:03das coisas
25:04da filosofia
25:05e da alta cultura,
25:06porque eu não sei vocês,
25:07mas eu estou cansado
25:08desse mundo
25:09de apedeutas,
25:11especialmente
25:11de gente ignorante
25:13liderando a sociedade
25:15que toma
25:16a burrice
25:17por virtude,
25:18nós temos que voltar
25:19a nos envergonhar
25:20de sermos burros,
25:22de sermos ignorantes,
25:23nós precisamos voltar
25:24a colocar como liderança
25:26na vida e sociedade
25:27os indivíduos dos livros,
25:29da alta cultura,
25:30sim,
25:30nós temos que ter medo
25:31de falar de uma certa
25:32aristocracia intelectual,
25:34aristos no grego
25:35é o que é o melhor,
25:36por que nós temos que gostar
25:37do que é pior,
25:38do que é mais baixo,
25:40do que é,
25:41vamos dizer,
25:42mais vulgar?
25:43Então,
25:44exatamente para combater isso,
25:46eu crio esse espaço,
25:48a Sociedade da Lanterna,
25:49e ali nós estamos
25:51espalhados em países,
25:53nós estamos espalhados
25:54em diversos lugares
25:55do mundo,
25:56com pessoas
25:58livremente interessadas
25:59em conteúdos altos.
26:00E agora nós temos
26:01esse braço,
26:02que eu nem gosto de dizer
26:03que é filantrópico,
26:05mesmo porque também
26:05não é presente
26:06para ninguém,
26:07é uma oportunidade
26:08para jovens
26:09de 16 a 18 anos
26:10para ingressar
26:12com uma bolsa
26:13no Instituto Sociedade
26:14da Lanterna
26:14e frequentar
26:16as já centenas
26:17de horas
26:17de conteúdos
26:18que nós temos lá,
26:20livros clássicos,
26:21livros importantíssimos,
26:22contemporâneos,
26:23todos comentados,
26:25lidos, comentados,
26:26professores convidados,
26:28nós temos o nosso
26:28evento presencial
26:29no qual você já palestrou,
26:30inclusive, né, Duda?
26:32Que nos deu uma honra
26:33extraordinária,
26:34você viu a qualidade
26:35de pessoal.
26:36Eu já fui palestrante
26:36e sou aluno
26:36do Sociedade da Lanterna.
26:37E já é membro
26:38do ISDL.
26:39E você sabe
26:41a qualidade das pessoas
26:42que frequentam,
26:42então a gente quer
26:43colocar essa mostrada,
26:44nós temos 20 bolsas,
26:46resultado da atuação
26:47de benfeitores
26:48do ISDL
26:49e o processo seletivo
26:50está aberto
26:51lá pelas minhas redes sociais,
26:53arroba prof.denisxavier,
26:54meu nome é um atestado
26:56de pobreza,
26:57com dois N e Y,
26:58é Denis com dois N e Y,
27:01Denis Xavier,
27:02prof.denisxavier,
27:03vocês vão encontrar
27:04o link lá,
27:05inscrição gratuita,
27:06a gente vai selecionar
27:07pelo menos 20 meninos,
27:09meninas muito bem
27:12dispostos a frequentar
27:13as coisas altas.
27:14Olha, sensacional
27:15essa iniciativa
27:16de vocês, Denis.
27:17Então, se você
27:18que está assistindo a gente
27:19tem entre 16 ou 18 anos,
27:21gosta de filosofia
27:22ou conhece alguém
27:22que gosta,
27:23fala lá para ele
27:24porque essa proposta
27:26aí é imperdível.
27:27Denis, superobrigado
27:28pela participação
27:29aqui no Papo Antagonista.
27:31Saudade de vocês,
27:32um beijo grande
27:32e boa noite.
27:34Rapidinho,
27:35vamos olhar os comentários
27:36que o pessoal fez
27:37aqui no nosso chat
27:38do YouTube.
27:39André Martínez,
27:40que maravilha de programa,
27:41filosofia de primeiro nível.
27:43Próximo.
27:44Kátia Carneiro,
27:45uma aula maravilhosa,
27:46parabéns professor.
27:47Tem mais um?
27:48Kenia Monteiro,
27:49não gosto muito
27:50das adaptações
27:51nas artes,
27:51ferem a essência
27:53e não nos deixa
27:53pensar sobre os temas,
27:55pois já passam
27:56para uma borracha
27:57e reescrevem.
27:59Super Monerati,
28:00que saudade do Denis,
28:02precisamos de mais conversas
28:03como esta.
28:04Obrigado, Antagonista.
28:05Vamos lá para o último.
28:06Tem mais um?
28:07Ayrton Lima,
28:08Nolan,
28:09diz respeito
28:10o legado da Odisseia
28:11ao alterar conceitos
28:12estabelecidos
28:13e principalmente
28:14os personagens
28:14que têm descrição
28:15clara no livro.
28:17Vamos para a enquete
28:17rapidinho.
28:18Qual seria o nome
28:21para o programa
28:21de Flávio Bolsonaro
28:22e Daniela Marques?
28:24Ganhou Meu Celular,
28:25Minha Vida.
28:26Em segundo lugar,
28:27Bolsa Telefone,
28:28terceiro,
28:29Dignidade Digital
28:30e, por fim,
28:31Celular do Povo.
28:32Bom,
28:32vamos ficando por aqui.
28:34agradeço ao Carlos Graebi
28:36pela participação
28:36no programa.
28:37Também o nome
28:38da nossa equipe
28:39aparece aqui embaixo.
28:40Um ótimo final de semana
28:41para vocês todos.
28:42Tchau.
28:43Tchau.
28:43Tchau.
Comentários