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Ismaelino Pinto entrevista o musico, compositor e pesquisador Eduardo Barbosa
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00:04Olá, está no ar o Manguerosamente. Hoje a gente conversa com o músico, pesquisador,
00:11que a gente vai falar sobre a chamada música periférica do Pará ou de Belém, não é?
00:16Falando aqui com o Eduardo Barbosa. Tudo bem, Eduardo?
00:19Tudo ótimo.
00:19Eduardo, você tem formação em música.
00:22Exatamente. Sou formado em música pela UEPA e atualmente estou no mestrado também na UEPA
00:29em música da Amazônia com a pesquisa sobre o contrabando de discos nos portos de Belém
00:35e a contribuição deles para a difusão do Caribe Imaginário, que houve um contrabando de discos ali no século passado.
00:42Como é que é a questão desse contrabando de discos? Eu vi contrabando de ar e tudo, menos discos.
00:46E muito, contrabandeavam muito por muitas décadas.
00:49Você fala disco, disco físico, vinil na época.
00:52Que década?
00:52Olha, desde a primeira metade do século XX, então a gente pode pensar ali década de 30, já estava rolando.
01:00Porque, na verdade, é o seguinte, tudo isso começa quando se constrói o porto de Belém por conta da Bela
01:07Epoca.
01:09Belém precisava de um porto mais robusto por conta da demanda que a Bela Epoca trazia para Belém.
01:14Se é 108% da economia global da borracha passava por Belém do Pará.
01:19Então, o fluxo era muito grande.
01:21Mas os discos daquela época?
01:23Sim.
01:24Ali, não, se cria o porto, né?
01:27Esse porto ali por causa da Bela Epoca.
01:29E ali, no início do século XX, década de 20, década de 30, começam a chegar os barbadianos para trabalhar
01:36aqui.
01:37E, nesse bolo, vêm os marinheiros, tanto os daqui que iam para o Caribe, quanto os do Caribe que vinham
01:43para cá,
01:44traziam seus discos.
01:46Assim, a princípio, de uma forma despretenciosa, né?
01:49Na verdade, é que um povo, quando ele caminha, ele traz sempre a sua cultura, leva sempre a sua cultura,
01:54né?
01:54Sim.
01:56E acabou que alguns desses marinheiros trouxeram discos, uns controlistas, que eram os antigos DJs,
02:03curtiram aquilo, resolveram, traz mais, te pago por isso.
02:08Então, começou...
02:08Que som vinha nesse disco?
02:10Era o som do Caribe?
02:11Era o som do Caribe.
02:12Era o som do Caribe, né?
02:13Vinha muito mambo, bolero.
02:16A gente tem dois Caribes em Belém do Pará, né?
02:19A gente tem o primeiro Caribe que chega, um Caribe hispânico, bolero, merengue e mambo.
02:26E a gente tem um segundo Caribe, que é o Caribe que eu chamo de francófono.
02:30Ele não é só francófono, né?
02:32Mas ele acaba se destacando por isso, que é o Zouk, Cadence Lipso, Compá.
02:38Muitas dessas músicas são cantadas em crioulo, né?
02:40Então, apesar de...
02:42O Zouk é em francês, mas eles misturam crioulo, que é a língua originária da galera,
02:46com umas coisas do francês, que eles vão misturando e se criou.
02:51Mas eu acho que a gente também já teve uma fase aqui de trocas muito fortes com as Guianas aí,
02:57né?
02:57Também.
02:58Hoje em dia eu vejo que o movimento não é tão grande, mas tipo assim, a gente já foi...
03:02Não precisa mais, né?
03:04Falando de trocas culturais, tu não precisa mais dessa fronteira lá.
03:08Ela se torna irrisória, na verdade, né?
03:10Porque a gente tem internet hoje.
03:11Mas voltando ao contrabando do disco aí que você falou, e o que eles levavam daqui?
03:17Então, estou nessa pesquisa agora para entender o que ia para lá, porque alguma coisa daqui ia.
03:22Porque você decidiu uma troca, né?
03:24A gente trazia um deles para cá.
03:27Vinha os discos de lá.
03:30Mas a gente precisa lembrar que nessa época não existia ainda produção fonográfica de Carimbó.
03:35Carimbó vai ser gravado pela primeira vez, o fonograma ali mesmo, a partir de 71, que é o Verequete.
03:4373, se eu não me engano, Pinduca.
03:45Muito recente, quer dizer, é o passado muito recente, né?
03:47Exatamente.
03:48Então, assim, era mais uma coisa que vinha mesmo.
03:50E quem teve, qual foi esse registro?
03:52Como é que foi feito esse registro, por exemplo, do Verequete?
03:55Olha, o Verequete, ele é o primeiro carimbó, que a gente diz raiz, né?
04:01O carimbó pau e corda, que também é uma construção moderna.
04:04Apesar de a gente ter se perdido no tempo esse conceito, o Verequete, quando ele aparece ali, ele aparece como
04:10o primeiro artista paraense que grava uma música paraense, de sotaque estética paraense.
04:18Até então, a gente tinha, por exemplo, o Papadamadinha.
04:20O Verequete já é um homem urbano, claro, morava em Belém, né?
04:22Sim, morava em Belém.
04:23Mas tinha muito daquela tradição ainda, até da cultura de matriz africana.
04:29O batuque do Verequete era um batuque africano.
04:32Se for os colocar perto, ao lado do batuque do Pinduca, que é um batuque mais moderno, são coisas muito
04:39diferentes, né?
04:40Então, o Verequete, ele veio com esse somado experimental, né?
04:44Trazendo coisas do terreiro, até o próprio nome, né?
04:47Verequete.
04:48E foi o pontapé para depois, por exemplo, o Pinduca gravar.
04:52Modernizado.
04:53Guitarra, baixo elétrico, teclado, o que tinha mais...
04:56Sim, a gente teve com o Pinduca outro dia, que ele falou sobre isso, né?
04:59Inclusive, de como ele foi atacado de estar...
05:01De forma injusta, inclusive.
05:02É, exatamente.
05:03De como ele foi atacado justamente por modernizar a música, né?
05:08Acusado de modernizar a música, que hoje em dia a música, na verdade, se expansiu dessa forma, né?
05:13Pinduca é um gênio, assim, para mim.
05:14Um gênio mesmo da música.
05:16Sempre falo assim, se ele fosse gringo, incontestável.
05:20Escuta aqui, esses são os objetos das tuas pesquisas?
05:23O objeto da minha pesquisa, o principal, é o contrabando.
05:25Tu estás fazendo agora o mestrado.
05:26Isso, o meu mestrado, o título é
05:28O Contrabando de Discos nos Portos de Belém durante o Século XX.
05:31A construção de um imaginário caribenio.
05:34Eu aponto, estou querendo apontar nessa pesquisa que eu estou iniciando,
05:38que o contrabando foi o principal vetor dessa música do Caribe que se alocou aqui nas periferias,
05:46se espalhou pelos bailes e começou a modificar a dança, começou a fazer a gente pensar a música
05:52de uma maneira diferente, influenciando artistas, produtores, frequentadores de festas, controlistas.
06:00Então, assim, como esse Caribe chegou?
06:02Porque a gente fala muito das rádios.
06:04E claro que nós escutamos essas rádios, essas ondas tropicais,
06:09só que ela não explica tudo.
06:11Então, assim, existem pontos que a gente precisa entender.
06:14Por exemplo, tá, a gente escutou essa música na rádio ali com a frequência M,
06:19mas como, a partir disso, ela tocou numa festa?
06:23Para tocar numa festa, tu precisa do quê?
06:25Disco.
06:26Agora, quem era que consumia essa música?
06:27A gente estava falando do início do século XX, não?
06:31Isso, início do século XX.
06:32Agora, quem consumia essa música?
06:34Porque mesmo com o Pinoco aqui, a gente conversou,
06:36ele falou sobre a dificuldade, não é nenhuma dificuldade,
06:38mas o tempo que ele levou para colocar numa festa, num baile,
06:43num baile que ele tocava em Belém, uma música chamada Carimbó.
06:48Ele era, inclusive, vaiado, as pessoas não queriam,
06:51mas ele foi insistente e fez isso.
06:53É, porque, assim, cultura passa por processos de ressignificação.
06:57A cultura não é estática, tanto do ponto de vista de influências,
07:02quanto do ponto de vista de que a gente sempre está
07:07ressignificando o olhar que a gente tem perante aquele processo cultural.
07:11Então, coisas que já foram consideradas ruins
07:14passam a ser vistas com bons olhos.
07:17E muito disso a gente tem na cultura periférica,
07:20seja de onde for.
07:22A gente tem a cultura popular, mas eu prefiro o termo periférico,
07:25porque também determina uma questão geográfica.
07:28Não é só música popular.
07:29Por exemplo, tínhamos Paulo André Barata,
07:32um dos grandes maiores da nossa música paraense.
07:35É música popular paraense, na MPP.
07:37Mas não é periférica, não existia aquela rejeição.
07:40Mas qual é a diferença entre o popular e o periférico?
07:42Eu considero, a partir de quem faz,
07:46a partir do agente cultural que está produzindo.
07:49Claro que isso também vai levar a diferenciações estéticas.
07:53Rui Barata, por exemplo, e Paulo André,
07:55eles tinham outras referências.
07:58E não é um juízo de valor,
08:00que esse daqui é melhor, esse daqui é inferior.
08:02Não.
08:02Cultura é cultura.
08:03Não existe bom ou ruim.
08:05Mas existe, a partir de quem faz, uma aceitação ou não.
08:09Então, quando você tem um reduto de pessoas ali no seio periférico
08:14que começam a produzir esse tipo de música,
08:16ela, por muitas décadas, vai ser recusada.
08:18E literalmente mesmo.
08:20Por exemplo, um DJ ou controlista que tocasse música caribenha
08:26em uma festa do centro da cidade,
08:28ele era passivo de não receber o cachê
08:31e ele não era mais chamado para tocar.
08:34Então, era um cerceamento.
08:35Você diz os salões, as festas que aconteciam nos clubes principais da cidade.
08:40E essa música era tocada onde?
08:42Nas sedes.
08:44O que são as sedes?
08:45As sedes não são só casas de show.
08:48São ambientes de sociabilização,
08:51de preferência na região periférica,
08:54onde ocorrem shows, mas ocorrem aniversários,
08:56ocorrem confraternizações,
08:59aqueles períodos de bingo,
09:02fim de semana de lazer e tudo mais.
09:05Isso que acontecia...
09:06Isso era uma coisa muito comum.
09:08A gente vê ainda algumas aqui resistentes.
09:10Resistentes, assim, não é mais como antes.
09:13Como eu falo, a cultura se modifica.
09:15Não é nem bom nem ruim.
09:16Só se transformou.
09:18Mas, por exemplo, tem a sede do Imperial
09:19ali na fronteira dos Jurunas com a cremação.
09:21A sede do Imperial é que fica na Fernando Guilhom.
09:24Exatamente.
09:25Exatamente.
09:26Aliás, outro dia eu passei lá e achei muito boa.
09:28Eu vi uma placa de segunda do milionário.
09:30É, ressaca do milionário.
09:32Ressaca do milionário.
09:33Você sabe por que é ressaca do milionário?
09:34Porque quem só tem ressaca na segunda-feira
09:36é que é milionário, né?
09:37Exatamente.
09:38Porque o cara se diverte no domingo até tarde.
09:40Eu achei muito, muito, muito bom.
09:41É muito bom.
09:43É uma sede que existe.
09:44Então, eram essas sedes que divulgavam até, né?
09:49Sim.
09:49E que consumia esse tipo de...
09:51Exatamente.
09:52E também tinham as gafieiras,
09:55que eram as festas populares também.
09:57A sede a gente entende como espaço físico, né?
10:01Então, havia essa circulação ali,
10:03até mesmo porque os sonoros,
10:04que são os precursores da aparelhagem,
10:07tocavam ali, né?
10:08Eles começaram como...
10:13Sonorizações de estabelecimentos,
10:16passaram a fazer sonorização de aniversário de família,
10:20depois de aniversário na rua, vizinho,
10:22quando viu, estava fazendo no bairro e virou um circuito.
10:24Existe alguns sonoros aí famosos?
10:26Existe, existe.
10:27Ah, para eu citar, Brasilândia, por exemplo,
10:30começou como um sonoro.
10:30Existe o Brasilândia?
10:32Então, eu ouvi um tempo que não estava mais rolando,
10:37mas, recentemente, alguém me falou,
10:39acho que na sede do Imperial,
10:40que eles estavam na ativa de novo.
10:42Porque tem esse lance também,
10:43como é muito familiar, vai e vem.
10:45Do Brasilândia, eu não tenho informação,
10:49mas, por exemplo,
10:50lá na sede do Imperial,
10:51tem uma aparelhagem que utiliza alcunha de sonoro.
10:54Quem dessa época,
10:55quem era o artista paraense dessa época
10:58que já difundia essa música?
11:00Ah, com certeza o Oswaldo Oliveira.
11:04Ah, sim, e não é do início,
11:05mas, pô, lá de trás, né?
11:07Da década de 60, 70.
11:07Que são chamados esses...
11:09O que você chama de música periférica?
11:12O Oswaldo Oliveira foi o primeiro a gravar merengue.
11:15Primeiro de todo mundo.
11:17Merengue é a música merengue da República Dominicana,
11:20só que cantada em português.
11:22O que o Pinduca, depois o Vieira e toda essa galera fez,
11:26foi misturar essas influências.
11:28Mas o primeiro a gravar uma música,
11:31a música do merengue, foi o Oswaldo Oliveira.
11:34E até a gente chegar ao brega aí.
11:36Aliás, falando de brega,
11:38existe uma certa briga aí pela paternidade, né?
11:40De quem é o DNA do brega?
11:42Ah, não sei quem, esse estado é o estado do brega.
11:45Nós somos o estado do brega.
11:47E o brega, na verdade, é de quem?
11:49É uma saia justa essa resposta,
11:51essa pergunta, mas vamos lá.
11:53Eu estive em Recife, agora, início do ano, tocando, né?
11:57E fiz uma série de shows no Nordeste,
11:59Recife, João Pessoa e Natal.
12:02Bom, lá em Recife, no período que eu passei,
12:05eu não escutei brega.
12:06O que não significa que não se escute brega.
12:10Mas eu não escutei.
12:11Inclusive, escutei Pinduca na rua,
12:13escutei Aldo Sena, estava tocando.
12:15Mas o brega mesmo, não escutei.
12:18E assim, no meu repertório, eu tenho bregas,
12:20eu coloquei uma música do Reginaldo, que é Recife.
12:23Assim, eu acho que a gente ainda consome mais.
12:27Eu acho que existe uma forma de consumir brega
12:31muito mais vívida aqui em Belém do Pará.
12:34Porque assim, em Belém do Pará,
12:35realmente, você escuta em qualquer canto.
12:37O brega é de Itália, seja o Melody, seja o nosso passado.
12:40O brega já chegou em todos os lugares.
12:42Não tem mais hoje, não tem mais aonde...
12:44É o cancioneiro popular.
12:45Exatamente.
12:46O brega está em todos os lugares.
12:47Desde nas grandes festas,
12:50nas festas mais fechadas,
12:52o brega tem que estar lá.
12:53Como é que você define o brega?
12:54O brega é um cancioneiro popular.
12:56É uma canção que narra o cotidiano do trabalhador.
13:02E eu acho que é por isso também que tem muita aderência,
13:04porque é uma música feita de trabalhador para trabalhador.
13:08Tu pega, por exemplo, o período da galera que estava produzindo aqui na gravação,
13:14que era a gravadora do Carlos Santos.
13:18Já era muita gente que vinha da classe trabalhadora.
13:20E esse cara vai narrar as angústias, amores e desamores,
13:25que é comum à maioria das pessoas.
13:27Eu acho que essa honestidade, ao falar em uma...
13:32Aquela questão da gente se identificar,
13:34acabou que fez com que isso se desenvolvesse.
13:37E se espalhar para cá.
13:39Também o brega tem uma célula rítmica do rock.
13:43Então, acho que ajuda a assimilar mais facilmente.
13:46Eu quero saber também em que momento tu achas que o brega, a música brega,
13:50esse movimento brega, se desligou daquela coisa do sinônimo pergerativo.
13:56Você é brega, então você é cafona, você é fora da moda, você é...
14:01Enfim, não era nada positivo ser brega.
14:04As pessoas, aliás, algumas pessoas se sentiam insultadas por ser chamadas de brega.
14:09Mas de que momento...
14:10Já não vejo isso mais.
14:12Não, não.
14:13Não vejo isso, por exemplo, chamar brega para as pessoas, eu insulto.
14:15Hoje em dia pode até ser um elogio, na verdade.
14:18Em que momento tu acha aí que essa coisa...
14:21É uma resposta longa, porque assim,
14:23se a gente for olhar para Belém do Pará, para cá,
14:28tu pegas onde o brega começou,
14:30o brega de ter aquele...
14:31A grande explosão dos anos 80,
14:34que é o auge da gravação,
14:36Mauro Cota, Luiz Guilherme, né?
14:39Toda essa galera se chamava de brega.
14:43Fora do estado do Pará,
14:46a não ser que...
14:47Ele já se denominava...
14:48Se autodenominava o brega.
14:49Brega.
14:50Não existia aquilo de dar outro nome.
14:53Eu entendo que fora do estado,
14:55existia uma tentativa de sair dessa alcunha.
15:01Porque fora do estado, o brega não é um gênero musical.
15:04Fora do estado, o brega é uma classificação.
15:07São coisas diferentes.
15:08Gênero musical é estrutura e forma da música.
15:11Fora daqui, ele é uma classificação.
15:13Então, as pessoas não queriam fora do estado do Pará
15:16essa classificação de brega.
15:18Mas aqui...
15:19Nós rejeitávamos, nós paraenses...
15:21Nós não, nós nunca rejeitamos.
15:23Entendeu?
15:24Então, eu vejo assim que dentro do que é consumido na periferia,
15:28nunca houve assim, não sou brega.
15:31É isso, sou bregueiro, escuto e tal.
15:33Tinha os bregões,
15:35que eram as festas de aparelhagem dos anos 80.
15:38Acho que nacionalmente, a partir do momento em que a música paraense,
15:43acho que ela tem grande importância nessa aceitação,
15:47quando a música paraense passa a ser mais consumida e melhor entendida,
15:52fora das nossas fronteiras paraenses,
15:56eu acho que se começa a ver essa música de uma outra maneira,
15:59entender que não é ruim,
16:03não é algo de baixa qualidade.
16:07Muito pelo contrário, é só um termo que foi utilizado.
16:11Entendeu?
16:11Aliás, um termo muito utilizado,
16:14teve até novela,
16:15desse contraponto do que...
16:17Breg-chique, né?
16:17Exatamente, bregue-chique.
16:19Então, acho que nesse contraponto,
16:21não sei se posso falar que seja tão extensa assim,
16:24mas talvez no resto do Brasil,
16:25essa denominação ainda cabe,
16:27e tal pessoa é brega.
16:28Para nós, aqui, ser brega é uma coisa que é bacana,
16:30faz parte da nossa cultura.
16:32Mas não acho que isso é um passado recente?
16:34Por exemplo, vejo uma garotada nova indo para a festa,
16:38dançando brega, dançando marcante agora,
16:40que também é uma coisa que se fala muito,
16:42mas já incorporado,
16:44está incorporado na cultura das pessoas,
16:46está incorporado, quer dizer,
16:48saímos dessa coisa do brega ser pejorativo.
16:52É.
16:53Mas volto também,
16:55esse olhar é um olhar que sai daqui para fora,
16:59ele não veio de lá para cá.
17:02Esse olhar de desconstrução do termo,
17:05e associado a um tipo de música,
17:07é uma coisa do paraense,
17:09e que contaminou o resto do país.
17:13Houve esse movimento,
17:14está tendo ainda esse movimento
17:16de tentar transformar a música,
17:19o olhar de que a música aparente também
17:22é música brasileira.
17:23Então, algumas coisas vão se desconstruindo,
17:26principalmente esses termos pejorativos,
17:29que, na verdade, nem cabem.
17:32E eu falo isso porque ainda existe uma resistência
17:35de entender que, por exemplo,
17:36lambada é música popular brasileira,
17:40carimbó também, brega também,
17:42siriar, seja o que for.
17:44É menos essa coisa, por exemplo, da lambada.
17:46Ficou também se na época
17:48que a lambada era um grande sucesso,
17:49Beto Barbosa estourado no Brasil todo,
17:51Beto Barbosa paraense.
17:53Mas depois começou a dizer,
17:54não, mas a lambada é nossa,
17:55nós é que fizemos a lambada.
17:57Sempre tem ali uma certa,
17:59uma disputa ali.
18:01Olha, não sei se tu percebes isso,
18:03mas parece que toda vez
18:06que tem alguma coisa de...
18:07O paraense criou alguma coisa,
18:08vem alguém para dizer que não é.
18:11O brega...
18:11Ah, o brega é uma parada daqui.
18:14Aí tem alguém para dizer que não é.
18:16Aí a lambada daqui.
18:17Tem alguém para dizer que não é.
18:18Porque a lambada persiste, inclusive.
18:22É o nosso maior gênero musical.
18:23É o nosso maior gênero musical?
18:25É, porque olha só,
18:26qual gênero musical paraense
18:28fez sucesso no mundo inteiro?
18:30A lambada.
18:31Não é o carimbó, não é o brega.
18:34Ah, se escuta a brega no Japão.
18:35Não se escuta a brega no Japão,
18:37mas lambada se escuta.
18:38Eu tinha um conhecido,
18:40eu tinha um conhecido
18:41que tinha uma conhecida,
18:42que o marido dela era japonês.
18:45Ele não sabia dançar nada.
18:46Só lambada.
18:48Então, assim,
18:48lambada foi um fenômeno mundial.
18:50Mesmo que teve filme,
18:51teve bandas...
18:51Mas quando fez o Secessão no Brasil,
18:53assim, quando a coisa estourou mesmo no Brasil...
18:55Final dos anos 80, né?
18:55Ali em 88...
18:57Sim, a partir de lá do Beto Barbosa.
18:59E eu e Alberto Barbosa,
19:00o grande cliente.
19:00Exatamente.
19:01Então, começou a aparecer vários grupos,
19:03vários grupos.
19:03Aí, ah, bom,
19:04mas a lambada veio da Bahia,
19:05a lambada veio de Pernambuco.
19:08Começou a aparecer o espalho da lambada, né?
19:10Porque quando o filho cresce e está bonito,
19:12todo mundo quer, né?
19:14Mas a verdade é que é um gênero musical paraense.
19:16O primeiro cara a gravar a lambada
19:18foi o Pinduca, em 76.
19:20Ele falou isso aqui para a gente, né?
19:21É verdade, é verdade.
19:22Assim, a gente tem que trabalhar com fatos, né?
19:27Realidade objetiva.
19:28É o material.
19:30Qual o primeiro registro que tem de lambada?
19:32É de 76, do álbum do Pinduca.
19:34Qual o segundo registro?
19:3578, Mestre Vieira,
19:37com lambadas das quebradas.
19:38Não tem antes disso.
19:39Se alguém tivesse criado isso,
19:41já teria um outro registro,
19:42já teria sido encontrado.
19:43Inclusive, é um termo que é paraense.
19:45Lambada.
19:46Tem vários significados.
19:48Desde aquele que o Haroldo Caraciolo,
19:50que foi um dos grandes radialistas daqui,
19:52colocou associando a lambada
19:53a uma dose de cachaça e música intensa.
19:55Até o próprio termo de lambada,
19:57uma pancada, né?
19:58Que é utilizado também em outros lugares do Brasil.
20:01Mas é o nosso maior gênero musical.
20:04Inclusive, brasileiro,
20:05talvez seja o segundo maior.
20:06Porque se tu fores, sei lá, na Europa,
20:10o que o cara vai falar aqui é brasileiro?
20:12Samba.
20:13Em segundo lugar, a lambada.
20:16Qual seria o outro gênero musical famoso
20:18assim no mundo inteiro?
20:19Acho que depois do samba,
20:20é só a lambada do Brasil, né?
20:21Agora, nessa briga de identidade cultural,
20:23também ninguém ganha da gente, né?
20:25Porque, olha só,
20:25a gente já foi do brega,
20:26depois a gente foi para a lambada,
20:27depois a gente já está no tecno-brega,
20:29depois a gente está no tecno-melody.
20:30Ou seja, quem acompanha
20:32a nossa capacidade de criação,
20:34não é isso?
20:34É uma coisa muito curiosa.
20:38É quase um traço de característica
20:40do povo paraense,
20:41essa criatividade, sabe?
20:43É uma coisa assim,
20:44é um povo muito criativo
20:45que está sempre produzindo muito com pouco.
20:48Eu sempre falo isso.
20:49Falei isso agora,
20:50recentemente,
20:51numa oficina que eu dei no Psica,
20:53que foi justamente sobre imaginário caribenio.
20:56E eu falo que a gente é um povo
20:57que faz muito com pouco.
20:59E com excelência, assim.
21:00A gente dá o melhor
21:02pouco que a gente tem o acesso.
21:04Agora, beleza, tudo bem.
21:05As coisas estão mais conectadas.
21:08Mas há 30 anos atrás,
21:1040 anos atrás,
21:10não era assim.
21:11Era muito difícil.
21:12Pega o Vieira.
21:13O Vieira não tinha guitarra
21:15quando resolveu tocar guitarra.
21:17Ele foi atrás,
21:18entregaram para ele pedaços de guitarra,
21:20ele montou.
21:22Aí pegou o motor de carro,
21:23resolveu fazer o amplificador
21:24para tocar guitarra.
21:26Isso é muito querer fazer alguma coisa.
21:28E, nessa brincadeira,
21:29ele criou um gênero musical
21:31que mudou socialmente,
21:33culturalmente,
21:33Quer dizer que a guitarrada
21:34começa daí.
21:36A guitarrada deriva da lambada.
21:39Porque, assim,
21:41ocorreu uma construção moderna
21:43do termo guitarrada.
21:45A partir de 2001,
21:46com o Pio Lobato,
21:47a guitarrada foi entendida
21:49quanto gênero musical.
21:50Antes de 2001,
21:52a guitarrada era o nome
21:53de uma série de discos
21:55da Grava-Som,
21:56do Carlos Santos,
21:57que eram as lambadas
21:58instrumentais na guitarra.
22:00Então, o nome era
22:01guitarradas.
22:02E, se eu não me engano,
22:03o subtítulo era
22:07lambadas de guitarra.
22:09Ou seja,
22:10se entendia que a guitarrada
22:11era uma lambada instrumental.
22:12Era uma brincadeira com o nome.
22:14Chega a ser?
22:14É.
22:15Chega a ser.
22:16Sabe?
22:17Então, assim,
22:18ela tem essa origem
22:20instrumental,
22:20só que hoje nós dividimos.
22:22Então,
22:23também,
22:24a pessoa que toca
22:24a lambada instrumental
22:25toca a guitarrada.
22:28A gente pode,
22:29hoje,
22:29dizer que são duas coisas diferentes?
22:31Talvez sim,
22:32porque aí houve
22:33outras especificações
22:35que se criou
22:36depois dessa
22:38nova conceituação,
22:39mas na origem
22:40é a mesma coisa.
22:41Você está fazendo
22:42um trabalho teórico,
22:43claro,
22:43nesse teu mestrado
22:44de pesquisa e tudo mais,
22:45mas você vê,
22:46por exemplo,
22:46o interesse
22:47na academia
22:49nessa coisa,
22:50nesse gênero
22:51que a gente pode dizer
22:51periférico,
22:52popular?
22:54Eu acho que existe
22:55esse interesse,
22:56mas não é ainda
22:57um interesse robusto.
22:59É um interesse
23:00que ele está
23:03desgerminando,
23:04já vê mais coisas
23:05do que,
23:05por exemplo,
23:06na época que eu entrei
23:07na universidade,
23:08eu entrei na UEPA
23:09em 2009,
23:11se eu não me engano.
23:12Eu entrei bem novo,
23:13entrei com 17 anos.
23:13Você é formado em quê?
23:14Em música?
23:15Em música,
23:15música pela UEPA.
23:16Formar em música
23:17quer dizer que também
23:17você era músico,
23:20toca o instrumento.
23:21Mas assim,
23:22a minha formação
23:22é licenciatura plena em música.
23:23Ela não me garante
23:25ser um instrumentista.
23:26Eu sou instrumentista
23:27antes da universidade,
23:28porque eu já estudava
23:29o instrumento de guitarra,
23:30já estava dando aula
23:30com 16 anos,
23:3217 anos
23:32e estava dando aula
23:33de guitarra.
23:33Sempre tocaste guitarra?
23:34Sempre toquei guitarra.
23:35E o teu interesse também
23:36sempre foi pela música popular?
23:38Sim.
23:39Quando foste lá
23:39para os grandes guitarristas?
23:40Foste para o rock.
23:41Não tem como não escutar
23:42os grandes guitarristas de rock.
23:43Não tem como tocar guitarra
23:44e não escutar rock.
23:45Não conheceu rock?
23:46Não tem,
23:46é um instrumento muito associado.
23:48Eu escutava muito MTV também,
23:51sempre gostei muito de brega,
23:52mas escutava muito MTV também.
23:54Tinha rock
23:55de todos os tipos
23:56de gosto, inclusive.
23:58Mas eu sempre quis misturar.
24:01Eu sempre quis...
24:02Eu lembro, assim,
24:03quando surgiu
24:04Mestres da Guitarrada,
24:06eu queria ali
24:07pegar a guitarrada
24:08e misturar com distorção
24:09para ver no que dava, sabe?
24:11Ficava escutando Curica.
24:13Lembro de escutar muito
24:13Aldo Senna.
24:14Sali por 2005,
24:16sabe?
24:18Então,
24:19tinha muito essa relação
24:20de querer fazer essa mistura
24:22porque, para mim,
24:22era algo muito natural.
24:23Cheguei em apresentações
24:24de guitarra,
24:25tocar carimbó.
24:27Então, assim,
24:28sempre esteve lá.
24:28Mas, quando entrei na universidade,
24:30eu falei,
24:31não, vou agora
24:32me dedicar
24:32a estudar um pouco
24:34essa musicalidade paraense.
24:36Aí, na época,
24:36eu queria fazer um TCC
24:37que era guitarra e carimbó.
24:40Só que aí,
24:40meu orientador da época
24:41saiu da universidade
24:43e aí eu fui fazer...
24:45O meu TCC foi
24:46a guitarra elétrica
24:47no repertório clássico tradicional,
24:48que era uma outra coisa,
24:50guitarra na música de câmara.
24:53Quando eu saio da UEPA,
24:55termino a graduação,
24:56eu vou
24:58e participo do Paracaribe,
25:00que era um projeto
25:00da Casa das Artes,
25:02liderado pela Iva Roth,
25:04e grande amiga minha.
25:06O projeto acabou, né?
25:07Acabou, infelizmente.
25:08Acabou em 2017.
25:11E, em 2017...
25:13Em 2019,
25:14eu entro para o GEMAN,
25:15que é o Grupo de Estudos Musicais
25:16da Amazônia,
25:16da UEPA também,
25:17sempre na UEPA,
25:18que é um grupo
25:20para estudar
25:20essa música paraense
25:22com influência caribenha.
25:24Mas o que eu quero dizer
25:25com isso é que,
25:26apesar de ter esse grupo,
25:27apesar de terem pessoas,
25:28existirem pessoas ali
25:29querendo desenvolver mais isso,
25:31ainda é algo que está começando.
25:35Não é algo
25:37total, assim,
25:38que tu possa dizer.
25:39Que a gente consiga identificar,
25:41por exemplo,
25:41hoje em dia,
25:41você vai numa festa,
25:43por exemplo,
25:43você toca numa poema,
25:44tem um dia lá que
25:45e você der dos...
25:46É, eu tenho...
25:47Tem o seu grupo, não é?
25:48Exatamente,
25:49que eu faço a festa
25:49Noites de Lambada,
25:51que é uma festa temática
25:52na Casa Poena,
25:53na Cidade Velha.
25:54Que é que dia?
25:56Geralmente,
25:56às sextas.
25:56Não tem uma data fixa,
25:59mas ela ocorre
26:00todo mês quinzenalmente.
26:02Na Casa Poena?
26:03Na Casa Poena,
26:04todas as sextas.
26:04É um sucesso,
26:05eu sei disso, não é?
26:06É, dá bastante jeito.
26:07Mas você identifica,
26:08por exemplo,
26:09o que é exatamente
26:12uma marcante?
26:14Consegue se identificar como?
26:16Pelo ritmo,
26:16pela maneira que dança?
26:18A classificação é essa.
26:20Olha aí.
26:22Passadão.
26:23É o brega dos anos 80.
26:25Mauro Cota,
26:25Luiz Guilherme,
26:26Ted Max,
26:27Magno.
26:28Aliás,
26:28outro dia me falaram
26:29esse tema,
26:30eu fiquei impressionado,
26:31é maravilhoso, né?
26:32Ou saudade,
26:33ou saudade.
26:34Passadão é muito bom,
26:35já é uma coisa
26:36que a gente criou, né?
26:37É.
26:37Que é o primeiro brega,
26:39a primeira geração.
26:40Seria o flashback
26:41para o pessoal
26:42do tempo da discoteca.
26:44Seria tipo o flashback.
26:45Aham.
26:46Mas tem o flashbrega.
26:47Ah, tem o flashbrega.
26:48O que é o flashbrega?
26:50São aquelas músicas
26:51anteriores aos anos 80,
26:52mas que não são
26:53necessariamente bregas,
26:54tipo o Jerry Adriani.
26:56O Jerry Adriani,
26:56ele não é brega,
26:58mas ele é tocado
26:59nos bailes da saudade.
27:00Então,
27:00por ele não ser brega,
27:02por ele não ser brega,
27:03mas ser considerado,
27:04por ter a mesma batida,
27:06pelo que eu te falei,
27:06que o rock
27:07tem a célula rítmica
27:08lá no brega,
27:09então ele é considerado
27:10um flashbrega.
27:11Olha.
27:12Jovem guarda,
27:13flashbrega.
27:14Então,
27:14tu tens o flashbrega,
27:15tu tens o Passadão
27:16ou Saudade,
27:17nos anos 80.
27:18Nos anos 90,
27:19tu tem o brega pop,
27:20eles não classificam assim,
27:21eu chamo de bregão também,
27:22eu já vi,
27:23que é aquele brega
27:24do Roberto Vilar,
27:25do Wanderlei Andrade.
27:27Aí,
27:27tu chega no Tecno Melody
27:28e no Tecno Brega.
27:30Aí,
27:30é marcante.
27:31O que que identifica
27:32o Tecno Melody?
27:33É a batida,
27:34ou é o uso do eletrônico,
27:36uma batida rápida.
27:38É rápido,
27:39ele é eletrônico,
27:40ele é praticamente
27:41todo digital.
27:43Pois é,
27:43porque tem essa coisa
27:44da construção desse gênero,
27:46tudo numa ilha de edição,
27:48na verdade.
27:49É,
27:49no computador mesmo,
27:50no Frutilups ali.
27:51Ele é uma derivação
27:52do Tecno Brega.
27:55O Tecno Brega
27:56ainda tinha muita coisa orgânica,
27:57mas chega o Melody,
27:58o Melody,
27:58ele vai ao extremo,
28:01assim,
28:01do eletrônico mesmo.
28:03Aí,
28:03depois,
28:03tu tem o eletromelody,
28:06que é a gangue do eletro.
28:08Depois,
28:08tu tens o Tecno Funk,
28:09que é o DJ Lohan.
28:11Mas aí,
28:11nesse meio,
28:11tu tem o Cyber Tecno Brega,
28:13que é uma coisa
28:14mais experimental.
28:15Então,
28:15assim,
28:15é muita coisa acontecendo.
28:17É muita coisa,
28:18assim,
28:18tipo,
28:19e é uma música
28:19que ela não para
28:20de se transformar.
28:20Agora,
28:21a gente tem o Rock Doido,
28:22que é o Rock Doido.
28:23Eu sempre falo
28:24que ele é um movimento cultural,
28:25não é uma música.
28:27O Rock Doido?
28:28É,
28:28eu não vejo que é uma música.
28:28Falado pela Gabi agora,
28:30não.
28:30É,
28:31a Gabi gravou um álbum
28:32em cima de um termo
28:34que era utilizado,
28:34que era o Rock Doido.
28:35Já existia nas aparelhagens.
28:37Já existia
28:37nas aparelhagens
28:38esse termo.
28:39E o que é o Rock Doido?
28:41Pois é,
28:42eu entendo como
28:42um movimento cultural.
28:46Não uma música.
28:48Não uma música,
28:49mas também tem música.
28:50Porque o movimento cultural
28:51tem várias coisas.
28:52Ele tem estética,
28:54ele tem moda,
28:55ele tem dança,
28:57tudo ali.
28:58Então,
28:59o que é um Rock Doido?
29:00É quando tu vai
29:01para uma festa
29:02que tem aqueles fogos,
29:03uma música eletrônica
29:03super acelerada
29:04de tecnobrega
29:06ou de melody
29:07e que as pessoas
29:08têm uma vestimenta,
29:09elas dançam
29:10de uma maneira específica
29:11e isso eu entendo
29:12como um Rock Doido.
29:13E isso,
29:13na verdade,
29:14ela traz isso com ela,
29:15na construção
29:15da imagem dela.
29:16A imagética dela
29:17é toda em cima,
29:18principalmente atual.
29:20Outra coisa,
29:20por exemplo,
29:20falando da Gabi
29:21tem a história do Foguinho,
29:23que ela canta
29:23do Foguinho,
29:24que é uma versão
29:25e isso tem muito.
29:27Sim,
29:27característica também.
29:28Várias músicas,
29:29exatamente.
29:29Já vi música
29:30do Coldplay.
29:32É muito bom.
29:32Como é que é feito isso?
29:34Olha,
29:35acho que no caso
29:36da Gabi,
29:37ela deve ter pedido
29:38os direitos autorais,
29:40a licença
29:40para utilizar a música,
29:41porque senão
29:42nem conseguiria subir
29:43para o Spotify.
29:44Mas lá na raiz
29:45do Tecnobrega,
29:46a galera só fazia.
29:48Ah, gostei dessa música,
29:50vou fazer uma versão
29:51em cima,
29:51vou jogar no YouTube.
29:53A galera do Brega
29:54é tão, assim,
29:57criativa,
29:58fora,
29:58à frente do tempo,
30:00que eu lembro
30:01lá na época
30:03da escola
30:03que tu baixavas
30:05um aplicativo
30:06que era um aplicativo
30:08das rádios,
30:09assim,
30:10rádios online
30:11de Tecnobrega.
30:12Tocava o dia inteiro,
30:13assim,
30:13Tecnobrega e Melody,
30:15antes do Spotify.
30:16Entendeu?
30:17Seria o primeiro aplicativo
30:18de streaming,
30:19assim, já.
30:19A galera já fazia aqui,
30:21porque como eles
30:21não conseguiriam lançar
30:22um CD
30:23por causa do direito autoral,
30:25ficava no circuito deles.
30:27pendrive,
30:27CD pirata,
30:29tu vai ouvir
30:30na aparelhagem,
30:31tu vai ouvir
30:31em certas rádios
30:32que tocavam
30:33essa música.
30:34E, nesses locais,
30:36ali, já no início,
30:38né, de tudo isso,
30:39tocando ali no celular,
30:40no computador,
30:41né, aí tu entrava
30:42no site,
30:43tocava,
30:43tu escutava as músicas.
30:45Então, assim,
30:46são umas sacadas,
30:47assim,
30:48que tu pensa assim,
30:49pô,
30:49é uma galera
30:50meio à frente do tempo.
30:51Não, e uma outra coisa
30:51também que eu percebo
30:53é que tem muita gente,
30:54né, nesse movimento.
30:55Tem gente que,
30:56se acha capaz,
30:57claro,
30:58e pode fazer,
30:59fazer uma música,
31:00vou gravar uma música,
31:01né?
31:01Sim.
31:02E aí faz essas,
31:03essas,
31:04pega aí,
31:05faz essas composições,
31:06tudo mais,
31:07em cima daquilo
31:07que já existe,
31:08tudo mais,
31:09e tá aí, né,
31:09no mercado,
31:10não tem muito isso.
31:11É, tem.
31:11Claro que a gente
31:11sempre acaba vendo
31:12aqueles que já,
31:13já tem um certo nome,
31:15já tem um certo sucesso,
31:16não?
31:16É porque eu acho também
31:17que esse lance
31:19das versões
31:20virou um demarcador estético.
31:22Faz parte da estética,
31:24da construção
31:26do Tecnobrego,
31:27do Melo,
31:27de ter versões,
31:28não ser somente versões.
31:31A versão faz parte.
31:34Então, assim,
31:36eu, por exemplo,
31:37quando a Gabi,
31:37ela faz essa versão,
31:38né,
31:39chamada Fuguinho,
31:41com certeza foi uma escolha
31:42estética.
31:44Eu não vejo a Gabi
31:45simplesmente,
31:48pô,
31:48tô sem repertório,
31:49vou fazer uma versão.
31:50Não,
31:50foi uma escolha
31:52intencional ali,
31:52não,
31:52a gente vai ter essa música
31:54que vai ser uma versão
31:55e ela vai funcionar,
31:56ela tem um feeling,
31:57ela é frequentadora
31:58desses espaços
32:00e fez,
32:01e funcionou,
32:02virou sucesso, né?
32:04Assim,
32:05sei lá,
32:06mais de um milhão
32:06de streamers.
32:08Então, assim,
32:09vira uma característica,
32:10né,
32:10e é um
32:12daquelas coisas
32:13que nós temos
32:13em comum
32:14com outros povos latinos,
32:15nos povos caribenes,
32:16eles também fazem
32:17muita versão.
32:17Lá na Jamaica
32:18fazem versão de reggae
32:20pra tudo,
32:21sabe?
32:21Na Colômbia
32:22fazem versão em cúmbia.
32:24Então, assim,
32:24é uma característica
32:25desse povo latino-americano,
32:28né?
32:28A gente tá muito conectado,
32:29nós temos muitas similaridades,
32:31primeiro por sermos
32:32latino-americanos,
32:33mas também por a gente
32:34ter essa conexão
32:35meio,
32:35muito clara,
32:37assim,
32:37a gente não esconde
32:38que tá conectado.
32:39É.
32:41E o Brega,
32:42tu vê que ele tem
32:43principalmente o mercado
32:45das aparelhagens
32:45é um mercado independente,
32:47né,
32:47que ele se sustenta
32:50independente
32:51de qualquer coisa.
32:51Ele não precisa
32:52de um mercado mainstream,
32:54né,
32:54ele é autogerido.
32:55O mercado do Brega.
32:57É, o mercado do Brega,
32:59das aparelhagens,
33:00assim,
33:01não sei se tu já furte
33:02pra uma festa
33:02de aparelhagem,
33:03mas é uma,
33:04tu vê ali que é uma festa
33:05de paraense
33:05pra paraense.
33:07E se o cara
33:08não tiver
33:09nessa,
33:12nessa frequência,
33:13ele não vai entender
33:13aquela festa.
33:14Porque vai tocar Brega,
33:15vai tocar a música
33:16do Caribe,
33:17vai tocar rock doido,
33:18o que a gente chama
33:19de rock doido,
33:20toda aquela,
33:21que estão,
33:22aquela profusão
33:23de informação.
33:25Então,
33:26vai ser tocado
33:27tudo ali,
33:28mas um paraense
33:29não tem essa referência.
33:31O cara que é de fora
33:32já vai ter dificuldade.
33:33E eu vejo também
33:34esses movimentos
33:35consolidados, né,
33:36porque o que a gente
33:36pensa,
33:37eu pelo menos
33:39teorizando um pouco
33:40lá no passado recente,
33:41a gente escutava
33:42esse tipo de música,
33:43isso é passageiro, né?
33:45Assim,
33:45como eu vi,
33:46nasceu o funk,
33:48carioca,
33:49e o funk carioca
33:50era passageiro,
33:50o carioca está aí
33:51em tudo quanto é lugar, né?
33:53Então,
33:54voltando assim
33:54para a nossa música,
33:55para a nossa música,
33:56eu acho que o interessante
33:57é como as coisas
33:58vão se misturando,
34:00vão se juntando
34:01e vão criando
34:01novas coisas,
34:02ou seja,
34:02já se criou o Marcante,
34:03já se criou o Tecno Melo,
34:04já se criou o Tecno Biz,
34:05já se criou o Rock Doido.
34:07E vai...
34:08Essa junção, assim,
34:09só faz crescer
34:12uma identidade
34:13que é nossa, né?
34:14E, assim,
34:16provavelmente daqui
34:17para o fim do ano
34:17vai ter uma coisa
34:18diferente de novo,
34:20sabe?
34:20É selado,
34:21sempre tem,
34:21sempre tem uma inovação,
34:23um novo nome,
34:24uma nova alcunha,
34:26e é esse barato
34:27da cultura
34:28e da música periférica,
34:30né?
34:30Que é popular.
34:31Ela está sempre
34:32em transformação,
34:33ela não para,
34:34ela está em movimento
34:35e esse movimento
34:36faz com que ela
34:37sempre se desenvolva.
34:37é por isso que eu não sou
34:39um cara muito apegado
34:42a essa tradição,
34:43sabe?
34:44Por exemplo,
34:44ah, o carimbó
34:45precisa ser tocado
34:46desta forma?
34:47Não!
34:47Ele pode ser tocado
34:48de qualquer forma,
34:49a lambada.
34:49Até porque a arte está viva,
34:50a arte sempre é viva, né?
34:52Aí a gente vai...
34:53A gente entra na questão
34:54mesmo da estética,
34:55da ciência do belo,
34:58aí a gente vai embora,
34:59porque aí que realmente
35:01não se sustenta
35:02esse tipo de pensamento.
35:03E principalmente o artista,
35:05o artista não pode estar
35:07muito preso
35:08nessas amarras.
35:09Ah, não,
35:09uma receitinha de bolo,
35:11eu tenho que fazer
35:11dessa forma assim,
35:12assim, assado, né?
35:13Não rola,
35:14não acontece,
35:15não dá.
35:16Eu acho também
35:17que tem uma coisa
35:17de fronteira, né?
35:19Eu acho que a gente,
35:20na verdade,
35:21marca a nossa identidade
35:22e eu tenho visto isso
35:23também por acompanhar
35:25ou por ler
35:26coisas sobre,
35:27que esse movimento,
35:28na verdade,
35:29ele é nosso, né?
35:30E ele já existe
35:30há certo tempo, né?
35:31E a gente identifica ele,
35:33a gente está centrado aqui, né?
35:34Que é isso, né?
35:35Eu acho que é o que
35:36nos identifica.
35:37Primeiro que eu acho assim,
35:38tem uma coisa de,
35:39eu não sinto mais vergonha
35:41de ir para uma festa
35:42de brega,
35:44de ir de uma festa
35:45que só toque
35:47tecnomelody.
35:48Eu acho que a gente,
35:49nós,
35:50paraenses,
35:51nós,
35:51consumidores,
35:52já não temos mais isso, né?
35:54Isso é muito importante, né?
35:56É assim,
35:56eu acho que
35:58a gente também
35:59fez as pazes, né?
36:01Enquanto o povo,
36:02consigo mesmo, né?
36:03É claro que
36:04essa baixa autoestima
36:07que era muito flagrante aqui,
36:08eu acho que vem também
36:09de uma questão
36:10de um isolamento
36:11sociopolítico-econômico,
36:13geográfico,
36:15social também.
36:18Somos uma região
36:19que por muito tempo
36:20foi colocada de lado.
36:26Até voltar...
36:27Até tirarem a tampa
36:28e o negócio apareceu, né?
36:29Então, assim,
36:31escutando que aqui
36:32é uma terra
36:33que não tem cultura boa,
36:35gente burra,
36:36etc, etc, etc,
36:37aquele imaginário
36:38que existia
36:39no século XX
36:40do inferno verde.
36:42Então...
36:43Se não,
36:43só de consumir
36:45o que era feito
36:45lá fora,
36:46porque consumir isso
36:48me dá um certo...
36:51uma identidade
36:52refinada,
36:53na verdade.
36:53É que,
36:54assim,
36:56volto a falar,
36:56se a gente vai
36:56para a teoria,
36:57falar do conceito
37:00estético mesmo,
37:01não se sustenta.
37:03Porque tem um autor
37:05que eu gosto muito
37:05que é o Bourdieu,
37:06ele diz que não existe
37:09cultura boa,
37:10cultura ruim.
37:12Ele diz que toda vez
37:13que se utiliza
37:14esse estereótipo,
37:16essa classificação,
37:17é para alguma forma
37:19de domínio
37:20de gente
37:21que está no poder
37:22e quer
37:23deixar de lado
37:25uma certa classe.
37:26não tem como
37:29você mensurar
37:30qualidade em arte,
37:31porque é algo
37:32muito subjetivo.
37:34É referencial estético,
37:36principalmente,
37:37são experiências sociais,
37:39são contextos
37:41que você está inserido,
37:43é algo muito grande,
37:45muito plural,
37:46não dá.
37:48Partindo disso,
37:49a gente entende
37:50que começou a entender
37:51que o que a gente faz
37:52esculturalmente,
37:53na verdade,
37:54não é estranho,
37:54é um demarcador
37:56identitário.
37:57É o que nos modifica,
37:59o que nos determina
38:01e separa no mundo.
38:04Aí,
38:04a gente pode ir novamente
38:05para a teoria,
38:06vai lá e fala,
38:07quando surge a globalização,
38:09você vai ter um processo
38:11onde vai tentar
38:13se criar
38:14uma identidade hegemônica
38:16para todo mundo,
38:17onde todos vão ser
38:19meio parecidos.
38:19e aí,
38:20com essa criação
38:21dessa identidade hegemônica,
38:22você tem o surgimento
38:23das identidades regionais,
38:25que é justamente
38:25uma forma de
38:27não tentar se parear
38:28com o que está
38:29no resto do planeta.
38:30Não,
38:30aqui é diferente,
38:31porque é uma necessidade
38:33de identidade.
38:34O que acontece aqui no Pará?
38:36Meio que a gente passou
38:37por um,
38:40como posso dizer,
38:42um processo antropofágico
38:44inloco,
38:45quase uma antropofagia
38:47a Paraguara,
38:47que a gente começou
38:48a se consumir,
38:49se entender,
38:50nós somos descendentes
38:51dos topinambás
38:52e de povos africanos
38:55e também de europeus
38:56e tudo isso
38:57dá esse molho
38:58que a gente tem
38:59e que nos difere.
39:00Eu acho que hoje em dia
39:01a gente,
39:01eu vejo isso muito claro,
39:03que a gente tenta mostrar
39:04que não somos diferentes.
39:06Pertencemos a esse mesmo país,
39:09mas é diferente.
39:11Temos uma coisa diferente.
39:12Eu já ouvi falar
39:13que nós somos
39:13a última fronteira
39:14que vai ser desbravada
39:15nessa área de novidades
39:18em termos musicais.
39:20Não duvido.
39:21Eu vejo que eu tenho
39:22te acompanhado
39:23e tenho visto
39:23que tu tens feito palestra,
39:25falaste agora do Psica,
39:27quer dizer,
39:28tu tens uma teoria
39:29sobre tudo isso,
39:30entendeu?
39:30Não sobre tudo isso.
39:32Não, mas eu digo
39:33do movimento.
39:34Tu estás pesquisando,
39:35tu estás fazendo mestrado,
39:37então tu consegues teorizar
39:38de uma forma mais acadêmica
39:40tudo isso que tu pensas.
39:41Mas tu acha que
39:41esse interesse é teu
39:42ou isso existe
39:44de uma forma maior?
39:45Então,
39:46pegando por um reflexo
39:48das redes sociais,
39:49que a gente não tem como
39:50não estar inserido
39:51hoje em dia nelas,
39:53me parece sim
39:53um interesse popular.
39:56As pessoas querem saber
39:58sobre sua cultura,
39:59porque saber sobre sua cultura
40:00é saber quem você é.
40:02Sim.
40:03E aí a gente vai
40:04para o Vicente Salles,
40:04o Vicente Salles diz
40:05que um povo que não conhece
40:07a sua história
40:07não tem pelo que lutar.
40:09Então, assim,
40:10eu vejo
40:11que existe uma demanda
40:13muito grande
40:14pelos vídeos que eu posto
40:15de pessoas, assim,
40:17que tu vê que não estão
40:18nem dentro da área
40:19da arte,
40:20da música,
40:21são pessoas, assim,
40:23que têm seu trabalho
40:24para além de qualquer
40:26outro seio artístico,
40:27uma profissão laboral mesmo ali.
40:30E muita gente
40:31entra em contato,
40:32no TikTok também
40:33eu vejo isso,
40:34no TikTok eu vejo
40:35uma coisa mais,
40:36é mais até aflorada
40:38do que no Instagram.
40:40de pessoas que falam
40:42pô, isso daí
40:42foi minha infância
40:43e tu entende
40:44a memória afetiva
40:45que está relacionada ali.
40:46Isso reflete
40:47nas pessoas
40:48que vão na minha festa,
40:51elas vão lá
40:52e falam
40:52pô, vi pelo teu conteúdo
40:53que tu fizeste
40:54e tudo mais.
40:55Então é um momento
40:56que as pessoas
40:57estão se conectando.
40:57Eu acho que sim,
40:58acho que é uma demanda popular.
41:00As pessoas querem saber disso,
41:01mas elas querem saber
41:02de uma forma acessível.
41:03Então, se tu fores
41:04ver um vídeo meu,
41:05eu nunca falo
41:06de uma maneira
41:07muito técnica.
41:07É sempre uma coisa
41:09muito papum.
41:10Não, então eu percebo
41:12que tu tens também
41:13uma, tu tens uma,
41:16tu queres na verdade
41:17mostrar essa tal da teoria
41:19que talvez a palavra
41:20seja muito pesada
41:22para isso,
41:22mas tu queres dar
41:23uma explicação para aquilo,
41:24tu quer fazer
41:25com que aquilo
41:25seja entendido
41:27pelas pessoas.
41:27É o mais fácil possível.
41:28Sim.
41:28Corte rápido,
41:30tem muito,
41:31não tem muita firula
41:33meus vídeos,
41:33é corte, corte, corte,
41:35corte informação,
41:35corte informação,
41:36corte um vídeo no meio,
41:37em Ciro.
41:39E não tem,
41:39porque a mensagem
41:40precisa ser direta.
41:41O grande desafio
41:42é tu conseguir falar
41:43algo relevante
41:44em dois minutos
41:45do Rios ali.
41:46Agora o Rios
41:47deve ter mais tempo,
41:48mas é pouquíssimo tempo.
41:49Pouco tempo.
41:50E as pessoas
41:51não querem ficar
41:53tanto tempo ali,
41:53então tu tens
41:54que ser muito dinâmico,
41:56falar o que tu tens
41:57que falar
41:58de forma muito direta,
41:59não adianta,
42:00eu abri um grande parênteses,
42:02sabe,
42:02eu vou falar aqui,
42:04Michel dissertou
42:05e tudo mais,
42:07não adianta.
42:08E não é,
42:09tem um professor lá na UEPA
42:11que ele fala isso,
42:12ele fala assim,
42:13quando vocês escreverem artigos
42:14vocês precisam ser básicos,
42:17falem o que vocês têm que falar,
42:19não tenham rodeio,
42:20não precisa de uma linguagem
42:21super técnica.
42:22E assim,
42:24eu,
42:24eu venho do Guamá,
42:26sou de origem periférica,
42:28moro na Cremação,
42:29que é um bairro de periferia,
42:30então assim,
42:31eu sempre estive em contato
42:34com essa linguagem
42:35assim,
42:36mais fácil,
42:37sabe,
42:38eu tive acesso
42:38à leitura,
42:41tive acesso
42:42à escola particular,
42:44mas assim,
42:45ainda inserido
42:46dentro de um contexto
42:47periférico,
42:48então eu entendo
42:49que a comunicação
42:50ela precisa ser
42:51direta,
42:52porque assim,
42:53às vezes o repertório
42:54que eu tenho
42:55não necessariamente
42:56é o que a outra pessoa tem,
42:57o que não significa
42:58que ela não vai entender
42:59o que eu estou dizendo,
43:00são duas coisas diferentes,
43:02ela pode exatamente
43:03entender essa teoria
43:04que é complexa,
43:05basta eu falar
43:06na linguagem dela
43:08e ela vai entender,
43:10então ali no vídeo,
43:11nos vídeos,
43:11a ideia é justamente
43:14ter essa linguagem
43:15rápida,
43:15básica,
43:16direta,
43:17olha,
43:18merengue é música caribenha,
43:19ponto.
43:21Acabou,
43:22essa é a informação
43:23que a pessoa tem que aprender,
43:24a cúmbia é da Colômbia,
43:26a gente toca ela aqui
43:27com a guitarrada,
43:28pronto,
43:28tu informou,
43:28a pessoa já vai saber,
43:30sabe,
43:30porque precisa ter
43:31essa dinâmica
43:31e há um reflexo
43:32para mim,
43:34profissionalmente
43:34em várias áreas,
43:36nos cursos,
43:37nos workshops
43:37que eu faço online,
43:38muita gente,
43:39principalmente gente
43:39de fora do estado,
43:41nas oficinas
43:42que eu fiz aqui
43:43com o Psica,
43:44fiz uma em Castanhal
43:45no Festival Ciclos
43:46da Inês,
43:48teve uma boa demanda
43:49de pessoas,
43:50interesses,
43:52então assim,
43:52sempre tem gente
43:53indo atrás,
43:53hoje entrou em contato
43:54comigo um rapaz
43:55que ele estava fazendo
43:57curso de música
43:57da UEP,
43:58acho que lá em Vigia,
43:59e o tema dele
44:00vai ser sobre guitarrada,
44:01aí ele pediu uma ajuda,
44:02ele falou,
44:03pô,
44:03bora manter contato,
44:04eu vou te passando
44:05algumas coisas
44:05que tu podes aprender,
44:06porque é isso,
44:07precisa ser uma coisa
44:08muito dinâmica
44:09e ao mesmo tempo
44:10vendo que existe
44:11um interesse
44:12para trás disso.
44:12E acessível também,
44:13né?
44:14Se não for acessível,
44:15não rola.
44:16Fala do Lambada Social Club,
44:18que eu já vi tocar
44:19no meio da praça,
44:20coloca para ferver,
44:21não é?
44:22É,
44:22o Lambada
44:23é uma banda
44:23autoral
44:25com o próprio...
44:25O nome é sensacional,
44:27Lambada Social Club.
44:28É um trocadilho ali
44:29com o Buena Vista,
44:30né?
44:30do Buena Vista.
44:31É uma banda autoral
44:32de Lambada,
44:33surgiu em 2023,
44:35a princípio ela surge...
44:37Você compõe também?
44:38Compõe,
44:39compõe,
44:39sou compositor também.
44:41Ela surge a princípio
44:43para ser a banda
44:44que ia tocar
44:45no nosso evento,
44:46que é a Roda de Lambada,
44:47que é esse evento
44:47feito na rua.
44:48E aí a gente falou,
44:49pô,
44:49bora formar essa banda
44:50para tocar isso.
44:51Então meio que o evento
44:52surge junto com a banda.
44:53Só que a demanda aumentou,
44:55o público aumentou,
44:57e aí a gente lançou
44:58um single,
44:59fomos para a Casa Poena
45:00fazer uma festa
45:01temática lá,
45:03que aí depois
45:03a grande demanda
45:05passou a ser quinzenal.
45:07A gente fazia uma vez
45:08no mês,
45:09só que a festa lotava,
45:11abarrotava de gente.
45:12Aliás,
45:12a Poena ali
45:13é um espaço
45:14que ele...
45:15O Anderson e a Paulinha,
45:16eles são...
45:16Quem chega em Belém
45:17já pergunta pela Casa Poena,
45:19já sabe que ali
45:20vai ouvir música
45:21feita no Pará,
45:22música paraense.
45:23uma gastronomia muito boa,
45:25assim,
45:25um ambiente muito bem pensado.
45:28São pessoas...
45:29O Anderson e a Paulinha
45:29são duas pessoas
45:30que têm grande amor
45:33pela cultura paraense
45:34e pela arte paraense.
45:36Eles são entusiastas mesmo.
45:38Então, assim,
45:39não tem como não dar certo.
45:41Sabe?
45:41É algo muito genuíno
45:43que eles fazem ali.
45:45e sempre estou agradecido
45:47porque eles me deram espaço,
45:48né?
45:48A banda,
45:49quando estava surgindo ali,
45:50precisava de espaço
45:51e eles deram esse espaço.
45:53Então,
45:53lá nessa festa,
45:54a gente tem um concurso
45:55de merengue
45:56que eu promovo.
45:57Então,
45:57vamos merengueiros.
45:58Agora vai ter,
45:59dia 11,
45:59vai ter uma festa agora.
46:00Tem a noite do Félix lá também,
46:01Tem a noite do Félix
46:02que é aqui na Duque,
46:03né?
46:03Que ele faz a lua bateria.
46:03Já no Outra Poena,
46:04né?
46:04Que são dois.
46:05Ele faz na Duque
46:06e eu faço na Cidade Velha,
46:08na Casa Poena.
46:11E rola tudo isso,
46:13todo esse imaginário
46:14da região,
46:15a gente tenta colocar
46:15nessa festa temática.
46:17Então,
46:17uma festa de lambada,
46:18com música caribene,
46:20vai ter concurso de merengue,
46:21tem um DJ.
46:21Você já esteve no México agora,
46:23né?
46:23Você chegou lá no México?
46:24Tocou lá no México?
46:25Tocou no México.
46:25Tocou o quê?
46:26Lambada?
46:27Tocou na lambada.
46:28Eu fui com outro projeto meu.
46:29O que era, na verdade?
46:31Festival Cervantino,
46:32um dos maiores festivais
46:34artísticos do mundo, né?
46:35Ou seja,
46:35um festival que não é só musical.
46:38Tem cinema,
46:38tem teatro,
46:39tem literatura.
46:40Isso na Cidade do México?
46:42Guanajuato.
46:43É uma cidade histórica
46:44dentro do estado
46:45de Guanajuato.
46:46E os shows,
46:48eles acontecem
46:49na Alôndiga de Granaditas,
46:52que é onde aconteceu.
46:53Você foi com o pessoal
46:54do Lambada?
46:54Não,
46:55fui com a Nhangá.
46:56Com o pessoal do...
46:57Que é um outro projeto meu,
46:58só que de tecno-guitarrada,
46:59uma guitarrada eletrônica,
47:00experimental.
47:02E aí toquei lá.
47:03O nome é sensacional,
47:04né?
47:04A Nhangá, né?
47:05A Nhangá.
47:07E...
47:07Aí cada noite é um show.
47:10Não são vários shows.
47:12É um show por noite.
47:13Aí teve um dia que nós fomos
47:14os convidados de honra
47:15porque era o ano
47:16que estava sendo o Brasil
47:18homenageado.
47:19Então nós tocamos lá
47:20com mais de duas mil pessoas.
47:22Foi uma recepção
47:23muito bacana da galera.
47:25E aí toquei o disco, né?
47:27O disco homônimo
47:28chamado A Nhangá.
47:29E também toquei
47:30Alipio Martins,
47:32toquei Brega,
47:32toquei guitarrada
47:33dos mestres.
47:34A galera pirou.
47:35A galera enlouqueceu, assim.
47:37Aí tu vê a conexão
47:39que a gente tem
47:40com outros povos latinos.
47:42Você não acha
47:42que a gente também
47:44experimentou agora, né?
47:45Uma visibilidade
47:46muito grande na COP, né?
47:48Que você se
47:49consumiu muito,
47:50se olhou muito para cá, né?
47:51Você acha que foi
47:52um dos legados disso?
47:53Eu acho que foi
47:54essa visibilidade, né?
47:56É que a gente começa
47:57a compreender que, assim,
48:00a gente tem muito a dizer.
48:02Eu acho, assim,
48:02Belém e o Pará
48:04têm uma cultura
48:05que justamente por ela
48:06beber de muitas fontes,
48:07ela dialoga com muitos lugares.
48:10Então eu acho que
48:11quando a pessoa chega aqui,
48:13seja de onde ela for,
48:14alguma coisa
48:15ela vai ver em comum.
48:17Porque o Pará
48:18é meio que isso.
48:19A gente tem...
48:20O Pará, ele tem
48:21colônia japonesa, né?
48:23Aí tu tens um fluxo
48:24de chineses aqui
48:26que trabalham.
48:27Libaneses também.
48:28Libaneses.
48:29Tu tens uma influência
48:31europeia muito flagrante,
48:34Explícita.
48:35E até recente
48:37do ponto de vista histórico
48:38por conta da Belle Epoque,
48:39Paris na América.
48:41Mas a Belle Epoque
48:42nos dava uma característica
48:43cosmopolita, né?
48:44A gente já estava
48:46há muito tempo
48:46na frente do Brasil, né?
48:48Sendo que nós estávamos
48:49para cá e parece que o Brasil
48:51que existia só
48:52era aquele Brasil de lá.
48:53É, acho que sempre foi
48:54meio essa relação, né?
48:56É porque, na verdade,
48:57a gente vivia realmente
48:58num isolamento, né?
48:59Só era...
49:00Chegava de barco, né?
49:02Não tinha estradas
49:03e tudo mais.
49:04E o nosso ponto de fuga
49:05era sempre para cá,
49:06para o Mar do Caribe, né?
49:07Que era o Oceano Atlântico.
49:09Exatamente.
49:09Acho que isso faz com que
49:10a gente tenha
49:11essa diferenciação,
49:12mas, ao mesmo tempo,
49:13tem sempre um porto
49:14para partir, não é?
49:15É o irônico, né?
49:17Eu falo isso na pesquisa,
49:18que, ao mesmo tempo
49:20que é um isolamento,
49:21o nosso ponto
49:23de conexão também.
49:24Porque, se tu reparares, né?
49:25Principalmente falando
49:26desse período aí,
49:28foi o período
49:28que a gente mais se conectou
49:29ainda estando isolado.
49:31Sim.
49:31Né?
49:32Mas teve muita conexão,
49:33muito fluxo.
49:35E sempre teve.
49:37Tem um cara
49:38chamado Peter Burke.
49:41Ele tem um livro
49:42chamado
49:43Hibridismo Cultural.
49:46Hibridismo Cultural.
49:47Dentre as coisas
49:48que ele fala,
49:48ele fala que não existe
49:49cultura pura,
49:50que toda cultura
49:50é misturada,
49:52é híbrida.
49:53Ele fala que
49:54existem características
49:56de um local
49:56que o tornam propícios
49:58aos hibridismos,
50:00que é
50:01regiões de fronteira,
50:04capital
50:05e região portuária.
50:08Nós temos os três.
50:11Somos uma região
50:12de fronteira,
50:12temos portos,
50:14somos região portuária
50:15e somos capital.
50:16Então,
50:16temos três elementos
50:17que tornam
50:18a que propícia
50:19ao hibridismo cultural.
50:21Então,
50:21é impossível
50:22não acontecer
50:23esse tráfego,
50:25sabe?
50:25Essa confluência mesmo,
50:27essa transculturalidade
50:29é um demarcador.
50:30É uma característica
50:31sempre teve
50:32e sempre vai ter.
50:33Não tem como não ter,
50:35sabe?
50:36Legal.
50:37Obrigado, Eduardo,
50:38por vir aqui
50:38explicar essas coisas
50:39para a gente.
50:40Eu queria que você
50:40convidasse as pessoas
50:41e a gente assistiu
50:43o Lambada Social Clube.
50:45Quando é que é?
50:45Tem um dia certo?
50:46Como é que eles
50:47conseguem chegar
50:48a essa divulgação?
50:51Bom,
50:53nas minhas redes sociais,
50:54arroba
50:54Homens Sem Classe,
50:55dia 11,
50:56tem Lambada Social Clube
50:58na Casa Poena.
50:59É uma festa temática
51:00de lambada
51:01com tudo
51:01que tem direito
51:03para quem gosta
51:03de dançar.
51:04E tem o show
51:05com a minha banda,
51:06o Lambada Social Clube,
51:07que é um show autoral,
51:08mas com um repertório
51:09bem eclético.
51:11É isso.
51:12Obrigado, viu?
51:12Agradeço.
51:13Obrigado.
51:14Este é o Mangarosamente
51:15que você assiste
51:16no Libplay
51:17dentro de
51:18liberal.com
51:19no YouTube.
51:21Obrigado.
51:26Obrigado.
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