00:00Então a gente teve ali impactos importantes na Bolsa nos últimos dias ali com,
00:05refletindo muito a aversão ao risco global, mas a gente tem dois pontos interessantes para avaliar.
00:11O primeiro é a Bolsa sendo sustentada pela Petrobras e por outras empresas correlacionadas a combustível,
00:19que acabam surfando um pouco a onda desse aumento do preço do barril do petróleo,
00:25e acabam trazendo mais receita, e isso acaba valorizando as suas ações.
00:30Por outro lado, a gente tem uma queda nas ações das empresas que sofrem um impacto negativo disso,
00:36que são as empresas que vão sofrer, de fato, o aumento do custo nas suas operações,
00:42como, por exemplo, a aviação, como, por exemplo, o varejo...
00:45O negócio por conta dos fertilizantes.
00:47Fertilizantes, exatamente.
00:49Então essas empresas acabam sofrendo e tendo uma desvalorização.
00:52E aí você acaba tendo um equilíbrio.
00:54Você vê a Bolsa, que teve uma reversão interessante no dia de ontem, abriu embaixo,
00:59e depois acabou fechando em alta e hoje teve uma performance fechando em 183 mil pontos.
01:04Mas você tem esse equilíbrio ali com pontos negativos e pontos positivos.
01:09De forma negativa, a gente tem um impacto na cadeia inteira brasileira.
01:13A gente depende muito do combustível pela nossa malha logística.
01:16E a nossa operação acaba sofrendo muito e a gente pode ter um impacto inflacionário importante de repasse de preço.
01:22Tanto ali na derivada de agronegócio, quanto também nos preços do varejo e de outros setores que são mais sensíveis
01:28também a essas oscilações.
01:30Por outro lado, também temos o agronegócio na pauta com a valorização do dólar.
01:35Porque como o professor falou, a gente vai ter sim um impacto para esse movimento de aversão ao risco.
01:40Todo mundo foge para a moeda mais forte, o emissor da moeda internacional, que é os Estados Unidos.
01:46Você tem ali uma valorização do dólar, que faz com que as empresas exportadoras acabem tendo maior receita.
01:54Então você tem esse patamar misto.
01:56Mas qual é a grande visão geral?
01:59Os juros americanos.
02:00Com o corte de juros americanos, o Brasil acaba tendo uma entrada de capital mais forte.
02:06Que era a grande aposta que a gente tinha aí para esse ano.
02:09Se o Federal Reserve acaba subindo os juros na próxima reunião, a gente pode ver essa curva se invertendo um
02:15pouco.
02:15E um pouco mais de capital não vindo tanto para o Brasil.
02:19E a gente sofrendo o impacto de um dólar ainda mais forte do que o real.
02:24Isso poderia nortear, inclusive, a decisão do Copom?
02:28Isso pode nortear, mas o Copom vai ser mais norteado pela taxa de inflação e pela perspectiva e a expectativa
02:34de um próximo ciclo inflacionário
02:36por conta desse aumento do preço do barril do petróleo.
02:39Então eu acho que agora o Copom está num momento de bastante tensão para poder fazer esse tipo de avaliação,
02:45tentando mapear um pouco quais são essas expectativas para a economia brasileira.
02:50Pois é.
02:50O André Galhardo, há pouco, ele discorreu e fez um teaser, uma introdução a algo que ele deve se aprofundar
02:57agora
02:58sobre impactos até positivos para a economia do Brasil, olhando para o conflito no Oriente Médio.
03:05André, o que é preciso considerar a partir de oportunidades que poderiam ser aproveitadas por players aqui do Brasil?
03:14Bom, em primeiro lugar, é importante contextualizar.
03:17A Raíssa falou sobre impactos mistos.
03:20Então, não teve nenhuma bolsa que apresentou queda no último pregão.
03:24Da Ásia até o Ocidente, todas as bolsas subiram.
03:28E hoje, mais um dia de ganhos, inclusive aqui na Bolsa Brasileira.
03:32O dólar fechou o dia em R$ 5,16, que é um patamar bem baixo se nós olharmos as
03:38cotações mais recentes.
03:40Então, veja, mesmo diante de todas as incertezas do aumento da versão ao risco,
03:44a moeda brasileira segue se valorizando.
03:47O impacto é misto, porque a gente já tem visto, por exemplo, postos de combustível
03:53aumentando o preço do diesel, que pode trazer impacto sim,
03:57e sim, pode alterar o balanço de risco do Banco Central Brasileiro.
04:01Então, veja, tem coisas...
04:02É lamentável falar sobre coisas positivas numa guerra em que crianças estão morrendo,
04:06mas atendo-se aqui apenas à questão econômica,
04:09tem questões positivas, que são essas que eu citei.
04:13O fluxo de capital parece resistir a esse aumento da versão ao risco.
04:19Os dados mais recentes do Banco Central mostram a continuidade desse fluxo de dólar para o Brasil,
04:24entrando tanto na via comercial, através da venda de petróleo mais caro,
04:28quanto na via financeira, através de atração para empresas brasileiras.
04:31Então, a Bolsa está subindo e atraindo capital.
04:34Os investimentos produtivos continuam chegando até o Brasil.
04:37E a gente tem o fluxo de dólar mantido, apesar desse clima de incerteza.
04:42Isso é importante.
04:43Então, essa valorização cambial afasta um pouco, por exemplo,
04:46os efeitos inflacionários de segunda ordem,
04:49que já estão sendo sentidos, por exemplo, através do aumento do preço dos combustíveis.
04:53Uma outra questão importante, já que a Raíssa aceitou,
04:56acho que é legal falar sobre isso.
04:57Semana que vem tem decisão do Copom.
04:59O Copom já estava extremamente cauteloso, mesmo antes da guerra.
05:03Taxa de juros brasileira no maior nível nominal em 20 anos.
05:07E isso pode ser, considerando essa postura cautelosa...
05:10Mas havia uma sinalização de corte, né?
05:11Com certeza.
05:12Que a gente ainda não sabia se era de 0,25 ou 0,50.
05:15Então, eu continuo apostando em 0,50,
05:17mas lá no meio do ano passado eu apostava num corte em dezembro.
05:20Que não aconteceu.
05:21Então, vai acontecer apenas em março.
05:23Posso estar errado.
05:24Pode vir um corte de 0,25.
05:27O que referendaria...
05:29Não pode reavaliar.
05:30Pode reavaliar, porque os riscos inflacionários são maiores.
05:33Isso é inegável.
05:33Então, o preço do barril do petróleo sai de 64 para 85.
05:37São 20 dólares a mais.
05:38A gente tem riscos inflacionários maiores agora do que tínhamos em janeiro,
05:43quando o último comunicado e a última ata do Copom foram redigidas.
05:46Então, sim.
05:47O próprio diretor de política monetária do Banco Central, Newton Davi,
05:51falou essa semana, ou no final da semana passada,
05:53que não é o início de um ciclo de cortes de juros.
05:57É apenas a calibragem da taxa de juros.
06:01Infelizmente, nós conviveremos com uma taxa de juros ainda elevada,
06:05tanto pelo excesso de cautela do Banco Central e pela perseguição de uma meta de inflação realista,
06:10quanto agora pelos riscos inflacionários que derivam dessa guerra no Oriente Médio.
06:15Quer dizer, a volta dos que não foram, né?
06:17Deixa eu passar para o professor.
06:19Professor, queria que o senhor discorresse sobre a situação do Irã.
06:24Um país em guerra, há uma sinalização de ampliação desse conflito.
06:30Um país que, em tese, teve ao longo dos últimos anos apoio de Rússia e China.
06:36É preciso considerar também a situação desses dois países.
06:39Só lembrando a nossa audiência, porque comenta-se muito nos programas que tratam das questões que envolvem o conflito,
06:47que 20% do petróleo mundial passa pelo Estreito de Ormuz.
06:50Só que desse universo, de 20%, um terço é destinado à China.
06:56Então, é preciso também considerar esse impacto, por exemplo, na economia chinesa.
07:00E aí, esse emaranhado de informações, como o Irã deve se organizar.
07:06Porque uma coisa é você se preparar para um conflito de tiro curto, né?
07:11Uma coisa é quando você se vê em meio a um conflito com uma potência militar como os Estados Unidos
07:18e parceiros não podendo auxiliar como outrora auxiliavam, no caso da Rússia.
07:26A situação do Irã, veja, eu insisto na questão do nacionalismo iraniano e da figura da cultura iraniana da resistência.
07:35Só que entre você desejar e você conseguir vai uma distância muito grande, né?
07:41Boa parte da nossa audiência deve ter sido educado com aquela frase clássica, né?
07:46Isso é para quem pode, não é para quem quer, né?
07:50O Irã quer resistir.
07:51Quanto tempo o Irã conseguirá resistir?
07:54Meus conhecimentos bélicos não vão até esse ponto.
08:00Mas um ponto que você destacou bem e que é um limitador da capacidade de resistência do Irã
08:07é o fato de Emirados Árabes, Arábia Saudita, Israel, tem o apoio dos Estados Unidos,
08:15o principal potência militar do mundo.
08:17E ponderando muito pela economia o quanto vai ser a intensidade das suas ações.
08:25E o Irã, de certa forma, está um tanto quanto isolado.
08:29Como eu disse na minha fala inicial, a China fez o que do ponto de vista das relações internacionais
08:35é fazer nada, reiveter ao Conselho de Segurança da ONU.
08:38Nada vai acontecer.
08:40A Rússia está num conflito com a Ucrânia que já ultrapassa uns quatro anos.
08:46Então, o Irã está, de certa forma, a figura de linguagem é forte, largada a própria sorte,
08:54tem alguma capacidade bélica, mas é uma diferença significativa.
08:59Um colega do departamento que é especialista em segurança,
09:02em algumas entrevistas e até em conversas de corredor,
09:05tem usado a seguinte analogia que eu acho que ajuda a ilustrar bem.
09:10A gente está diante de um conflito de um rato, que seria o Irã,
09:15contra um elefante, que é os Estados Unidos.
09:17O rato pode incomodar bastante, porque é mais ágil,
09:20tem a capacidade de escapar, se colocar em alguns buracos,
09:24mas é inevitável, de certa forma, a derrota.
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