00:00Mas é um exercício interessante, né, Beraldo?
00:02Quando a gente observa que autoridades de um outro país,
00:06que em tese não tem interesse nenhum em ajudar A, B ou C aqui dentro,
00:11fora do processo, avalia a situação e acaba endossando a reivindicação daquela pessoa,
00:19tanto que concede abrigo àquela pessoa, no caso, esse caminhoneiro.
00:24A Argentina reconhecendo ele como refugiado.
00:27Pois é, Caniato. E eu vejo isso como uma tendência,
00:33porque quando você observa tudo o que aconteceu a partir do 8 de janeiro,
00:38a gente é confrontado com a realidade que muitas daquelas pessoas
00:43que foram presas, que tiveram ali, às vezes presas nos dias que seguiram o 8 de janeiro,
00:51e como o processo transcorreu, a forma como o direito de defesa
00:57foi oferecida a essas pessoas ao longo do tempo.
01:00E aí algumas dessas pessoas resolveram, então, fugir desesperançosas
01:04de qualquer possibilidade de encontrar a justiça com J maiúsculo,
01:09aquela que é retratada, né, com aquela figura, com uma venda nos olhos,
01:15porque ela é cega, ela não distingue o nome do réu, o nome do acusador,
01:20mas ela simplesmente se atém à aplicação da lei, ela tem a balança nas mãos,
01:25porque ela é equilibrada, ela não é punitivista ou garantista,
01:30ela é equilibrada na aplicação da lei, e uma sociedade que olha para a sua justiça
01:35e enxerga essa figura bem desenhada, bem consolidada,
01:39é uma sociedade que confia, que terá garantido os seus direitos.
01:45E esse tempo no Brasil já passou faz tempo.
01:48Veja só, às vezes uma pessoa simples, que, diante de uma situação dessa,
01:54tem que abandonar sua família.
01:56A pessoa que levava o sustento da família para casa, de repente, está sem emprego,
02:01tem que gastar um dinheiro que não tem com advogados, atravessa a fronteira,
02:05vai se abrigar ali num país vizinho, às vezes não fala o idioma, não conhece ninguém,
02:11vai procurando o ambiente que possam lhe dar um apoio,
02:14para que, então, em outro país, veja a justiça ser feita,
02:20aquela justiça que ele não encontrou no seu próprio país.
02:24E nós não estamos falando da Coreia do Norte, nós estamos falando do Brasil,
02:30esse país gigantesco, num continente importantíssimo,
02:36um país que deveria desempenhar um papel estratégico no mundo,
02:40mas que se atém a mesquinharias, como, por exemplo, a gente assistiu nesse episódio,
02:48em que as pessoas, muitas delas, cometeram crime sim,
02:53mas nem de perto esses crimes bárbaros que foram atribuídos a elas.
02:59E pior, Caniato, crimes que nós já vimos ser cometidos na Praça dos Três Poderes,
03:05inúmeras vezes, na história recente, não estou falando de outro século, não,
03:09estou falando da história recente do Brasil.
03:10Portanto, é um alento para todos aqueles que estão numa situação semelhante a desse rapaz.
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