- há 22 horas
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DiversãoTranscrição
00:07Não aguento mais.
00:13Tieta, faça alguma coisa para ajudar a minha mãe.
00:21Cato, a única coisa que eu posso fazer para ajudar a perpétua
00:25é contar para ela por que ela ficou cega.
00:30Tu quer que eu faça isso?
00:33Eu vou lá, conto tudo e acabo com tudo de uma vez.
01:00Tieta é a serpente que não está no paraíso.
01:04Ela veio ao mundo para virar nosso diviso.
01:08Tieta, Tieta, pelos olhos de Tieta me deixei guiar.
01:13Tieta, Tieta, no frente de Tieta encontrei o meu lugar.
01:18Tieta, Tieta, os seios de Tieta construí meu ninho.
01:23Na boca de Tieta morri como um passarinho.
01:28Vem meu amor, vem com calor.
01:32O meu corpo se enrosca.
01:35Vem minha flor, vem sem pudor.
01:58Eu tô falando sério, tu vem mangando de mim?
02:01Eu não tô mangando de ti.
02:04Só que tu pensa que é só tu que tá subindo pelas paredes.
02:08Eu não tô aguentando mais essa situação.
02:10É, mas não tá fazendo nada pra mudar essa situação.
02:12Gente, tu fez o quê?
02:13Eu fui pra igreja rezar.
02:15Ah, tenha santa paciência.
02:18Se ficasse enfurnado numa igreja o dia inteiro,
02:21tivesse alguma serventia, tua mãe já tava beatificada.
02:25Não fale mal de minha mãe.
02:30Ricardo, vai embora.
02:32Vai embora, que senão a gente vai brigar pra valer.
02:37Tu já me confessou mais de mil vezes que odeia minha mãe.
02:41Agora eu tô achando que tu tá gostando de vê-la nesse estado.
02:47Era só o que me faltava.
02:52Vá, continue dizendo que a culpa é minha.
02:56Eu te conquistei só pra afrontar a perpétua.
03:02A culpa não é sua.
03:06A culpa é minha.
03:10Ai, Ricardo.
03:13Não vamos falar em culpa.
03:17Não vamos estragar, não vamos deixar que isso estraga o nosso amor,
03:20que sempre foi tão puro.
03:23Mas por quê, Tieta?
03:29Por quê?
03:35Quem foi que...
03:36Quem foi que a gente fez de tão terrível pra...
03:41Pra ter que pagar esse castigo?
03:47Minha mãe cega por minha causa?
03:52Olha pra mim, Ricardo.
03:55Eu te amo demais.
03:59Tu iluminou minha vida.
04:01Tu adoçou meu coração, que tava cansado de tanta amargura.
04:06Tu me devolveu tanta coisa que eu pensei que eu já tivesse até esquecido.
04:14Nosso amor sempre foi tão puro, tão inocente.
04:20Não vamos deixar que ele seja estragado por culpa.
04:26Culpa.
04:27Culpa é o sentimento mais negativo que existe.
04:31Não se sinta culpado.
04:37Um amor tão inocente como o da gente.
04:45Como é que pode...
04:47Pra mim, a mãe...
04:49Esse mesmo amor seja tão sujo.
04:55Até...
04:56Ela fique cega...
04:58Pra não ser obrigada a enxergá-lo.
05:01Perpétua não aceitaria.
05:05Mas por quê?
05:09O que a gente tá fazendo errado?
05:16Nada, Capredo.
05:20Nada.
05:28A te perder?
05:31Eu preferia morrer.
05:35Obrigado.
05:38Não interessa o rumo que vai seguir nossas vidas.
05:43A lembrança dos teus beijos.
05:46Da tua pele macia, do teu cheiro.
05:53Eu nunca mais vou esquecer como é bom dormir nos teus braços.
06:03Fala que nunca vai me esquecer.
06:07Como se soubesse que a gente vai ter que se separar.
06:11Eu não vou deixar você ir.
06:15Capredo, tudo passa nessa vida.
06:18O importante é que tu me fez muito feliz.
06:22E eu sei que eu te fiz muito feliz também.
06:26Essa lembrança é nossa.
06:29É eterna.
06:32Isso ninguém pode destruir.
06:36O resto passa como um dia depois do outro.
06:40Como a vida depois da morte.
06:43Como nenhum amor pode durar pra sempre.
06:46Não.
06:48O nosso, não.
06:53Se eu te perder...
06:56Eu prefiro morrer.
07:01Morre não, Capredo.
07:03Morre não.
07:06Tita.
07:08Faça alguma coisa pela minha mãe.
07:11Salve minha mãe.
07:12Que eu lhe juro que faço ela aceitar e entender o nosso amor.
07:15Mas o que eu posso fazer?
07:18Tu é rica.
07:20Se ela não quer ir no médico.
07:23Mande chamar um especialista da Bahia, de São Paulo.
07:27Mova céus e terra.
07:29Mas...
07:30Faça ela ficar boa.
07:31Que eu lhe juro que vou fazer ela aceitar e entender o nosso amor.
07:38Se ela aceitar.
07:55Perpétua.
07:56Minha irmã perpétua.
07:58Aves de Maria.
07:59Quando a Morzinha e Sinira me disseram, eu não acreditei.
08:02Que tragédia, meu Deus.
08:04Não grite.
08:06Tô cega, mas não tô surda.
08:08Por menos que eu goste de tu.
08:11Cega, minha Santana, é castigo demais.
08:13É desgraça.
08:14É.
08:15Uma desgraça bem maior que a sua.
08:18Se bem que sua desgraça tem conserto, né?
08:21E a minha não tem jeito.
08:23Minha desgraça?
08:24Do que tu tá falando?
08:26Bom, seu marido, Timóteo, que vocês ainda tão casados, né?
08:29Porque eu não admito divórcio na minha família, não.
08:32Tu falou em desgraça e eu já tô aqui encólica.
08:35O que aqui foi que aconteceu?
08:37Ah, então você ainda não sabe.
08:39Timóteo.
08:40Timóteo tá aí de desfrute.
08:42Timóteo arranjou outra.
08:52Ué, sentado na minha cadeira?
08:54Já não tá sabendo que essa cadeira é minha?
08:57Vamo lá, desenfeta daí.
08:59Isso aí é meu lugar.
09:00Olha, coronel, eu sei o que o senhor tá querendo.
09:02O senhor tá querendo que eu perca a cabeça e peça demissão.
09:06Mas eu não vou fazer isso, não.
09:08Tá o quê?
09:10Tá nos azeites só porque eu mandei o Leôncio guardar os seus papéis dentro do armário?
09:15Não acha que é pouca água pra se afogar?
09:18Olha, coronel, essa papelada é o de menos, não tem a menor importância.
09:22Agora, o que me irrita mesmo é a maneira mesquinha como o senhor vem agindo, viu?
09:26Olha só como é que ele tá, hein?
09:30Veja só.
09:32Cuspindo no prato que lhe deram pra comer, não é, sem gato?
09:36Olha, coronel, pra seu governo, eu vou continuar mantendo a minha ideia de plebiscito.
09:42O que tá em jogo não é o que o senhor quer, nem o que eu quero.
09:45E sim o que o povo de Santana do Agreste quer.
09:48O povo não quer nada.
09:50Não é coisa de safado.
09:54Gente ignorante.
09:56Se eu der um quilo de carne, já vota em mim.
09:59Se tu der um quilo de arroz, vota também.
10:02Imagina, povo esfomeado.
10:05Tu quer botar a decisão disso tudo na mão dessa gente?
10:09Bom, tudo bem, vamos lá.
10:11Vamos dizer que a gente concorda em fazer esse plebiscito aí.
10:15E se nós perder, como é que é?
10:17Coronel, quando existe democracia, o povo decide nas urnas.
10:22Depois ele que arque com as consequências.
10:24É só, mas que idealismo, hein?
10:27Sabe que você tá me levando às lágrimas.
10:31Quero o senhor queira, quero o senhor não queira.
10:34Eu vou continuar sendo secretário da prefeitura e vou lutar pelo plebiscito.
10:38Muito bem.
10:41E se eu lhe demitir?
10:43Azar o seu.
10:44Eu tenho prestígio junto à população.
10:47Eles acreditam em mim, independentemente desse cargo ou não.
10:50Mesmo demitido, eu vou botar a boca no trombone.
10:54Vou fazer o maior fuzuê.
10:55E o senhor e a Câmara dos Vereadores vão concordar que quem decide é o povo.
11:02O Ascânio, vem cá, me diga uma coisa.
11:05Afinal de contas, você é a favor ou contra a instalação dessa fábrica?
11:09É claro que eu sou a favor da fábrica.
11:11Mas então por que essa peitica toda com o coronel, se ele também é a favor da instalação da fábrica?
11:16É porque não sou eu, nem o coronel, nem Modesto Pires, nem Marculino quem deve decidir.
11:20A decisão deve ser referendada pela maioria.
11:23Mas me diga, se tiver plebiscito, tu vai votar sim ou não?
11:28Ah, vou votar sim.
11:30É isso que eu tô tentando explicar.
11:31Ah, não.
11:32Já entendi que eu não sou burro.
11:34E eu concordo contigo.
11:35Acho que tu tá coberto de razão.
11:37E o que vocês acham?
11:41Eu não sei se eu voto sim ou não, mas que tem que ter esse plebiscito, isso tem.
11:46E tu, Xalita?
11:47Oxe, Xalita não vota, que é turco.
11:50Olha, olha, olha, eu já falo pra você, mas de mil vezes, eu não gosto de me chamar turco.
11:55Porque turco é a...
11:56Xalita!
11:57Ô, Xalita.
11:58Xalita, brasileiro, nascendo no Bahia, você.
12:03Dá pra ver pelo sotaque, não sabe?
12:05Ô, homem, tu?
12:06Olha essa provoca, homem.
12:07Olha, ha, ha, ha, ha, ha, ha, sabe o que eu faço?
12:10Eu proíbo você vir meu estabelecimento comercial, viu?
12:13Uh!
12:14É porque eu, como brasileiro, baiano, eu voto a favor, interesse da cidade.
12:20Isso quer dizer sim ou não?
12:22Isso quer dizer não.
12:24Com todas as letras, hein, Pirica?
12:26N-A-O-T-I-O, não.
12:28Comandante, eu ainda não decidi.
12:30Mas como não?
12:31Como não?
12:32Tem que decidir.
12:32Aliás, todo o povo aqui tem que ser contra essa fábrica.
12:35É, só que o doutor Maculino mora aqui no Mangue Seco, mas é a favor.
12:40Quer dizer, a favor da fábrica, mas contra esse tal de plesbi, plesbi...
12:44Plebiscito, Pirica.
12:45É isso aí, comandante.
12:46E é isso aí que todo mundo tá falando na cidade.
12:49É, uma coisa eu vou lhe dizer.
12:51Eu e Ascânio temos ideias opostas, mas essa ideia do plebiscito foi porreta.
12:57Só que ele tá fazendo campanha pelo sim, comandante.
12:59E nós vamos fazer campanha pelo não.
13:02Todo mundo tem que fazer campanha pelo não.
13:05O Ascânio, eu tenho certas divergências com ele, mas...
13:09Mas é bonito, né?
13:10É bonito o fato dele enfrentar o coronel Arthur da Tapitanga.
13:14E tu de que lado está, minha filha?
13:17Vocês sabem que eu sempre estive ao lado do progresso.
13:20Mas, ao mesmo tempo, eu defendo a natureza, né, minha mãe?
13:23As belezas do agreste.
13:25Oh, gente.
13:27E não pode haver progresso respeitando a natureza?
13:29Não é esse o projeto do Ascânio?
13:32É.
13:33O projeto do Ascânio é esse.
13:35Agora, eu não sei se a intenção dessa gente que vem de fora...
13:37É trazer o progresso e, ao mesmo tempo, cuidar de preservar a natureza.
13:41Isso eu não sei.
13:44É, então...
13:45A gente tem que pesar bem os argumentos dos dois lados, não sabe?
13:49Pra poder decidir, né, filha?
13:52É isso mesmo, minha mãe.
13:54Porque essa história de chumbo de tetraetila me deixou de quengo mole.
14:00O que que é que é isso?
14:02Chumbo o quê?
14:03Doutor, entendeu?
14:05Jairo.
14:06Eu?
14:07O que eu entendi é que a higiene é chumbo grosso.
14:11Chumbo de tetraetila, minha gente, é o que eles estão querendo produzir na fábrica.
14:17Um troço perigoso pra danar.
14:20Um veneno que, se vazar da fábrica, é capaz de matar com todos nós aqui.
14:28Ó, Modesto, eu nunca vi, Modesto.
14:30Não sei falar de outra coisa nessa cidade, a não ser esse maldito plebiscito que eu acho que ele inventou
14:35aí.
14:35Onde é que já se viu uma coisa dessa?
14:37Deixar pro povo decidir uma coisa tão importante, ó.
14:40Pois é, você já imaginou se a maioria votar contra a instalação dessa fábrica?
14:43Que bem que sempre tem um jeitinho, né, Marculino?
14:45A gente pode chegar lá e manobrar esse resultado, né?
14:49Que manobrar, Modesto, que isso?
14:52Não temos nem computador pra fazer isso aqui, Modesto.
14:55Olha, Modesto, esses tempos mudaram.
14:58Nós temos que encontrar uma maneira de impedir esse plebiscito.
15:02Mas como é que a gente vai impedir, homem?
15:04Ó, Modesto, vamos pensar, não é? Vamos pensar.
15:07Nós temos que neutralizar o ascavo.
15:09Tirar ele do jogo.
15:11E você, pelo amor de Deus, use essa cabeça uma vez na vida pra pensar, não só pausar chapéu e
15:16pensar besteira, não é?
15:17Me ajude a pensar numa solução.
15:26Oh, Juracir, até que enfim.
15:30Deus, merece mentira.
15:32Madruguei na sua casa atrás de você.
15:34Oh, Aida.
15:36Deve de ter sido desencontro.
15:38Parece brincadeira.
15:39Desde que voltei de Salvador, a gente não encontra uma hora pra botar os assuntos em dia.
15:44Como é que tu tá?
15:46Péssima, mas a minha sinusite tá me deixando louca.
15:50E eu tomo remédio pra sinusite e me ataca artrite.
15:53O da artrite me ataca fígado.
15:55O do fígado me ataca o estômago.
15:57E o do estômago não me deixa dormir.
16:00Conclusão.
16:01Olha, eu não tenho apetite, meu corpo dói inteiro e não durmo, mas nenhuma noite.
16:07Aida, eu tô muito mal, eu tô num caso terminal.
16:10Coitadinha.
16:11Bom, acho que eu já vou indo.
16:13Não, não, não, não, eu não lhe contei ainda o que aconteceu na sua ausência.
16:16À outra hora, quando tu tiver mais bem disposta, tu me conta.
16:19Imagine que Perpétua foi acometida de uma doença misteriosa e ficou cega.
16:25Cega?
16:26Das duas vistas.
16:28Ninguém sabe muito bem o que é.
16:30Mas e o ouvi dizer?
16:37Será verdade?
16:39Parece que quem passou foi o marido.
16:42Ficou incubado esse tempo todo e agora a doença se manifestou.
16:47Cruz, credo, Juraci.
16:49Depois de tudo isso, aconteceu mais alguma coisa enquanto estive fora?
16:54Elisa e seu Timóteo.
16:56Casalzinho tão simpático.
16:58Não é mais um casal.
17:00Timóteo descobriu tudo.
17:01Seguiu Elisa e pegou a descaralha e o flagrante adultério.
17:07O adúltero é ele.
17:08Tá na cara, todo mundo pode ver, até eu que sou cega vejo.
17:12Ele inventou o pretexto, já tinha uma ideia na cabeça.
17:15Por isso é que ele te seguiu, deu o flagrante e se separou.
17:18Mas isso tudo foi pra jogar a culpa em cima de você.
17:21Porque o que ele queria mesmo era já sair e ir atrás daquela sirigata do sul.
17:26Mas tu falou, falou, que chegou a me dar um nó na espinha das ideias.
17:31O que eu tenho que fazer agora, Perpétua?
17:33Ô gente, ele não disse que você era adúltera?
17:37Então, vire o jogo, vire essa mesa.
17:40Mostre pra Deus e todo mundo que o adúltero é ele.
17:44Honre seu nome e sobrenome que você ainda tem, que é Esteves.
17:48Mas como é que eu tenho que fazer isso?
17:50Ô meu Deus, você vem perguntar pra mim que sou uma pobre cega desamparada.
17:55Que não posso nem sair de casa sem a ajuda dos outros.
17:57Eu sei lá como é que você vai fazer.
17:58Eu vou de sua cachola.
18:00Se vira!
18:03Quem é?
18:04Tô procurando a senhora aí fora.
18:06Pode mandar entrar.
18:07Sim, senhora.
18:16Vem pedir alguma informação sobre a fábrica?
18:19Eu vim saber sobre o meu marido.
18:23Tchau!
18:23Tchau!
18:23Tchau!
18:24Tchau!
18:28Tchau!
18:28Tchau!
18:29Tchau!