00:00Após esse primeiro pronunciamento, o candidato à presidência, o Flávio Bolsonaro,
00:04chegou a dizer que o presidente Lula apoia o Irã, foi isso?
00:10Exatamente. Pelas redes sociais, o senador e pré-candidato à presidência da República,
00:15Flávio Bolsonaro, acabou, então, criticando o presidente Lula, o governo federal,
00:21e dizendo que há uma proximidade do governo com, então, iranianos.
00:27Inclusive, pelas redes sociais, Flávio Bolsonaro, ele postou uma foto do vice-presidente Geraldo Alckmin
00:34na cerimônia de posse do presidente do Irã, Massoud Pezeskian,
00:40e a poucos metros dele estava o líder do Hamas, o Ismail Ranier.
00:46Então, ao postar essa foto, o presidente, aliás, o pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro,
00:53fez essa crítica ao governo brasileiro.
00:55No texto que foi divulgado pelas redes sociais, Flávio Bolsonaro disse o seguinte,
01:00o posicionamento do governo Lula diante das ações do regime iraniano é inaceitável.
01:07Continua.
01:07Ao adotar uma postura de apoio político até Irã neste momento,
01:11o Brasil se coloca do lado errado de um grave conflito
01:15e ignora a natureza objetiva do regime que está defendendo.
01:20O Brasil não precisa se intrometer em conflitos regionais,
01:24nem assumir papel protagonista em disputas que não nos pertencem.
01:30O que não pode é escolher o alinhamento moralmente errado,
01:34legitimando um regime que promove instabilidade e ameaça países parceiros
01:40do nosso próprio interesse estratégico.
01:42Diante, então, dessas críticas e dessa acusação de aproximação com o Irã,
01:48então eu questionei ao Palácio do Planalto se iria se posicionar em torno das palavras de Flávio Bolsonaro,
01:55mas até o momento o Planalto não se posicionou.
01:58Eu conversei com uma pessoa ali do Planalto e, nos bastidores,
02:03ele me disse que não procede essa aproximação e que o Brasil também não defende um lado.
02:09O lado do Brasil seria justamente de condenar os ataques de ambos os lados
02:15e foi essa nota que foi divulgada.
02:17Primeiro condenando a ofensiva norte-americana e israelense
02:20e agora condenando a retaliação iraniana.
02:24Voltamos ao estúdio.
02:26Igor Damasceno, direto de Brasília.
02:28Obrigado, viu, Igor, pelas informações.
02:29É assunto para a gente trazer aqui as nossas analistas hoje,
02:32a Jess Peixoto e também a Mônica Rosenberg.
02:34Vou começar por você, Mônica.
02:36Mais cedo eu comentava aqui com a Jess a questão da ocupação da Rússia na Ucrânia,
02:42num ano eleitoral em que o presidente Bolsonaro esteve presente com o Putin.
02:47Foi muito criticado na época por isso.
02:49Como é que você se reúne com uma pessoa que está invadindo um outro país e blá, blá, blá.
02:53E agora, de novo, a gente tem essa nota
02:55e o Flávio Bolsonaro, que é candidato à eleição presidencial também,
03:01criticando o atual governo num momento de mais um conflito mundial.
03:06Parece uma repetição histórica, Mônica.
03:08Renato, eu discordo de Flávio Bolsonaro em muitas coisas,
03:12mas nesta situação eu vou concordar totalmente, absolutamente com o posicionamento dele.
03:17É um momento que exige firmeza de posicionamento
03:21e exige clareza de entendimento do que está acontecendo dentro do Irã.
03:26Porque você não pode simplesmente dizer
03:28Ah, eu gosto daquela ditadura, eu gosto daquele regime,
03:32então eu vou passar um pano e vou dizer que os Estados Unidos
03:35estão violando o direito internacional.
03:38O que tem que ser entendido é a soberania da população,
03:41é o que o povo quer, é a defesa dos direitos humanos,
03:44a defesa das mulheres que o governo Lula tanto diz respeitar e valorizar.
03:49No final, o que eles estão fazendo é exatamente o contrário.
03:53Estão apoiando e estão passando pano por uma ditadura assassina
03:57e deixando aí uma nota vaga.
04:01Flávio tem razão de se posicionar com firmeza,
04:03de exigir firmeza de posicionamento.
04:05E aí o que acabamos de falar aqui?
04:08Que o presidente defendeu o direito de vingança de quem é atacado?
04:13Será que então Lula vai entender a partir de agora
04:16que o direito de vingança de Israel
04:18quando foi atacada pelos terroristas do Hamas
04:20era real e que Israel tinha o direito de se defender?
04:24Será que todos aqueles que foram para as ruas
04:26reclamar e dizer que Israel não tinha o direito do que estava fazendo
04:29vão agora se redimir e dizer
04:31Puxa, realmente era um direito de um país soberano que foi invadido?
04:36Vamos ver.
04:37Jess Peixoto, quando a gente olha para o Brasil,
04:40a gente vê que as pesquisas mostram que boa parte da população
04:44concorda com o posicionamento de Donald Trump.
04:47Como é que fica então a popularidade do presidente Lula
04:50diante dessas notas que foram feitas até agora?
04:53Então, Márcia, fica uma popularidade em baixa.
04:57E lembrando que as pesquisas da última semana,
05:00da semana passada, mostram todas elas uma queda de aprovação
05:04e um aumento, um crescimento do pré-candidato à presidência
05:09atual senador Flávio Bolsonaro.
05:11Essa nota em específico do Itamaraty, ela me entristece bastante.
05:16Porque, mais uma vez, nós vemos a palavra aqui
05:19não ser utilizada ataque, como foi no caso dos Estados Unidos e Israel,
05:24ser utilizado hostilidade.
05:26E, em um dos parágrafos que o Igor bem trouxe,
05:30eles fazem uma questão aqui, que é
05:33recordando a legítima defesa prevista no artigo 51,
05:38é medida excepcional e sujeita à proporcionalidade
05:41ao nexo causal com ataque armado.
05:44O Brasil se solidariza, ou seja,
05:46e lá na frente eles vão colocar ataques retalhatórios ao Irã.
05:51Então, aqui, mais uma vez, não vemos uma crítica ao Irã,
05:56ao governo iraniano e às coisas que se seguiram.
05:59Nós vemos uma tentativa de uso de um argumento de legítima defesa.
06:02Vou chamar ele agora.
06:03E aqui, em termos de direito internacional,
06:06uma base militar compõe território daquele país.
06:10Tanto é que nós estamos vendo um efeito em hotéis em Dubai,
06:14nos aeroportos, no espaço aéreo, em regiões civis.
06:19Eu tenho amigos, e mando um abraço aqui para o Mubarak,
06:21que mora em Doha, e que me relatou,
06:25pelas redes sociais, que na manhã de hoje
06:28eles passaram com o prédio tremendo.
06:30Então, assim, essa lógica de que é uma retaliação aos Estados Unidos,
06:34ela simplesmente não cola.
06:35A base militar, os Estados Unidos têm em vários lugares do mundo.
06:39Isso não dá direito, de forma alguma,
06:41ao rompimento da integralidade e da soberania
06:45em relação àqueles territórios.
06:46Então, quando o governo brasileiro, ele se solidariza,
06:50mas faz uma aspas,
06:51ele, no final das contas, está, sim, tomando um partido pró-Irã.
06:55Isso é fato.
06:56As notas do Itamaraty estão caminhando para este cenário
06:59de condenar o ataque e de se solidarizar em partes,
07:02ressaltando a legítima defesa.
07:04Então, como brasileira, me entristece muito.
07:07E, mais uma vez, se você somar todas as relações comerciais
07:10que o Brasil tem com o Irã
07:12e todas as relações comerciais que o Brasil tem com os Estados Unidos,
07:15Arábia Saudita, Catar, Kuwait, Oman, Jordânia e tantos outros países,
07:21você descobrirá que é muito mais importante,
07:24até no aspecto não só do princípio, mas pragmático,
07:27que a gente esteja do outro lado do que nós estamos nesse momento.
07:32Até porque tem um encontro com o presidente Donald Trump também, né,
07:35Jazz, marcado para daqui a alguns dias.
07:38Obrigada pelo seu comentário, a Mônica Rosenberg também,
07:41mas eu quero chamar novamente o professor João Alfredo
07:44para a gente debater um pouco desse tema.
07:46Professor, como é que o senhor está enxergando as repercussões mundiais,
07:50as notas de Alemanha, de França?
07:53Como a Jazz falou, o Brasil não pontuou o perigo também do regime iraniano, né,
07:58o terrorismo, mas outras nações o fizeram, né?
08:03Com certeza.
08:04Vou ser bem sincero com vocês que isso não me surpreendeu nem um pouco.
08:07Porque o Brasil já vem adotando esse tipo de posicionamento
08:11para ser bem educado aqui em Ambigo,
08:13desde 2023, quando houve o primeiro ataque do Hamas a Israel.
08:17Então, uma coisa é de se notar, é a diferença de palavras, né?
08:21Quando Israel é atacado, as notas do governo brasileiro dizem,
08:26ou as bases dos Estados Unidos são atacadas,
08:29as notas do governo brasileiro dizem que o governo acompanha com preocupação.
08:33Agora, quando os alvos do Hamas, do Hezbollah, os alvos do Ruti,
08:37ou qualquer situação assim, sofrem um ataque,
08:40aí o governo brasileiro olha e diz, o Brasil condena.
08:43É importante a gente lembrar que o Brasil não é ator militar nesse conflito,
08:47o Brasil é ator econômico.
08:48E o impacto para o Brasil é concreto em petróleo e derivados,
08:52fertilizantes, câmbio, inflação e taxa de juros.
08:56E esse é um ponto que a gente tinha que estar pensando agora
08:59e eu não vejo nas notas do Itamaraty.
09:02A nota brasileira não mencionou explicitamente preocupação
09:05com a estabilidade do fluxo energético global,
09:08com a segurança das rotas marítimas,
09:10ou mesmo com o impacto inflacionário internacional.
09:14E ela perde densidade estratégica justamente por não falar disso.
09:20Qualquer leitura adequada deveria defender,
09:23ou o Brasil deveria enfatizar a estabilidade dos mercados,
09:27previsibilidade regulatória internacional,
09:30a liberdade de navegação em Hormuz.
09:33O estreito de Hormuz fechado,
09:35a gente já vem repercutindo aqui na Jovem Pan,
09:37que é por ali que passa um quinto do petróleo global.
09:41Certamente os mercados amanhã vão abrir
09:44de forma completamente tresloucada,
09:48com uma alta no barril do petróleo brand.
09:51E para nós isso é péssimo,
09:53porque tudo que a gente produz, a gente transporta.
09:56Praticamente tudo que a gente produz,
09:57a gente transporta de caminhão.
09:59Qualquer alta no preço do petróleo,
10:00a gente vai ter, no caso brasileiro,
10:02um reflexo em toda a cadeia produtiva,
10:06custos energéticos mais elevados.
10:07Outra coisa, nós somos o país do agro,
10:10e para isso a gente importa muito fertilizante.
10:13E qualquer alta no preço do petróleo,
10:15qualquer oscilação nessas cadeias,
10:18vai ter um impacto no preço dos fertilizantes,
10:21afetando a competitividade do nosso agro.
10:23E para fechar a minha fala,
10:25se falava agora há pouco,
10:27do quão importantes são os mercados da Arábia Saudita,
10:30do Egito, da Jordânia,
10:32de Oman, dos Emirados Árabes para nós.
10:34Esses países são grandes compradores de frango halal brasileiro,
10:38e certamente nós devemos manter boas relações com eles.
10:41Obrigado.
10:42Obrigado.
10:42Obrigado.
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