00:00Deixa eu chamar mais um convidado especial, vai nos ajudar nessa cobertura especial sobre o conflito no Oriente Médio,
00:08professor de Relações Internacionais do IBMEC, do Rio de Janeiro, José Niemeyer,
00:13sempre muito gentil, atendendo as solicitações aqui da produção da Jovem Pan.
00:17Professor, seja sempre muito bem-vindo, mais um conflito, hein?
00:22É, infelizmente mais um conflito, obrigado pelo convite, um abraço a vocês, a professora, você,
00:28ao ouvinte e ao assinante da Jovem Pan, Jovem Pan sempre cobrindo os conflitos com muita eficiência,
00:37infelizmente mais um conflito neste século XXI, que é um século muito mais voltado ao conflito do que a cooperação.
00:46Vivemos um sistema internacional muito entrópico, muito fragmentado, muito competitivo, muito contraído também,
00:52onde o interesse nacional prevalece em todos os países, sejam potências centrais, potências médias,
00:59mesmo nos países que não têm tanta importância no sistema.
01:03É impressionante como a política internacional hoje, a dinâmica dela parte do interesse nacional,
01:10principalmente aí sim das potências centrais, Estados Unidos, China e Rússia.
01:14Então, é um sistema internacional muito pouco previsível, muito fluido e perigoso mesmo.
01:21Sem dúvida. Professor, vou pedir então, nessa abertura, na sua primeira intervenção,
01:27pedir uma reflexão, claro, sobre o dia de hoje, sobre o ataque conjunto entre Israel e Estados Unidos,
01:34mas colocando também em perspectiva essa que talvez tenha sido a principal notícia do fim do dia,
01:40do fim da tarde, aqui no Brasil, a possibilidade de Ali Khamenei estar morto.
01:45Pelo menos há muitos organismos internacionais divulgando essa informação,
01:50a agência Reuters, a imprensa toda israelense, também a manifestação de Benjamin Netanyahu
01:56sugerindo a eliminação do Ayatollah.
01:59Enfim, quais são suas considerações a partir dos ataques, o desenvolvimento do dia de hoje
02:05e a possível morte e eliminação de Ali Khamenei?
02:08É. Em primeiro lugar, muitos analistas não achavam que o ataque ocorreria agora,
02:15porque os Estados Unidos da América acabaram de lançar um documento em dezembro último do ano passado
02:21sobre a nova doutrina de segurança nacional e ficou claro no documento
02:25que os Estados Unidos iam focar mais no seu espaço vital americano,
02:30seja a América Central, do Sul, do Atlântico Norte até a Groenlândia,
02:35o Pacífico Norte até o Havaí, né?
02:38Então, atuar novamente no Oriente Médio é muito custoso do ponto de vista orçamentário,
02:45né? Porque geralmente é uma mobilização de força muito cara e também do ponto de vista político interno, né?
02:52Mais uma vez, os Estados Unidos se envolverem numa ação ou num conflito no Oriente Médio.
02:58Essa ação desta madrugada aqui, ou desta manhã aqui,
03:02ela é diferente da última ação contra o programa nuclear iraniano,
03:06que foi uma ação mais cirúrgica, né?
03:09Mais determinada.
03:10Essa foi um pouco mais aberta, foram atacadas Teirã e mais quatro cidades, né?
03:15Já há um número de mortos, já está sendo contabilizado,
03:19às vezes uma parte contabiliza um número, a outra parte outro número.
03:22Uma outra questão importante também é que foram usados, parece que,
03:26novos instrumentos militares, como drones, né?
03:30Além da força aérea e de mísseis.
03:32Israel também participou e está participando com...
03:35Inclusive, eu nem esperava que Israel participasse desta ação,
03:40achei que fosse algo mais preponderante por parte dos Estados Unidos da América.
03:44Mas Israel está participando, sim.
03:47Uma outra... e de maneira bem enfática.
03:49Uma outra questão importante também é que,
03:52diferentemente de outros países com os quais os Estados Unidos da América
03:58já travou embates nesta região, principalmente Iraque, Afeganistão, né?
04:05Mesmo o teatro de operações do Kuwait,
04:08na guerra que o Kuwait foi libertado e do Iraque,
04:12os Estados Unidos nunca haviam pensado numa organização militar,
04:18numa ação militar contra o Irã.
04:20Isso sempre esteve no planejamento do Pentágono,
04:24mas nunca muito claro.
04:25E há uma explicação para isso, né?
04:27É muito difícil você atingir...
04:29Primeiro, é muito difícil atingir ter Irã,
04:31você controlar o ecúmido estatal, a capital do Irã.
04:35É um país grande, é um país com uma quantidade de habitantes também forte,
04:40importante.
04:40É um país que tem exército forte,
04:44a força aérea parece que tem alguma tecnologia.
04:48O Irã troca muito com a Rússia, do ponto de vista militar.
04:52A Marinha não é uma Marinha tão poderosa,
04:55mas é um país que tem uma estrutura,
04:57e aí eu vou entrar na questão de Kamenei,
04:59tem uma estrutura de governo bem estabelecida,
05:02que veio se sedimentando, mesmo com as críticas da oposição,
05:06mas que nas últimas décadas veio se sedimentando
05:09na figura religiosa dos iatolás
05:15e também do poder civil,
05:16que respeita muito essa questão religiosa.
05:19Há uma interface muito grande entre poder civil e político
05:22e o poder religioso.
05:25Isso dá muita força ao governo, né?
05:28Dá uma força simbólica muito poderosa,
05:30e isso faz com que parte da população,
05:32ainda mais um país xiita,
05:34a população se envolva muito com as questões da política
05:37e aí também da política externa.
05:40Agora, tem outras estruturas que nós não conhecemos bem,
05:43a gente menciona muito aqui,
05:45mas nós não conhecemos bem,
05:47que é a guarda revolucionária,
05:49que são os guardiões da revolução também,
05:51são estruturas burocráticas,
05:53mesmo militares, mesmo civis,
05:55que têm uma conversa muito próxima
05:57com os setores da sociedade,
05:59para manter o apoio e a conversa
06:01entre governo e sociedade.
06:02Então, acho difícil uma mudança de regime no Irã,
06:07uma mudança na estrutura do regime.
06:10Estão falando na volta de parentes do antigo líder Reza Palev,
06:15mas era uma monarquia e sempre foi mal vista
06:19por grande parte da população.
06:21A revolução que é ocorrida no Irã
06:26no final da década de 70,
06:29anos 80 também,
06:30foi uma revolução que tinha uma pegada social grande,
06:33um caráter até de coletivo.
06:36E aí veio a república,
06:38uma ideia de república, de poderes.
06:40Isso era muito diferente do período monárquico,
06:44que sempre foi muito criticado
06:46por boa parte da população.
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