00:00A gente vai ver agora no telão como é que está o dólar nessa quinta-feira.
00:04Nesse momento, a moeda americana sendo cotada a R$ 5,14, com uma alta de 0,44%.
00:12Esse gráfico que está aparecendo na tela aqui é o gráfico de um ano.
00:15Vamos dar uma olhada aqui no gráfico de um mês para a gente ver como é que o dólar se
00:18comportou nas últimas quatro semanas.
00:22Altos e baixos, mas mesmo na comparação mensal aqui, a gente vê que o dólar está claramente em queda
00:28se a gente notar uma tendência de um mês, de um prazo mais curto.
00:32Tem muitas corretoras que acreditam que ainda existe espaço para mais desvalorização da moeda americana.
00:38A gente vai falar sobre isso agora com o Lucas Saqueto, que é economista da Gol Associados.
00:44Seja muito bem-vindo ao Radar, Lucas.
00:46Olá, Marcelo. Obrigado pelo convite e também com os espectadores da CNBC.
00:52Bom, eu queria saber a sua opinião sobre por que o dólar está nesse patamar que a gente está vendo
00:58agora.
00:59Olha, Marcelo, eu acho que isso é uma tendência que não diz respeito apenas ao Brasil.
01:04A gente vê esse comportamento de enfraquecimento do dólar contra outras moedas como um movimento internacional.
01:09Eu acho que isso tem uma relação bastante direta com o nível de incerteza que poucas vezes a gente viu
01:15na política econômica dos Estados Unidos.
01:18A gestão do Donald Trump desde meados do ano passado, com o Liberation Day,
01:24implementou uma série de tarifas comerciais para vários países do mundo,
01:28de uma forma mais ou menos indiscriminada, e isso aumentou muito a incerteza.
01:32Ocorre que em outros momentos de incerteza da economia mundial,
01:36a gente via uma tendência de valorização do dólar,
01:39porque o investidor ia para aqueles ativos que ele considerava mais seguros, vamos dizer assim.
01:43O que a gente vê dessa vez é que o causador do ruído, da incerteza,
01:47é o próprio governo dos Estados Unidos.
01:48Então, é um movimento, não diria inédito, mas bastante raro,
01:52onde um momento de incerteza faz com que a moeda dos Estados Unidos perca valor,
01:57e não só frente ao real.
01:58Se a gente pega o índice DXY, que eu acho que é uma referência boa
02:02para mostrar qual é a força do dólar frente a outras moedas,
02:05que também são consideradas fortes, como o destaque para o euro, por exemplo,
02:08esse índice também indica que o dólar vem perdendo força
02:11contra essas moedas de países desenvolvidos.
02:14Então, eu acho que tem espaço ainda,
02:16porque os ruídos vindos dos Estados Unidos continuam intensos.
02:20A gente viu a decisão no final da semana passada da Suprema Corte,
02:24que foi uma derrota para o Donald Trump na política tarifária,
02:27mas o Trump já anunciou 10% de tarifa novamente.
02:32Então, essas incertezas, esses ruídos, atualmente, têm enfraquecido o dólar.
02:37Então, eu vejo espaço, acho que é difícil que o dólar chegue abaixo dos R$ 4,00,
02:42mas essa tendência de queda tende a se prolongar por mais tempo, sim, Marcelo.
02:47Agora, como é que você vê a influência desse sobe e desce do dólar aí,
02:51desse patamar baixo que a gente está vendo agora,
02:53nos investimentos, na vida dos investidores?
02:57Olha, aqui para o Brasil, eu acho que o momento de incerteza
03:02é sempre um momento difícil para a realização de investimentos.
03:04A política tarifária do Trump, que causa essa incerteza no mundo todo,
03:09dificulta um planejamento de longo prazo.
03:12Você pode, por exemplo, planejar a instalação de uma nova fábrica
03:16e esse anúncio pode ser prejudicado ou inviabilizado por uma política tarifária
03:20sem ali uma previsibilidade.
03:23Eu acho que, dessa perspectiva, é muito ruim.
03:26Agora, o dólar mais fraco, e esse é um pouco o discurso até
03:30do governo dos Estados Unidos de um lado,
03:32pode ajudar a aumentar na competitividade da economia dos Estados Unidos,
03:36porque os produtos produzidos nos Estados Unidos
03:38ficam relativamente mais baratos em relação a produtos importados.
03:42E isso, o discurso oficial, para acalmar e para atenuar um pouco
03:47esse impacto da perda de força do dólar, é esse,
03:50é de que a economia norte-americana vai ganhar competitividade.
03:54E aqui no Brasil, de outro lado, quando o real fica mais forte,
03:57a gente tem impactos positivos, mas, de maneira geral,
04:01os produtos brasileiros, na hora de exportar,
04:03perdem competitividade.
04:05Então, é um cenário onde a gente tem que olhar com bastante atenção
04:09e aqui no Brasil, em especial, além desses fatores
04:12que a gente tem comentado das políticas tarifárias do Donald Trump,
04:16a gente tem fatores internos que podem influenciar no câmbio.
04:19Eu acho que agora que passou o carnaval,
04:22principalmente a gente entrou em 2026,
04:23a eleição que vai acontecer em outubro também é um fator
04:27que pode pressionar bastante o câmbio.
04:29Aqui na Goa Associada, a gente fez alguns exercícios econométricos
04:33e concluiu que o dólar pode ficar nesse patamar de 5,20,
04:37mais ou menos ainda no primeiro semestre de 2026,
04:40mas no segundo semestre, dada essa volatilidade,
04:44o impacto da evolução das pesquisas eleitorais, etc.,
04:47o dólar pode subir um pouco, chegar ali até 5,45 em meados de outubro
04:53e novembro de 2026.
04:55Então, eu acho que o investidor olha com bastante atenção,
04:58o câmbio eu acho que é uma das variáveis econômicas,
05:01por natureza, mais difíceis de se fazer uma projeção de médio prazo.
05:06Com essas incertezas e essa volatilidade que não são tão habituais
05:10como essa política dos Estados Unidos, ainda é mais difícil prever isso, Marcelo.
05:13Eu acho que o câmbio tem que ser, e o investidor olha com bastante atenção
05:17ali no dia a dia e toma as decisões muito com base nisso,
05:21porque, de fato, a incerteza é bem grande.
05:24É, sim. Não quero nem pedir para você fazer projeção de longo prazo,
05:27mas eu queria uma projeção de curto prazo agora.
05:29Queria saber qual é a sua percepção sobre a maneira com que
05:32esse possível conflito entre Estados Unidos e Irã
05:35pode interferir na cotação do dólar.
05:38É, aí a gente tem um ingrediente geopolítico,
05:41e esse é um ingrediente geopolítico que, infelizmente,
05:44porque é um conflito armado, a possibilidade de um conflito armado,
05:47mas já veria como um comportamento mais habitual
05:50dos indicadores macroeconômicos.
05:52Eu acho que um conflito com um grande produtor de petróleo
05:55numa região que tem outros grandes produtores de petróleo
05:59e que podem, indireto ou diretamente, se envolverem
06:02num conflito dessa natureza, isso pode ter um impacto.
06:05E aí é o grande ponto de inflexão, eu diria,
06:09desse momento que a gente está vivendo.
06:11Em outras situações, eu prontamente te responderia,
06:15olha, tem a tendência de um fortalecimento do dólar
06:17porque os agentes buscam lugares mais seguros.
06:20Mas dado o cenário atual, Marcelo,
06:22eu acho que os investidores têm mostrado
06:24que, inclusive, tem um apetite maior ao risco
06:26vindo para países emergentes, etc.,
06:28já que, comparativamente, o risco dos Estados Unidos
06:31está maior e outros ativos.
06:33Acho que o ouro tem se mostrado uma opção relevante
06:36para esses momentos de incerteza.
06:38Então, eu diria que o possível conflito
06:40Estados Unidos e Irã pode, de um lado,
06:43aumentar o preço do barril do petróleo,
06:45trazer mais dificuldades do ponto de vista da inflação,
06:48por exemplo, para a economia,
06:49mas o impacto sobre o câmbio, eu diria que ainda é bastante incerto,
06:53dada essa característica, vamos dizer, relativamente nova
06:56do comportamento dos investidores
06:58quando nos períodos de incerteza.
07:00A tendência é buscar outros ativos.
07:03Não que, e aí eu acho que é importante a gente dizer isso,
07:05o dólar tenha perdido a relevância no comércio internacional.
07:09Eu acho que ainda é o principal ativo,
07:11ainda é a principal moeda de negociação no mundo.
07:14Mas o movimento que a gente tem visto
07:16ao longo dos últimos meses, principalmente,
07:18é de uma tentativa dos investidores
07:20de diversificar esses ativos mais seguros,
07:23fugir um pouco só do dólar
07:24frente a toda essa incerteza
07:26e a esses fatores geopolíticos
07:27que você destacou agora também.
07:29Tá certo. Lucas Saqueto, economista da Gol Associados,
07:33muito obrigado pela sua participação
07:34e até a próxima.
07:36Eu que agradeço. Até a próxima, Marcelo.
Comentários