00:00Mas queria tentar resumir, ou pelo menos, fazer algum tipo de consideração em relação ao programa nuclear do Irã.
00:09Como ele tem sido administrado e quais são os principais receios da comunidade internacional, mas principalmente dos Estados Unidos?
00:18A questão, obviamente, é o desenvolvimento da bomba atômica. Não há dúvida nisso.
00:23Nós temos também que realçar uma coisa. O Ocidente, aqui eu não vou falar nem de Estados Unidos, o Ocidente,
00:31que tem um modelo muito próprio de regime político, de sistema político e regime de governo, olha com muita desconfiança
00:45sobre o regime dos ayatollahs.
00:48Então, esse é o primeiro ponto. Sempre lembrando isso, meu amigo Daniel, o regime iraniano é um regime de imamado.
01:04O que é imamado? Ou imamato?
01:06É um regime de natureza religiosa, política religiosa, islã político, onde se acredita que a autoridade política, na ausência do
01:22imam, chamado imam oculto, tem que estar na mão dos grandes peritos.
01:28Os peritos da lei, da lei islâmica, sacerdotes e juristas, que estariam o quê? Compondo um conselho de, vamos dizer,
01:43de censores, de guardiões.
01:47Só que esse modelo não seria necessariamente, de forma formal, aceito dentro da comunidade internacional.
01:56Urião, o que nós observamos? Que Comeine, o ayatollah Comeine, ele cria um modelo formalmente ocidental, uma república, uma república
02:08islâmica, com uma tripartição de poderes, poder executivo, legislativo, judiciário.
02:13Mas há um detalhe, ele cria, e aí eu sempre falo, os ares de Paris, os ares da França, fizeram
02:21bem ao ayatollah Comeine, porque ele se sorveu, ao meu ver, do pensamento clássico do poder do rei.
02:29Poder moderador. Ele cria o quê? Um poder moderador, fundado no imamado. Ele dá o quê? Ares modernos institucionais ao
02:38imamado.
02:38E desse conselho de guardiões, saiu o líder supremo, o ayatollah. Por que eu estou falando de tudo isso?
02:44Porque, dentro dessa ótica, aparentemente, de república, de democracia representativa, existe um sistema arbitrário, e aos olhos ocidentais, um tanto
02:54inseguro.
02:55Segundo, que herda um programa nuclear, que foi desenvolvido pelo governo de Reza Palev, deposto pela revolução, inclusive sob apoio
03:09norte-americano e israelense na época.
03:12É por isso da obsessão israelense, muito mais que os americanos, de destruir o programa nuclear.
03:20Inclusive para que o Irã do Chá conseguisse, junto com Israel, ter força diante de um mundo hostil sunita no
03:31Oriente Médio.
03:32Esse é o ponto.
03:33Então, hoje a grande preocupação é o seguinte, mísseis balísticos, somados com o programa nuclear, é uma ameaça não só
03:41a Israel, mas como aliados dos Estados Unidos na região, e inclusive Europa.
03:48Então, esse é o grande problema.
03:50Então, o problema é o quê?
03:52É ou controlar ou destruir o programa.
03:58Sobre a questão do regime, eu digo isso, o Trump não adere à tradição ilsoniana, de universalização da democracia.
04:09Tradição de política externa americana.
04:11Olha a transição democrática que ele promoveu na Venezuela.
04:13Esse é o ponto.
04:15Esse é o ponto.
04:16Ele está muito mais vinculado, né, Orião?
04:19À tradição hamiltoniana e jacksoniana.
04:22Ele está de olho no petróleo também e está de olho o quê?
04:29No controle da região.
04:32Estratégicamente, ele não vê com bons olhos a grande influência de russos e chineses na região.
04:39Ainda mais russos.
04:40Então, essa é a grande preocupação, Daniel, do Trump na região.
04:48Esse é o ponto, Orião, ao meu ver.
04:50E temos que ressaltar de novo.
04:53A grande preocupação sobre o programa nuclear, meus amigos, está nas mãos também de Israel.
05:01Israel, desde a Guerra dos Doze Dias, tem uma o quê?
05:06Uma sensação, ou tem uma expectativa de revanche.
05:11Porque o verdadeiro inimigo nesse conflito não foi o Hamas.
05:15Não foi o Hezbollah.
05:16Não foi o quê?
05:17Os iemenitas, os ruts.
05:21É o Irã.
05:23Então, o Irã está o quê?
05:25Na garganta de Netanyahu.
05:27Então, esses são os pontos que têm que ser considerados.
05:30E agora vejo com preocupação, sim, a mudança de regime.
05:36Mas Trump também coloca no quê?
05:38No tabuleiro as questões de instabilidade.
05:40Vou passar para o Uriã, mas eu só quero compartilhar também com a nossa audiência, porque o ministro das relações
05:45exteriores do Irã, o Abbas Araki, disse no dia de hoje que o país deve, sim, publicizar, apresentar uma contra
05:55-proposta do acordo nuclear e entregar para os Estados Unidos nos próximos dias.
06:00Enfim, me parece que o conflito não seria interessante para nenhuma das duas partes.
06:04Donald Trump estabelece um prazo de 10 a 15 dias.
06:08Ministro das relações exteriores do Irã se posiciona dizendo que irá apresentar uma contra-proposta.
06:13Queria também ouvir, Uriã, a respeito do programa nuclear do Irã, o que Donald Trump espera do país e o
06:22que precisa apresentar o Irã para conseguir parar essa investida de Donald Trump anunciando um possível ataque nos próximos dias.
06:31São diversos pontos, pelo primeiro, em relação ao próprio Donald Trump.
06:38Algo que tem atrapalhado, na minha visão, é o discurso dele que segue mudando.
06:44Ele muda de forma a cada momento.
06:47Cada hora ele dá uma justificativa diferente para ele pressionar o Irã.
06:52Então, uma hora é o programa nuclear, em determinado momento tem a questão dos prox iranianos, em outro momento tem
07:01a maneira como o regime estava massacrando os manifestantes algumas semanas atrás.
07:06Isso é a estratégia dele ou ele faz isso de maneira atabalhoada?
07:09Não dá para saber.
07:10Cada hora ele fala uma coisa.
07:11Inclusive, hoje, ele até chegou a dizer que o regime chegou a matar 32 ou 36 mil pessoas, que é
07:18um número muito maior do que tem sido amplamente divulgado.
07:22O que pode, entre diversas interpretações, ser interpretado como, olha, se ele, de fato, quiser derrubar esse regime, talvez esse
07:33seja um lastro, seja algo para ele justificar essa medida.
07:37Em relação ao programa nuclear, é engraçado como o próprio discurso dele sobre o programa nuclear também acabou mudando de
07:45um ano atrás para cá.
07:48Por quê?
07:48Porque depois dos ataques norte-americanos no ano passado, o que ele dizia?
07:52Que os Estados Unidos haviam obliterado, era a palavra que ele usou, que tinha obliterado o programa nuclear iraniano depois
07:59de atingir aquelas instalações de Fordow, Sfaham, Natanz.
08:02Então, ele passa a mudar esse discurso.
08:07Imagens começam a surgir recentemente que, de fato, os iranianos têm conseguido reconstruir algumas dessas instalações.
08:18Tem a questão dos 400 quilos de urânio altamente enriquecido, que algumas pessoas dizem que não estão mais nas instalações,
08:27outras dizem que estão lá abaixo, soterrados, né?
08:29O urânio a 60%, que não teria nenhum tipo de uso civil.
08:33Então, eu acho que guerras de narrativas acontecendo, para o Irã entregar algo suficiente para o Trump abaixar a arma,
08:49pelo menos temporariamente, tem que ser algo que ele consiga apresentar como uma vitória interna.
08:55Então, não vejo que apenas, e aí especulação minha, mas não vejo que apenas a questão do programa nuclear e
09:07outra, eles não vão desistir 100% do enriquecimento do urânio.
09:11Pelo menos para os fins civis, eles consideram isso como sendo algo para a própria legitimidade, para a própria soberania
09:22do regime.
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