00:00A Câmara dos Deputados da Argentina debate hoje a reforma que está sendo feita, a reforma trabalhista,
00:06promovida por Javier Milley, enquanto o governo argentino enfrenta a quarta greve geral do seu mandato.
00:12Eliseu Caetano é quem vai trazer as informações pra gente. Fala aí, meu amigo.
00:16Bicho tá pegando na Argentina, viu, Evandro Cine? A população não tá nada satisfeita, pelo menos não parte dos trabalhadores,
00:23com relação a essas mudanças previstas, propostas pelo governo de Javier Milley.
00:28É a reforma trabalhista também chamando atenção no país vizinho ao Brasil.
00:32Muito bom dia novamente pra você, pra Bia e pra todos que acompanham o Jornal da Manhã.
00:36A Argentina vive uma nova greve geral, essa de a princípio 24 horas, convocada pela CGT, que é a Confederação
00:46Geral do Trabalho,
00:47a principal central trabalhista do país.
00:50Isso em resposta, como eu disse, a essa reforma trabalhista que está sendo proposta pelo governo de Javier Milley.
00:57A paralisação começou à meia-noite, pelo horário local, e deve durar pelo menos todo o dia de hoje,
01:03coincidindo com a votação do projeto lá na Câmara dos Deputados.
01:07Vale lembrar que já foi aprovado pelo Senado, foi pra Câmara.
01:09Se passar na Câmara, vai pra mesa do presidente Javier Milley, onde deve ser sancionado,
01:15porque é um projeto do próprio presidente do país.
01:18Essa reforma inclui medidas que alteram profundamente direitos trabalhistas históricos.
01:23Entre elas, a ampliação da jornada diária de trabalho, de 8 para até 12 horas,
01:30criação de banco de horas para que empregadores e empregados troquem horas extras por folga e não por pagamento,
01:38redução também de indenizações por demissão, mudanças nas férias e nas licenças médicas,
01:43ampliação dos serviços essenciais que podem limitar greves.
01:48E os sindicalistas, obviamente, afirmam que isso representa uma retirada dos direitos conquistados ao longo de décadas.
01:55E, por causa disso, muitos protestos estão acontecendo.
01:58Quem nos acompanha em vídeo vê, nesse momento, essas imagens de centenas de milhares de pessoas nas ruas,
02:05mobilizações acontecendo em diversas cidades lá da Argentina,
02:08com forte participação popular, especialmente em Buenos Aires, Córdoba, Rosario, La Plata,
02:15entre outras capitais provinciais.
02:17Essa paralisação, inclusive, Cine e Bia, já tem efeitos práticos no país.
02:21O transporte público, por exemplo, parcialmente está paralisado ou funcionando ali de maneira muito reduzida.
02:31Diversos voos também foram cancelados em diversos aeroportos do país,
02:35incluindo aí cerca de, pelo menos, 255 ligações aéreas
02:42que foram anunciadas na manhã, agora há pouco, pela empresa Aerolíneas Argentinas.
02:47Ainda, segundo nota da empresa, mais de 30 mil passageiros foram afetados
02:52apenas nessas primeiras horas de protestos lá em Buenos Aires.
02:56Portos, bancos, escolas e hospitais estão operando normalmente, mas com restrições,
03:03ou seja, todo mundo em alerta que pode ter que deixar o prédio, evacuar ou fechar o seu negócio a
03:08qualquer momento
03:09por conta dos confrontos e, obviamente, da repressão, porque nas principais áreas urbanas
03:15os protestos já ocupam ruas, praças, com sindicalistas gritando eslogans contra a reforma
03:22e vários pontos de bloqueio em diversas das principais vias, não apenas da capital, Buenos Aires,
03:30mas de cidades importantes lá na Argentina.
03:34Já há relatos, inclusive, de confrontos entre manifestantes e forças de segurança,
03:38incluindo aí o uso de gases lacrimogêneos e também até de bomba de água pra dispersar os manifestantes
03:46que seguem lançando pedras contra as barricadas policiais.
03:50A gente vai seguir daqui acompanhando essas e outras notícias importantes desta quinta-feira
03:56e eu volto ao longo dessa edição do Jornal da Manhã.
03:58É com vocês no estúdio.
03:59Valeu, Elisão Caetano.
04:00O Alan Gani já tá aqui conosco também pra trazer mais informações sobre essa polêmica
04:04envolvendo a reforma trabalhista de Javier Milley. Conta aí, ele.
04:06Olha só, o que o eleito tá procurando fazer é adotar o receituário liberal
04:11de flexibilização do mercado de trabalho com uma série de medidas, né, Evandro?
04:16Então, por exemplo, férias mais flexíveis, né?
04:19Então você escolhe ali o período de férias, restrições a greves em setores considerados essenciais,
04:25por exemplo, saúde, ampliação do período de experiência para até seis meses
04:30daquele trabalhador temporário.
04:32E isso é o principal, flexibilização da jornada de trabalho.
04:36Exatamente o oposto do fim da redução aqui no Brasil, da PEC 6x1, né?
04:43Então lá é o contrário.
04:45Na verdade, possibilitando que em vez de você trabalhar apenas oito horas por dia,
04:50você também tenha escolha de trabalhar doze horas por dia.
04:55E mudanças na negociação coletiva tem mais medidas também, Evandro.
05:00Acho que a gente tem um próximo slide, mais de qualquer próxima ilustração aqui.
05:06Isso.
05:07Alterações em indenizações e demissões, ou seja, tornando mais baratas licenças médicas
05:13e acidentes de trabalho passam a ter limites de pagamento, ou seja, não tem aquele abuso, né?
05:19Muitas vezes as pessoas abusam desse direito.
05:22E tem algo relevante aqui, né?
05:23Em casos de lesões ocorridas fora do ambiente de trabalho.
05:27Exatamente.
05:27E o combate à informalidade.
05:28Então, este combo do Millen, na verdade, se traduz numa flexibilização do mercado de trabalho.
05:34Com qual objetivo?
05:35De reduzir o custo de trabalho.
05:38Se reduz o custo de trabalho, Evandro, o que acontece?
05:41Isso incentiva a contratação por parte das empresas.
05:45É claro que quem está no emprego não quer, não quer perder os seus benefícios.
05:50Mas quem está fora do mercado de trabalho gosta disso porque é uma possibilidade de entrada.
05:55Agora, Langane, só trazendo aqui uma informação, né?
05:57O Gane é professor, por isso que ele falou, o próximo slide...
05:59O slide, é.
06:01Próxima ilustração.
06:02Tem que virar a chave.
06:04Agora, Langane, é interessante perceber também que essas movimentações todas acontecem por conta dos sindicatos, né?
06:09Porque os sindicatos tiveram uma força e também foram, digamos, bastante apoiados pelos governos anteriores.
06:18Quando entra Javier Milley, há um choque com a atuação desses sindicatos.
06:23E esse choque aumenta a partir do momento em que ele propõe uma reforma que flexibiliza o mercado de trabalho
06:29e tira a serventia de boa parte desses sindicatos, né?
06:34Total.
06:35Aliás, muito parecido com a reforma trabalhista aqui do Temer.
06:38Não a reforma, não foi parecida em si, mas a reação.
06:43O que aconteceu?
06:44Lembra que o Temer acabou com aquele imposto sindical obrigatório.
06:49Com isso, despencou a arrecadação dos sindicatos e 90% perderam muita arrecadação.
06:55E aí, toda a insatisfação por parte dos sindicatos.
06:59Quem agradeceu foi o trabalhador.
07:00E lá, a mesma reação.
07:02Quer dizer, um esvaziamento do poder dos sindicatos
07:06e essa flexibilização do mercado de trabalho que traz, né?
07:10Pelo menos a experiência internacional mostra isso, traz um aquecimento da atividade econômica.
07:16Estados Unidos, Evandro, o mercado de trabalho é flexível.
07:19Os países asiáticos também.
07:21Eu nunca vi um país prosperar trabalhando menos.
07:24Mas o contrário é verdadeiro.
07:25Um país prospera trabalhando mais.
07:28Interessante, Alangani.
07:28Obrigado pelas informações até aqui.
07:30Já vou partir para o lado de cá, porque eu também quero ouvir os nossos comentaristas
07:33sobre esses movimentos que acontecem na Argentina
07:37e que, de certa forma, mobilizam também o entendimento que se tem
07:41tanto da reforma que aconteceu no país,
07:43mas no momento em que se tem um debate muito acalorado
07:46sobre a mudança de escala de trabalho aqui no Brasil.
07:50Lucas Merreiro, como é que você tem acompanhado as proposições de Javier Milley
07:56e, no teu ponto de vista, elas podem funcionar para fazer com que a Argentina
08:01enfrente um cenário de cada vez menor inflação e maior produtividade?
08:07Evandro, o Javier Milley é uma surpresa muito agradável.
08:12Eu, assim como muitas pessoas, encarava a candidatura do Javier Milley com um certo ceticismo,
08:18até porque ele se comportava de uma forma muito esquisita,
08:22ele se vestia de super-herói,
08:24ele dizia que conversava com o cachorro morto dele,
08:27então era uma coisa que você olhava e falava
08:29poxa, esse cara parece ser só um maluquinho, né?
08:31Fiquei muito surpreso quando ele realmente ganhou a presidência da Argentina
08:36e fiquei mais surpreso ainda quando, na verdade, ele não era um maluquinho coisa nenhuma, né?
08:41Ele estava ali se prestando a um personagem para conseguir chamar atenção,
08:45mas, na prática, é um presidente muito estudado,
08:49que sabia quais eram as medidas necessárias para retomar a Argentina economicamente.
08:54E é o que a gente tem visto.
08:55Olha, o Milley já tinha avisado,
08:57eu vou dar remédios muito amargos, porém necessários para a economia argentina.
09:02E a gente tem visto esses resultados, né?
09:04A Argentina, que até ontem estava se afundando em crise,
09:08vem melhorando em alguns índices econômicos aí,
09:11e os remédios amargos têm que continuar chegando.
09:14Uma reforma trabalhista, ela pode parecer muito indesejável para muitos setores,
09:18e é por isso que o Milley enfrenta muita greve.
09:21Mas, como o Gani mostrou aí,
09:23são medidas fundamentais, são medidas necessárias.
09:25Aqui no Brasil, quem me dera a gente tivesse uma reforma trabalhista tão intensa assim.
09:31Nós tivemos, é claro, aquela reforma trabalhista durante o governo Temer,
09:34que foi, sim, muito positiva,
09:36que ajudou, na época, a segurar as contas públicas,
09:39a segurar os índices de desemprego,
09:41mas ela não foi aquela grande reforma que nós precisávamos tanto, né?
09:45Nós precisamos aqui de uma outra reforma trabalhista ainda, né?
09:48Eu espero que o Brasil consiga se inspirar nos resultados de Milley
09:52e continuar com esse tipo de reforma.
09:55Nelson Kobayashi, você concorda com essa avaliação
09:58de que Javier Milley chegou ali com um propósito eleitoral muito ideológico,
10:02mas que depois conseguiu colocar um plano de gestão,
10:05sobretudo econômico, diante do que a Argentina enfrentava em funcionamento?
10:09E mais, a minha pergunta para você,
10:11isso pode dar algum recado aqui para o Brasil, para o país vizinho?
10:16Olha, isso pode sim inspirar aqui aos próximos governos do Brasil,
10:21esse certamente não inspirará.
10:22A questão ali em relação à gestão de Javier Milley
10:25foi a falta de transição, tem alguns pontos críticos em relação à sua gestão.
10:29No todo, o saldo final, no meu ponto de vista,
10:33é favorável principalmente para a economia,
10:35mas ele falhou quando ele não aplicou um regime de transição
10:39para o que ele entendia como positivo para a economia argentina.
10:44Estou falando de corte imediato, brusco, de subsídios.
10:49Muitas pessoas tiveram várias e sérias dificuldades
10:52indo para um nível de pobreza na Argentina de maneira muito repentina.
10:58A gente estava com um país viciado pelo que foi a política econômica
11:03do anterior, a Javier Milley,
11:06que levou a Argentina aos índices maiores de inflação que a gente viu
11:12quando o Javier Milley assumiu aquele governo,
11:15o kirchnerismo principalmente.
11:17Então a gente tem também algumas críticas a fazer,
11:20inclusive nessa reforma que está sendo proposta.
11:22No todo, ela é boa, porque ela facilita as relações
11:25entre trabalhador e empregador.
11:29Empregado e empregador.
11:30Ela flexibiliza horas de trabalho,
11:33ela flexibiliza acordos,
11:34ela desindicaliza muitas decisões,
11:37o que é importante para a liberdade do trabalhador,
11:40mas ela coloca algumas previsões polêmicas,
11:43como, por exemplo, limite de pagamento de licença médica.
11:47Quer dizer, o trabalhador em algum momento
11:48não vai poder mais ficar doente,
11:49ele vai ter que trabalhar ou trabalhar.
11:51Isso parece ferir a dignidade do trabalhador.
11:54Então, merece algumas ressalvas,
11:56no saldo é positivo,
11:57isso precisa ser amadurecido e melhorado no debate lá na Argentina.
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