00:00Um estudo publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada diz que o mercado de trabalho pode absorver a mudança na
00:08escala com o fim das seis por um.
00:09No entanto, boa parte do setor produtivo não tem essa convicção. É o que mostra a reportagem de Matheus Dias.
00:17Pautado no Congresso, o debate perante o fim da jornada de trabalho seis por um ainda causa divergências entre representantes
00:24da indústria.
00:25A Federação dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo defendeu em nota que qualquer mudança no regime
00:32de trabalho seja baseada em estudos técnicos sobre impactos assistenciais, trabalhistas e econômicos.
00:40E que manifesta a preocupação com a possibilidade de o debate ser acelerado em razão do contexto eleitoral, sem a
00:47devida análise responsável.
00:49O Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos, Sindus Pharma, cita que no caso da indústria farmacêutica, os efeitos diretos tendem
00:58a ser limitados.
00:59Sendo que há mais de uma década, por meio de negociação coletiva, o setor já opera com jornada de quarenta
01:05horas semanais.
01:06Porém, é necessário avaliar os impactos indiretos, como cadeia de fornecimento, que envolve insumos, logística, transporte, embalagens, manutenção industrial e
01:19diversos prestadores de serviço,
01:21que ainda funciona majoritariamente sob a jornada de quarenta e quatro horas semanais.
01:27O setor defende que no Brasil os índices de produtividade têm apresentado estagnação e que mudanças estruturais dessa magnitude demandam
01:36análise técnica aprofundada.
01:39A Sindus Pharma ainda finaliza a nota dizendo que o momento requer equilíbrio, responsabilidade e compromisso com dados concretos.
01:47Outro setor que se posicionou foi a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária, por meio do presidente João Martins,
01:53que disse ser contra a imposição do fim da escala 6x1.
01:58Ele disse que o próprio setor da agricultura vai achar uma forma de se adequar a essa nova realidade
02:03e afirmou que um mercado econômico aquecido não é justificativa para a imposição,
02:09já que, segundo ele, no Brasil existe um desemprego mascarado.
02:14A Transpetro, subsidiária da Petrobras, disse que não adota esse modelo de escala para seus empregados próprios.
02:20A companhia esclarece que os regimes e escalas de trabalho estão definidos em seus acordos coletivos de trabalho,
02:27firmados juntos aos sindicatos que representam cada categoria profissional.
02:32E reforça que qualquer alteração nas condições de trabalho segue necessariamente os trâmites de negociação coletiva,
02:39previstos na legislação e nos acordos vigentes.
02:42O CEO da empresa brasileira G4 Educação diz que o debate não deveria ser a prioridade.
02:48A gente está vivendo um momento da humanidade que trabalho está sendo completamente ressignificado com inteligência artificial.
02:55Várias posições, cargos e formatos de trabalho estão sendo incinerados do mundo, da realidade.
03:05Eu acho que a gente como país discutir a escala agora realmente está tendo a discussão errada, fora de contexto.
03:12Acho que a gente deveria estar falando de eficiência, produtividade e o novo trabalho, o futuro do trabalho, que não
03:19é questão da escala.
03:20Já o CEO da empresa Biscoité diz que é a favor do fim da jornada de trabalho 6x1.
03:25A gente acabou de implantar o 5x2 na Biscoité.
03:28A gente tem lojas em shopping, está cada vez mais escassa para ser pessoas boas.
03:33Como o nosso propósito é encantar as pessoas, a gente saiu na frente e implantou o 5x2 nas nossas lojas.
03:41Eu acho que essa pauta é polêmica, ela é complexa, mas eu acho que se você consegue fazer isso, você
03:47tem as pessoas muito mais felizes, tem uma atração muito mais fácil de pessoas boas.
03:51Então, no momento onde ser atrativo para reter as pessoas é uma coisa legal, a gente saiu na frente aí.
03:58Mas ela aumenta o custo do varejo, que já está bastante estrangulado.
04:03Uma pesquisa realizada pela Flash e pela Fundação Getúlio Vargas mostra que a fadiga dos funcionários reflete diretamente na produtividade.
04:12De acordo com o levantamento, trabalhadores em escala 6x1 apresentam índice de engajamento de 40%, abaixo da média nacional.
04:21E com maior incidência de sintomas de desgaste psicossocial, como ansiedade e insônia.
04:28Enquanto colaboradores em empregos, com semana de 4 dias, mostram engajamento de 53%.
04:34Em 2025, apenas 39% dos trabalhadores brasileiros se declararam engajados, o menor nível desde o início da série histórica.
04:45Jess Peixoto, me chamou a atenção nessa reportagem do Matheus Dias, que ele trouxe ali dois CEOs, dois representantes diferentes
04:52de empresas.
04:53Um deles se posicionando de forma contrária ao fim da escala 6x1, o outro falando que ela é super viável
04:59dentro da empresa dele.
05:01E a gente poderia considerar que isso é uma prova de que cada empresa conhece a própria realidade.
05:06Então, se o Congresso, através também dessa pressão do governo, realmente aprovar o fim da escala 6x1,
05:12também seria um caminho de engessar uma regra como se todo mundo estivesse dentro do mesmo balaio, o que na
05:18prática não funciona?
05:19Perfeita a colocação.
05:21Eu acredito exatamente nisso.
05:23E mais do que isso.
05:25Quando a gente olha para os dados divulgados, por exemplo, a CNI, a Confederação Nacional da Indústria,
05:30já calculou ali uma possível questão econômica de aproximadamente 178 bilhões de anos em relação ao custo que isso terá.
05:39E esse custo, ele vai ser repassado para o consumidor.
05:43Esse custo vai ser repassado para possíveis até mesmo demissões ou um investimento maior nos sistemas,
05:51como um dos CEOs colocou, sistemas de automatização, os sistemas usando inteligência artificial, maquinário.
05:59Então, isso com certeza contribui para isso.
06:02Então, não basta olhar a medida, como a proibição da escala 6x1, da perspectiva de as pessoas merecem mais descanso.
06:10Todo mundo merece mais descanso.
06:12Mas a grande questão é como, economicamente, nós podemos viabilizar isso sem diminuir salários,
06:18sem aumentar desemprego e sem aumentar a informalidade, que é um problema gigante no nosso país.
06:23Mais de 38% das pessoas estão em condições informais, as quais elas não têm benefício.
06:28Nenhum trabalhista, uma outra parcela considerável, está caminhando para a pejotização,
06:33que também não vai ter essas configurações trabalhistas.
06:36Então, esta medida, embora ela responda o anseio, ela seja muito populista,
06:41ela não muda ou transforma a realidade social da forma como as pessoas imaginam.
06:46E o que acontece?
06:47Se o CEO dessa empresa, veja, ele já fez essa adaptação sem a medida,
06:52e ele gostou, e ele pode arcar com isso, e a empresa consegue viver essa realidade,
06:57que ótimo, muitos empresários estão fazendo isso.
07:01Mas e o pequeno comerciante?
07:03E o pequeno empreendedor?
07:04As pequenas e as médias empresas são as empresas que fazem o Brasil acontecer.
07:09Algumas delas não vão ter essa disponibilidade.
07:11E vale lembrar, as duas medidas que estão hoje no holofote são a transformação da 4x3,
07:18que sairia das 44 horas para 36 horas.
07:21Isso é muito relevante.
07:22Mônica Rosenberg, eu queria também falar contigo um pouco sobre a romantização de toda essa situação
07:27num país que tem uma característica já bastante perceptível, mesmo com a escala que é dominante hoje,
07:33que é o fato de boa parte das pessoas já ter uma segunda atividade, além do trabalho.
07:41Então, quando se fala sobre a escala 6x1, se fala muito como se a pessoa fosse ter muito mais descanso,
07:49sem pensar que, na realidade da maioria, ela já ocupa o que ela teria de descanso,
07:55justamente para obter uma renda maior, para lidar com os custos que ela tem
08:00para viver num país onde se taxa tanto, onde o custo de vida já é aumentado
08:10exatamente por conta dos impostos que não oferecem para a gente a retribuição que a gente deveria receber.
08:16Como é que você avalia essa realidade e o quanto a escala 6x1 não está levando em conta
08:22a situação destes brasileiros que já fazem mais de uma atividade para sobreviver?
08:30Exatamente isso, Evandro. O problema é real. O trabalhador brasileiro paga muito em impostos,
08:37recebe nada do Estado e aí a gente está discutindo uma pauta de proibir a 6x1,
08:43que no fundo é uma grande pauta eleitoreira. A discussão do emprego tem que acontecer no Brasil,
08:48a NR1 da saúde mental já está aí funcionando e não produzindo os efeitos que se achou que iam existir.
08:55E aí vem a esquerda com uma pauta que é eleitoreira, porque todas as pautas identitárias já perderam a sua
09:02relevância,
09:03perderam a sua força e o que resta para a esquerda, que está há anos e anos no poder e
09:07não resolveu o problema da fome,
09:09o problema da miséria, está perdendo o seu substrato, a sua legitimidade, são pautas como essa.
09:14E aí vai para o Congresso essa discussão, sendo que nós sabemos que não é isso que vai resolver.
09:21Começou agora uma conversa de, então, em vez da 4x3, vamos fazer, vamos debater a escala 5x2,
09:28que faria mais sentido, mas não é no Congresso que isso vai ser resolvido, não é por lei.
09:32Essa discussão passa pelo mercado, passa pelas leis da economia.
09:36Infelizmente, os nossos deputados e parlamentares não estudaram a economia o quanto deveriam
09:41para entender que existem outras regras, a regra da oferta e da procura, que regem tudo isso
09:47e que se não houver uma discussão sobre produtividade, sobre justamente a oferta de emprego,
09:53sobre as questões que foram citadas muito bem na reportagem da inteligência artificial e tudo isso,
09:58os empregos dos jovens que estão entrando na faculdade hoje, não existem os empregos,
10:03onde eles vão trabalhar quando saírem, esses empregos sequer existem hoje.
10:07Toda essa discussão tem que ser feita, mas não é um debate eleitoreiro no Congresso Nacional apenas
10:13que vai achar as soluções que nós precisamos.
10:16Lá o que eles estão buscando não é solução, é voto e não é assim que esse problema tão sério
10:21vai ser resolvido.
Comentários